14 de dezembro de 2010

Perguntas sem respostas

Muitas pessoas com frequência perguntam sobre qual o sentido de discutir um problema se a discussão nunca vai ter um fim, se ninguém vai ganhar a disputa. Ter dificuldade em compreender a importância de perguntas sem respostas equivale a, na matemática, não saber fazer regras de três simples. Por acaso na matemática isto é mais ou menos escandaloso, mas na filosofia parece não gozar do mesmo estatuto. Arrisco a afirmar que tal se explica porque a ignorância em filosofia é ainda muito maior que a ignorância em matemática. Mas também existe outra razão curiosa: é que quando estudamos matemática raramente sabemos para que servem os exercícios que estamos a fazer. Se procurarmos dar um pouco de atenção ao mundo que nos rodeia, isto de haver uma sabedoria sem respostas como a filosofia não devia até ser assim tão estranho. Quase toda a sabedoria se faz de questões e não de respostas e as respostas são sempre provisórias para a dimensão do que se pergunta. Se eu sei que neste momento estou a escrever com um ecrã de computador à minha frente, isso são dados suficientes para eu saber alguma coisa, mas ainda assim poderia aqui colocar algumas questões que abalavam esta minha noção de que eu estou a  escrever num ecrã de computador. Eu posso estar a sonhar. Ou eu posso estar a ser comandado por um programa informático sem o saber. O meu cérebro pode estar a ser manipulado por um ser mais inteligente que eu que lhe introduz informações, como esta de que estou sentado a escrever em frente a um ecrã de computador. Aceito que este exercício não é fácil de fazer, mas quem é que disse que pensar é fácil?
Este é outro aspecto que quero referir. Como chegamos então a fazer este tipo de reflexões? Há inúmeras explicações que ultrapassam a filosofia. Há pessoas que são mais curiosas que outras e não sei sequer se isso pode ser geneticamente explicado. Mas há uma coisa que sei, que o método mais seguro para pensar alguma coisita é a leitura. A leitura em filosofia não é passiva, mas activa. E é assim que a maioria das pessoas aprende a fazer filosofia e compreende problemas como a importância de um saber sem respostas, ou de discutir um problema para o qual sabemos de que não existe uma solução última.
Um outro aspecto ainda a destacar é que a maioria dos problemas, mesmo os científicos – e ao contrário do que muitas vezes se pensa – não têm também uma solução única. Têm é soluções provisórias e em regra uma solução de cada vez. E por outro lado é também ilusório pensar que os problemas da filosofia não têm solução. O que eles não têm seguramente é solução testável empiricamente pela razão muito simples de que os problemas filosóficos não se resolvem com testes na experiência. Mas a experiência não é a prova dos nove dos problemas e da sua importância. Até pelo menos Galileu não existia esta concepção de ciência que hoje temos. E durante muitos séculos ciência significava antes de tudo discussão activa de ideias, daí que muitas vezes se chamasse ciência à filosofia e à metafísica.
Tudo o que há a fazer para quem não compreende esta noção elementar da filosofia e da vida dos seres humanos porque não teve formação adequada em filosofia, é ler os livros que vão aparecendo no mercado e que nos elucidam melhor que os meus posts sobre estes assuntos. Sem leitura continuamos na mesma.
Para começar fica AQUI uma sugestão.

6 comentários:

  1. Há ainda uma outra confusão que seria importante esclarecer: é que se confunde com demasiada frequência a nossa incapacidade pessoal ou colectiva para, em tempo útil e sem grande esforço, obter uma resposta verdadeira ou consensual para det...erminadas questões, e a pura e simples impossibilidade cognitiva humana de o fazer; ou, o que é pior ainda, com a inexistência objectiva dessas mesmas respostas, como se a incapacidade humana de as alcançar, seja ela provisória e condicional ou absoluta e definitiva, implicasse necessariamente a inexistência de uma verdade objectiva independente do que possamos ou não saber. O mais dramático - ou o mais trágico, talvez -, mas também por isso o mais estimulante na aventura filosófica de tentar encontrar as respostas para as questões fundamentais consiste provavelmente no facto de nem mesmo podermos ter essa certeza de que não podemos saber a verdade sobre certas questões ou problemas, podendo depois descansar à sombra da bananeira tranquilamente seguros de que não vale a pena tentar porque é impossível conseguir. A crença do Fox Mulder dos Ficheiros Secretos de que a verdade está algures por aí parece-me, neste particular, mais filosófica e heurística do que a crença oposta de que existem perguntas sem resposta. Talvez existam, talvez não, mas só tentando poderemos saber qual é o caso (ou não). Ou estarei errado?

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  2. Só mais um ponto de vista...
    Na matemática que se deveria de ensinar nas escolas primárias e secundárias, só não se sabe porque raio se fazem os exercícios, pela total incapacidade pedagógica dos programas e desleixo dos professores.
    Porque (ao contrário da filosofia?), os exercícios de matemática destes níveis de ensino, têm uma razão prática simples e objectiva, e servem para a resolução diária de muitos problemas.
    Se assim não fosse, seria mais difícil enganar "o povo" com números, argumentando que estes são relativos...!!!

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  3. De acordo com o texto, se não lermos ficamos na mesma. Supondo que Sócrates nunca tenha lido um livro sequer, e tenha passado a sua vida tendo conversas com pessoas pelas ruas, seria ele uma pessoa que não obteve conhecimento algum? Que tenha "ficado na mesma"?

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  4. Caro Bruno,
    Na minha opinião o Bruno tem razão. Não é uma condição suficiente ler para organizar a discussão filosófica. O mesmo se passa até em qualquer área do saber. Muitos amadores deram grandes contributos. Do mesmo modo o Bruno me poderia dizer que ler muita filosofia também não significa que se saiba fazer filosofia. Conheço muita gente que leu menos filosofia que eu e sabe fazer melhor filosofia que eu :-) Por essa razão eu referi que, ainda assim, o melhor método que conheço para lá chegar é a leitura, mas daí não se segue a sua conclusão, que é o único método. Eu tive esse cuidado no texto.
    Obrigado

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  5. como raios é que se pode saber que uma pergunta não tem resposta, apenas com base na ideia de que muitas pessoas pensaram no assunto e não encontraram resposta?

    essa visão popularucha das coisas pressupõe inclusive que todos problemas que efectivamente resolvemos ao longo da história foram resolvidos imediatamente, o que é falso.

    é esta mesma mentalidade que vê um gadget qualquer dos que se compram às dúzias nas lojas de electrodomésticos, não como um produto de toda a ciência anterior, mas como o resultado de alguém ter injectado dinheiro na fábrica que fez o gadget. é este género de pensamento bronco que depois diz: corte-se tudo e fique só a fábrica com os gajos que fizeram o gadget lá dentro.
    este modo de pensar, numa sociedade que apenas consome passivamente o conhecimento que outros produzem, até dá a ilusão de funcionar.

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  6. a ignorância vence sempre: a natureza mata os sábios e faz nascer ignorantes ;)

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