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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2010

História de Portugal

Rui Ramos, Bernardo de Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro apresentam uma nova e prometedora História de Portugal, a propósito da qual são aqui entrevistados por José Manuel Fernandes.

Horto-grafias

O Helder tem a paciência de comentar aqui este meu post. Posso estar enganado, mas parece-me que o Helder usa um argumento que não funciona, segundo o qual não faz mal ter incongruência ortográfica nas famílias de palavras, porque isso já existe foneticamente. Isto não parece funcionar porque há uma grande diferença: a incongruência fonética, se existe, é determinada em liberdade pelas pessoas (por exemplo, eu, e outras pessoas, pronuncio o “p” de “Egipto,” ao contrário do Helder); ao passo que a incongruência ortográfica foi decretada por lei.

O que é ridículo é fazer leis e ficar com tantas incongruências e coisas ilógicas e excepções e coisas sem sentido como se tinha sem legislação; porque, nesse caso, mais vale estar quieto. No séc. XIX a língua portuguesa era um caos pior do que hoje? Não acredito. As pessoas sabiam escrever e entendiam-se por escrito; havia jornais e escritores decentes. O que melhorou? Nada. Apenas se mudou a confusão de um lado para o outro. E esse é sempre …

Política contemporânea

Como funciona a democracia contemporânea? O seu fundamento é, supostamente, a ideia de que a discussão directa de ideias permitirá às melhores ideias, aquelas que favorecem um maior número de pessoas, ganhar o voto da maior parte das pessoas. Mas o que se verifica é que isso não acontece: o político desonesto e mentiroso mas que parece mesmo ser honesto e do povo, sem argumentos complicados nem contas e estatísticas difíceis, obtém rapidamente a preferência das populações, mesmo que as prejudique profundamente, beneficiando apenas alguns. A BBC tem aqui uma breve discussão iluminante do tema. O que pensa o leitor?

Agência Lusa adopta nova ortografia

A Agência Lusa adopta a partir de amanhã a nova e polémica ortografia da língua portuguesa. O jornal Expresso adopta também a nova ortografia e declara que
as novas normas não afectam — antes contribuem — para a clarificação da língua portuguesa.Uma dessas clarificações, presume-se, é podermos agora escrever “fato” ou “facto” para exprimir a mesma coisa, consoante nos der na gana, assim como “espetador” não para algo que espeta, mas para alguém que assiste a um espectáculo. A direcção do Expresso revela também uma imensa sapiência histórica e linguística, declarando:
não consideramos a ideia de que a ortografia afecta a fonética, mas sim o contrário.Na verdade, ocorrem as duas coisas: a ortografia afecta a fonética e a fonética a ortografia. Por exemplo, porque alguém no Brasil decidiu deixar de dizer o “c” de “facto”, alguém decidiu desatar a escrever “fato” em vez de “facto”, e porque se decidiu escrever dessa maneira, agora as pessoas no Brasil considerariam bizarro dizer “facto” —…

Filosofia da música

Vítor Guerreiro oferece-nos uma tradução do informativo artigo "Filosofia da Música", de Peter Kivy, retirado da excelente Encyclopedia of Philosophy, org. Donald M. Borchert.

Ciência, ensino, política e mentira

Sempre lúcido, eis mais um texto de Orwell, "O Que é a Ciência?"

Lógica da batata

Gostaria que os leitores se manifestassem quanto à validade ou invalidade do seguinte argumento, tanto quem sabe lógica formal como quem não sabe:

Os holandeses são mais altos do que os alemães.
Os alemães são mais altos do que os ingleses.
Logo, os holandeses são mais altos do que os ingleses.

É válido ou inválido, este argumento? (Para quem não sabe lógica, uma definição intuitiva e mínima de validade é a seguinte: um argumento dedutivo, como este, só é válido se for impossível ter premissas verdadeiras e conclusão falsa.)

A ética de Aristóteles

Acabei de publicar a minha tradução de "Viver Bem", um dos melhores textos introdutórios que li sobre a ética de Aristóteles, retirado de um dos melhores livros sobre Aristóteles: Aristotle, de Christopher Shields (Routledge, 2006).

Enigmas da existência

Acabei de rever a revisão da tradução de Vítor Guerreiro do maravilhoso Enigmas da Existência, de Earl Conee e Ted Sider, que sairá em breve na colecção Filosoficamente da Bizâncio.

