31 de janeiro de 2010

História de Portugal

Rui Ramos, Bernardo de Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro apresentam uma nova e prometedora História de Portugal, a propósito da qual são aqui entrevistados por José Manuel Fernandes.

30 de janeiro de 2010

Horto-grafias

O Helder tem a paciência de comentar aqui este meu post. Posso estar enganado, mas parece-me que o Helder usa um argumento que não funciona, segundo o qual não faz mal ter incongruência ortográfica nas famílias de palavras, porque isso já existe foneticamente. Isto não parece funcionar porque há uma grande diferença: a incongruência fonética, se existe, é determinada em liberdade pelas pessoas (por exemplo, eu, e outras pessoas, pronuncio o “p” de “Egipto,” ao contrário do Helder); ao passo que a incongruência ortográfica foi decretada por lei.

O que é ridículo é fazer leis e ficar com tantas incongruências e coisas ilógicas e excepções e coisas sem sentido como se tinha sem legislação; porque, nesse caso, mais vale estar quieto. No séc. XIX a língua portuguesa era um caos pior do que hoje? Não acredito. As pessoas sabiam escrever e entendiam-se por escrito; havia jornais e escritores decentes. O que melhorou? Nada. Apenas se mudou a confusão de um lado para o outro. E esse é sempre o problema das coisas feitas por via legislativa no que respeita à ortografia: uma ou duas pessoas sentem que são capazes de fazer melhor do que todos os escritores e autores anteriores, do que toda uma tradição centenária, e depois usam o poder político para nos impor as suas ortografias preferidas. E isso é arrogância — que rapidamente revela os seus limites quando se começa a ver que a ortografia não ficou “mais lógica” do que antes, estando ao invés cheia do mesmo tipo de tolices que antes tinha, mas noutras palavras.

Para que isto fique claro: considero tão ridículo fazer leis para tirar o “p” de uma palavra como leis para pôr o “p” nessa mesma palavra. O ridículo é haver leis ortográficas. Mas mais ridículo ainda é haver leis ortográficas que não tornam de modo algum a ortografia “mais lógica,” seja lá isso o que for.

Muitas pessoas pensam que uma ortografia é “mais lógica” se espelhar a fonética — mas isto não é linguisticamente possível. A fonética tem ritmos de evolução próprios, e diferenças regionais próprias, muitíssimo diferentes das ortográficas. Se fôssemos por essa via, os alentejanos deveriam escrever “nã” os do norte “non” e muitos outros “não,” os brasileiros deveriam escrever “Brásiu” (os portugueses “Brasil”) e as pessoas deviam escrever “tácsi” em vez de “táxi” ou passar a pronunciar “táchi” ou passar a pronunciar “tácsa” quando falam de taxas.

Em suma, o perfeccionismo ortográfico é uma ilusão linguística e o perfeccionismo ortográfico por via legislativa é, além de uma ilusão, soberba epistémica: a ilusão de que uns quantos linguistas são capazes de fazer uma ortografia mais perfeita do que a que se foi dinamicamente construindo ao longo de gerações. E, claro, nunca conseguem fazer a prometida ortografia perfeita; fazem apenas uma ortografia diferente da anterior.

A importância dos sons da natureza

Pensava que eu era o único palerma que procura como oxigénio o silêncio e, sobretudo, os sons bonitos da natureza. Afinal, não. Há outros como eu, e que até fazem disso profissão. É o caso de Gordon Hempton.

Política contemporânea

Como funciona a democracia contemporânea? O seu fundamento é, supostamente, a ideia de que a discussão directa de ideias permitirá às melhores ideias, aquelas que favorecem um maior número de pessoas, ganhar o voto da maior parte das pessoas. Mas o que se verifica é que isso não acontece: o político desonesto e mentiroso mas que parece mesmo ser honesto e do povo, sem argumentos complicados nem contas e estatísticas difíceis, obtém rapidamente a preferência das populações, mesmo que as prejudique profundamente, beneficiando apenas alguns. A BBC tem aqui uma breve discussão iluminante do tema. O que pensa o leitor?

29 de janeiro de 2010

Agência Lusa adopta nova ortografia

A Agência Lusa adopta a partir de amanhã a nova e polémica ortografia da língua portuguesa. O jornal Expresso adopta também a nova ortografia e declara que
as novas normas não afectam — antes contribuem — para a clarificação da língua portuguesa.
Uma dessas clarificações, presume-se, é podermos agora escrever “fato” ou “facto” para exprimir a mesma coisa, consoante nos der na gana, assim como “espetador” não para algo que espeta, mas para alguém que assiste a um espectáculo. A direcção do Expresso revela também uma imensa sapiência histórica e linguística, declarando:
não consideramos a ideia de que a ortografia afecta a fonética, mas sim o contrário.
Na verdade, ocorrem as duas coisas: a ortografia afecta a fonética e a fonética a ortografia. Por exemplo, porque alguém no Brasil decidiu deixar de dizer o “c” de “facto”, alguém decidiu desatar a escrever “fato” em vez de “facto”, e porque se decidiu escrever dessa maneira, agora as pessoas no Brasil considerariam bizarro dizer “facto” — apesar de dizerem tranquilamente “factivo”, o que é estranho. Não menos estranho é a direcção do Expresso usar como argumento que nada muda foneticamente com a nova ortografia, como se mudar a fonética fosse um problema. O problema é a nova ortografia ser uma mentira política e um desastre linguístico.

