31 de março de 2010

Direcção da adequação, livros e leitores

A direcção da adequação ou do ajuste é um conceito importante em filosofia, nomeadamente em ética. Diz respeito à direcção primária da adequação que existe entre afirmações descritivas e normativas. Numa afirmação descritiva, procuramos primariamente adequar a afirmação à realidade: dizemos “A neve é branca” e queremos que isto se adeqúe ou ajuste à realidade da neve. Numa afirmação normativa, não procuramos primariamente adequar a nossa afirmação à realidade, mas antes indicar como queremos que a realidade mude para se adequar à nossa afirmação: dizemos “Não devia haver guerra” e queremos que a realidade se adeqúe ao que estamos a dizer. Não se deve pensar, contudo, que tudo o que se faz numa afirmação descritiva é adequar a descrição à realidade, nem que tudo o que se faz numa afirmação normativa é indicar como a realidade se deveria adequar ao que dizemos. Em ambos os casos são detectáveis adequações na direcção inversa: dificilmente é concebível uma afirmação normativa sem elementos descritivos ou uma afirmação descritiva sem elementos normativos.

Este pedaço de banalidade filosófica tem uma relação interessante com uma banalidade mais chã: qual é a “direcção da adequação” quando se escreve um livro, ou um blog, ou um artigo? Neste caso não se trata exactamente de direcção da adequação, tecnicamente falando, mas de um conceito análogo: podemos chamar-lhe “direcção da atenção”. Parece que algumas pessoas entendem trabalhos como este blog, um livro ou um artigo primariamente como algo que visa chamar a atenção para o autor ou autores, prestigiando-o, e não como trabalhos que visam primariamente servir os leitores. É verdade que um autor muito publicado e muito lido ganha uma certa notoriedade, e poderá ter de ter cuidado para não ficar um tolo vaidoso, mas se a sua motivação original foi ficar famoso, algo de errado há na sua cabeça. Publicar livros e artigos é dar coisas a conhecer aos nossos semelhantes, chamando-lhes a atenção para algo fora deles e fora do autor. Do mesmo modo que eu muito ganho cognitivamente com os livros que leio, sem os quais eu seria uma besta provinciana sem saber sequer que há biliões de galáxias ou o que foi o Império Romano, ou o que é a direcção da adequação em ética, devolvo aos leitores algo do que tenho aprendido. A direcção da atenção não é do que escrevo para mim, mas do que escrevo para as realidades acerca das quais escrevo.

Em sociedades iletradas ou quase, a vida intelectual é vista como um mero adereço social de promoção pessoal. A direcção da atenção vai toda ou quase toda para o autor, e não para as realidades de que ele fala. Nessas sociedades, ler um autor é promovê-lo, prestar-lhe um serviço — e ameaçar não o ler é uma afronta, um perigo a evitar. Mas quando a direcção da atenção não é essa, a ameaça de não ler um autor não surte qualquer efeito: o autor tenta prestar um serviço aos leitores e no dia em que não tiver leitores passa a ser apenas leitor e a usufruir do serviço dos muitos autores que lê, sem ter de pagar em esforço autoral.

30 de março de 2010

Confusão sobre valores

Eis confusão muito comum sobre valores: sem Deus, ou sem uns factos esquisitos (como lhe chamou J. L. Mackie: o termo original é "queerness"), não há valores. E portanto tudo vale. Quem leu alguns romancistas russos do séc. XIX e alguns filósofos existencialistas do séc. XX conhece bem esta conversa.

Penso que esta conversa é uma confusão. Uma grande confusão. A confusão começa com a mitologização objectificante dos valores. Os valores são coisas que têm a ver com o invisível, com deuses, com algo desse género. Assim, os valores existem e são objectivos porque são o que um deus ordena. Sem esses deuses, não haveria então valores. Esta ideia é factualista, curiosamente, pois é a ideia de que os valores existem e são objectivos porque de facto são ordenados por um deus.

Mas a confusão é que nesta concepção se está a olhar para os “factos” errados. Mesmo que existam deuses e eles ordenem coisas, não pode ser por eles as ordenarem que são valores. Não pode ser porque um deus ordena que torturar crianças inocentes é um mal que isso é um mal. Não pode ser porque um deus ordena que ajudar as pessoas é um bem que isso é um bem. É tão implausível pensar que o bem e o mal é o que alguém ordena, mesmo que esse alguém seja um deus, como pensar que as leis da aritmética resultam da legislação de alguém, mesmo que esse alguém seja um deus.

Esta concepção factualista de valores é exactamente análoga a atribuir o vento a poderes mágicos. É pura mitologia. E como mitologia que é, trata-se de pensamento factualista, mas que olha para os factos errados, inventando-os onde não existem.

Quando falamos de valores, os factos relevantes são as preferências de agentes que podem ter preferências. Uma pessoa que está a ser torturada preferia não o ser, e é isso que conta. Uma pessoa que precisa de ajuda, preferia ser ajudada, e é isso que conta. Nós somos agentes valorativos. Não podemos evitar isso, tal como não podemos evitar beber água, defendeu Hare com razão. Os valores são factos sobre as nossas preferências. Preferências essas que podem ser mais ou menos defensáveis e sábias. Depois, temos um problema de coordenação de preferências: um terrorista tem a preferência de matar mil pessoas com uma bomba, e essas mil pessoas têm a preferência de não serem mortas por ele dessa maneira. Temos de pensar que preferências são defensáveis e porquê. Temos de argumentar.

Não gosto dos chamados “novos ateístas”, que incluem Dawkins (mas ele é maravilhoso a fazer divulgação científica) e Sam Harris. Parecem-me estridentes e por vezes mentirosos. Parecem-me mais interessados em guerra política e social do que na verdade. Mas neste vídeo Sam Harris insiste numa ideia interessante: os valores são factos, mas não o género mitológico de factos que é ainda infelizmente comum associar aos valores. Vale a pena ver, ouvir e discutir.

