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Perguntas sem respostas

Muitas pessoas com frequência perguntam sobre qual o sentido de discutir um problema se a discussão nunca vai ter um fim, se ninguém vai ganhar a disputa. Ter dificuldade em compreender a importância de perguntas sem respostas equivale a, na matemática, não saber fazer regras de três simples. Por acaso na matemática isto é mais ou menos escandaloso, mas na filosofia parece não gozar do mesmo estatuto. Arrisco a afirmar que tal se explica porque a ignorância em filosofia é ainda muito maior que a ignorância em matemática. Mas também existe outra razão curiosa: é que quando estudamos matemática raramente sabemos para que servem os exercícios que estamos a fazer. Se procurarmos dar um pouco de atenção ao mundo que nos rodeia, isto de haver uma sabedoria sem respostas como a filosofia não devia até ser assim tão estranho. Quase toda a sabedoria se faz de questões e não de respostas e as respostas são sempre provisórias para a dimensão do que se pergunta. Se eu sei que neste momento estou a escrever com um ecrã de computador à minha frente, isso são dados suficientes para eu saber alguma coisa, mas ainda assim poderia aqui colocar algumas questões que abalavam esta minha noção de que eu estou a  escrever num ecrã de computador. Eu posso estar a sonhar. Ou eu posso estar a ser comandado por um programa informático sem o saber. O meu cérebro pode estar a ser manipulado por um ser mais inteligente que eu que lhe introduz informações, como esta de que estou sentado a escrever em frente a um ecrã de computador. Aceito que este exercício não é fácil de fazer, mas quem é que disse que pensar é fácil?
Este é outro aspecto que quero referir. Como chegamos então a fazer este tipo de reflexões? Há inúmeras explicações que ultrapassam a filosofia. Há pessoas que são mais curiosas que outras e não sei sequer se isso pode ser geneticamente explicado. Mas há uma coisa que sei, que o método mais seguro para pensar alguma coisita é a leitura. A leitura em filosofia não é passiva, mas activa. E é assim que a maioria das pessoas aprende a fazer filosofia e compreende problemas como a importância de um saber sem respostas, ou de discutir um problema para o qual sabemos de que não existe uma solução última.
Um outro aspecto ainda a destacar é que a maioria dos problemas, mesmo os científicos – e ao contrário do que muitas vezes se pensa – não têm também uma solução única. Têm é soluções provisórias e em regra uma solução de cada vez. E por outro lado é também ilusório pensar que os problemas da filosofia não têm solução. O que eles não têm seguramente é solução testável empiricamente pela razão muito simples de que os problemas filosóficos não se resolvem com testes na experiência. Mas a experiência não é a prova dos nove dos problemas e da sua importância. Até pelo menos Galileu não existia esta concepção de ciência que hoje temos. E durante muitos séculos ciência significava antes de tudo discussão activa de ideias, daí que muitas vezes se chamasse ciência à filosofia e à metafísica.
Tudo o que há a fazer para quem não compreende esta noção elementar da filosofia e da vida dos seres humanos porque não teve formação adequada em filosofia, é ler os livros que vão aparecendo no mercado e que nos elucidam melhor que os meus posts sobre estes assuntos. Sem leitura continuamos na mesma.
Para começar fica AQUI uma sugestão.

Comentários

  1. Há ainda uma outra confusão que seria importante esclarecer: é que se confunde com demasiada frequência a nossa incapacidade pessoal ou colectiva para, em tempo útil e sem grande esforço, obter uma resposta verdadeira ou consensual para det...erminadas questões, e a pura e simples impossibilidade cognitiva humana de o fazer; ou, o que é pior ainda, com a inexistência objectiva dessas mesmas respostas, como se a incapacidade humana de as alcançar, seja ela provisória e condicional ou absoluta e definitiva, implicasse necessariamente a inexistência de uma verdade objectiva independente do que possamos ou não saber. O mais dramático - ou o mais trágico, talvez -, mas também por isso o mais estimulante na aventura filosófica de tentar encontrar as respostas para as questões fundamentais consiste provavelmente no facto de nem mesmo podermos ter essa certeza de que não podemos saber a verdade sobre certas questões ou problemas, podendo depois descansar à sombra da bananeira tranquilamente seguros de que não vale a pena tentar porque é impossível conseguir. A crença do Fox Mulder dos Ficheiros Secretos de que a verdade está algures por aí parece-me, neste particular, mais filosófica e heurística do que a crença oposta de que existem perguntas sem resposta. Talvez existam, talvez não, mas só tentando poderemos saber qual é o caso (ou não). Ou estarei errado?

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  2. Só mais um ponto de vista...
    Na matemática que se deveria de ensinar nas escolas primárias e secundárias, só não se sabe porque raio se fazem os exercícios, pela total incapacidade pedagógica dos programas e desleixo dos professores.
    Porque (ao contrário da filosofia?), os exercícios de matemática destes níveis de ensino, têm uma razão prática simples e objectiva, e servem para a resolução diária de muitos problemas.
    Se assim não fosse, seria mais difícil enganar "o povo" com números, argumentando que estes são relativos...!!!

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  3. De acordo com o texto, se não lermos ficamos na mesma. Supondo que Sócrates nunca tenha lido um livro sequer, e tenha passado a sua vida tendo conversas com pessoas pelas ruas, seria ele uma pessoa que não obteve conhecimento algum? Que tenha "ficado na mesma"?

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  4. Caro Bruno,
    Na minha opinião o Bruno tem razão. Não é uma condição suficiente ler para organizar a discussão filosófica. O mesmo se passa até em qualquer área do saber. Muitos amadores deram grandes contributos. Do mesmo modo o Bruno me poderia dizer que ler muita filosofia também não significa que se saiba fazer filosofia. Conheço muita gente que leu menos filosofia que eu e sabe fazer melhor filosofia que eu :-) Por essa razão eu referi que, ainda assim, o melhor método que conheço para lá chegar é a leitura, mas daí não se segue a sua conclusão, que é o único método. Eu tive esse cuidado no texto.
    Obrigado

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  5. como raios é que se pode saber que uma pergunta não tem resposta, apenas com base na ideia de que muitas pessoas pensaram no assunto e não encontraram resposta?

    essa visão popularucha das coisas pressupõe inclusive que todos problemas que efectivamente resolvemos ao longo da história foram resolvidos imediatamente, o que é falso.

    é esta mesma mentalidade que vê um gadget qualquer dos que se compram às dúzias nas lojas de electrodomésticos, não como um produto de toda a ciência anterior, mas como o resultado de alguém ter injectado dinheiro na fábrica que fez o gadget. é este género de pensamento bronco que depois diz: corte-se tudo e fique só a fábrica com os gajos que fizeram o gadget lá dentro.
    este modo de pensar, numa sociedade que apenas consome passivamente o conhecimento que outros produzem, até dá a ilusão de funcionar.

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  6. a ignorância vence sempre: a natureza mata os sábios e faz nascer ignorantes ;)

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