O mais curioso na nota do Expresso, contudo, é o que vem depois:
O facto de a agência Lusa adoptar, a partir de amanhã, o Acordo, enquanto o Expresso, por razões técnicas (correctores e programas informáticos de edição) ainda não o fez, leva a que neste sítio na Internet coexistam as ortografias pré-acordo e pós-acordo.
Isto faz-me lembrar quando um tipo chegou ao pé de outro queixando-se da chatice de haver tantas línguas, o que não contribuía para a compreensão da humanidade. O outro então pensou cuidadosamente e resolveu o problema. Como? Com o esperanto… que é mais uma língua a acrescentar às que já existiam. Curiosa solução: para resolver o problema da existência de muitas línguas, inventa-se mais uma. Assim é a pretensa unificação ortográfica: um jornal que até hoje tinha uma só ortografia agora passa a ter duas, e desculpem lá, leitores, mas isto clarifica a língua. Uma língua que até hoje tinha duas ortografias passa agora a ter quatro: a antiga brasileira, a antiga portuguesa, e a nova ortografia, que na verdade é duas disfarçadas de uma. Elementar, meu caro Watson.

28 de janeiro de 2010

Filosofia da música


Vítor Guerreiro oferece-nos uma tradução do informativo artigo "Filosofia da Música", de Peter Kivy, retirado da excelente Encyclopedia of Philosophy, org. Donald M. Borchert.

26 de janeiro de 2010

Lógica da batata

Gostaria que os leitores se manifestassem quanto à validade ou invalidade do seguinte argumento, tanto quem sabe lógica formal como quem não sabe:

Os holandeses são mais altos do que os alemães.
Os alemães são mais altos do que os ingleses.
Logo, os holandeses são mais altos do que os ingleses.

É válido ou inválido, este argumento? (Para quem não sabe lógica, uma definição intuitiva e mínima de validade é a seguinte: um argumento dedutivo, como este, só é válido se for impossível ter premissas verdadeiras e conclusão falsa.)

25 de janeiro de 2010

A ética de Aristóteles


Acabei de publicar a minha tradução de "Viver Bem", um dos melhores textos introdutórios que li sobre a ética de Aristóteles, retirado de um dos melhores livros sobre Aristóteles: Aristotle, de Christopher Shields (Routledge, 2006).

Enigmas da existência


Acabei de rever a revisão da tradução de Vítor Guerreiro do maravilhoso Enigmas da Existência, de Earl Conee e Ted Sider, que sairá em breve na colecção Filosoficamente da Bizâncio.

Trata-se de uma introdução socrática à metafísica. "Socrática" porque não refere inúmeros filósofos; ao invés, procura fazer o leitor sentir a força das perplexidades filosóficas, ajudando-o a explorar algumas das primeiras respostas que podemos tentar dar. Pleno de raciocínio e humor, é um livro para quem gosta de pensar e tem curiosidade sobre o que afinal é isso que dá pelo nome de "metafísica".

O livro tem 10 capítulos, dedicados a 9 temas da metafísica: identidade pessoal, fatalismo, tempo, Deus, por que há algo e não nada, livre-arbítrio, constituição da matéria, universais e possibilidade. O último capítulo é sobre a natureza da própria metafísica.

O livro não oferece respostas, mas ensina a fazer perguntas e a tentar dar-lhes resposta, raciocinando intensamente. Uma pérola, na tradição de livros como Que Quer Dizer Tudo Isto?, de Thomas Nagel, e Sabedoria Sem Respostas, de Kolak e Martin.

Língua culta?

Várias vezes tenho afirmado publicamente que a língua portuguesa não é uma língua culta. Isto, evidentemente, gera reacções de espanto e até de raiva. Porque se opõe à retórica nacionalista que dá às pessoas a ideia contrária. E Camões? Assis? Eça? Pessoa?

Muito bem, apanharam-me. Confesso que é um exagero dizer que a língua portuguesa não é culta. O que se passa é que, além das línguas meramente locais e sem produção escrita, todas as línguas são mais ou menos cultas, em vez de serem ou não cultas. Trata-se de uma linha de continuidade do menos para o mais culto, e não de uma descontinuidade entre o culto e o inculto, o tudo e o nada.

Se pensarmos desta maneira, a língua portuguesa está logo no início dessa linha, entre as mais incultas do planeta. Porquê? Porque a produção científica e cultural na língua portuguesa é diminuta. Claro que a generalidade das pessoas, consumidoras de futebol, novelas e jornais, não se dão conta da situação. Mas mal se entra um pouco mais fundo em qualquer área — história, arqueologia, literatura, física, filosofia, matemática, musicologia — se vê que quase não há bibliografia original em língua portuguesa sobre estes temas. Raios, nem sequer traduzida, quanto mais original.

Por isso, continuo a afirmar rebeldemente: a língua portuguesa não é uma língua culta. Na melhor das hipóteses, está na escola primária.

24 de janeiro de 2010

Impessoal e reflexivo, de novo

Já falei nisto, mas insisto. Há uma diferença óbvia entre “A Joana pode vestir-se” e “A Joana pode-se vestir.” No primeiro caso, trata-se de ela poder vestir-se a si mesma, presumivelmente por ser uma pessoa saudável. No segundo caso trata-se de afirmar o mesmo que a passiva “A Joana pode ser vestida”, que quer dizer o mesmo que “Alguém pode vestir a Joana.” O que está em causa é uma certa confusão entre verbos reflexivos e o impessoal.

Do meu ponto de vista, está correcto dizer “Pode-se argumentar que...”, pois isto é apenas o impessoal de “Podemos argumentar que...”; e está incorrecto o reflexivo "Pode argumentar-se que...", pois não faz sentido que um argumento se argumente a si mesmo.

Note-se também que quem não aceita o meu argumento fica sem oportunidade para escrever “poder-se-ia”, o que seria estranho.

