28 de dezembro de 2010

Dogmaticamente contra os dogmas?


Será possível ser dogmático quando supostamente se combate dogmas? Eu penso que sim, mas talvez o leitor discorde.

8 comentários:

  1. Um dos paradoxos curiosos que caracteriza o dogmatismo enquanto atitude mental de adesão irracionalmente injustificada (ou insuficientemente justificada) a crenças consiste no facto de sermos geralmente dogmáticos em relação àquelas ideias que nos são queridas e cépticos precisamente em relação às outras que detestamos, provando assim aparentemente que ou o dogmatismo e o cepticismo não são tão contrários quanto habitualmente se pensa, ou então, para usar uma frase feita, que também aqui os extremos se tocam. Assim como o dogmático aceita acriticamente ideias ou crenças indevidamente ponderadas ou justificadas, rejeitando cepticamente como falsas, absurdas ou impossíveis de provar as suas contrárias, também o céptico rejeita dogmaticamente, de forma sistemática, factos, provas ou argumentos que o poderiam persuadir a reconhecer o erro e a mudar de ideias, caso o seu verdadeiro interesse fosse saber a verdade e não considerá-la impossível de alcançar (caso do céptico radical), ou então dá-la como adquirida e conquistada a priori sem qualquer margem para dúvida (caso do dogmático). Parece assim que se pode ser, de forma só aparentemente paradoxal, ao mesmo tempo céptico e dogmático, isto é, ser-se dogmaticamente céptico por um lado e cepticamente dogmático por outro, revelando assim simultaneamente a cumplicidade essencial, a proximidade genética e a semelhança estrutural de ambas as atitudes, podendo estas provavelmente ser reduzidas a mecanismos de defesa cognitivo-emocionais contra a dúvida, a insegurança, o medo e a angústia de não saber, bem como a formas de as tentar exorcisar e compensar através de demonstrações de força aparente, quer estas assumam a forma obstinada e dissolvente da dúvida céptica ou a forma igualmente obstinada e coagulante (ou petrificante) da certeza dogmática. Mas seja por as desacreditarem sistematicamente como impossíveis, inalcançáveis ou ilusórias, seja por as darem como garantidas e asseguradas a priori, a única saída intelectualmente decente para este circuito fechado de atitudes gémeas que nos tornam mentalmente cegos e cognitivamente imunes à verdade e à razão, tem afinal um nome que é tão conhecido quanto impraticado: chama-se filosofia (ou ciência).

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  2. tenho também notado o uso idiota da palavra "céptico", com o qual as pessoas que são sobretudo dadas a misticismos popularuchos apelidam simplesmente qualquer pessoa que não engula uma dada patranha à primeira, sem sequer tentar raciocinar.
    "ai, e tal e coisa, Fulano é um céptico!" - em que isto se pronuncia como se fosse uma infelicidade para o caracterizado, quando na verdade tudo o que se está a dizer é que Fulano não acredita em x, tal como as pessoas que fazem este uso de "céptico" podem não acreditar num vendedor que lhes tente impingir um gadget qualquer. excepto que quando não envolve tolices místicas a cabeça tende a ficar um pouco mais disponível.

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  3. Pior do que ser-se considerado um céptico por não se acreditar em qualquer patranha ou misticismo barato é ser-se considerado uma "mente fechada".
    Geralmente essas pessoas dizem aos que contestam as suas ideias algo do género "Tens de ser mais aberto" ou "Tens de acreditar em algo", como se fosse uma virtude ter uma crença, independetemente do conteúdo dessa crença. Mesmo algumas pessoas não crentes, no sentido religioso, dizem que se tem de acreditar na ciência, caso contrário, ia-se acreditar em quê?
    Os melhores comentários pretensamente anti-dogmáticos que ouvi nos últimos tempos foram o de que os filósofos analíticos são dogmáticos e de que os ateus são incapazes de amar seja que for. Este último foi dito, por sinal, por alguém que se considera ateu...

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  4. Desidério, podes me ajudar com um pequeno problema? É coisa simples, mas não estou encontrando um modo elegante de resolver.

    No meio de um debate, um indivíduo começou a me perguntar sobre as fontes de tudo que eu dizia. Se eu dizia que havia setores da sociedade que lucravam com uma lei injusta, ele pedia fontes. Se eu dizia que a mídia é tendenciosa, ele pedia fontes. Acho que, se eu dissesse que o céu é azul, ele pediria fontes.

    É óbvio que isso é uma manobra rasteira para obstruir o debate, mas lá se vão mais de vinte e cinco anos desde minha última aula de lógica e não me recordo o que devo estudar novamente para evitar ser apanhado nesta armadilha irritante.

    Ao invés de esgrimir argumentos para chegar a um entendimento, tudo que ele quer é provar que eu sou um fanfarrão. O pessoal mais esclarecido percebe e acaba ignorando o sujeito, mas há uma claque cúmplice que o aplaude por "aniquilar o fanfarrão". Discutir com gente mal-intencionada é muito desgastante, mas eu não posso me furtar deste debate. (Até porque diriam que estou fugindo por não ter mais argumentos.)

