18 de dezembro de 2010

Friedrich Nietzsche

Aprender a pensar: não há mais noção disso em nossas escolas. Mesmo nas universidades, mesmo entre os autênticos doutores da filosofia começa a desaparecer a lógica como teoria, como prática, como ofício. Leia-se os livros alemães: já não se tem a mais remota lembrança de que para pensar é necessária uma técnica, um plano de estudo, uma vontade de mestria -- de que o pensar deve ser aprendido, tal como a dança deve ser aprendida, como uma espécie de dança.

29 comentários:

  1. Nietzsche, querido Nietzsche!

    Como gosto do modo como Nietzsche pensava! Falta-nos filósofos com a coragem de derrubar ídolos como ele costumava fazer.

    Sergio Viula

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  2. Olá Sérgio,
    Então vamos começar por derrubar Nietzshe, que é o seu ídolo :-) Na verdade a frase é interessante, mas N. deve ser o filósofo que menos a praticou, entre os filósofos do seu tempo.

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  3. Rolando, pode elaborar melhor? O que exatamente N. não praticou? O ato de aprender a pensar? O ato de pensar em si? O de ensinar/instigar outros a pensar? Ou talvez ele não tenha posto em prática a teoria/técnica, nesse caso, a lógica, em seu pensamento?

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  4. No texto original as palavras "ofício" e "como" (em "como uma espécie de dança" estão em itálico.

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  5. Obrigado, Gisele. Não encontrei o itálico em duas outras edições que consultei.

    Relembro que os comentários com erros ortográficos sistemáticos são apagados, e que os comentários frívolos, sem interesse cognitivo, não são desejáveis.

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  6. O mundo do Nietzsche é no máximo o mundo dos nietzscheanos, o Rolando de todo não está errado, encontram-se trechos de textos como esse porque ele escreveu muito, mas em geral ele peca pela falta de tudo isso que ele reivindica, Niet. é um ilógico por excelência, sua "filosofia" comete vários erros básicos, de petição de princípio etc. A maioria dos "amantes" de Nietzsche tem certas características que os fazem pensar como ele, e tão pouco o analisam de fora. E criam para o Nietzsche a maior saia-justa da filosofia: faz um anti-dogmático se transformar num dogma. (risos)

    Sua leitura é importante para termos idéia no que o mundo vem se transformando, e só.

    Nietzsche, senhores...

    ... é filosofia de adolescente!

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  7. Caro Pépe,
    O Leonardo acabou por responder à sua questão.
    Obrigado

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  8. (Vou tentar de novo, acabo de escrever um comentário que não apareceu...)

    Estava procurando, desde a hora do comentário talvez desnecessário que fiz acima, um artigo que trata do que Nietzsche queria com sua crítica à lógica - a tese do autor é que no fundo são críticas à semântica de cunho realista, e ele mostra também o quanto Nietzsche ignorava acerca da lógica que estava sendo produzida em seu tempo - e por fim, encontrei a referência:

    Chama-se "Nietzsche on Logic", de Steven D. Hales, saiu na Philosophy and Phenomenological Research, Vol. 56, No. 4. (Dec., 1996), pp. 819-835.

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  9. Obrigado, Gisele! Este é o género de comentários que valem a pena! O Hales é especialista em perspectivismo -- tem um livro sobre isso -- e conhece bem os escritos de Nietzsche. Relembro que o seu mais recente trabalho é este Companion sobre o relativismo.

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  10. E as críticas de Nietzche aqui apresentadas, não serão elas meras caricaturas? Mais uma habitual afirmação encapotada da vontade em afirmar a superioridade de um modo de fazer filosofia em relação a outro? Se essa superioridade é tida como ponto de partida, a questão do valor da actualidade de Nietzsche só poderá ter uma resposta.

    A formação do alemão era em filologia. Quão útil não será a formação hermenêutica para clarificar e criticar as bases da problematização filosófica da família linguística a que pertence o grego? Talvez o melhor juízo acerca da relevância do mais largo bigode do séc. XIX seja dado pelos sucessores de Nietzsche nos anos vindouros. A história da filosofia não foi só escrita uma vez e apenas por um filósofo e pacifista galês.