Trata-se de um pormenor, mas a vida intelectual sofisticada é feita de pormenores.

A inteligência das coisas que me deste

Alguns leitores da Crítica saberão que os objectos mais pesados não caem mais depressa do que os mais leves, ao contrário do que nos diz a intuição. O que talvez muitos deles não saibam é que é possível demonstrar que a própria ideia de que os objectos mais pesados caem mais depressa do que os mais leves é muitíssimo implausível, por pura análise conceptual, ou seja, raciocinando filosoficamente. Alguém é capaz de o fazer? (O título deste artigo é uma citação do Poema para Galileu, de António Gedeão.)

23 de janeiro de 2010

Earl Conee & Theodore Sider

Os filósofos académicos procuram ser tão racionais quanto possível nos seus textos. Criticam as ideias uns dos outros impiedosamente na procura da verdade. Isto dá lugar a controvérsias em vez de apaziguadoras certezas — e algumas pessoas não gostam disto. O que é também uma pena. As controvérsias são divertidas e esclarecedoras. A Filosofia é uma busca intelectual, com regras rigorosas concebidas para nos ajudar a compreender o que é realmente verdade.

Canetas na Lua

O resultado do inquérito feito aos leitores da Crítica não é estatisticamente relevante, pois dos cerca de 1700 visitantes diários, só 107 pessoas responderam. Mesmo assim, é interessante notar que 26% dos leitores (28 pessoas) estão convencidos de que se largarmos uma caneta na Lua, esta fica a flutuar em vez de cair como na Terra. (E 7 leitores pensam que a caneta irá flutuar para o espaço.) A resposta correcta é que a caneta cai, mas mais devagar do que na Terra porque a força da gravidade é menor na Lua do que na Terra.

Resolvi fazer este inquérito por ter lido aqui que numa aula de filosofia um professor declarou precisamente que na Lua uma caneta largada ficaria a flutuar, tendo só um ou outro aluno protestado que isto era falso. Achei curioso um professor de filosofia fazer tal erro por duas razões.

Primeiro, porque revela falta de capacidade para analisar outros factos que ele de certeza conhece: que os astronautas não andavam a flutuar na Lua — caiam, mas mais devagar do que na Terra. Daqui segue-se que as canetas também caem, mas mais devagar. A incapacidade para fazer inferências, para raciocinar, é muito caricata num professor de filosofia porque a filosofia é em grande parte precisamente um raciocínio intenso sobre factos já conhecidos, e não uma descoberta de novos factos.

Segundo, porque revela falta de cultura geral. Quando as pessoas falam em cultura geral pensam em literatura ou história, mas a astronomia ou a física ou a matemática não são menos parte da cultura geral. Um professor que não tem noções elementares de física ou de química está a prestar um mau serviço aos seus alunos, porque tem ideias completamente erradas acerca de aspectos fundamentais da realidade.

Os leitores da Crítica que responderam mal ao inquérito podem agora explicar-nos por que razão pensavam que uma caneta na Lua não cai se for largada. Recorde-se que a correcção de erros é um dos aspectos mais importantes da nossa formação intelectual e humana. Toda a gente erra e errar não é vergonha; vergonha é esconder o erro. Está aberta a discussão.

Filosofia da música


Paul Griffiths, em tradução de Vítor Guerreiro, esclarece brevemente o que é a filosofia da música.

22 de janeiro de 2010

Reedições 70


Está já disponível a muito antecipada reedição da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, de Immanuel Kant, em tradução do alemão de Paulo Quintela e com uma nova introdução de Pedro Galvão. A 70 anuncia igualmente a reedição de Górgias, de Platão, com tradução do grego de Manuel Oliveira Pulquério.

Platão, Moravcsik e Magee

Muitos bons livros de filosofia passam despercebidos no Brasil, o que é uma pena. Recebi agora notícia da edição brasileira de Platão e o Platonismo, de Julius Moravcsik, e da História da Filosofia de Brian Magee. Ambos na Loyola.

Anselmo de novo


Santo Anselmo (1033-1109) é entendido de maneiras completamente diferentes no livro de Costa Macedo, de que acabo de publicar uma recensão de Helena Costa, e por Pedro Merlussi aqui. O que pensa o leitor?

21 de janeiro de 2010

Existe um paradoxo com as teses do determinismo e livre arbítrio?


Um paradoxo resulta quando duas hipótese igualmente evidentes conduzem a resultados aparentemente inconsistentes. O determinismo é a tese da causalidade universal, a que defende que tudo no universo é causado. Por outro lado, a tese do livre arbítrio defende que somente algumas acções são determinadas causalmente. Ambas as teses nos parecem verdadeiras. Acreditamos, por um lado, que tudo no universo é causado, mas, ao mesmo tempo, que algumas das nossas acções não são determinadas. Mas neste caso nem tudo é causado, já que algumas acções são indeterminadas. Estaremos perante um paradoxo? Que pensa o leitor?

Conheça a BetterWorldBooks e suas promoções

A BetterWorldBooks vende livros online para financiar projetos de alfabetização mundial. Com mais de seis milhões de livros novos e usados no estoque, é um negócio com propósitos filantrópicos que deu certo: não só dá lucros para seus parceiros investidores como gera lucro social com o seu impacto positivo em projetos de alfabetização espalhados pelo mundo. A empresa recolhe livros usados em uma rede de mais de 1.800 campos universitários e também possui parceira com mais de 2.000 bibliotecas nos Estados Unidos. Além dos preços em conta, a Better tem dois diferenciais com relação aos outros sites que vendem livros usados como a AbeBooks: o frete, que é de apenas 3 dólares e 97 centavos para qualquer parte do mundo, e as promoções. A última promoção imperdível é de que na compra de cinco livros com o selo “Bargain Bin Blowout” você paga apenas 15 dólares. Aproveite!