Deus do outro lado do espelho

29 de março de 2010

Diógenes de Sínope

É absurdo trazer de volta um escravo que fugiu. Se um escravo pode sobreviver sem um senhor, não é terrível admitir que o senhor não pode viver sem o escravo?

O pensamento político de Orwell

A Antígona acaba de anunciar a edição portuguesa de George Orwell: Uma Biografia Política, de John Newsinger, com tradução de Fernando Gonçalves.

Mandeville, os moralistas e a economia

Uma tendência curiosa ao longo de todas as épocas, e ainda hoje, é um certo discurso moralista contra as escolhas livres da generalidade das pessoas. Às tantas, defende-se até que essas escolhas não são realmente livres, presumivelmente por serem muito diferentes das dos intelectuais. Que são livres, pois claro.

O que está em causa é uma certa incapacidade para aceitar e compreender a diferença. A mim não me interessaria ter o género de vida prezada pela generalidade da população, baseada em automóveis, futebol, novelas, Coca-Cola, frivolidades e mesquinhices. Mas qual é o problema de as pessoas preferirem essas coisas? Presumivelmente, se tivessem o meu tipo de vida seriam tão infelizes quanto eu seria se tivesse o tipo de vida delas. Além disso, se toda a gente tivesse o meu tipo de vida, como argumentou Mandeville no séc. XVIII, seríamos todos presumivelmente muito pobres, pois é a frivolidade e a mesquinhez que é o motor da economia, fazendo as pessoas comprar desenfreadamente o que eu não quero nem oferecido.

Por isso, ao contrário de tantos intelectuais, eu aplaudo o consumismo frívolo, a Coca-Cola, as novelas e o futebol. Apenas procuro pôr o máximo de distância possível entre mim e essas coisas.

28 de março de 2010

Whitehead, ciência e pensamento

Chega-me notícia atrasada da edição brasileira de um importante estudo de Alfred North Whitehead, A Ciência e o Mundo Moderno, pela Paulos, do qual podemos ler aqui um excerto entusiasmante. Fica a referência.

Olhar de cima e ver de baixo

Há uma metáfora morta sistematicamente usada que denuncia aspectos infantis da humanidade. Refiro-me às palavras “superior” e “inferior” e outras semelhantes. Do que estas palavras realmente falam é de hierarquias sociais; mas depois são usadas para querer aparentemente dizer outra coisa. Fala-se então de ensino superior e capacidades superiores; e diz-se que uma ideia ou filosofia ou prática ou disciplina é superior a outra.

Esta terminologia esconde a obsessão simiesca dos seres humanos com as hierarquias sociais; e ao colocar num só par de palavras conceitos tão diversos como “sofisticação”, “beleza”, “valor”, “dificuldade”, ou a sua ausência, oculta numa sombra viscosa o que realmente faz algo ser melhor ou pior do que outra coisa.

O futebol é superior à filosofia? Em termos sociais, num certo sentido, sim: ganha-se muito mais dinheiro, caso se seja bem-sucedido, tem-se mais namoradas, e é-se infinitamente mais popular. Se é isso que uma pessoa valoriza, é superior. Se o que alguém valoriza é dizer palavras difíceis, por exemplo, ou estar associado a classes sociais elevadas, ainda que sem muito dinheiro, então a filosofia é superior.

Já se vê o muito que a conversa do superior oculta. Falar directamente de sofisticação intelectual ou física, por exemplo, é uma forma bem mais precisa de comparar actividades; e neste caso, o futebol perde numa e ganha na outra, assim como a filosofia. Tudo isto devolve à realidade a sua verdadeira textura. Que nunca é o simplismo simiesco do superior e do inferior sem mais. Simplismo que foi concebido para outros fins, menos elevados, do que a compreensão correcta da natureza das coisas.

27 de março de 2010

Pátria e infantilidade

A propósito de infantilidade, uma das ideias que me vem logo à cabeça é a de pátria. Acho que fazem todo o sentido os versos de uma canção francesa de Maxime Le Forestier "Je m'en fous de la France, on m'a menti / On a profité d'mon enfance pour me faire croire à une patrie" (Estou-me nas tintas para a França, fui enganado / Aproveitaram-se da minha infância para me fazerem acreditar numa pátria).

Se me perguntarem por que razão digo que essa história da pátria é uma fantasia, a minha resposta pode soar algo decepcionante para alguns. Digo que não passa de uma fantasia pelo mesmo tipo de razões que digo que as histórias de bruxas não passam de fantasias. Afinal de contas, preciso de melhores razões para acreditar numa pátria do que para não acreditar.

Haverá por aí alguém que me consiga apresentar boas razões para ser patriota?

Raciocínio e infantilidade

Ocorre uma coisa curiosa quando se põe pessoas sem formação intelectual adequada perante um problema que exige raciocínio intenso: muitas dessas pessoas riem-se e assumem uma atitude infantil, lúdica. Eis uma hipótese explicativa: como essas pessoas se desabituaram de raciocinar intensamente quando se tornaram adultas, voltam a viver a sua experiência infantil de raciocinar intensamente. Isto é curioso, dado que denuncia uma grave distorção da realidade. Raciocinar intensamente não é coisa própria de crianças apenas. É graças ao raciocínio intenso que há sinfonias, física quântica, medicina sofisticada, filosofia e matemática — e os lados práticos dessas coisas, como aviões, micro-ondas, telemóveis, televisões de plasma. Considerar que o raciocínio intenso é infantil, ou meramente lúdico, poderá resultar de uma vida inteiramente passiva, de consumidor dos produtos do raciocínio intenso feito por outros.