Trata-se de uma introdução socrática à metafísica. "Socrática" porque não refere inúmeros filósofos; ao invés, procura fazer o leitor sentir a força das perplexidades filosóficas, ajudando-o a explorar algumas das primeiras respostas que podemos tentar dar. Pleno de raciocínio e humor, é um livro para quem gosta de pensar e tem curiosidade sobre o que afinal é isso que dá pelo nome de "metafísica".

O livro tem 10 capítulos, dedicados a 9 temas da metafísica: identidade pessoal, fatalismo, tempo, Deus, por que há algo e não nada, livre-arbítrio, constituição da matéria, universais e possibilidade. O último capítulo é sobre a natureza da própria metafísica.

O livro não oferece respostas, mas ensina a fazer perguntas e a tentar dar-lhes resposta, raciocinando intensamente. Uma pérola, n…

Língua culta?

Várias vezes tenho afirmado publicamente que a língua portuguesa não é uma língua culta. Isto, evidentemente, gera reacções de espanto e até de raiva. Porque se opõe à retórica nacionalista que dá às pessoas a ideia contrária. E Camões? Assis? Eça? Pessoa?

Muito bem, apanharam-me. Confesso que é um exagero dizer que a língua portuguesa não é culta. O que se passa é que, além das línguas meramente locais e sem produção escrita, todas as línguas são mais ou menos cultas, em vez de serem ou não cultas. Trata-se de uma linha de continuidade do menos para o mais culto, e não de uma descontinuidade entre o culto e o inculto, o tudo e o nada.

Se pensarmos desta maneira, a língua portuguesa está logo no início dessa linha, entre as mais incultas do planeta. Porquê? Porque a produção científica e cultural na língua portuguesa é diminuta. Claro que a generalidade das pessoas, consumidoras de futebol, novelas e jornais, não se dão conta da situação. Mas mal se entra um pouco mais fundo em qualq…

Impessoal e reflexivo, de novo

Já falei nisto, mas insisto. Há uma diferença óbvia entre “A Joana pode vestir-se” e “A Joana pode-se vestir.” No primeiro caso, trata-se de ela poder vestir-se a si mesma, presumivelmente por ser uma pessoa saudável. No segundo caso trata-se de afirmar o mesmo que a passiva “A Joana pode ser vestida”, que quer dizer o mesmo que “Alguém pode vestir a Joana.” O que está em causa é uma certa confusão entre verbos reflexivos e o impessoal.

Do meu ponto de vista, está correcto dizer “Pode-se argumentar que...”, pois isto é apenas o impessoal de “Podemos argumentar que...”; e está incorrecto o reflexivo "Pode argumentar-se que...", pois não faz sentido que um argumento se argumente a si mesmo.

Note-se também que quem não aceita o meu argumento fica sem oportunidade para escrever “poder-se-ia”, o que seria estranho.

Trata-se de um pormenor, mas a vida intelectual sofisticada é feita de pormenores.

A inteligência das coisas que me deste

Alguns leitores da Crítica saberão que os objectos mais pesados não caem mais depressa do que os mais leves, ao contrário do que nos diz a intuição. O que talvez muitos deles não saibam é que é possível demonstrar que a própria ideia de que os objectos mais pesados caem mais depressa do que os mais leves é muitíssimo implausível, por pura análise conceptual, ou seja, raciocinando filosoficamente. Alguém é capaz de o fazer? (O título deste artigo é uma citação do Poema para Galileu, de António Gedeão.)

Earl Conee & Theodore Sider

Os filósofos académicos procuram ser tão racionais quanto possível nos seus textos. Criticam as ideias uns dos outros impiedosamente na procura da verdade. Isto dá lugar a controvérsias em vez de apaziguadoras certezas — e algumas pessoas não gostam disto. O que é também uma pena. As controvérsias são divertidas e esclarecedoras. A Filosofia é uma busca intelectual, com regras rigorosas concebidas para nos ajudar a compreender o que é realmente verdade.

Canetas na Lua

O resultado do inquérito feito aos leitores da Crítica não é estatisticamente relevante, pois dos cerca de 1700 visitantes diários, só 107 pessoas responderam. Mesmo assim, é interessante notar que 26% dos leitores (28 pessoas) estão convencidos de que se largarmos uma caneta na Lua, esta fica a flutuar em vez de cair como na Terra. (E 7 leitores pensam que a caneta irá flutuar para o espaço.) A resposta correcta é que a caneta cai, mas mais devagar do que na Terra porque a força da gravidade é menor na Lua do que na Terra.