Ciência


A Loyola acaba de publicar a Introdução à Filosofia da Ciência de Alex Rosenberg, originalmente publicada na colecção Routledge Contemporary Introductions. Uma óptima notícia!

19 de janeiro de 2010

Parafernália filosófica

Algumas pessoas queixam-se que a filosofia é muito abstracta. Em resposta a esta queixa pensei fazer uma listagem dos adereços concretos da filosofia. Lembrei-me logo do burro de Buridano, que tem uma certa concretude de peso, e da navalha de Ockham, que dá muito jeito aos filósofos hirsutos. Além disso, não podemos esquecer a guilhotina de Hume, que dá sempre jeito em tempos de revolução, e também da sua bifurcação (fork, por vezes mal traduzido por forquilha — o que é pena, porque dava jeito ter mais esta concretude na nossa parafernália). Russell, para não se ficar atrás de Ockham, falou do barbeiro de Sevilha, porque não lhe ocorreu que havia barbeiros em Londres.

Philippa Foot, contrariando o seu sobrenome, ou talvez por isso mesmo, trouxe-nos outra concretude de peso: um trólei. Nozick foi menos corajoso e apenas nos trouxe uma informe máquina de prazer, sem especificar infelizmente como funciona, para não se ficar atrás de Platão que nos legou a inesquecível caverna, mas também o seu anel de Giges, que Tolkien roubou assim que o apanhou distraído.

Sem peso, propriamente falando, mas fazendo as outras coisas terem peso, temos a Terra Gémea de Putnam, que não se compara contudo com a infinidade de mundos possíveis tão concretos quanto o mundo efectivamente existente, de David Lewis — a prova definitiva de que só as más-línguas podem considerar abstracta a actividade filosófica. O mesmo Putnam modernizou o antiquado génio maligno de Descartes, que contudo era bem concreto, e ofereceu à posteridade filosófica um cérebro numa cuba, sem especificar contudo de quem era. Frege, mais comedido, limitou-se a falar do que já existia, a Estrela da Manhã e a Estrela da Tarde, mas Meinong insistiu na existência da Montanha de Ouro, o que mostra que nem sempre os alemães têm falta de tacto. Esta última asserção foi contudo perigosamente posta em causa pelo legado de Hegel à posteridade: o último homem, só para fazer pirraça a Platão que nos deixou o terceiro homem, sem contudo falar dos outros dois.

Mais adereços filosóficos importantes? Dê-nos a conhecê-los nos comentários.

17 de janeiro de 2010

Epistemologia e política

Acabei de publicar o meu artigo "Soberba Epistémica, Estatismo e Legislação",  e espero que não seja uma leitura demasiado deprimente para este final de Domingo... Mas é ao leitor que compete dizer o que pensa.

Truthmaker

O termo inglês "truthmaker" quer literalmente dizer "fazedor de verdade," e foi esta a expressão portuguesa usada pelo professor Abílio Rodrigues Filho na sua tese de doutoramento, disponível aqui. Esta expressão, contudo, soa mal em português, porque ao contrário do inglês não usamos por sistema "fazedor." Um car maker não é um fazedor de automóveis mas um fabricante de automóveis, um juice maker não é fazedor de sumos, mas uma máquina de sumos. De modo que fica a questão de saber que expressão portuguesa exprimirá melhor o conceito.

E de que conceito se trata? É muito simples: é apenas a ideia, defendida por alguns filósofos, de que algo faz as afirmações verdadeiras serem verdadeiras. Tome-se a afirmação "Hoje está calor em Ouro Preto", proferida num dado contexto de elocução, num dado momento, por um dado locutor. A ideia é que se tal afirmação for verdadeira, então há algo que a faz verdadeira -- nomeadamente, o calor de Ouro Preto. Claro que saber depois pormenorizadamente o que é esse algo (Será um facto? Ou um estado de coisas? Ou qualquer outra coisa?) é uma questão em aberto. A ideia é apenas que algo faz uma afirmação verdadeira ser verdadeira, quando é verdadeira.

Como exprimir isto em português, se não quisermos usar fazedor de verdade? Eis duas hipóteses, entre outras: verofactor e veridador. Nenhuma tem a simplicidade do inglês, que só usa termos banais (maker e truth). Mas ambas estão correctas etimologicamente, se entendermos factor no sentido latino de feitor e não no sentido de aspecto.

Para ajudar a discussão, eis um mesmo artigo traduzido por Vítor Guerreiro das duas maneiras propostas, aqui e aqui. Trata-se do artigo "Truthmaker," de Trenton Merricks, retirado de A Companion to Metaphysics. Qual das versões funciona melhor nos seus diversos contextos? O que pensa o leitor?

Pedro Galvão em Braga

Pedro Galvão estará em Braga, no Externato Infante D. Henrique, no dia 27 de Janeiro, às 14:25 horas para falar da relevância moral dos animais inumanos. A não perder. Mais informação...

Música e metafísica


Qual é a relevância da metafísica da música? É uma área particular da filosofia da arte, ou é apenas metafísica geral? A resposta de Vítor Guerreiro está aqui. E o que pensa o leitor?

Os diários de Orwell


Tertúlia da Crítica

Gostaria de lançar um repto aos leitores deste blogue, talvez abusando do espaço que aqui me foi facultado:

E que tal se organizássemos uma tertúlia da Crítica?

O que tenho em mente é um pequeno grupo de pessoas interessadas em estudar / aprofundar alguns temas filosóficos que se encontre uma vez por mês para os discutir.