26 de março de 2010

Paradoxo de Protágoras

Protágoras deu aulas (do que hoje consideríamos Direito) a um aluno pobre, aceitando nada receber até ele ganhar o seu primeiro caso em tribunal. O aluno ficou formado, mas evitou sempre defender casos em tribunal, para não ter de pagar a Protágoras. Então, este levantou-lhe um processo em tribunal, declarando aos juízes: "Se eu ganhar este caso, ele tem de me pagar porque ganhei a minha exigência. Mas se eu não ganhar, quer dizer que ele ganhou a causa. Então, nos termos do contrato original, ele tem de me pagar também. Logo, em qualquer caso, ele tem de me pagar."

Os juízes ficaram impressionados. Deram então a palavra ao arguido, que declarou calmante: "Se eu ganhar a causa, então não tenho de pagar, precisamente porque ganhei a causa. Mas se perder, então também não tenho de pagar, pois segundo o contrato original só tem de lhe pagar as aulas quando ganhar o meu primeiro caso em tribunal. Logo, em qualquer caso, não tenho de lhe pagar."

E agora?

Gottfried Leibniz

Dado que a felicidade consiste na paz de espírito, e dado que a paz de espírito permanente depende da confiança que temos no futuro, e dado que essa confiança se baseia no conhecimento que devemos ter sobre a natureza de Deus e da alma, segue-se que o conhecimento é necessário para a verdadeira felicidade.

25 de março de 2010

Edgar Degas

Toda a gente tem talento aos 25 anos. A dificuldade é tê-lo aos 50.

Heraclito segundo Kahn

A Paulus editou o Dicionário de Filosofia de Cambridge, org. por Robert Audi, obra de consulta obrigatória para todos os estudantes e professores de filosofia. Agora chega-me notícia da edição de A Arte e o Pensamento de Heráclito, de Charles Kahn. Consultei com muito proveito este livro quando era estudante de graduação (não na biblioteca da minha universidade, cujos livros mais recentes eram dos anos 50, mas na excelente biblioteca da Universidade Católica de Lisboa, a Biblioteca João Paulo II). Guardo memória de um bom livro sobre Heraclito, que apresenta também novas traduções dos fragmentos que nos chegaram dos seus escritos. Kahn é um dos grandes especialistas na história da filosofia grega, com uma vasta bibliografia na área. Este livro torna-se agora leitura obrigatória para professores e estudantes brasileiros do pensamento de Heraclito.

Primeira Tertúlia da Crítica

Está marcada a primeira Tertúlia de Filosofia da Crítica, em Lisboa: será na sexta-feira, 4 de Junho, entre as 21:30h e as 24:00h. Espera-se que seja a primeira de muitas!

A livraria Trama, perto do Largo do Rato, manifestou um grande entusiasmo em acolher esta tertúlia. Eles têm um espaço muito agradável, com uma zona de estar e café que parece ter sido pensada à medida desta iniciativa. A Trama promove vários eventos por semana, com especial relevo para concertos e música. A agenda está carregada, razão pela qual apenas em Junho nos podem receber, no entanto poderemos depois agendar a Tertúlia com uma periodicidade mensal constante.

Pretendo, durante os próximos dias, seleccionar um tema para este primeiro encontro. A ideia é sugerir algumas leituras e eventualmente lançar um debate inicial aqui no blogue. Na Trama será também promovido o evento e as referências bibliográficas sugeridas.

Agora pergunto: têm ideias e sugestões relativamente aos temas a debater?

Para o primeiro encontro julgo que o tema deverá ser abrangente q.b., para despertar o interesse, mas não “fracturante”. Julgo que devemos evitar entrar agora pela filosofia da religião ou por temas concretos da ética, como sejam o aborto, eutanásia e afins; haverá certamente tempo para isso mais tarde.

Assim sendo, muito gostaria de receber os comentários, sugestões e ideias que possam ter relativamente a este evento!

24 de março de 2010

23 de março de 2010

John Locke

A razão tem de ser o nosso juiz e guia último em tudo.

Russell sobre Gellner sobre a filosofia linguística

Ernest Gellner (1925-1995) publicou originalmente em 1959 uma crítica polémica à chamada filosofia linguística, uma corrente da filosofia analítica que muitas pessoas confundem com a totalidade da filosofia analítica. Entre os praticantes da filosofia linguística encontravam-se Austin, Ryle, o Wittgenstein tardio e Strawson. Contra este modo de fazer filosofia analítica estava o próprio Bertrand Russell, que escreveu um memorável prefácio à obra de Gellner.

Li esse prefácio quando era aluno de graduação. Não teve grande influência em mim porque já nessa altura procurava a filosofia e desprezava quem despreza a filosofia e procura substituí-la por outra coisa qualquer (sociologia, história da filosofia, história das ideias, psicologia, crítica literária, crítica social ou existencial, lógica, linguística, etc.). Parecia-me ridículo que num curso de filosofia filosofia fosse aquilo de que menos se falava, aproveitando cada qual para substituir a filosofia por outra coisa qualquer. Hoje vejo que esta moda está ainda presente. De modo que traduzi aqui o prefácio de Russell à obra de Gellner, pois poderá ser iluminante para muitos leitores.

A parte para mim mais memorável, além da metáfora final do relógio, é a citação do próprio Gellner: um padre sem vocação abandona o sacerdócio, mas a malta da filosofia que querem fugir dela limitam-se a redefinir a disciplina, e continuam nos departamentos a dizer que fazem filosofia, quando na realidade abominam a filosofia propriamente dita e fogem dela a sete pés, substituindo-a por lógica ou linguagem ou crítica literária ou história ou qualquer outra coisa — menos o raciocínio intenso sobre problemas conceptuais abstractos que ninguém sabe resolver.

22 de março de 2010

Liberdade de expressão

Há limites à liberdade de expressão? Quais? E porquê? Estas são algumas das perguntas a que Nigel Warburton procura dar resposta no livro Free Speech, de que acabo de publicar uma recensão aqui.