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  11. TMC,
    Está a colocar a questão na disputa habitual. mas que dizer quando dizemos exacatamente o contrário de Kant ou Hume? Por que razão as pessoas após institucionalizar um filósofo o consideram inquestionável e inviolável?
    Na minha opinião N. não apontou, de facto, vias que hoje sejam as mais seguidas em filosofia, mas daí não se deve concluir que as suas propostas sejam infelizes. Sem elas não tínhamos avançado nas críticas posteriores, como referiu. Mas o importante é ter a discussão sempre activa, independentemente da nacionalidade dos autores dos argumentos que discutimos.

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  12. (Pseudo-)discutir filosofia como quem discute equipas de futebol não é bem-vindo aqui. Qualquer avaliação das contribuições de um filósofo -- positiva ou negativa -- tem de ser feita com rigor, objectividade, uso de fontes, distanciamento e conhecimento da bibliografia. Sem isso, é mera conversa de café. E isto aqui não é um café.

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  13. Desidério, e dá para fazer tal avaliação em uma pequena caixa de comentários? Acho difícil.

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  14. Parece-me que o Rolando Almeida foi marcado negativamente pela imagem que teve de Nietzsche no curso de filosofia. Eu gostaria de notar que scholarship de Nietzsche não só na Europa como no Reino unido e Estados Unidos continua de boa saúde. Nas principais universidades americanas e inglesas há especialistas de Nietzsche, a saber: NYU John Richardson, Chicago Brian Leiter, Bernard Reginster Brown, Peter Kail Oxford etc.
    Há que dar o benefício da dúvida e estudar um pouco mais e só depois fazer um juízo sobre relevância ou irrelevância de Nietzsche.
    Os meus cumprimentos.

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  15. Pois, creio que nas universidades se estuda tudo. Há muitos estudantes e muito por onde pegar. E muitas ideias. A minha é mais uma que, certamente, também teria lugar numa universidade:-)
    Na verdade não tenho marcas negativas nem positivas dos filósofos, ainda que tenha algumas negativas e outras positivas sobre o que com eles se faz num curso de filosofia.
    Por vezes confesso que tenho alguma dificuldade em compreender a centralidade de alguns filósofos. Mas isso também se passa em outras áreas da criação humana e não só na filosofia.
    Mas eu não percebo é a sua última frase, já que pressupõe erradamente que o que eu digo denuncia falta de conhecimento de N. Depois porque o asilvestre não leu sequer bem o que eu escrevi, até porque não desvalorizei o filósofo. Só me parece que o perspectivismo não tem dado tantos frutos quanto seria de esperar. mas nada me move contra os filósofos, bem pelo contrário. Claro está que, como deve compreender, não os posso estudar todos e para saber um bocadinho de cada um tenho de ser modesto nas leituras que faço.

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  16. Olá, Leonardo! Não se trata de fazer essa avaliação aqui, mas de a ter feito alhures e aqui apontar a direcção ou mostrar que se leu e se conhece. Isto implica sair das generalidades e discutir aspectos de pormenor interessantes.

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  17. asilvestre,

    do fato de existirem estudos sobre Nietzsche nas melhores universidades não se segue que Nietzsche seja um filósofo importante, rigoroso ou influente. Isso acontece por duas razões: a primeira é que é possível estudar filósofos ruins de maneira séria e a segunda é que estudos descritivos de filósofo não implicam que esses mesmos filósofos sejam relevantes para a discussão atual: além dos livros acerca da filosofia de Nietzsche há também vários livros sobre Derrida, Deleuze, Heidegger, etc.

    Voltando ao Nietzsche: seu impacto nas discussões especializadas é muito pequeno, pois é um filósofo fraco. Nos seus livros encontramos falácias ad hominem aos montes, contradições por todo lado, e afirmações sem qualquer argumentação subjacente.

    E ao contrário do Rolando, falo como alguém que perdeu um tempo importante do início da graduação lendo muitas de suas obras: não dá para utilizar nada do que eu estudei na filosofia feita a sério.

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  18. Se o facto de Nietzsche ser estudado nas principais Universidades não se pode concluir sobre a sua relevância para a discussão actual, também não se concluir, de forma tão categórica, que Nietzsche é um filósofo fraco tendo por fundamento unicamente uma experiência pessoal mais ou menos longínqua.
    A título de exemplo, Bernard Williams importante filósofo moral da segunda metade do séc. XX, afirmou, que se pudesse, citava Nietzsche de 20 em 20 minutos. As opiniões divergem, mas ainda assim entendo que devemos dar a Nietzsche o benefício da dúvida e ler com mais cuidado a sua obra e não com tantos preconceitos.