Para cada encontro o tema seria acordado antecipadamente, devendo cada participante prepará-lo com algum estudo e leituras prévias. Poderíamos aproveitar este blogue para ir apresentando algumas ideias, sugestões de leitura ou uma pequena discussão prévia. Poderíamos para isso criar um post para cada encontro.

No final, apresentaríamos alguns comentários aqui no blogue. Poderíamos, eventualmente, escrever um artigo para publicação na Crítica.

Não são necessários muitos participantes, entre 3 e 5 seria o ideal. Eu estou na região da grande Lisboa. Se houver mais interessados ou noutras zonas podem-se organizar mais grupos.

O que dizem? Há interessados?

16 de janeiro de 2010

Canetas na Lua

Se largarmos uma caneta na Lua, o que acontece? Fica suspensa? Cai ao chão? Perde-se no espaço? Responda no inquérito ao lado e depois abrimos a discussão.

13 de janeiro de 2010

Zangado com a publicidade

A publicidade é quase toda uma mentira. E online ainda é pior. Infelizmente, não há outra maneira de financiar as publicações na Internet excepto através da publicidade, porque as pessoas não gostam de pagar para ler. O aparecimento recente de publicidade de extremo mau gosto nas páginas desta revista levou-me à decisão radical temporária de retirar toda a publicidade. Caso o leitor não saiba, eu não tenho meio de controlar que tipo de publicidade surge nas páginas da Crítica. Apelo por isso à sua ajuda: faça um donativo ou uma subscrição voluntária da Crítica, para ajudar a manter esta revista. Obrigado!

Livros electrónicos a metade do preço

Na WHSmith.

12 de janeiro de 2010

Faleceu Miep Gies


Miep Gies, uma mulher que sempre me impressionou pela lucidez e dignidade da sua pura bondade, em tempos de delírio nazi, faleceu ontem aos 100 anos, de uma queda fatal. Miep Gies nasceu a 15 de Fevereiro de 1909 e ajudou até ao fim a família de Anne Frank a viver escondida no anexo que se tornou famoso depois de publicado o seu impressionante diário, leitura que recomendo vivamente. Pessoas como Miep Gies salvam a humanidade da vergonha que foi o delírio nazi. E provam que o que há que pensar não é a óbvia banalidade do mal, diagnosticada por Arendt, mas antes a banalidade do bem: a bondade comum, que não é heróica nem pública, mas quotidiana e tranquila.

Miep Gies, não te esqueci desde que te conheci aos treze anos.

Ficção científica ou delírio económico?


O chamado "paradoxo de Fermi," não sendo um paradoxo no sentido rigoroso do termo, formula uma perplexidade natural: se a expansão cósmica de uma civilização é expectável e se há outros seres extraterrestres inteligentes, como parece provável, onde raio estão eles? Dada a idade da nossa galáxia apenas, seria de esperar que já tivéssemos contactado com tais civilizações, pois a sua expansão cósmica seria exponencial: partindo de um civilização num planeta, esses seres expandir-se-iam para um ou dois planetas, desses dois para mais um ou dois — e assim por diante, exponencialmente ao longo dos milénios. Mas eles não estão aqui. E é a esta perplexidade que se chama o "paradoxo de Fermi."

Em "The Sustainability Solution to the Fermi Paradox," Jacob D. Haqq-Misra e Seth D. Baum argumentam que o paradoxo se resolve pondo em causa a ideia de que a expansão cósmica é sustentável, em termos energéticos e ecológicos. Se não o for, então não é de espantar que na galáxia não se encontre extraterrestres como quem encontra amoras num silvado. Mas isto dá origem a outro paradoxo. Como é possível que seja necessário escrever um artigo científico sobre algo tão óbvio? Há muito que me parece absurda a ideia de Hollywood e da pulp science fiction de que haveria recursos energéticos suficientes para andar por aí a saltar de planeta para planeta a velocidades estonteantes.

Basta ser obrigado a gramar doze horas de avião para ir da Europa ao Brasil para perder essas ilusões. Isto porque tecnicamente é possível viajar mais depressa da Europa ao Brasil. Mas não o fazemos porquê? Porque não há recursos. Ficaria tão caro que as poucas pessoas que poderiam pagar os bilhetes não permitem que isso seja economicamente viável. Analogamente, talvez seja tecnicamente possível ir ali a Marte como quem vai ao Algarve de fim-de-semana. Mas será sempre tão caro que nunca será economicamente viável.

Os autores de ficção científica esquecem-se tipicamente do aspecto económico da vida. Pensam que basta haver uma possibilidade tecnológica para que esta seja viável. Isto é falso. E se pensarmos que isto é falso, mesmo admitindo a possibilidade técnica de uma expansão cósmica extraterrestre, compreende-se melhor por que razão não andam por aí extraterrestres a fazer compras em Paris. É que isso é proibitivamente caro para eles, tal como é proibitivamente caro para nós irmos à Lua para trazer de lá... gelo.

7 de janeiro de 2010

Uma mentira que urge denunciar

Uma mentira política comum é Portugal é que estudar não dá dinheiro. Isto já foi matematicamente demonstrado que é falso, mas continua-se a dizer o mesmo. Leia-se aqui o que se passa, e veja-se a tabela seguinte, do Instituto Nacional de Estatística, ine.pt:


Ortografia, de novo

Helder Guégués refere aqui um artigo de Francisco Miguel Valada publicado hoje no Público de hoje sobre o acordo ortográfico. Trata-se de um conjunto de argumentos para mostrar que a reforma ortográfica está linguisticamente mal feita. Isto é algo que praticamente todos os linguistas afirmam, incluindo os que defendem a unificação ortográfica da língua portuguesa.