20 de março de 2010

Concurso Bizâncio

Tome-se a frase F) “Sócrates não atravessará a ponte” e as seguintes condições:
  • Sócrates aproxima-se de uma ponte;
  • Quem disser a verdade atravessará a ponte;
  • Quem disser uma falsidade não a atravessará;
  • Só há um Sócrates;
  • E este Sócrates diz: “Sócrates não atravessará a ponte”.
A frase F é verdadeira ou falsa? Os autores das duas melhores respostas na caixa de comentários receberão da Bizâncio um exemplar cada de Enigmas da Existência. Condições: o concurso termina dia 26 de Março, às 23:59; todos podem participar, mas só os leitores que vivem em Portugal poderão receber o prémio.

indexicais, proposições e contingências da língua

As frases em que se usa indexicais (expressões como "aqui", "ali", "isto", "aquilo", "agora", etc.) têm propriedades curiosas. Por exemplo, a frase "estou aqui" tem a propriedade de ser verdadeira em todas as circunstâncias em que a proferimos; seja onde for que nos encontremos, é sempre verdade que estamos "aqui" pois o conteúdo de "aqui" varia com a circunstância em que é proferido. Daqui pode resultar a ilusão de que a verdade da afirmação "estou aqui" é necessária, ou que a afirmação é logicamente verdadeira.
Esta ilusão resulta de uma confusão básica entre frases e proposições. A proposição, ou aquilo a que chamamos "afirmação" é o conteúdo que a frase exprime, por exemplo: está a chover, its raining, es regnet, il pleut - são quatro frases mas exprimem uma só afirmação ou proposição.
Imaginemos que estou no Porto, às 15:00 do dia 20 de Março de 2010 e que nesse preciso momento digo "estou aqui". Qual a proposição que se exprime na frase? Trata-se de "Estou no Porto, no momento t" e esta proposição é contingente, pois eu podia estar noutro lugar em t. Não é uma verdade lógica que eu esteja no Porto naquele dia. Se eu estiver noutro lugar, a mesma frase exprimirá outra proposição (p. ex. "Estou em Lisboa em t"). Mas então o que faz a frase "estou aqui" ser sempre verdadeira na circunstância em que é proferida? A resposta é: uma contingência da língua. É contingente que a nossa língua tenha indexicais com estas propriedades, nomeadamente, a de tornar verdadeira a afirmação condicional seguinte: "Se usar a expressão indexical "estou aqui" na circunstância x, a proposição expressa nessa frase é verdadeira nessa circunstância"; mas isto é uma contingência da língua; podia dar-se o caso de não termos entidades linguísticas com essas propriedades.
Logo, a afirmação expressa em "estou aqui", bem como a condicional que é tornada verdadeira pelas propriedades do indexical, são contingentes, e não necessárias. (são também afirmações empíricas mas isso não basta para saber se são contingentes) Num caso constatamos a contingência de estarmos no lugar x em t, noutro caso constatamos a contingência de a nossa língua ter certos componentes com certas propriedades. Mas ter estes componentes não é um aspecto essencial da língua, pois esta podia ser diferente.

Correcção: onde digo "Mas então o que faz a frase "estou aqui" ser sempre verdadeira na circunstância em que é proferida? A resposta é: uma contingência da língua" devia ter dito algo como "Mas então por que o facto de a frase "estou aqui" ser invariavelmente verdadeira em todas as circunstâncias em que é proferida não faz essa frase ser necessariamente verdadeira?" Devia ter deixado claro neste post que não estou a tentar explicar o mecanismo dos indexicais, e sim a afirmar que é contingente a seguinte verdade: "Se uso a frase "estou aqui" em qualquer circunstância x, exprimo uma proposição verdadeira em x". A ideia era apenas explicar a confusão possível de considerar "estou aqui" como uma verdade necessária pelo facto de a sua verdade não variar com as circunstâncias em que é proferida. Ela não é necessária porque a proposição que exprime varia com as circunstâncias, e essa proposição só pode ter um veridador (o estado de coisas que a torna verdadeira), ao contrário da frase, que pode ter como veridador o veridador de qualquer proposição que exprima.

19 de março de 2010

Qualidade superlativa

Ao procurar outra coisa, deparei-me com esta maravilhosa definição de a priori, na Enciclopédia Universal da Texto Editora:
Em lógica, designa um argumento cujo valor de verdade — uma proposição só pode ter um valor de verdade Verdadeiro ou um valor de verdade Falso — é conhecido antes de se proceder a qualquer experiência.
Repare-se no preciosismo: o mesmo autor ignorante que não consegue compreender que falar de valor de verdade de um argumento é como falar da sua cor (um erro categorial), e que não quer dar-se ao trabalho de ler qualquer coisa simples das muitas já existentes em Portugal sobre o que é o a priori, dá-se ao cuidado de alertar o leitor para a particularidade de em lógica uma proposição só ter dois valores de verdade. Já em física ou história, presume-se, uma proposição pode chegar a ter uns trinta ou quarenta valores de verdade. Eu não sei é quais são.

Verdade e variabilidade

Considere-se uma dada afirmação “p” verdadeira. Aceite-se que algo a faz ser verdadeira. Chamemos a isso “r”, a realidade que faz “p” ser verdadeira. Por exemplo, se “p” for “A água é H2O” a realidade da composição química da água faz “p” ser verdadeira.

Eis uma confusão comum. Considere-se agora que “p” é necessária. A confusão é então dizer que a mesma realidade r não pode fazer “p” ser verdadeira. Isto porque r não pode variar. Como não pode variar, não pode fazer “p” ser verdadeira.

