29 de dezembro de 2010

Música e emoção


Acabo de publicar o artigo "Música e Emoção", de Rafael Alberto S. d'Aversa.

21 comentários:

  1. Pode ser que eu esteja enganado, mas me parece que sua argumentação está viciada desde o início ao dar muita atenção a certos tipos de obras músicas (as clássicas) em detrimento de outras. A objeção de que a música não pode representar estados mentais só parece funcionar quando é aplicada a certos tipos de obras músicas criadas por meio de sons sem significado: um concerto para piano, por exemplo. Se pensarmos em obras musicais que utilizam de sons com significado, como várias obras da música popular brasileira, por exemplo, ela desmonta. Pense em músicas da autoria de Chico Buarque, como Gota D’água, por exemplo. É uma obra musical que claramente representa crenças e desejos de uma pessoa sensível que receia um novo amor. Músicas com longas histórias, como Domingo no Parque, de Gilberto Gil ou Faroeste Caboclo, de Renato Russo, tornam isso ainda mais evidente. Nesses casos a música possui uma linguagem que tem o mesmo poder de veicular conceitos e proposições que a literatura, e assim são capazes de nos afetar emocionalmente.

    De qualquer modo, a solução que você apresentou parece adequada para as obras musicas que não possuem o poder expressivo dessas obras musicais populares. Só não entendi duas coisa: a solução apresentada no ensaio é sua, do Boghossian ou de quem mais? E o que quer dizer "música absoluta"? Você menciona isso no terceiro parágrafo, é um termo técnico?

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  2. Só uma errata que detectei no ensaio:

    No parágrafo que começa com "Outra forma de tentar refutar" você diz que "Analogamente, podemos dizer acerca das emoções que, embora as seqüências de sons de uma música não possam representar características importantes acerca delas — nomeadamente, os estados mentais a ela ligados ¬¬—"

    Depois de ligados aparecem dois sinais de negação.

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  3. Acabei de dar uma olhada aqui na tese do Aires: a discussão sobre a representação musical leva em consideração apenas a música absoluta, ou instrumental. As outras obras musicais não contam. Nesse caso, faltou especificar no início do ensaio que a discussão parte desse pressuposto e dar uma indicação básica do que é música absoluta, pois o leitor que não conhece a literatura do problema não tem como advinhar.

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  4. Relê o terceiro parágrafo: "terá a música absoluta propriedades tais que legitimem o uso de termos emocionais para descrevê-la?"

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  5. Já corri a estranha gralha, obrigado, Matheus!

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  6. Eu já tinha reparado nisso, Desidério. Observe o meu primeiro comentário em que pergunto o que é música absoluta. O leitor não tem como saber do que se trata. Além disso, nas frases seguintes ele diz: "O que significa dizer que uma música é triste, ou que exprime tristeza? Em virtude de que aspectos algumas músicas conseguem provocar ou induzir estados emocionais?", deixando em aberto se trata de obras musicais de modo geral. Ainda está vago.

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  7. Não é vagueza, exactamente, mas antes não sublinhar melhor que a discussão em filosofia da música versa sempre, obviamente, sobre a música absoluta -- dado que o que em cantatas, por exemplo, tem o poder para exprimir emoções específicas, ao invés de gerais, não é a música em si, mas sim a letra.

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  8. Tal como a discussão sobre as teorias da equivalência versa sobre a adequação da condicional material como sendo equivalente às condicionais indicativas. Contudo, é falta de rigor não especificar isso e simplesmente deixar em aberto ou pressupor que o leitor tenha a obrigação de advinhar isso.

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  9. "música absoluta" é um termo poético para "música puramente instrumental". em especial a música instrumental clássica dos secs. XVIII-XIX. (a que vem a seguir também, embora em alguns casos coloque desafios novos, que a música instrumental anterior não colocava).

    Não me parece claro que numa cantata todo a expressão emocional se possa atribuir à letra. Aliás, ao ouvir a maioria das peças religiosas com parte vocal somos perfeitamente capazes de captar as propriedades emocionais relevantes sem compreender o texto, e em alguns casos até desconhecendo o título e o contexto, ainda que seja argumentável que esta capacidade supõe o contacto anterior com música semelhante.