Para não haver dúvidas, as minhas posições são as seguintes:
  1. Para termos uma ortografia oficial, não precisamos de mudar a ortografia — essa é a mentira política dos defensores do acordo ortográfico. Precisamos apenas de sancionar oficialmente as ortografias existentes, ou escolher uma delas como a ortografia oficial da ONU.
  2. As ortografias, como a gramática, o léxico e a fonética, não devem ser mudadas por decreto, mas sim pelo uso.
  3. Mudar as ortografias não serve qualquer propósito benéfico.
  4. Mudar as ortografias é maléfico porque viola o direito que os lusófonos têm de conseguir ler o seu legado linguístico. Isto é particularmente grave hoje, porque os meios digitais permitem aos anglófonos ter acesso gratuito a imensos livros com mais de 80 anos, ao passo que os lusófonos não — porque os livros escritos em português com mais de 80 anos têm uma ortografia ilegível para o cidadão comum.

6 de janeiro de 2010

A verdade, finalmente


Contra a hipocrisia generalizada que se seguiu aos ataques terroristas de 11 de Setembro e que fez intelectuais e políticos europeus fazer chichi nas calças e passar por isso a defender indefensáveis limites à liberdade de expressão para não ofender pessoas religiosas, levanta-se finalmente uma voz para repor a verdade, sem hipocrisias: Henryk M. Broder.

Kenny sobre Russell sobre Tomás de Aquino

Todos os que estudam Tomás de Aquino estão em dívida para com o papa Leão, pelo estímulo que a sua encíclica deu às edições eruditas da Suma e de outras obras. Mas a promoção do santo a filósofo oficial da Igreja também teria um efeito negativo. Impediu o estudo filosófico de São Tomás pelos filósofos não católicos, nada atraídos por alguém que foram levados a ver como mero porta-voz de um determinado sistema eclesiástico. O problema agravar-se-ia quando Pio X, em 1914, seleccionou vinte e quatro teses da filosofia tomista, para que fossem ensinadas nas instituições católicas.
Bertrand Russell, na sua História da Filosofia Ocidental, resume a reacção laica à canonização da filosofia de São Tomás: «Havia muito pouco de verdadeiro espírito filosófico em Tomás de Aquino: ele não podia, como Sócrates, dar seguimento a um argumento, até onde quer que este pudesse chegar, uma vez que conhecia de antemão a verdade, toda ela declarada na fé católica. Arranjar argumentos para uma conclusão que está dada de antemão não é filosofia, mas sim uma alegação especial».
Em boa verdade, dizer-se de um filósofo que procura boas razões para aquilo em que já acredita não é uma acusação grave. Descartes, sentado à lareira, embrulhado no seu roupão, procurou razões para acreditar que era exactamente isso o que estava fazendo e gastou muito tempo para as encontrar. O próprio Russell gastou muita energia em busca de provas para aquilo em que já acreditava: os Principia Mathematica ocupam centenas de páginas para provar que um e um são dois.
Julgamos um filósofo pela solidez, ou falta de solidez, da sua argumentação, não pelo local onde foi encontrar as suas premissas ou o modo como passou a acreditar nas suas conclusões. A hostilidade para com Tomás de Aquino, por causa da posição oficial que ocupa no catolicismo, ainda que compreensível, é, pois, injustificável, mesmo para filósofos laicos.


música e emoções

A associação quase universal entre música e emoções na cultura musical europeia parece dever algo à contra-reforma, em particular nas decisões tomadas no concílio de Trento (1545-1563) de restringir os "excessos" dos compositores no que diz respeito ao uso da polifonia (cruzamento de diversas melodias independentes). A complexidade das composições vocais litúrgicas neste período secundarizava a importância dos textos cantados e da "mensagem" que continham. O prolongamento das sílabas para servir os jogos contrapontísticos tornava a compreensão dos textos quase impossível ao ouvinte. Isto era um problema para os teóricos do catolicismo, que ecoavam as preocupações dos padres da igreja dos primeiros séculos relativamente à música no serviço litúrgico: as posições oscilavam entre a tolerância e a condenação. Mesmo Agostinho, que escreveu um tratado em seis livros sobre rítmica, intitulado De Musica, nunca tendo concretizado o projecto de escrever mais seis livros sobre harmónica, e que mostra uma elevada sensibilidade à música nas descrições que faz das suas experiências com o canto ambrosiano em Milão, hesitou na condenação da música na liturgia, preocupado em que os prazeres do som distraíssem a mente do que era realmente importante: o conteúdo representacional dos textos, os estados emotivos e devocionais a que estes deviam induzir, mas reconhecendo que os textos cantados exerciam uma influência muito maior do que se apenas lidos, e chegando mesmo a dedicar palavras de entusiasmo, nas Exposições sobre os Salmos, ao Alleluia ambrosiano ou Júbilo, que envolvia o canto de várias notas numa só sílaba (nisto Agostinho é único entre os autores da patrística). O concílio de Trento recuperou as ideias de austeridade e proximidade da música ao texto e pô-las em prática contra as tendências "intelectualizantes" dos compositores daquele período. Mais tarde, um grupo de teorizadores florentinos de finais do mesmo século, que se intitulava Camerata e estabeleceu os fundamentos da ópera primitiva seguiu uma linha de pensamento semelhante, mas sem as preocupações teológicas. A música devia "representar" adequadamente as emoções que o texto exprime. A teoria imitativa platónica, segundo a qual a música representa emoções imitando o discurso e os movimentos corporais, ganhou predominância. A influência destas ideias foi tão grande que ainda hoje, quando folheio o meu velho manual de teoria da música, vejo que a primeira afirmação, e a única de âmbito filosófico é a seguinte: "Música é a arte de exprimir sentimentos e impressões por meio de sons", como se esta definição fosse tão pacífica e plausível como as explicações e ilustrações puramente técnicas que se seguem em todo o manual. Isto é ainda a presença dos padres da igreja e do concílio de Trento no nosso modo de pensar sobre a música, embora já sem as preocupações de que o prazer musical nos deite a perder a alma. Como Platão fizera na República, os teóricos da igreja sobrestimaram as qualidades emotivas da música ao mesmo tempo que suspeitavam dos prazeres da música quando esta deixa de ser meramente funcional ou ilustrativa. Consideravam talvez que a música (a que se faz com instrumentos e não a "música das esferas") apela sobretudo às emoções e não à razão (daí o seu perigo, dadas as emoções "erradas"). Havia que refrear a música, fazendo-a evocar as emoções "correctas" através da austeridade estética (daí a proibição dos "excessos" contrapontísticos) tornando-a essencialmente no suporte de um texto edificante. A ideia moderna, expressionista, de uma relação especial entre a música e as emoções mantém a dicotomia entre emoção e razão e a sobrevalorização das emoções, mas não o medo dos excessos emotivos. Tanto na República de Platão como na Cidade de Deus de Agostinho (Livro XVII, cap 14) a boa música funciona como uma metáfora da cidade bem ordenada. O romantismo preservou a ênfase nas emoções e trocou a cidade bem ordenada pelo indivíduo desordenado.