Que isto é uma confusão vê-se se considerarmos que r faz “p” ser verdadeira em virtude de r ser o que é e não em virtude de r variar ou deixar de variar. Se r varia, “p” é contingente. Se r não varia, “p” é necessária. Mas em ambos os casos r faz “p” ser verdadeira porque “p” exprime r. E o que há em r que faz “p” ser verdadeira é r ser a realidade que “p” exprime. Nada mais. Seria muito estranho, e na verdade insustentável, pensar que o que há em r que faz “p” ser verdadeira é a variabilidade de r, que ora ocorre ora não ocorre. Se r tem essa variabilidade, isso fará “p” ser contingente. Mas o que há em r que faz “p” ser verdadeira é r ser r, em vez de ser outra coisa qualquer; não é a sua variabilidade.

Filosofia e pensamento crítico


O Tomás Magalhães Carneiro tem desenvolvido um importante trabalho com sessões públicas de filosofia prática, no seu Café Filosófico. O Tomás resolveu gravar algumas dessas sessões e partilhar com todos na internet. Para além de tudo esta parece-me ser uma boa atitude já que não temos disponíveis muitos vídeos de filosofia e pensamento crítico disponíveis em língua portuguesa. Pode aceder neste link

17 de março de 2010

Enigmas da Existência

Está já à venda o livro Enigmas da Existência: Uma Visita Guiada à Metafísica, de Earl Conee e Theodore Side, em tradução de Vítor Guerreiro e com a minha revisão científica . É o sexto volume da colecção Filosoficamente, da Bizâncio.

Podemos ler aqui mais informações sobre o livro, assim como uma crítica que publiquei no jornal Público aquando da edição original inglesa. E podemos ler três dos dez capítulos do livro: "Identidade Pessoal", "Por Que Não Nada?" e "O Que é a Metafísica?"

Em breve, iremos oferecer aqui exemplares deste livro. Fique atento!

16 de março de 2010

Uma sugestão para os professores de Filosofia

A Sociedade Portuguesa de Filosofia, em parceria com a Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, organiza este ano a 8ª edição dos Encontros Nacionais de Professores de Filosofia, nos dia 10 e 11 de Setembro 2010, em Portimão. Neste âmbito, está aberto o prazo de candidaturas para a apresentação de comunicações em língua portuguesa sobre quaisquer tópicos considerados relevantes para o ensino da Filosofia. As comunicações não devem exceder os 30 minutos, de modo a reservar pelo menos 20 minutos à discussão.

Para saber mais, pode procurar aqui.

Mentira ou ignorância

José Eduardo Agualusa, romancista angolano, tem defendido a aplicação da nova ortografia no seu país, Angola, e usa aqui um argumento que resulta de mentira ou ignorância:
Importamos livros de Portugal e do Brasil. Isso significa que temos livros em duas ortografias no nosso território, facto que suscita natural confusão, sobretudo aos leitores recentemente alfabetizados — em particular jovens e crianças.
O argumento é que com a nova ortografia Angola poderia importar indiferentemente livros de Portugal ou do Brasil, sem diferenças ortográficas. Isto é falso. Com ou sem acordo ortográfico, os leitores angolanos irão ler nos livros portugueses as palavras “económico”, “génio” e “facto”, lendo “econômico”, “gênio” e “fato” nos brasileiros. Além disso, onde antes do acordo liam “espectadores” ou “aspecto” nos livros de qualquer país, depois do acordo irão ler “espetadores” e “aspeto” nos livros portugueses, se os editores adoptassem o acordo (o que não está a acontecer e não é previsível que aconteça), e “espectadores” e “aspecto” nos brasileiros.

Portanto, ou Agualusa desconhece a nova ortografia — singular desconhecimento num defensor dela que ainda por cima é romancista — ou mente. Como a quase totalidade dos defensores do acordo, julgo que mente. Quem me dera a mim, e a muitos editores, que o acordo realmente unificasse a ortografia. Não unifica. Apenas muda mudanças. O que uns escrevem de uma maneira, outros passam a escrever de outra, o que em alguns casos se escrevia da mesma maneira, passa a escrever-se de maneira diferente. O acordo ortográfico nada unifica. Nem sequer a ortografia. E mesmo que o fizesse, ainda faltaria unificar o léxico, pois as crianças angolanas iriam sempre ler "electrão" nuns livros e "elétron" noutros, mais c menos c.

Só mais um aspecto (sim, com c, à brasileira): quem se preocupa tanto com a confusão das crianças como pode não se preocupar com a confusão dessas mesmas crianças que, depois do acordo ortográfico, vão a uma biblioteca e encontram não duas ortografias, mas quatro? Quatro porque encontrará livros portugueses com a ortografia antiga e com a modernaça, e o mesmo nos brasileiros. A preocupação de Agualusa com as crianças angolanas é uma argolada. Se está preocupado com elas, deve agarrar-se às duas ortografias que já existem, e declarar que qualquer uma delas é bem-vinda no seu país.

Proposições e frases eternas

Acabei de publicar mais um excerto da minha tradução de Palavra e Objeto, de W. v. O. Quine, cuja publicação na Vozes está agora para breve. Desta vez é a secção 40 (Proposições e Frases Eternas), a juntar à 56 (Ascensão Semântica).

A Crítica está desde ontem de cara lavada. Espero que os leitores gostem. Se notar algum problema faça "reload" (tecla F5 ou control-R). Se o problema persistir, contacte-me.

13 de março de 2010

Coleção Mestres do Pensar


A editora Loyola nos tem brindado com algumas boas novidades de filosofia. Vale a pena divulgar a sua coleção de bolso "Mestres do Pensar", que já foi lançada a algum tempo. Os autores são filósofos de competência reconhecida e com exceção do livro de Hare sobre Platão, todos os livros foram traduzidos da coleção “Very Short Introductions”, da editora Oxford. Eu só tive um pequeno problema: pura e simplesmente não encontrei a coleção “Mestres do Pensar” no site da editora Loyola. Como o leitor pode reparar, o título que aparece no site é outro: Mestres do Pensamento. Até agora estou sem compreender o motivo dessa troca de nomes, vai entender!

