25 de dezembro de 2010

Definir o conceito de arte...

... não só é possível, como é muito fácil, defende Pedro Merlussi no artigo "Uma Reformulação da Pergunta "É Possível Definir o Conceito de Arte"?" E o que pensa o leitor?

15 comentários:

  1. Olá,

    Não tenho a pretensão de escrever como um filósofo, mas creio que posso apontar, com simples argumentos, uma direção.

    Lendo o artigo de Pedro Merlussi intitulado "Uma reformulação da pergunta É possível definir o conceito de arte?”, percebi que há uma lacuna que o artista pode ajudar a preencher. Não é impossivel definir arte, aprendemos isso em qualquer escola contemporanea. A nós é preciso definir para podermos aprender e criar obras, ou em caso de fracasso, pelo menos tentar.

    Algo é arte se é uma idéia e o meio de transmissão dessa mesma idéa contida em si, feita de maneira intencional. O conceito de arte não muda, o que mudam são as idéias a serem transmitidas e a aceitação e interpretaçao das idéias. Se antes um mictorio não era arte. era simplesmente porque não estava contido nele informçao intencional alguma, ou que fosse lida e interpretada dessa forma.

    Para que uma latinha com meleca seja uma obra de arte, é necessário uma que haja uma idéa a ser transmitida intencionalmente pelo criador
    da obra. Há a possibilidade de que ninguém leia a mensagem corretamente. Como no caso de artistas que são apenas reconhecido muitos anos após a sua morte, costuma-se pensar que a mensagem contida
    nas obras foi entendida muito depois e portanto, o objeto foi trazido a categoria de arte pela sua leitura posterior correta. Portanto:

    1. Algo é arte se, e somente se, é uma idéia e o meio de transmissão
    dessa idéia contida em si.
    2. É possivel que algo contenha a premissa anterior e não seja considerado arte por má leitura da mensagem.

    Teste este pensamento para coisas que são arte e coisas que não são arte para ver como funcionam perfeitamente.

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  2. Boas,
    É um texto interessante, mas deixem-me ser um pouco o advogado do diabo, e mesmo não percebendo muito de lógica nem de arte, fazer duas observações:
    1º- Quanto ao primeiro parágrafo, tenho as minhas dúvida de que seja possível ter, através da ostensividade, uma definição de arte. Pois ainda que o autor afirme que ‘poderia apontar para alguns objetos, como alguns quadros de Leonardo da Vinci, e dizer “Olhe, esses quadros são obras de arte.” Dificilmente alguém colocaria em disputa que a Mona Lisa seja uma obra de arte.’, não estaria a definir ‘arte’, mas numa interpretação modesta, estaria a aplicar ao conceito de ‘obra de arte’ um determinado objecto.
    Ainda assim, seria complicado, pois a utilização de tal correspondência ao objecto apontado, teria de ser apresentada anteriormente. Parece notório que uma tentativa ostensiva terá de estar dependente de um ambiente selectivo altamente situado. Por outras palavras, sem ter um contexto para o qual o autor estará a apontar, não lhe saberia dizer se estaria a apontar para a moldura da Mona Lisa, ou para uma cor, ou para uma textura, ou para o envolvimento onde o quadro estivesse exposto, etc. Por isso não me parece que este início seja fácil. Todavia mantenho a minha ignorância em relação a estas questões.
    2º- Tanto este texto, como o texto anterior da Paula Akemy Araújo, ‘A impossibilidade de definir a arte?’, pela minha interpretação, acabam com uma espécie de defesa de que é obrigatório haver (e ‘há’!) uma definição ‘fechada’ do termo arte. Essa ‘definição fechada’ seria algo que traduziria uma suposta natureza da obra de arte (ou da ‘verdade’, ou de ‘bem’, ou de ‘conhecimento’), e que tal é uma lavoura permanente, mas supostamente alcançável. Aliás, tal é o motor principal da filosofia enquanto actividade.
    Existe, acho eu, duas pressuposições nestas posições que me fornecem muitas dúvidas: 1) um suposto progresso da filosofia, no que respeita a este enquadramento das definições, e 2) que tal lavoura exprima uma ‘natureza’ exterior e que nós enquanto filósofos tenhamos a possibilidade de a captar.