Resolvi fazer este inquérito por ter lido aqui que numa aula de filosofia um professor declarou precisamente que na Lua uma caneta largada ficaria a flutuar, tendo só um ou outro aluno protestado que isto era falso. Achei curioso um professor de filosofia fazer tal erro por duas razões.

Primeiro, porque revela falta de capacidade para analisar outros factos que ele de certeza conhece: que os astronautas não andavam a flutuar na Lua — caiam, mas mais devagar do qu…

Filosofia da música

Paul Griffiths, em tradução de Vítor Guerreiro, esclarece brevemente o que é a filosofia da música.

Reedições 70

Está já disponível a muito antecipada reedição da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, de Immanuel Kant, em tradução do alemão de Paulo Quintela e com uma nova introdução de Pedro Galvão. A 70 anuncia igualmente a reedição de Górgias, de Platão, com tradução do grego de Manuel Oliveira Pulquério.

Anselmo de novo

Santo Anselmo (1033-1109) é entendido de maneiras completamente diferentes no livro de Costa Macedo, de que acabo de publicar uma recensão de Helena Costa, e por Pedro Merlussi aqui. O que pensa o leitor?

Existe um paradoxo com as teses do determinismo e livre arbítrio?

Um paradoxo resulta quando duas hipótese igualmente evidentes conduzem a resultados aparentemente inconsistentes. O determinismo é a tese da causalidade universal, a que defende que tudo no universo é causado. Por outro lado, a tese do livre arbítrio defende que somente algumas acções são determinadas causalmente. Ambas as teses nos parecem verdadeiras. Acreditamos, por um lado, que tudo no universo é causado, mas, ao mesmo tempo, que algumas das nossas acções não são determinadas. Mas neste caso nem tudo é causado, já que algumas acções são indeterminadas. Estaremos perante um paradoxo? Que pensa o leitor?

Conheça a BetterWorldBooks e suas promoções

A BetterWorldBooks vende livros online para financiar projetos de alfabetização mundial. Com mais de seis milhões de livros novos e usados no estoque, é um negócio com propósitos filantrópicos que deu certo: não só dá lucros para seus parceiros investidores como gera lucro social com o seu impacto positivo em projetos de alfabetização espalhados pelo mundo. A empresa recolhe livros usados em uma rede de mais de 1.800 campos universitários e também possui parceira com mais de 2.000 bibliotecas nos Estados Unidos. Além dos preços em conta, a Better tem dois diferenciais com relação aos outros sites que vendem livros usados como a AbeBooks: o frete, que é de apenas 3 dólares e 97 centavos para qualquer parte do mundo, e as promoções. A última promoção imperdível é de que na compra de cinco livros com o selo “Bargain Bin Blowout” você paga apenas 15 dólares. Aproveite!

Ciência

A Loyola acaba de publicar a Introdução à Filosofia da Ciência de Alex Rosenberg, originalmente publicada na colecção Routledge Contemporary Introductions. Uma óptima notícia!

Parafernália filosófica

Algumas pessoas queixam-se que a filosofia é muito abstracta. Em resposta a esta queixa pensei fazer uma listagem dos adereços concretos da filosofia. Lembrei-me logo do burro de Buridano, que tem uma certa concretude de peso, e da navalha de Ockham, que dá muito jeito aos filósofos hirsutos. Além disso, não podemos esquecer a guilhotina de Hume, que dá sempre jeito em tempos de revolução, e também da sua bifurcação (fork, por vezes mal traduzido por forquilha — o que é pena, porque dava jeito ter mais esta concretude na nossa parafernália). Russell, para não se ficar atrás de Ockham, falou do barbeiro de Sevilha, porque não lhe ocorreu que havia barbeiros em Londres.

Philippa Foot, contrariando o seu sobrenome, ou talvez por isso mesmo, trouxe-nos outra concretude de peso: um trólei. Nozick foi menos corajoso e apenas nos trouxe uma informe máquina de prazer, sem especificar infelizmente como funciona, para não se ficar atrás de Platão que nos legou a inesquecível caverna, mas també…

Truthmaker

O termo inglês "truthmaker" quer literalmente dizer "fazedor de verdade," e foi esta a expressão portuguesa usada pelo professor Abílio Rodrigues Filho na sua tese de doutoramento, disponível aqui. Esta expressão, contudo, soa mal em português, porque ao contrário do inglês não usamos por sistema "fazedor." Um car maker não é um fazedor de automóveis mas um fabricante de automóveis, um juice maker não é fazedor de sumos, mas uma máquina de sumos. De modo que fica a questão de saber que expressão portuguesa exprimirá melhor o conceito.