10 de março de 2010

W. V. O. Quine

Não há qualquer outro sentido mais profundo de “realidade” do que o sentido em que pertence à própria ciência procurar a essência da realidade, com o seu método hipotético-dedutivo de conceptualização e experimentação, método que se corrige a si mesmo.

9 de março de 2010

Filosofia do direito em português



A maioria das editoras brasileiras tem o péssimo hábito de divulgar mal os seus livros: a publicidade na área é amadora, os catálogos das editoras geralmente são desatualizados e só sabemos das novidades quando nós mesmos procuramos nas livrarias ou somos informados por alguém que conhecemos. O meu objetivo aqui é informar que uma bibliografia básica de qualidade inteiramente em português já está disponível para os interessados em filosofia do direito:

Valor Respeito E Apego, de Joseph Raz

Razão Prática e Normas, de Joseph Raz

Problemas de Filosofia do Direito, de Richard A. Posner

Filosofia - Moral e Política: Liberdade, Direitos, Igualdade e Justiça Social, de Paul Smith

Lei Natural E Direitos Naturais, de John Finnis

O Conceito De Direito, de L.A.Hart

Ensaio sobre Teoria do Direito e Filosofia, de L.A.Hart

Direito, Liberdade, Moralidade, de L. A. Hart

H. L. A. Hart, de Neil MacCormick

Retórica e o Estado de Direito, de Neil MacCormick

Argumentação Jurídica e Teoria do Direito, de Neil MacCormick

Filosofia e Teoria do Direito, de Martin Golding

Uma breve história da justiça distributiva, de Samuel Fleischacker

Uma introdução aos direitos, de William Edmundson

Justiça como equidade – um reformulação, de John Rawls

O Direito dos Povos, de John Rawls

Uma teoria da justiça, de John Rawls

Justiça e Democracia, de John Rawls

As Teorias da Justiça Depois de Rawls, de Roberto Gargarella

Liberalismo e os limites da justiça, de Michael Sandel

O Mito da Propriedade, de Liam Murphy e Thomas Nagel

Os Elementos Da Justiça, de David Schimidtz

O Direito da Liberdade, a leitura moral da constituição norte-americana, de Ronald Dworkin

Uma questão de princípio, de Ronald Dworkin

O Império do Direito, de Ronald Dworkin

Levando os direitos a sério, de Ronald Dworkin

A Virtude Soberana - A Teoria E A Prática Da Igualdade, de Ronald Dworkin

Anarquia, Estado e Utopia, de Robert Nozick

Terrorismo, Direitos Humanos e a Apologia do Governo Mundial, de Louis P. Pojman

Esferas da Justiça - Uma Defesa do Pluralismo e da Igualdade, de Michael Walzer


A editora Elsevier lançará ainda este ano os livros:

Ronald Dworkin, de Stephen Guest

A Moralidade da Liberdade, de Joseph Raz

O feminismo de Mill


Acabo de publicar uma recensão de Fernanda Belo Gontijo do livro A Sujeição das Mulheres, de J. S. Mill (Almedina).

Kenny na Gradiva

A Gradiva acaba de anunciar a publicação em Abril, Junho, Setembro e Novembro dos quatro volumes da Nova História da Filosofia Ocidental, de Sir Anthony Kenny. Originalmente publicada na Oxford University Press, e com edição brasileira pela Loyola, trata-se da mais importante história da filosofia publicada nos últimos vinte anos pelo menos. Actualizada, rigorosa, de leitura agradável, é uma obra obrigatória para professores, estudantes e qualquer pessoa interessada na história da filosofia. E é bonita só de folhear graças à riqueza das ilustrações.

Uma das importantes inovações desta obra é que cada volume está dividido em duas partes. Na primeira, apresenta-se uma narrativa cronológica das ideias dos principais filósofos da época respectiva, integrando-os no seu contexto histórico, social, político e económico. Na segunda, Kenny aprofunda os problemas, teorias e argumentos discutidos na época, tema por tema: com capítulos dedicados à ética, Deus, ciência, metafísica, linguagem, etc.

Não se espere encontrar nesta obra o género de lugares-comuns infelizmente endémicos nas zonas mais carentes da cultura académica e popular: as tolices da caverna de Platão ou da água de Tales ou a suposta viagem transcontinental do “mito à razão” e outras caricaturas ridículas que transformam a filosofia em telenovela. Aqui, encontramos história filosófica da filosofia e não conversa de café disfarçada de erudição.

Sir Anthony Kenny (n. 1931) é um dos mais respeitados filósofos e historiadores da filosofia. Professor de Filosofia no Balliol College de Oxford, foi seu Presidente durante doze anos. Presidiu igualmente à Academia Britânica. Actualmente, é Presidente da Fundação Rhodes de Oxford. É autor, entre outras obras, de Action, Emotions and the Will (1963), Descartes (1968), The Five Ways (1969), Wittgenstein (1973), Will, Freedom and Power (1975), The Aristotelian Ethics (1978), Freewill and Responsibility (1978), Aristotle's Theory of the Will (1979), Aquinas (1980), Thomas More (1983), The Legacy of Wittgenstein (1984), The Logic of Deterrence (1985), The Metaphysics of Mind (1989), Aristotle on Perfect Life (1992), What is Faith? (1992), Aquinas on Mind (1993) e Frege (1995). Dele está publicada em Portugal uma excelente história da filosofia mais condensada, ideal para o ensino secundário: História Concisa da Filosofia Ocidental (Temas & Debates).

Uma Pequena História do Mundo

Ernst Gombrich é conhecido sobretudo como historiador da arte. Mas é um historiador da arte que revela um tipo de preocupações fora do comum entre os historiadores. O seu livro Arte e Ilusão aventura-se mesmo por domínios da psicologia e da filosofia da arte, onde consegue revelar uma solidez inesperada. A filosofia da arte de Goodman, por exemplo, foi notoriamente influenciada por Arte e Ilusão
Fiquei com bastante curiosidade quando, no Verão passado, me deparei numa livraria com um pequeno livro de bolso das Edições Tinta da China intitulado Uma Pequena História do Mundo, de Gombrich, destinado a jovens adolescentes. Decidi comprar. Bastou-me começar a ler o primeiro dos 40 curtos capítulos do livro para já não conseguir parar. 