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  19. O fato da filosofia de Nietzsche ser estudada em algumas das principais universidades não é um indício importante de sua relevância, pois é estudada na esmagadora maioria das vezes apenas como uma parte da história da filosofia. Citar uma afirmação de Bernard Williams como prova da relevância de Nietzsche para a filosofia é cometer uma falácia de apelo à autoridade: poderia citar inúmeros outros filósofos importantes que afirmam o contrário. De qualquer modo, mesmo se todos os grandes filósofos contemporâneos dissessem o mesmo isso ainda não sustentaria o que você, pois Nietzsche continuará a ser um filósofo que usou falácias ad hominem, petições de princípio e incoerências grosseiras que qualquer aluno de segundo período com treino mínimo de lógica evitaria. Minhas razões são essas e estão nos livros dele para qualquer um avaliar – não são uma experiência pessoal do passado.

    Essa conversa de benefício da dúvida é uma desculpa para ignorar o óbvio: o rei está nu. Se um filósofo qualquer comete uma falácia ou cai em incoerência dizemos que ele está errado, precisa aprender lógica ou não sabe o que diz. Se um filósofo idolatrado em certos círculos faz o mesmo é porque a lógica é repressora, ou estamos avaliando de maneira superficial, etc. Nietzsche é um filósofo muito conhecido em certos círculos acadêmicos, mas que não tem um pingo de rigor e sequer contribuiu para a filosofia: quais são as contribuições de Nietzsche para a discussão sobre o problema dos universais, por exemplo? Nenhumas. Quais são as contribuições de Nietzsche para a ética prática, a metaética ou a ética normativa? Nenhumas. Quais são as contribuições de Nietzsche para a filosofia política, estética ou epistemologia? Nenhumas.

    Repare também em outra coisa. Filósofos analíticos como o Leiter ou Williams que gostam do Nietzsche são inteiramente diferentes do Nietzsche: não usam falácias e não caem em incoerências grosseiras.

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  20. Acerca do comentário do Leonardo de que Nietzsche é "filosofia de adolescente".

    Há cerca de um mês moderei um Café Filosófico na cadeia de Paços de Ferreira.
    Entre os reclusos que participaram (cerca de 20) três disseram-me que já tinham estudado filosofia, um deles até tinha sido meu colega na FLUP e agora cumpria uma pena pesada.

    No fim fiquei a falar um pouco com ele e com outros presos. Disse-me, um pouco atabalhoadamente que estava ali devido a umas "más leituras de Nietzsche" (cit.) que fez na juventude e umas más escolhas que essas leituras influenciaram.

    Perguntei-lhe se se arrependeu de ler Nietzsche e se na altura soubesse o que sabe hoje evitaria ler essas obras. Disse-me que não pois essas leituras fizeram dele uma grande parte do que é hoje.

    A mim também foi Nietzsche quem, em parte, me levou à filosofia e, já agora, à cadeia de Paços de Ferreira. Ainda hoje procuro seguir alguns dos seus ensinamentos na minha prática filosófica.
    A sua ideia radical da necessidade de uma "transvalorização dos valores" é um exercício que procuro pôr em prática muitas vezes com os meus alunos e é, a meu ver, sinónimo de pensar e fazer filosofia. Uma exelente forma de "desdogmatizar" as nossas ideias, os nossos ídolos, portanto.

    Obrigado por esta tradução.

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  21. Tomás, "desdogmatizar" suas ideias e colocar as de Nietzsche como dogmas? É isso que vejo da parte dos nietzscheanos. Não quero isso para minha vida. Já li tudo - tudo - de Nietzsche, e como o Matheus, não vejo nenhuma contribuição relevante que o Niet. tenha dado à filosofia, a não ser de quebras e "transvalorações". Isso me interessou quando eu era adolescente - época que o li pela primeira vez - mas hoje não mais!


    PS: o teu projeto em prisões é admirável...