E de que conceito se trata? É muito simples: é apenas a ideia, defendida por alguns filósofos, de que algo faz as afirmações verdadeiras serem verdadeiras. Tome-se a afirmação "Hoje está calor em Ouro Preto", proferida num dado contexto de elocução, num dado momento, por um dado locutor. A ideia é que se tal afirmação for verdadeira, então há algo que a faz verdadeira -- nomeadamente, o calor de Ouro Preto. Claro …

Música e metafísica

Qual é a relevância da metafísica da música? É uma área particular da filosofia da arte, ou é apenas metafísica geral? A resposta de Vítor Guerreiro está aqui. E o que pensa o leitor?

Os diários de Orwell

Tertúlia da Crítica

Gostaria de lançar um repto aos leitores deste blogue, talvez abusando do espaço que aqui me foi facultado:

E que tal se organizássemos uma tertúlia da Crítica?

O que tenho em mente é um pequeno grupo de pessoas interessadas em estudar / aprofundar alguns temas filosóficos que se encontre uma vez por mês para os discutir.

Para cada encontro o tema seria acordado antecipadamente, devendo cada participante prepará-lo com algum estudo e leituras prévias. Poderíamos aproveitar este blogue para ir apresentando algumas ideias, sugestões de leitura ou uma pequena discussão prévia. Poderíamos para isso criar um post para cada encontro.

No final, apresentaríamos alguns comentários aqui no blogue. Poderíamos, eventualmente, escrever um artigo para publicação na Crítica.

Não são necessários muitos participantes, entre 3 e 5 seria o ideal. Eu estou na região da grande Lisboa. Se houver mais interessados ou noutras zonas podem-se organizar mais grupos.

O que dizem? Há interessados?

Canetas na Lua

Se largarmos uma caneta na Lua, o que acontece? Fica suspensa? Cai ao chão? Perde-se no espaço? Responda no inquérito ao lado e depois abrimos a discussão.

Zangado com a publicidade

A publicidade é quase toda uma mentira. E online ainda é pior. Infelizmente, não há outra maneira de financiar as publicações na Internet excepto através da publicidade, porque as pessoas não gostam de pagar para ler. O aparecimento recente de publicidade de extremo mau gosto nas páginas desta revista levou-me à decisão radical temporária de retirar toda a publicidade. Caso o leitor não saiba, eu não tenho meio de controlar que tipo de publicidade surge nas páginas da Crítica. Apelo por isso à sua ajuda: faça um donativo ou uma subscrição voluntária da Crítica, para ajudar a manter esta revista. Obrigado!

Faleceu Miep Gies

Miep Gies, uma mulher que sempre me impressionou pela lucidez e dignidade da sua pura bondade, em tempos de delírio nazi, faleceu ontem aos 100 anos, de uma queda fatal. Miep Gies nasceu a 15 de Fevereiro de 1909 e ajudou até ao fim a família de Anne Frank a viver escondida no anexo que se tornou famoso depois de publicado o seu impressionante diário, leitura que recomendo vivamente. Pessoas como Miep Gies salvam a humanidade da vergonha que foi o delírio nazi. E provam que o que há que pensar não é a óbvia banalidade do mal, diagnosticada por Arendt, mas antes a banalidade do bem: a bondade comum, que não é heróica nem pública, mas quotidiana e tranquila.

Miep Gies, não te esqueci desde que te conheci aos treze anos.

Ficção científica ou delírio económico?

O chamado "paradoxo de Fermi," não sendo um paradoxo no sentido rigoroso do termo, formula uma perplexidade natural: se a expansão cósmica de uma civilização é expectável e se há outros seres extraterrestres inteligentes, como parece provável, onde raio estão eles? Dada a idade da nossa galáxia apenas, seria de esperar que já tivéssemos contactado com tais civilizações, pois a sua expansão cósmica seria exponencial: partindo de um civilização num planeta, esses seres expandir-se-iam para um ou dois planetas, desses dois para mais um ou dois — e assim por diante, exponencialmente ao longo dos milénios. Mas eles não estão aqui. E é a esta perplexidade que se chama o "paradoxo de Fermi."