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  10. creio que foi o Peter Kivy quem introduziu o termo "música absoluta" em circulação, com a obra "Music Alone - philosophical reflections on the purely musical experience". Pessoalmente, acho mais simples dizer apenas "música puramente instrumental" - o "puramente" serve para distinguir os casos em que ouvimos apenas a parte instrumental de uma peça com parte vocal, ou quando ouvimos versões instrumentais de música vocal.

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  11. "relacionamos comumente a tristeza com uma passagem lenta do tempo; desse modo, uma música lenta dá-nos como que uma experiência tonal do sentimento de tristeza."

    pode-se objectar que para qualquer X que seja lento, a contemplação desse X dar-nos-ia uma experiência-X do sentimento de tristeza. a partir daqui seria fácil conceber exemplos porventura ridículos e obviamente irrelacionados.
    mais especificamente, uma semelhança de propriedades dinâmicas entre a música e o comportamento expressivo de tristeza dá tanta legitimidade à atribuição de tristeza à música como à atribuição de qualquer outra propriedade-X em que X é uma propriedade dinâmica de outros objectos ou processos que nada têm a ver com a tristeza, embora instanciem propriedades "dinâmicas" semelhantes, como a lentidão.

    ou seja, nós decidimos fazer essa atribuição metafórica quando haveria outras disponíveis. porquê?

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  12. Estou tentanto encontrar uma réplica para essa objeção sua, mas está difícil. Só consigo pensar que supomos que uma música lenta nos dá uma experiência do sentimento de tristeza, mas não um carro se movendo lentamente, porque pressupomos que a música é um meio de expressar emoções, ao contrário do carro. É claro que essa é uma resposta circular: o que o argumento pretendia com a semelhança de algumas propriedades das músicas com algumas propriedades das nossas emoções era a capacidade da musica para expressar emoções. O que vemos agora é que esse argumento só funciona se já pressupomos que a música é capaz de expressar emoções.

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  13. há uma imprecisão no meu último comentário:

    "uma semelhança de propriedades dinâmicas entre a música e o comportamento expressivo de tristeza dá tanta legitimidade à atribuição de tristeza à música como à atribuição de qualquer outra propriedade-X em que X é uma propriedade dinâmica de outros objectos ou processos que nada têm a ver com a tristeza"

    podemos formular mais claramente a objecção desta forma: nenhum problema há em atribuir à música certas propriedades dinâmicas comuns ao comportamento expressivo da tristeza - tal como outros objectos ou processos podem instanciar essas propriedades sem que tenham algo a ver com a tristeza. o problema está em atribuir a própria tristeza à música e não certas propriedades dinâmicas do comportamento expressivo de tristeza.

    Outro problema é quando as mesmas propriedades dinâmicas são comuns a várias emoções. Por exemplo, a lentidão é compatível com outros estados emocionais além da tristeza. como sabemos qual é o estado emocional que está a ser expresso ou representado quando nada mais temos além de uma propriedade dinâmica comum a vários estados emocionais?

    Imaginemos agora que eu não estou triste mas que o meu comportamento exibe essas propriedades dinâmicas. isto pode acontecer quando, por exemplo, finjo que estou triste, ou quando não estou a fingir mas algo no meu comportamento leva alguém a pensar que estou triste.
    a única situação em que podemos afirmar com verdade que o meu comportamento exprime tristeza é a situação em que estou mesmo triste e o meu comportamento exibe essas propriedades.
    mas a música não pode ter estados mentais e portanto, no caso da música, a situação é ainda pior que a do fingimento ou da ilusão por parte do observador - porque nessas situações é argumentável que há algo a ser expresso no comportamento.
    mas no caso da música não há sequer expressão, propriamente falando. no caso da música, a situação é mais semelhante à de um zombie que realiza movimentos que interpretamos como comportamento expressivo de emoções. podemos talvez dizer que antes mesmo de atribuirmos metaforicamente uma qualidade emocional à música, fazemos ainda outra atribuição metafórica que consiste em tratar a música como se fosse comportamento de qualquer género.