Esta história é importante pela sua relação com uma falsa dicotomia no pensamento sobre a música: ou a música tem conteúdo representacional e é conceptual, ou não tem conteúdo representacional e logo não é conceptual. A ideia de que a música representa emoções é o mais próximo de uma analogia com a linguagem, o que a música não pode ser porque não tem semântica. Isto está associado a outra falsa dicotomia: a separação entre as emoções e a cognição, como se as emoções não fossem também estados cognitivos (envolvem representações e crenças). A consideração de que sem conteúdo representacional não há experiência cognitiva, a subordinação do som musical como mero suporte à expressão de estados devocionais e a rejeição da sofisticação técnica na música como "prazer vazio" - o importante é a evocação de estados devocionais - culminou na ideia de que a música é mais importante para as emoções do que para a razão. Por essa razão, ainda hoje vemos os resquícios dessa mentalidade na ideia de que a música é a "línguagem das emoções".


Ao contrário do que sugere o dogma da "linguagem das emoções", a experiência de ouvir música inteligentemente construída pode ser comovente sem ser evocativa de emoções no sentido habitual. A polifonia do renascimento é uma óptima ilustração de como a música pode ser cognitivamente interessante sem que tenha algo a ver com turbulências emotivas, sejam elas mais ou menos devocionais ou mais ou menos sensuais.

5 de janeiro de 2010

Filosofia do direito



Acabo de publicar aqui uma recensão de Lucas Miotto Lopes do livro Philosophy of Law, de Mark C. Murphy.

Mentiras ortográficas




José Mário Costa defende aqui o acordo ortográfico e insurge-se contra o editorial do Público que citei aqui. E diz que quer pôr os pontos nos is. E põe, num certo sentido. Mostra que o acordo ortográfico é uma mentira política.

Afirma, sem provas, que só há uma ortografia inglesa oficial, e não várias, como toda a gente sabe. Poderia ter esclarecido melhor as coisas, mas esta ambiguidade favorece a mentira. E qual é a mentira? É esta: fazer reformas ortográficas é diferente de fazer acordos ortográficos. Os reformistas aproveitam a pretensa necessidade política, internacional, de ter uma ortografia oficial para mudar a ortografia à maneira deles.

Vejamos a confusão conceptual. O que quer dizer José Mário Costa quando afirma que só há uma ortografia inglesa oficial? As pessoas lêem isto e pensam que significa que as palavras inglesas se escrevem todas da mesma maneira em todos os países anglófonos, e que essa é a ortografia usada na ONU. Isto é falso. Mas, claro, ele não disse literalmente a mentira, pelo que não pode ser acusado de mentiroso. Mas as pessoas lêem a mentira à mesma. Enfim, estamos habituados a isto nos políticos desonestos.

Mas o que a afirmação quer realmente dizer é uma de duas coisas:
  1. Ou que a ortografia oficial inglesa torna legal qualquer maneira de escrever, seja a americana seja a inglesa ou outra qualquer na ONU. Portanto, tanto se pode escrever “scepticism,” à inglesa, como “skepticism,” à americana. Não é preciso obrigar seja quem for na Inglaterra a escrever como os ingleses ou vice-versa. Nos documentos oficiais da ONU tanto se pode escrever de uma maneira como de outra.
  2. Ou então quer dizer que se escolheu uma das ortografias inglesas, que foi eleita como oficial, sem ter de obrigar as pessoas do país que não tem a ortografia oficial a mudar a maneira como escrevem.
Ora, tanto num caso como no outro, não torna necessário reformar a ortografia da língua portuguesa; torna apenas necessário fazer um acordo ortográfico que ou declarasse que todas as variantes ortográficas, portuguesa e brasileira e outras, são oficiais, ou que uma das variantes era a oficial (a brasileira, por exemplo, por ser um país muitíssimo mais importante internacionalmente do que Portugal).

Não foi isto que se fez, como se sabe. Os linguistas aproveitaram para mentir, confundindo as águas, e para obrigar as pessoas a escrever como eles querem. A mentira torna-se mais absurda, e é isso que o editorial do Público sublinha, precisamente porque o texto do acordo aceita realmente ortografias múltiplas em vários casos. Mas então… por que não fazer apenas um acordo que declara que tanto se pode escrever “excepto” como “exceto”? Para quê fazer ao mesmo tempo uma reforma, que obriga as pessoas a mudar a maneira como escrevem?