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  22. Relatos pessoais como o do Tomás acerca do Nietzsche e filósofos continentais de modo geral são muito comuns. Por vezes isso acontece porque são filósofos que escrevem com a pretensão de inspirar as pessoas, mesmo que o ganho cognitivo seja zero. Outras vezes as pessoas estão sedentas de estímulo filosófico e qualquer coisa que beire a filosofia serve de estímulo. Pessoalmente, decidi que faria filosofia porque li um livro new age que contém alguns argumentos de filosofia da religião - pode ser que não teria descoberto a filosofia se não fosse esse livro. Mas o impacto que esse livro teve em mim diz pouco acerca da qualidade do livro, que era um lixo de um modo geral.

    Quanto à filosofia de Nietzche acabar com dogmas: isso é um requisito mínimo da própria atividade filosófica, não é vantagem nenhuma. Na realidade, na esmagadora maioria dos casos, ele criou um contrário: um enorme séquito religioso de puxa-sacos acríticos que não sabem sequer argumentar.

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  23. Leonardo:


    dizes, "não vejo nenhuma contribuição relevante que o Niet. tenha dado à filosofia, a não ser de quebras e "transvalorações". Isso me interessou quando eu era adolescente - época que o li pela primeira vez - mas hoje não mais!"

    E por que não te interessam mais as "transvalorações"? Achas que já não precisas delas? Eu encaro-as como uma medida de higienização dos nossos conceitos (acho que este termo foi usado pelo próprio Nietzsche). Uma espécie de profilaxia mental para evitar a tendência dogmatizante natural do nosso espírito. Nesse sentido dizer que o pensamento de um autor é "filosofia de adolescente" não é uma crítica mas um elogio ;)

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  24. Matheus,

    não me parece de todo que o "ganho cognitivo" de ler Nietzsche seja zero, como mostra bem este artigo do Hales.

    Dizes: "Quanto à filosofia de Nietzsche acabar com dogmas: isso é um requisito mínimo da própria atividade filosófica, não é vantagem nenhuma. Na realidade, na esmagadora maioria dos casos, ele criou um contrário: um enorme séquito religioso de puxa-sacos acríticos que não sabem sequer argumentar."

    Mesmo que isso seja verdade (que não me parece que seja), isso diz mais dos tais "puxa-sacos acríticos" que de Nietzsche e da sua filosofia. Ou melhor, diz mais da nossa natureza humana tendencialmente estúpida e seguidista, que Nietzsche tanto se esforçou por denunciar.

    E, nesse sentido, ao contrário do que dizes é sempre uma vantagem termos acesso a uma filosofia que tente acabar de forma tão frontal e violenta (com martelo e picareta, como N. dizia) com os dogmas que subrepticiamente vamos cimentando no nosso espírito.
    Nietzsche será o que mais próximo temos de "acção directa" em filosofia.

    Ao contrário do Leonardo volto frequentemente a Nietzsche um pouco para despertar o meu "daimon" interior :)

    ab

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  25. Tomás,
    Só uma achega: quebrar com dogmas não é uma condição suficiente para a filosofia e também não sei se sequer é necessária. O que é necessário à filosofia é apresentar argumentos para os problemas que levanta. Mas dizer que isto é fundamental é já um dogma, pelo que se a filosofia é quebrar com dogmas, é bom começar por quebrar com o dogma de que a filosofia é quebrar com dogmas:-)
    Serve esta brincadeira para dizer que N. pode realmente ter esse mérito, mas esse mérito pode não ser um mérito filosófico. Há tanta gente que de tantos modos tem esse mérito mesmo sem ser filósofo e muitas vezes até o fazem melhor que os filósofos.

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  26. Talvez haja uma confusão gerada pela ambiguidade de "acabar com os dogmas". Em um sentido, eu concordo com o Matheus que isso é um requisito mínimo para a atividade filosófica (e acho que é esse sentido que ele tem em mente). Em outro, acho que não o é, pois é uma tolice. Abaixo, explico ambos.

    Primeiro, tomo um dogma como algo próximo de "alguma coisa que é aceita acriticamente como verdade em uma dada sociedade (ou por alguns membros de uma sociedade)".

    Imagine que, nesse sentido, a existência de Deus seja um dogma.

    Se acabar com esse dogma significar apenas sustentar acriticamente que Deus não existe (e me parece que é assim que Nietzsche acaba com dogmas) então isso me parece mesmo "coisa de adolescente". "Acabar com os dogmas" significaria apenas sustentar o contrário daquilo que um conjunto de pessoas sustentam.