    Grande abraço e continuação de Boas Festas e Boas Entradas no ano de 2011!

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  3. Muito bom artigo, no entanto não me parece que a forma como o Pedro a certa altura coloca o problema esteja correcta:

    Quando diz:
    "A tentativa de fornecer definições explícitas bem-sucedidas é uma tarefa importante da filosofia e, portanto, o ônus da prova é de quem pensa que certos conceitos não podem ser definidos de maneira bem-sucedida, e não o contrário."

    O "ónus da prova" está dos dois lados. Quem pensa que não é possível definir arte já avançou com argumentos nesse sentido. O que se passa é que o Pedro refutou esses argumentos (e a meu ver muito bem). No entanto provar que "eles estão errados" não prova que "nós estejamos certos", nesse sentido cabe a quem, como o Pedro, defende a possibilidade de definir explícitamente "arte" que avance bons argumentos nesse sentido.
    Os argumentos que o Pedro avançou neste artigo são no sentido de que "devemos continuar à procura de uma definição pois esse é um trabalho filosoficamente importante". Ora isto não é um argumento a favor da possibilidade da definição mas da necessidade da definição do conceito de "arte".

    Ou seja, o´"ónus da prova" está dos dois lados, e a melhor forma de o Pedro "Provar" aos cépticos que estão errados era, exactamente, avançar com um definição explícita de "arte" que os conseguisse convencer :)

    As que foram avançadas no início, obviamente, não convencem, como o próprio autor admite.

    Mas repito o que disse no início , é um excelente ensaio argumentativo.

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  4. Saudações Luís e Tomás!
    Sou muito grato pelas interessantes objeções feitas ao meu ensaio. Procurarei respondê-las na medida do possível, tudo bem? Se vocês não se convencerem com as repostas, não hesitem em levantar novas objeções. É muito provável que eu tenha errado em muita coisa.
    Luís, quando uma pessoa aponta para a Mona Lisa e diz “isto é uma obra de arte” está, de fato, definindo o conceito de arte. Ela o define ostensivamente, pois definir um conceito ostensivamente é, grosso modo, apontar para algo e dizer “isto é um exemplo desse conceito”. E uma definição ostensiva é uma definição; por que razão não seria? Quando você diz que as definições ostensivas têm de depender de seu contexto, eu diria que não é bem assim. As boas definições ostensivas sem dúvida dependem do contexto (como estar de fato apontando para a Mona Lisa e não para uma imitação barata, por exemplo). Porém, eu posso apontar para o meu computador e dizer “isto é um exemplo de arte” que estarei na mesma definindo o conceito de arte ostensivamente. Claro, esta não é uma boa definição ostensiva, mas apesar de tudo é uma definição. Uma definição ostensiva não precisa ser boa.
    Vejamos agora a segunda objeção. Suponha que a filosofia não progrida, e que não podemos revelar a natureza das coisas. Mesmo assim, meus argumentos continuariam funcionando. Para eu definir o conceito de arte, não tenho de pressupor o progresso da filosofia. Todas as definições falharam, mas apesar de tudo são definições. Portanto, é falso pensar que não se pode definir o conceito de arte. E eu também posso definir o conceito de arte sem pressupor que posso revelar a natureza das coisas. A definição “arte é uma latinha com cocô” não revela a natureza da arte, mas apesar disso é uma definição.
    Tomás, suponha que um grupo de pessoas discorde quanto à possibilidade de curar o câncer. Os céticos apresentam-nos o seguinte argumento: é impossível curar o câncer, pois vocês não me provaram o contrário. Obviamente responderiam que é o cético quem tem de provar que não é possível curar o câncer. Sua posição constitui um obstáculo à pesquisa e, se a aceitássemos, nunca se descobriria a cura do câncer, pois a única maneira de descobri-la é através da pesquisa. Em relação à possibilidade de definir arte explicitamente e de maneira bem-sucedida, penso que ocorra o mesmo. Portanto, continuo acreditando que o ônus da prova seja do cético.

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  5. Olá Pedro,

    parece-me que a analogia que usas entre "descobrir a cura para o cancro/câncer" e "definir arte" não funciona por duas razões.