A razão é só uma. Os linguistas que fizeram o texto do acordo mentem aos políticos, fazendo-os acreditar que só tirando o “p” do “excepto” é possível ter uma ortografia oficial única. Mas isto é mentira, pura e simplesmente.

Em conclusão: concordo com o Miguel RM, que parece considerar o artigo de José Mário Costa a última palavra neste debate. Mas não pelas suas razões. É a última palavra porque é a prova acabada da mentira política que é este acordo ortográfico.

Coisas boas no mundo

Sigo um blog português inacreditavelmente bom: “Comer Bem Até aos 100”, da nutricionista Ana Carvalhas Coimbra. Ela faz divulgação científica de qualidade numa linguagem acessível. Hoje, deu-me a conhecer o incrível Sense About Science: um serviço público britânico que nos dá informações fidedignas, desmontando as muitas falsidades pseudocientíficas que circulam nos meios de comunicação. Há coisas boas no mundo! Obrigado, Ana!

Russell sobre a religião



Não estou interessado no costumeiro debate de taberna que ocorre nos blogs sobre a existência de Deus, porque não há probidade intelectual nem de um nem do outro lado, em geral -- o debate é encarado como se fosse um jogo de futebol, para ver quem mete mais golos. Por isso não usem este excerto para trazer esse falso debate para este blog. Mas é interessante ver Russell a explicar por que razão é ateu.

Casamento entre pessoas de sexo diferente

Em Portugal prossegue uma atarantada "discussão" pública sobre a legalização dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Ora, isto parece-me um passo atrás. O que se devia fazer era acabar com os casamentos entre pessoas de sexos diferentes, pelas razões memoravelmente invocadas por Gabriel García Márquez em Amor nos Tempos de Cólera: como podem duas pessoas com personalidades diferentes, de famílias diferentes e até de sexos diferentes viver em conjunto harmoniosamente?

3 de janeiro de 2010

O marxista capitalista

Você é marxista? Então chegou a hora de assumir que o seu maior aliado é o capitalista. Isto porque se é marxista, está preocupado com os mais pobres: quer, do fundo do seu coração, retirar os pobres da pobreza, dar-lhes uma vida condigna, com uma casa bonita, água potável, electricidade, acesso ao ensino, automóvel, férias pagas, acesso à assistência médica de qualidade. Numa palavra, você quer dar riqueza aos mais carenciados.

Marx via nos capitalistas um inimigo dos mais carenciados porque vivia numa época em que a quase totalidade dos produtos produzidos pelos capitalistas eram bens de primeira necessidade. Isso dava aos capitalistas um certo desinteresse pelas condições económicas dos mais carenciados, porque olhava para eles apenas como trabalhadores, e não como potenciais clientes.

Mas tudo isso mudou. Hoje em dia a maior parte dos capitalistas ganham dinheiro vendendo bens e serviços supérfluos, que só compra quem já tem as suas necessidades básicas garantidas e tem além disso tempo livre para as usufruir. Por isso, o capitalista já não olha para os mais carenciados apenas como trabalhadores que urge explorar, mantendo na pobreza porque são força barata de produção. Olha agora para eles como clientes. Na verdade, como clientes sem os quais a economia na qual se baseia a sua riqueza não pode subsistir. O capitalista quer que o máximo número possível de pessoas possa comprar telemóveis caros, calças de marca, automóveis e televisões de plasma. E para isso tem de ajudar a desenvolver a economia, para dar a essas pessoas meios para alimentar o seu negócio.

É por isso que se você é marxista, o seu maior aliado é o capitalista. O capitalista pragmático, sem ideologias idealistas sobre o futuro brilhante da humanidade em que toda a gente discute Bach ao pequeno-almoço e lê Tolstoi ao deitar — o capitalista que tudo o que quer é vender produtos e serviços, os produtos e serviços que as pessoas efectivamente querem.

Portanto, do que está à espera? Manifeste-se já em defesa do capitalista! Vá para as ruas! Faça esclarecimentos públicos! Incentive o consumo! Faça cartazes!

2 de janeiro de 2010

Zizek sobre a política contemporânea



Fiquei bem impressionado com o Slavoj Zizek (é preciso ver as três partes para se compreender bem). Sendo atacado por defender o comunismo estalinista, defende-se atacando o estalinismo. Isto pode parecer conversa fiada da parte dele, e em parte é, mas esconde outra coisa. O que ele quer dizer é que a democracia contemporânea, com o seu sistema económico, não é uma saída viável para quem, como os comunistas, sonhavam com um futuro brilhante, em que toda a gente participaria dos destinos da sociedade, de igual para igual. Ele tornou-se pessimista, por perceber que as pessoas não estão interessadas na vida pública, mas apenas na vida privada. Só que ele vê isso como um problema, sem compreender que isso é um problema para ele apenas, mas não para as pessoas em geral. A maior parte das pessoas não está interessada na vida pública. E qual é o problema disso? Quanto mais depressa nos adaptarmos a essa ideia, melhor. Pelo menos, deixaremos de falar no enfado da cidadania, da democracia participada, etc. O que as massas realmente querem é dinheiro para comprar duas casas, três automóveis, televisões de plasma e telemóveis caros. E têm todo o direito a isso. A democracia de mercado deu pela primeira vez na história da humanidade a possibilidade de a generalidade dos seres humanos fazerem o que realmente querem. E o que realmente querem não inclui o (para elas) enfado da vida pública.