5 de dezembro de 2010

A música é uma construção social?


A crónica desta semana de Vítor Guerreiro tem por título "Música, Categorias Sociais e Objectividade" e põe em causa a ideia de que as categorias sociais são destituídas de objectividade. Mas o que pensa o leitor?

19 comentários:

  1. Excelente texto.
    Aguardo anciosamente pelos artigos que seguirão.

    ResponderEliminar
  2. Caro Desidério,

    deixo aqui minhas palavras somente como lembrete para num momento mais oportuno ler o texto por ti indicado e discuti-lo em teu blog. Fiquei curioso em saber em que sentido as categorias sociais seriam destituídas de objetividade. A meu ver, a questão suscitaria uma discussão acerca da objetividade do conhecimento social e de um debate sobre o fenômeno ideológico (dessas representações que construímos, relativamente, independentes da realidade). Fico por aqui e não arrisco mais palavras!

    Abraços!

    ResponderEliminar
  3. "Pelo contrário, a natureza daquilo a que chamamos “xadrez” no mundo actual é a mesma em todos os mundos possíveis em que o jogo existe, independentemente do modo como as pessoas se lhe referem em qualquer desses mundos."

    1. o que é a natureza de uma coisa?

    2. qual é a natureza do "xadrez"?

    3. como é que o autor sabe que a natureza do "xadrez" é igual em todos os mundos possíveis?

    4. que mundos possíveis são esses?

    ResponderEliminar
  4. "Pelo contrário, a natureza daquilo a que chamamos “xadrez” no mundo actual é a mesma em todos os mundos possíveis em que o jogo existe, independentemente do modo como as pessoas se lhe referem em qualquer desses mundos."

    1. o que é a natureza de uma coisa?

    2. qual é a natureza do "xadrez"?

    3. como é que o autor sabe que a natureza do "xadrez" é igual em todos os mundos possíveis?

    4. que mundos possíveis são esses?

    ResponderEliminar
  5. 1. a natureza de uma coisa inclui: o género de coisa que é, a sua constituição (aquilo de que é feito), a sua composição (se é composta de partes menores), a sua estrutura, a sua finalidade, etc.

    2. no caso do xadrez, não faz sentido perguntar de que matéria é feito, uma vez que se trata de uma entidade abstracta. o jogo de xadrez não é a soma de todos os jogos jogados com tabuleiros ou desenhos ou computadores ou até só mentalmente, em que os jogadores apenas anunciam as jogadas entre si e imaginam o tabuleiro.
    portanto, a natureza do xadrez é ser um jogo de tabuleiro, com uma certa configuração (64 quadrículas de cor alternada, em 8 colunas e 8 linhas), um certo conjunto de peças, um certo conjunto de regras, e uma finalidade ou objectivo.

    3. pela mesma razão que a natureza da prata é a mesma em todos os mundos possíveis. um mundo possível em que a prata tivesse o número atómico 48 não seria um mundo possível em que a prata (a mesma coisa) teria um número atómico diferente. seria um mundo onde se chamaria "prata" ao cádmio.
    no caso do xadrez pode-se levantar uma objecção história: outros jogos diferentes do xadrez actual estiveram na sua origem, e foi a partir da sua modificação que este surgiu.
    a esta objecção pode-se responder que confunde o processo de descoberta do jogo com o próprio jogo. os antecessores do xadrez não outros jogos, que também têm a mesma natureza em todos os mundos possíveis nos quais existam com outro nome ou nos quais não inspirem os habitantes desse mundo a descobrir/criar um jogo de tabuleiro como o xadrez actual.
    podia perfeitamente dar-se o caso de um jogo mais semelhante ao xadrez actual estar na origem de jogos mais semelhantes aos antepassados do xadrez. seria um mundo possível com uma "história do xadrez" invertida.


    4. os mundos possíveis são apenas um modo de tornar claro o pensamento contrafactual, imaginando "situações alternativas maximamente abrangentes". por exemplo, quando imaginamos um conjunto máximo de situações alternativas, no qual a segunda guerra mundial não ocorre, por exemplo, ou um tal conjunto de situações em que a URSS só cai em 2005, estamos a imaginar um mundo possível.

    ResponderEliminar
  6. em 1. quando menciono "o género de coisa que é", refiro-me a ser um particular concreto (ou um objecto físico), uma entidade abstracta, uma entidade mental, um acontecimento, etc.

    ResponderEliminar
  7. a diferença entre constituição e composição, a que também aludo é a seguinte: um relógio é composto de n partes (engrenagens, molas, etc.) e é constituído por uma certa liga metálica, ou um agregado de substâncias diferentes.
    ou uma estátua de bronze: o cavalo, o cavaleiro, as patas do cavalo, a espada que o cavaleiro segura, são todas partes da estátua, que é constituída por um agregado de bronze.

    ResponderEliminar
  8. não sei o que raios aconteceu em 3. os dedos pensam por si.

    "os antecessores do xadrez não outros jogos"

    o que devia estar é: "os antecessores do xadrez eram outros jogos"

    ResponderEliminar
  9. suponhamos que no mundo possível em que se chamaria "prata" ao cádmio, havia um elemento, com o número atómico 47, ao qual se chamava "zingarelho". esse mundo possível seria um mundo onde aquilo a que chamamos "prata" no nosso mundo teria exactamente a mesma natureza que tem no nosso mundo. simplesmente chamar-lhe-iam "zingarelho".