    Podes me dar algum conselho e/ou indicar alguma leitura na internet que me socorra?

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  5. A Construção do Argumento, de Anthony Weston parece-me adequado para o caso.

    Argumentar contra a má-fé é impossível. Nestes casos, parece-me razoável não tentar persuadir essa pessoa, mas aproveitar para esclarecer quem ouve. E no que respeita a fontes, a maneira de evitar isso é ter realmente fontes, o que implica não usar afirmações muito gerais que a outra pessoa não aceita (ainda que por má-fé).

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  6. Muito obrigado, Desidério! Vou procurar esta obra o quanto antes.

    Isso que sugeriste - não tentar persuadir essa pessoa, mas aproveitar para esclarecer quem ouve - é exatamente o que estou tentando fazer. Porém, o obstrucionismo exacerbado do outro lado - que não tem compromisso com qualquer linha de raciocínio lógico, limitando-se a metralhar acusações e clichês - é tão intenso que acaba por perturbar até mesmo esse objetivo.

    Eu lembro de ter lido há mais de vinte anos uma crítica a este tipo de técnica que a classificava como um tipo de erística na sua pior acepção, mas não recordo mais os detalhes. Será que uma descrição tão breve permitirá que alguém recorde de que texto se trata?

    O problema desse tipo de debate em que caí na besteira de participar (pior ainda, propor) é que o que eu considero um grau de generalidade bastante razoável (afirmações como "nem todo traficante é uma pessoa má") para eles é uma afirmação de nível tão alto que é inatingível (respostas como "você é traficante ou um debilóide? porque só um traficabte ou um debilóide defenderiam o crime organizado). E uma imensa claque concorda e aplaude. Como bem disseste, esse comportamento é por má fé, mas convence uma imensidão de gente que faz uma análise muito superficial.

    Por outro lado, há alguns interlocutores de boa fé do lado de lá, mas eles são tão extremamente apegados a alguns dogmas que é extremamente difícil estabelecer a validade de uma premissa de comum acordo para então poder montar argumentos sólidos.

    Enfim, arrumei sarna pra me coçar...

    (Só pra não deixar ninguém curioso, é um debate sobre Direitos Humanos e legalização das drogas, no qual estou defendendo "legalização e regulamentação inteligente de todas as drogas em toda a cadeia econômica, da produção ao consumo, passando pelo processamento e distribuição", no meio de um fórum extremamente conservador chamado "odeio maconha". Mereço ficar sentado num banquinho de frente pro canto da sala com um chapéu pontudo na cabeça, né?)

    E mais uma vez obrigado.

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  7. Caríssimos,

    Enviei um comentário, mas, não sei se por censura ou problemas de envio, ele não foi publicado. De toda forma, sobre a possibilidade de ser dogmático ao combater os dogmas, penso o seguinte:
    a) Há, certamente, um sentido positivo e um sentido negativo no uso do termo "dogma".
    i) O uso positivo está relacionado ao fato de que não é possível questionar tudo, posto que devemos partir de um determinado princípio ou pressuposto para que nossos questionamentos e afirmações tenham sentido. Daí que sempre teremos algum tipo de crença de fundo que não está justificada explicitamente ou que simplesmente não nos preocupamos em justificar.
    ii) O uso negativo diz respeito as crenças que podem ser postas em causa sem o risco de perda de sentido cognitivo, mas que, por razões ou falta de razões, não admitimos questionar, em função de termos um apego afetivo ou passional em relação a elas. Neste caso, questionar as credenciais cognitivas de tais crenças é uma espécie de agressão existencial.
    b) Penso que alguns filósofos e pensadores contribuem para um dogmatismo em um sentido negativo. Por exemplo, Marx e Freud possuem conhecidas teses acerca do conceito de Deus e da religião. Eles partem da tese de que a proposição "Deus existe" é falsa. E, para explicar a religião teísta, admitem modelos naturalistas. Bem, a tese é admitida de forma dogmática, pois eles não apresentam justificações necessárias e suficientes para aceitarmos que tal crença é falsa. Bem, este fato gerou uma atitude dogmática em muitos marxistas e seguidores de Freud, a saber, deve-se combater e rejeitar a religião teísta, pois Deus não existe e, portanto, crer nele é ilusão ou patologia. Isto também gerou a seguinte orientação: se a tese x se compromete com a visão de mundo cristã-teísta - ou é por ela motivada -, então a tese x está vinculada a uma ilusão e, portanto, deve ser rejeitada. Há, neste caso, em minha opinião, uma falácia, pois a tese deve ser rejeitada na medida em que for falsa e infundada, e não em virtude de seus compromissos, motivações ou origens. Sendo assim, a crença na inexistência de Deus, para muitos marxistas e freudianos (e alguns darwinistas), não é senão um dogma no pior sentido da palavra. E, penso eu, alimentam o dogma de combate a um dogma.

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  8. Este é o novo link para o artigo: http://criticanarede.com/dogmas.html

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