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  14. Eu interpretei a sua objeção erradamente. Pensei que estava defendendo que uma semelhança de propriedades dinâmicas entre a música e o comportamento expressivo de tristeza não é suficiente para demonstrar a capacidade da musica para expressar emoções, pois outros particulares que não podem expressar emoções possuem propriedades dinâmicas semelhantes às do comportamento expressivo da tristeza: X (um carro, filme ou outra coisa qualquer)pode ser lento sem que o associemos à tristeza.

    Uma resposta natural para essa objeção é que temos a intuição de que a música, mas não particulares como carros, por exemplo, podem expressar emoções. Por isso a semelhança das propriedades dinâmicas entre uma música e o comportamento expressivo de tristeza explicaria como a música instrumental pode expressar emoções.

    O problema dessa resposta é que o argumento da semelhança das propriedades dinâmicas só funciona se pressupormos o que ele quer provar, a saber, que a música instrumental pode expressar emoções.

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  15. "O problema está em atribuir a própria tristeza à música e não certas propriedades dinâmicas do comportamento expressivo de tristeza"

    Penso que não devemos sequer atribuir a tristeza a essas propriedades dinâmicas do comportamento expressivo da tristeza. Essas propriedades dinâmicas são indícios para concluirmos que uma determinada pessoa é triste, mas elas não constituem a tristeza de uma pessoa.

    Assim voltamos à segunda objeção de Hanslick apresentada no ensaio: a música não tem os elementos intensionais necessários para exprimir ou representar emoções definidas. Dizer que uma música tem algumas das propriedades dinâmicas que associamos com uma pessoa triste não basta para demonstrar que a música possa expressar ou representar emoções definidas.

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  16. mas não há que atribuir a tristeza ao comportamento. a tristeza é um estado mental que se atribui ao sujeito que tem um certo comportamento. a minha objecção é precisamente a de que a instanciação dessas propriedades dinâmicas não basta para atribuir expressão de tristeza, pois muitas destas propriedades são comuns a outras emoções, além de serem comuns a coisas que nada têm a ver com estados emocionais.
    contudo, dizer isto não é o mesmo que dizer que a música não pode ser emocionalmente expressiva. é apenas dizer que isto não é suficiente para mostrar que sim e como.

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  17. uma objecção ao que estou a dizer é, por exemplo, que há casos em que não sabemos exactamente que emoção um sujeito está a exprimir com o seu comportamento, mas daí não se segue que ele não esteja a exprimir emoção alguma.

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  18. outra objecção a mim mesmo: quando um actor tem um certo comportamento em palco, não acreditamos que esteja genuinamente triste, mas seria estranho afirmar que não exprime tristeza.

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  19. Eu concordo com sua objeção. Eu só quis enfatizar uma das duas razões que apresentou para justificar sua conclusão: a instanciação das propriedades dinâmicas não basta para atribuir expressão de tristeza, pois muitas destas propriedades são comuns a coisas que nada têm a ver com estados emocionais.

    A objeção que você antecipou contra o seu próprio ponto de vista não funciona: uma pessoa que finge para propósitos artísticos estar triste pode expressar a tristeza porque ela simula todas as características (ou pelo menos as mais importantes) de uma pessoa triste. O ator tem essa capacidade, pois é um agente cognitivo com disposições emocionais.

    A música instrumental, por outro lado, na melhor das hipóteses apenas apresenta uma das propriedades associadas ao comportamento de uma pessoa triste, o que é muito pouco.

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  20. exacto. padrões axadrezados são instanciados por muitas coisas, além de tabuleiros de xadrez e kilts escoceses.
    contudo, nem sempre precisamos de percepcionar todas as propriedades típicas de um dado espécime E de um tipo T para compreender que estamos perante um espécime desse tipo. um bom exemplo são palavras homógrafas e homófonas. o contexto elimina a ambiguidade. no entanto, não é por isso que deixamos de associar cada espécime gráfico ao tipo que exemplifica.

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  21. Este é o novo link do artigo: http://criticanarede.com/musicaeemocao.html

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