    Por outro lado, se "acabar com os dogmas" significa, NA MEDIDA DO POSSÍVEL, procurar razões para acreditar ou não em algo, então isso seria um requisito mínimo para a atividade filosófica. Nesse caso, eu posso tentar acabar com o dogma de que Deus existe procurando razões para sua existência. Se eu acabar encontrando fortes razões para a sua existência (e acreditar nisso), então ela não será mais um dogma para mim. Embora possa continuar sendo para minha comunidade. Se eu encontrar melhores razões para a sua inexistência (e acreditar nisso), então, do mesmo modo, a existência de Deus não será um dogma para mim. Embora possa continuar sendo para minha comunidade.

    O primeiro sentido me parece infantil, o segundo interessante. No primeiro sentido, um destruidor de dogmas é apenas uma pessoa "do contra", como se diz no Brasil. Nesse caso, qualquer adolescente é um destruidor de dogmas. Qualquer um tem um "martelo ou picareta".
    É no segundo sentido que a filosofia acaba (ou deveria acabar) com os dogmas e é nele que Nietzsche, para ser interessante, deveria acabar. Mas nesse segundo sentido, acabar com os dogmas nada tem a ver com transvaloração de valores ou qualquer coisa do tipo. Isso porque ele não implica ter valores ou crenças contrárias às de minha comunidade.

    Funciona?

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  27. Penso que sim, Sadig. O curioso é que os admiradores da filosofia de Nietzsche estão interessados justamente no primeiro sentido de destruir dogmas, que é o ifantil.

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  28. Em primeiro lugar, seria indispensável conhecer bem a obra de Nietzsche pra poder avaliar se ele é ou não um dos pensadores mais importantes da filosofia, como muitos outros pensadores- também considerados importantes- dizem ser, ou se no fundo não passaria de um "escritor popular", como seus detratores não hesitam em afirmar. Seria preciso, além disso, examinar a obra de Nietzsche de um ponto de vista minimamente histórico, levando em conta a tradição filosófica em que seus textos se inserem e os pensadores com que, por vezes implicitamente, ele travava intenso diálogo. Colocar Nietzsche no hipotético lugar de um filósofo analítico para testar sua qualidade filosófica chega a ser uma aberração. Ao mesmo tempo em que há um pouco de verdade na afirmação de que a filosofia de Nietzsche acabou produzindo "um enorme séquito religioso de puxa-sacos acríticos que não sabem sequer argumentar" (produziu pelo menos alguns, até notórios), não é menos verdadeiro o fato de que muitos dos que fervorosamente criticam a obra de Nietzsche ignorando as exigências elementares menicionadas acima encontram-se "à altura" dos primeiros. A uma simpatia irrefletida e mesmo irresponsável se opõe um antipatia tão virulenta quanto inconsistente. Sugerir, por exemplo, que os escritos de Nietzsche não contribuíram para as reflexões posteriores sobre ética, estética (sobretudo), política e mesmo história é sinal de uma má vontade que não se acanha em cortejar o absurdo. Infelizmente, muitas das acusações proferidas por "seguidores" e entusiastas da filosofia analítica da linguagem revelam tal ímpeto injustificável. É incoerente e ingênuo pretender desarmar um filosófo partindo de uma posição inteiramente exterior a seu jogo. O resultado é uma performance bastante previsível, porque não faz mais do que confirmar e incensar uma perspectiva que era inabalável a priori. Pelo menos há uma ironia nisso tudo: aqueles que precipitadamente se lançam contra a filosofia de Nietzsche com alegria furiosa exibem um comportamento não muito diferente dos nietzschianos que acreditam ter nas mãos um martelo capaz de finalmente pôr abaixo os grandes valores metafísicos. Ambos não escondem o entusiasmo de ter descoberto uma arma filosófica eficaz. Entretanto, quanto mais o uso desta é indiscriminado, menos se dissimula a excitação adolescente e a sensação de poder dos que acreditam empunhá-la. Basta ler umas poucas páginas de Nietzsche pra notar que, a despeito de toda a sua verve, sua filosofia está muito acima dessa satisfação instrumental.

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  29. Essa idéia trazida por Nietzsche nesse trecho é um total reflexo da filosofia de Schopenhauer, ao qual Nietzsche bebeu da fonte. Quem leu A Arte de Escrever de Arthur perceberá que essa crítica as escolas e universidades está muito bem explicita na obra deste filósofo.

    Edvan(www.edvanjesus.blogspot.com)

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