Em "The Sustainability Solution to the Fermi Paradox," Jacob D. Haqq-Misra e Seth D. Baum argumentam que o paradoxo se resolve pondo em causa a ideia de que a expansão cósmica é sustentável, em termos energéticos e ecológicos. Se não o for, então não é de espantar que na ga…

Uma mentira que urge denunciar

Uma mentira política comum é Portugal é que estudar não dá dinheiro. Isto já foi matematicamente demonstrado que é falso, mas continua-se a dizer o mesmo. Leia-se aqui o que se passa, e veja-se a tabela seguinte, do Instituto Nacional de Estatística, ine.pt:


Ortografia, de novo

Helder Guégués refere aqui um artigo de Francisco Miguel Valada publicado hoje no Público de hoje sobre o acordo ortográfico. Trata-se de um conjunto de argumentos para mostrar que a reforma ortográfica está linguisticamente mal feita. Isto é algo que praticamente todos os linguistas afirmam, incluindo os que defendem a unificação ortográfica da língua portuguesa.

Para não haver dúvidas, as minhas posições são as seguintes:
Para termos uma ortografia oficial, não precisamos de mudar a ortografia — essa é a mentira política dos defensores do acordo ortográfico. Precisamos apenas de sancionar oficialmente as ortografias existentes, ou escolher uma delas como a ortografia oficial da ONU.As ortografias, como a gramática, o léxico e a fonética, não devem ser mudadas por decreto, mas sim pelo uso.Mudar as ortografias não serve qualquer propósito benéfico.Mudar as ortografias é maléfico porque viola o direito que os lusófonos têm de conseguir ler o seu legado linguístico. Isto é particularme…

A verdade, finalmente

Contra a hipocrisia generalizada que se seguiu aos ataques terroristas de 11 de Setembro e que fez intelectuais e políticos europeus fazer chichi nas calças e passar por isso a defender indefensáveis limites à liberdade de expressão para não ofender pessoas religiosas, levanta-se finalmente uma voz para repor a verdade, sem hipocrisias: Henryk M. Broder.

Kenny sobre Russell sobre Tomás de Aquino

Todos os que estudam Tomás de Aquino estão em dívida para com o papa Leão, pelo estímulo que a sua encíclica deu às edições eruditas da Suma e de outras obras. Mas a promoção do santo a filósofo oficial da Igreja também teria um efeito negativo. Impediu o estudo filosófico de São Tomás pelos filósofos não católicos, nada atraídos por alguém que foram levados a ver como mero porta-voz de um determinado sistema eclesiástico. O problema agravar-se-ia quando Pio X, em 1914, seleccionou vinte e quatro teses da filosofia tomista, para que fossem ensinadas nas instituições católicas.
Bertrand Russell, na sua História da Filosofia Ocidental, resume a reacção laica à canonização da filosofia de São Tomás: «Havia muito pouco de verdadeiro espírito filosófico em Tomás de Aquino: ele não podia, como Sócrates, dar seguimento a um argumento, até onde quer que este pudesse chegar, uma vez que conhecia de antemão a verdade, toda ela declarada na fé católica. Arranjar argumentos para uma conclusão que …

música e emoções

A associação quase universal entre música e emoções na cultura musical europeia parece dever algo à contra-reforma, em particular nas decisões tomadas no concílio de Trento (1545-1563) de restringir os "excessos" dos compositores no que diz respeito ao uso da polifonia (cruzamento de diversas melodias independentes). A complexidade das composições vocais litúrgicas neste período secundarizava a importância dos textos cantados e da "mensagem" que continham. O prolongamento das sílabas para servir os jogos contrapontísticos tornava a compreensão dos textos quase impossível ao ouvinte. Isto era um problema para os teóricos do catolicismo, que ecoavam as preocupações dos padres da igreja dos primeiros séculos relativamente à música no serviço litúrgico: as posições oscilavam entre a tolerância e a condenação. Mesmo Agostinho, que escreveu um tratado em seis livros sobre rítmica, intitulado De Musica, nunca tendo concretizado o projecto de escrever mais seis livros sobr…

Filosofia do direito

Acabo de publicar aqui uma recensão de Lucas Miotto Lopes do livro Philosophy of Law, de Mark C. Murphy.

Mentiras ortográficas

José Mário Costa defende aqui o acordo ortográfico e insurge-se contra o editorial do Público que citei aqui. E diz que quer pôr os pontos nos is. E põe, num certo sentido. Mostra que o acordo ortográfico é uma mentira política.