    1 - A analogia que fazes é entre dois conceitos próximos mas diferentes: "descobrir" e "definir". Não vejo ligação óbvia entre os dois conceitos para que a analogia possa funcionar, a não ser que suponhamos que a "definição de arte" está aí para ser descoberta, o que me parece uma posição, no mínimo, polémica. Acho que precisas de avançar mais argumentos para justificar a analogia "descobrir/definir" - ou seja, estou a colocar o ónus da prova do teu lado ;)

    2 - Os cépticos quanto à definição de arte partem de um pressuposto bastante mais defensável que "o conceito de arte ainda não foi definido até hoje, por isso não é possível definir arte".
    Aliás, mostraste no teu artigo que não é esse o argumento principal usado pelos cépticos da definição de arte, por isso não é justo (para eles, leia-se) que o utilizes agora na tua contra-argumentação (estás, parece-me, a cometer um "boneco de palha").

    Ou seja, para a analogia "definição de arte/descoberta da cura para o cancro" resultar os argumentos dos cépticos de ambos os lados teriam de ser semelhantes em algo fundamental, e não o são.
    Repara: o argumento mais forte dos "cépticos do cancro" não é que não é "conceptualmente possível" encontrar uma cura para o cancro, e o argumento mais forte dos "cépticos da arte" não é que não é possível definir arte porque até hoje isso não foi conseguido."

    abraço,

    Tomás Magalhães Carneiro

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  6. Boa Tomás! Mas eu penso que a analogia continua funcionando. Uns querem descobrir o câncer, outros querem descobrir a propriedade não trivial que só as obras de arte instanciam (e, para isso, é necessário definir arte explicitamente e de maneira bem-sucedida). Em ambos os casos queremos descobrir algo. E em ambos os casos a posição cética consiste num obstáculo à pesquisa.

    Em relação ao argumento cético, eu não disse que o argumento era indutivo. O argumento que eu coloquei foi o seguinte: é impossível definir arte, pois vocês não me convenceram do contrário. Este não é um argumento indutivo. É um argumento que pressupõe que somos nós quem temos de provar ao cético que ele está errado. Porém, é a posição cética que implica num obstáculo à pesquisa. Portanto, o ônus da prova parece ser do cético.

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  7. tanto quanto sabemos, há uma boa definição de música e há uma cura para o cancro. podemos não conhecer essas coisas porque: a) não existem, b) estamos cognitivamente fechados a elas, c) ainda não as descobrimos.

    as posições mais exigentes são a) e b) e portanto, relativamente a c), é sobre elas que recai o ónus.

    parece-me uma alegação perfeitamente justa. c) é a menos exigente - a razão de ainda não termos descoberto aquelas coisas pode ser a de não existirem ou de lhes estarmos cognitivamente fechados (algo na nossa natureza imepede que as conheçamos). Mas a) e b) exigem muito mais do que c) e portanto é sobre elas que recai o ónus.
    Até porque, muito evidentemente, estamos justificados em acreditar que ainda não chegámos ao conhecimento da cura do cancro nem da boa definição de arte. No caso da primeira a razão é óbvia e no caso da segunda podemos apontar a inexistência de consenso. Na verdade, c) quase nada nos exige além do que já sabemos. O mesmo não se passa com a) e b). O ónus recai, portanto, sobre o mais exigente, ou o menos parcimonioso.

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  8. podemos dizer que o ónus recai sobre todos no sentido de que quem pretende que há uma boa definição de arte e quer descobri-la, tem pela frente o trabalho de a descobrir e defender. mas isto é ocioso, porque isso é o que o investigador já queria fazer de qualquer modo. a posição contrária, aquela sobre a qual dizemos que recai o ónus, é mais exigente: alega que há boas razões para pensar que a investigação é um projecto condenado e que portanto é irracional persistir nessa investigação. mas então é óbvio que tem de nos mostrar que razões são essas.

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  9. ... ao passo que a insistência do investigador no seu projecto não envolve a ideia de que a outra posição é irracional. tanto quanto o investigador sabe, o outro pode estar certo. persistir no projecto não nos compromete com a ideia de que não há razões a favor da tese contrária. mas aceitar a tese contrária compromete-nos com a ideia de que há razões a favor de não perder mais tempo com o projecto.
    nesse caso, das duas uma: ou já sabemos quais são essas razões, e portanto, toca a desembuchar (ónus da prova) - ao passo que o investigador não tem de apresentar já uma boa definição sob pena de seguirmos em frente apesar dele - ou então não estamos na posse dessas razões e não temos de dar ouvidos ao céptico.