Gombrich escreve de uma forma tão clara e acessível sobre a história do mundo (sim, começa antes  mesmo de haver pessoas) que faz lembrar Sagan acerca da ciência. Nesta história não nos deparamos com uma sucessão de factos e datas apresentados de forma dogmática. Pelo contrário, além de poupar o leitor a esse exercício, Gombrich explica como se chegou a saber o que refere e, em muitos casos, antecipa as dúvidas que o jovem leitor naturalmente poderia colocar, dando-lhe mesmo razão. E está lá tudo o que foi realmente importante, descrito de uma forma iluminante e informativa. 

Um dos melhores livros que li ultimamente, apesar de não ter sido escrito para adultos. Um livro fascinante.   

8 de março de 2010

R. G. Collingwood

Como outros revolucionários, agradeço a Deus pelos reaccionários. Eles clarificam a questão.

7 de março de 2010

Thomas Nagel

Uma hipótese científica pode ser falsa e sem sustentação indiciária. Isso é uma razão suficientemente boa para não a ensinar na escola às crianças. Não é necessário argumentar que não é ciência, nem que nem sequer é ciência irremediavelmente má.

O direito de defender o criacionismo



Levei um susto ao ser informado que Thomas Nagel, filósofo respeitado e influente, tenha escolhido o livro criacionista Signature in the Cell: DNA and the evidence for Intelligent Design, de Stephen C. Meyer, como um dos melhores livros do ano. O livro é repleto de especulação religiosa contrária ao evolucionismo e (como acontece com os outros livros desse gênero) sequer é mencionado na literatura científica relevante.

Fui procurar mais informações e descobri que Nagel tem defendido recentemente ("Public Education and Intelligent Design", Philosophy & Public Affairs 2008) que o criacionismo não é pseudociência, mas má ciência. E como toda má ciência ainda é um tipo de ciência, argumenta Nagel, as decisões jurídicas de proibir o ensino do criacionismo são incorretas. Eu discordo deste argumento. Como qualquer pessoa que se deu ao trabalho de discutir calmamente com um criacionista sabe, as hipóteses criacionistas são imunes ao processo normal de justificação crítica e argumentada e, portanto, não podem ser consideradas como ciência.

O argumento de Nagel a favor do ensino do criacionismo não me convenceu e a sua escolha do livro criacionista me deixou surpreso. Mas o que me deixou ainda mais surpreso foi a reação fanática de alguns ateus, como Brian Leiter, frente a escolha de Nagel. A reação extremada de Leiter e outros é uma clara tentativa de silenciar Thomas Nagel, o que é inaceitável. Nagel tem o direito de defender o que bem entender, incluindo o criacionismo, por mais infundado que este seja. O impulso de inibir que posições criacionistas sejam sequer consideradas é um impulso totalitarista injustificado. O que se deve fazer nesse caso é o que já sabemos: argumentação e discussão cuidadosa dos argumentos.

Fiquei com a impressão de que Leiter é daqueles ateus militantes que assumem o evolucionismo como uma espécie de hino de guerra aos religiosos, pressupondo erradamente, como os próprios criacionistas, que o evolucionismo e o ateísmo são indissociáveis. A defesa fanática do ensino do criacionismo é uma opção tão prejudicial quanto a defesa fanática do evolucionismo. E ambas contribuem para uma vulgarização extremada do debate público entre criacionistas e evolucionistas, impossibilitando qualquer discussão que não seja pura propaganda ideológica.

Theodore Dalrymple

Theodore Dalrymple já foi comparado a George Orwell, e não é apenas por usar um pseudónimo literário; no entanto, não se situa à esquerda, politicamente, mas antes à direita. Mas encontra-se nele, de facto, algo da mesma lucidez de Orwell: inteligência penetrante e uma insistência em ver a realidade sem as distorções das ideias feitas, das ideologias partilhadas e do que se considera que é bonito pensar hoje em dia, ambos servidos por uma prosa quase tão magistral quanto a de Orwell.

"Thank You For Not Expressing Yourself" acaba de ser publicado e é sobre este fenómeno inacreditável que se encontra nos comentários da Internet: a falta de civilidade, simpatia e sensatez. Tudo começa com o que aconteceu recentemente a Dawkins, que pretendeu eliminar o imenso ruído (comentários irrelevantes e sem relação com o conteúdo que supostamente estaria a ser comentado) dos comentários do seu site; a reacção não se fez esperar, e todos os nomes feios lhe chamaram. E a primeira ideia é logo falar de censura -- um completo absurdo, como nota o doutor Theodor, porque a censura é impedir alguém de ser publicado; não é censura recusar-se a publicar o que alguém escreve. Ou seja, não é censura eu impedir neste site, como Dawkins, os comentários irrelevantes ou tolos ou insultuosos, porque não estou a impedir essas pessoas de publicar precisamente essas coisas, mas noutro lado qualquer que não aqui. Censura seria eu impedi-las de publicar essas coisas, não aqui, mas em absoluto.

O fenómeno da irrelevância e da falta de civilidade nos comentários da Internet é muito interessante, e o doutor Theodore faz dele uma análise que subscrevo. Acrescento apenas que estaríamos a recusar ver a realidade caso se considerasse que é o meio que faz as pessoas agirem como brutos não o sendo todavia; pelo contrário, a vantagem do meio é mostrar à humanidade o que a humanidade realmente é: um grupo de pessoas totalmente reféns dos brutos que entram a matar e eliminam a possibilidade da discussão racional de ideias, de alternativas, de propostas. Na verdade, eliminam a possibilidade de qualquer outro género de sociedade excepto uma sociedade de brutos, que é a única que conseguem conceber. O curioso disto, como nota o doutor Theodor, é que muitos destes brutos são professores universitários (escondidos pelo habitual anonimato da Internet).