Afirma, sem provas, que só há uma ortografia inglesa oficial, e não várias, como toda a gente sabe. Poderia ter esclarecido melhor as coisas, mas esta ambiguidade favorece a mentira. E qual é a mentira? É esta: fazer reformas ortográficas é diferente de fazer acordos ortográficos. Os reformistas aproveitam a pretensa necessidade política, internacional, de ter uma ortografia oficial para mudar a ortografia à maneira deles.

Vejamos a confusão conceptual. O que quer dizer José Mário Costa quando afirma que só há uma ortografia inglesa oficial? As pessoas lêem isto e pensam que significa que as palavras inglesas se escrevem todas da mesma maneira em todos os países anglófonos, e que essa é a ortografia usada na ONU. Isto é falso. Mas, claro, ele não disse litera…

Coisas boas no mundo

Sigo um blog português inacreditavelmente bom: “Comer Bem Até aos 100”, da nutricionista Ana Carvalhas Coimbra. Ela faz divulgação científica de qualidade numa linguagem acessível. Hoje, deu-me a conhecer o incrível Sense About Science: um serviço público britânico que nos dá informações fidedignas, desmontando as muitas falsidades pseudocientíficas que circulam nos meios de comunicação. Há coisas boas no mundo! Obrigado, Ana!

Russell sobre a religião

Não estou interessado no costumeiro debate de taberna que ocorre nos blogs sobre a existência de Deus, porque não há probidade intelectual nem de um nem do outro lado, em geral -- o debate é encarado como se fosse um jogo de futebol, para ver quem mete mais golos. Por isso não usem este excerto para trazer esse falso debate para este blog. Mas é interessante ver Russell a explicar por que razão é ateu.

Casamento entre pessoas de sexo diferente

Em Portugal prossegue uma atarantada "discussão" pública sobre a legalização dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Ora, isto parece-me um passo atrás. O que se devia fazer era acabar com os casamentos entre pessoas de sexos diferentes, pelas razões memoravelmente invocadas por Gabriel García Márquez em Amor nos Tempos de Cólera: como podem duas pessoas com personalidades diferentes, de famílias diferentes e até de sexos diferentes viver em conjunto harmoniosamente?

Uma hipótese política

Acabei de publicar o meu polémico artigo de opinião O Fim da Política. Está aberta a discussão.

O marxista capitalista

Você é marxista? Então chegou a hora de assumir que o seu maior aliado é o capitalista. Isto porque se é marxista, está preocupado com os mais pobres: quer, do fundo do seu coração, retirar os pobres da pobreza, dar-lhes uma vida condigna, com uma casa bonita, água potável, electricidade, acesso ao ensino, automóvel, férias pagas, acesso à assistência médica de qualidade. Numa palavra, você quer dar riqueza aos mais carenciados.

Marx via nos capitalistas um inimigo dos mais carenciados porque vivia numa época em que a quase totalidade dos produtos produzidos pelos capitalistas eram bens de primeira necessidade. Isso dava aos capitalistas um certo desinteresse pelas condições económicas dos mais carenciados, porque olhava para eles apenas como trabalhadores, e não como potenciais clientes.

Mas tudo isso mudou. Hoje em dia a maior parte dos capitalistas ganham dinheiro vendendo bens e serviços supérfluos, que só compra quem já tem as suas necessidades básicas garantidas e tem além diss…

Zizek sobre a política contemporânea

Fiquei bem impressionado com o Slavoj Zizek (é preciso ver as três partes para se compreender bem). Sendo atacado por defender o comunismo estalinista, defende-se atacando o estalinismo. Isto pode parecer conversa fiada da parte dele, e em parte é, mas esconde outra coisa. O que ele quer dizer é que a democracia contemporânea, com o seu sistema económico, não é uma saída viável para quem, como os comunistas, sonhavam com um futuro brilhante, em que toda a gente participaria dos destinos da sociedade, de igual para igual. Ele tornou-se pessimista, por perceber que as pessoas não estão interessadas na vida pública, mas apenas na vida privada. Só que ele vê isso como um problema, sem compreender que isso é um problema para ele apenas, mas não para as pessoas em geral. A maior parte das pessoas não está interessada na vida pública. E qual é o problema disso? Quanto mais depressa nos adaptarmos a essa ideia, melhor. Pelo menos, deixaremos de falar no enfado da cidadania, da democracia par…