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  10. para te comprometeres com c) tens de pressupor não a) e não b).

    Não vejo porque não temos de exigir a quem tente seguir c) uma justificação para esses pressupostos da mesma forma que os exigimos a quem diz c) porque a) ou b)
    O ónus está dos dois lados.

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  11. não me parece. duas razões plausíveis para ainda não termos chegado à descoberta de X é este não existir ou não ser cognitivamente acessível a nós. não vejo onde está a contradição. até hoje nunca descobrimos a pedra filosofal, porque tal coisa não existe.
    outras coisas ainda não descobrimos talvez porque não existam ou porque não tenhamos como o saber. simplesmente não sabemos se qualquer destas hipóteses ou outra é a que se verifica.

    quanto ao ónus: das duas uma: ou quem diz que não é possível chegar a uma definição dispõe de argumentos que o mostram e portanto tem de os apresentar (o ónus é isso) ou então ele não tem essas razões, apenas acredita que não se pode chegar a uma definição. neste caso, ele apenas pode dizer ao proponente da investigação aquilo que ele já sabe e aceita: que o céptico pode estar correcto. quem investiga ontologia musical, por exemplo, já sabe muito bem que o cepticismo acerca da ontologia musical PODE estar correcto. muito obrigado. isso já sabíamos.
    O "ónus" de que falas é apenas a própria tarefa que o investigador já se tinha proposto. Não é isso que "ter o ónus da prova" quer dizer aqui. o ónus é o de provar aquilo que o céptico crê ser verdade: que insistir no projecto é uma perda de tempo. ora, ele ou tem razões muito fortes para isto ou não tem. se não tem, se apenas lhe parece que é assim, então ele nada acrescenta ao debate que já não saibamos à partida.

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  12. Parece-me que as posições do Vítor e do Pedro estão ambas de acordo e podem ser resumidas no seguinte:

    [o argumento contra o cepticismo quanto à definição de arte] "pressupõe que somos nós quem temos de provar ao cético que ele está errado. Porém, é a posição cética que implica um obstáculo à pesquisa. Portanto, o ônus da prova parece ser do cético."

    A vossa posição convida a que os "não-cépticos" se limitem a refutar os "argumentos cépticos" e baseiem a sua procura de uma definição de arte no pressuposto de que é possível essa definição.
    Ora se tal pressuposto não for justificado não passa de um "salto de fé".
    Essa justificação da "possibilidade (e já agora interesse) de uma definição de arte" é o ónus da prova e como:

    1) não me parece totalmente evidente que a definição correcta de "arte" tenha de existir
    e
    2) não basta refutar os argumentos cépticos para provar que essa definição de arte seja possível,

    temos de concluir que
    3)quem procura uma definição de arte terá de nos apresentar razões positivas que nos convençam que esse não é um caminho vão, não se limitando a afirmar "ainda não me provaram que é vão."

    O mesmo acontece com, por exemplo, o estudo da filosofia. Decidi dedicar a minha vida à filosofia pois conheci argumentos que me convenceram que vale a pena dedicar a minha vida à filosofia. Não dediquei a minha vida à filosofia porque os argumentos que defendem que a filosofia é um esforço vão não me convenceram.

    Esse ónus da prova poderá ser de vários tipos:
    a) uma definição de arte que convença até os não-cépticos.
    ou
    b) uma teoria ontológica que nos prove que a definição do conceito de arte é possível.

    Parece-me que sem b) os esforços para se chegar a a) serão espúrios.

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  13. A definição correta do conceito de "arte" tem de existir, por se tratar de um conceito formado por construção e, portanto, sem instância. Ao contrário de conceitos instânciados, conceitos sem instâncias sempre podem ser definidos stricto sensu. Na esteira de Schopenhauer, eu defino o conceito de "arte" como a reprodução intuitiva (não-conceitual) de uma idéia platônica (atomos eidos) por um indivíduo.

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  14. Este é o novo link para o artigo: http://criticanarede.com/definirarte.html

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