6 de março de 2010

Heidegger e o nazismo

Heidegger era nazi. Contudo, muitos admiradores do filósofo consideram que esse é apenas um aspecto da sua biografia, mas não da sua filosofia. Outros, contudo, consideram que a filosofia de Heidegger é intrinsecamente nazi, não sendo a experiência de ler o Mein Kampf muito diferente da de ler Sein und Zeit. É isto mesmo que defende Emmanuel Faye, professor de filosofia na Universidade de Rouen.

4 de março de 2010

Arte e instinto

O Aires Almeida já tinha aqui falado que esta seria uma leitura a fazer em 2009. Agora podemos fazê-la em língua portuguesa. Arte e Instinto de Denis Dutton. A edição é da Temas & Debates, 2010. Fica convidado o Aires para expor com maior precisão o conteúdo desta obra.

Filosofia e ciência

Quando dou aulas de filosofia existe sempre um problema que incomoda os meus alunos e que gostava de discutir com os nossos leitores. Será que a ciência resolve os problemas que os filósofos colocam ao longo de tantos séculos? Se a resposta for afirmativa então segue-se outra questão: e será possível fazer ciência sem fazer filosofia ao mesmo tempo? Se a resposta continuar afirmativa, então qual é o ponto exacto que nos faz compreender quando se está a fazer filosofia e quando se está a fazer ciência?

3 de março de 2010

Wook com menos 20%

A livraria online portuguesa Wook faz hoje e amanhã apenas um desconto excepcional de 20% em todos os livros, excepto escolares.

2 de março de 2010

Cambridge Companion to Atheism

A edição portuguesa de Cambridge Companion to Atheism, org. por Michael Martin, já tem capa e é bonita. Com tradução minha, este volume tem artigos, entre outros autores, de William Lane Craig, Keith Parsons, Evan Fales, Daniel C. Dennett, David O. Brink, Quentin Smith e Patrick Grimm. Editada pela 70, estará à venda em Portugal em finais de Abril. Um capítulo está disponível na Crítica: "Teorias Antropológicas da Religião", de Stewart E. Guthrie.

Weinberg, a ciência e os seus críticos

Acabo de publicar uma recensão de Pedro Pereira Romano do livro Facing Up, de Steven Weinberg.

Vale a pena fazer um comentário à parte final da recensão, na qual o Pedro refere a posição algo crítica de Weinberg perante a filosofia. Isto é algo que já li noutro livro do autor. Em pratos limpos, a crítica parece tola, porque é algo como "não tem aplicação prática, logo não interessa". Um pouco como dizer que tal como a biologia é inútil porque seria largamente irrelevante para um pastor, assim também a filosofia seria inútil porque é largamente irrelevante para um cientista.

Há um sentido em que Weinberg tem razão, e outro em que não o tem.

O sentido em que não tem razão é óbvio: a filosofia, tal como outras áreas da investigação, não são importantes por causa do seu carácter prático ou por permitir fazer melhor ciência ou pontes ou curar doenças, mas apenas porque são as nossas melhores tentativas para enfrentar problemas que nos interessam. E não interessa se não conseguimos resolvê-los realmente, porque seria tolo parar de tentar -- pois aí é que não conseguiríamos mesmo resolvê-los.

Mas há um sentido em que tem razão: é uma crítica à ideia de que primeiro devemos fazer uma reflexão aturada sobre os nossos métodos para, depois de os estabelecer, os aplicar para fazer a investigação propriamente dita. Isto é uma tolice porque só descobrimos os métodos à medida que investigamos as coisas; e muitas vezes nem sequer compreendemos bem os métodos que usamos e que têm funcionado adequadamente. Neste sentido é uma palermice declarar que antes de alguém investigar algo sobre átomos ou o Big Bang ou a tuberculose ou as vacas, tem de vir o filósofo, na sua tarefa de metodólogo, estabelecer primeiro os métodos.

E isto é tão tolo na ciência quanto na filosofia: os novos e opostos métodos filosóficos propostos respectivamente por Descartes e Hume teriam hoje caído no esquecimento não fosse o trabalho real de investigação filosófica levada a cabo por eles; as suas investigações são interessantes independentemente de aceitarmos -- ou sequer de compreendermos bem -- as posições metodológicas por eles defendidas.

Em suma, no que respeita à metodologia, a prova do pudim está em comê-lo -- pela simples razão de que se uma investigação sobre X é difícil, mais difícil ainda é estabelecer previamente os métodos dessa investigação. A ilusão é pensar que estabelecer métodos sobre a investigação de X é algo que podemos fazer independentemente da investigação de X propriamente dita.

1 de março de 2010

Contra o acordo ortográfico, uma ILC

Cidadãos lançam iniciativa contra acordo ortográfico no Facebook: notícia no Público. A ideia tem todas as hipóteses de vencer, pois lança mão de uma figura constitucional que só uma vez foi usada antes em Portugal, e com sucesso: ILC, Inciativa Legislativa de Cidadãos. Ligação...

A liberdade de expressão tem graus?

Muito se tem falado ultimamente em Portugal sobre liberdade de expressão. A baixa política tem-se encarregado de tornar a discussão desinteressante: uns dizem que há liberdade de expressão em Portugal e outros que não, consoante a filiação partidária. Parece que é tudo uma questão de haver ou não haver liberdade de expressão. Mas vale a pena pensar se essa (há ou não há?) é uma forma correcta de colocar a questão da liberdade de expressão, pois, se houver graus de liberdade de expressão, a discussão muda de figura. 

O que acha o leitor?