    é importante não confundir "numero atómico" com uma certa posição na tabela de Mendeleev. essa tabela é contingente, porque os elementos podiam estar organizados de outra forma, com outros nomes, etc. por "número atómico 47" entende-se aquela propriedade que tudo aquilo que é prata tem, e nada que não seja prata pode ter, independentemente de lhe chamarmos "número atómico" e de usarmos numeração árabe.

    assim, no caso do xadrez, qualquer mundo possível onde haja um jogo que tenha exactamente a mesma natureza que o xadrez tem no nosso mundo, mesmo que lhe chamem "jogo do zingarelho", será um mundo possível em que o xadrez tem a mesma natureza que tem neste mundo. apenas não se chama "xadrez".

    ResponderEliminar
  10. ainda na objecção histórica:

    os outros jogos que hipoteticamente estiveram na origem do xadrez não deixaram de existir para dar lugar ao xadrez, do mesmo modo que um objecto físico pode sofrer mudanças qualitativas ao longo do tempo, dando lugar a um objecto qualitativamente diferente do objecto original.

    todos os jogos que sejam antepassados do xadrez ainda existem, no sentido de que, desde que conheçamos a sua estrutura e finalidade, podemos jogá-los agora e em qualquer momento do tempo.

    ResponderEliminar
  11. 2. "no caso do xadrez, não faz sentido perguntar de que matéria é feito, uma vez que se trata de uma entidade abstracta."

    mas se tem tabuleiro, peças, um conjunto de regras e uma finalidade como pode ser uma entidade abstracta?

    4. se bem percebi, os mundos possíveis são mundos onde tudo é possível e tudo faz sentido, independentemente de qualquer prova, certo? tipo: num mundo possível não há cisnes negros.

    ResponderEliminar
  12. ... mas se fosse a "mesma" coisa a sofrer mudanças ao longo do tempo para dar origem àquilo a que hoje chamamos "xadrez", seria de esperar que os "antepassados" já não existissem, tal como os estados anteriores de um objecto físico já não existem.
    creio que isto derrota a objecção acerca da "historicidade" do xadrez, e também põe em causa muitas objecções à ontologia da arte que assentam em pouco mais que o poder mágico da palavra "historicidade".
    a historicidade não é da natureza do xadrez e sim do processo de descoberta, dos estados de crenças, etc., dos indivíduos. é aí que encontramos o análogo "xadrezístico" dos tais estados anteriores do objecto físico, que deixaram de existir.

    peço desculpa pela torrente de comentários.

    ResponderEliminar
  13. 2. no mesmo sentido em que a palavra "oboé" não é feita de tinta, pois pode ser instanciada por inscrições com tinta, giz, pixeis, ou pode ser proferida, vocalmente. não faz também sentido dizer que a palavra é feita de tinta, giz, pixeis e voz. a palavra-tipo é um abstracto. só as palavras-espécime é que são agregados de tinta, giz, pixeis ou fonemas.

    4. os mundos possíveis não são mundos onde tudo é possível. podemos é perguntar se há um mundo possível onde tudo é possível (não creio).
    por exemplo, acabei de chegar da rua e descalço os sapatos. mas podia não tê-los descalçado... ou podia? quando perguntamos se há um mundo possível onde eu não descalcei os sapatos naquele momento, estamos apenas a perguntar se eu podia não ter descalçado os sapatos naquele momento. a diferença é que usamos uma linguagem muito mais clara e útil, quando o nosso pensamento acerca das características modais das coisas - possibilidade, necessidade, contingência - se torna mais complicado.
    a confusão vem de interpretar os mundos possíveis como entidades "reais" e não como apenas um modo útil de falar ou de clarificar o discurso sobre propriedades modais das coisas.

    ResponderEliminar
  14. os mundos possíveis são apenas "histórias alternativas" da nossa realidade.

    assim, se x existe necessariamente, dizemos que "existe em todos os mundos possíveis".

    se x existe contingentemente, dizemos que "existe no mundo actual (efectivo), mas não em todos os mundos possíveis"

    se x existe possivelmente, dizemos que "existe em pelo menos um mundo possível"

    se x é impossível, dizemos que "não existem em mundo possível algum"

    esta linguagem, à medida que o nosso raciocínio contrafactual se for tornando cada vez mais complicado, ajuda imenso a manter a clareza. e ajuda a clarificar noções como a de "possibilidade relativa" vs "possibilidade absoluta", entre outras coisas.

    ResponderEliminar
  15. substitua-se "raciocínio contrafactual" por "raciocínio modal", no comentário anterior. é mais correcto. o raciocínio contrafactual é apenas acerca do que podia ser mas não é, ao passo que o raciocínio modal é acerca disso e de outras coisas, como o que tem de ser, o que pode ser, e o que tem de não ser.

    ResponderEliminar
  16. tipicamente, os mundos possíveis de que falamos são mundos "próximos" do nosso, por contraste com mundos onde existe Terra Média, Gondor, e hobbits, e esse género de coisas. alguns mundos ficcionais da literatura são claramente mundos possíveis, pois pouco diferem do nosso. é contingente que os acontecimentos descritos nessas ficções não tenham ocorrido efectivamente no nosso mundo.
    outros mundos ficcionais, como o de Tolkien, não são assim.

    ResponderEliminar
  17. estou um bocado confuso com as suas explicações. baralhado mesmo. mas obrigado.

    ResponderEliminar
  18. Link actualizado do artigo: http://criticanarede.com/musicasocial.html

    ResponderEliminar