30 de abril de 2010

Pensamento lateral

Quando a banha da cobra da auto-ajuda ainda não tinha o pujante viço que tem hoje, surgiu a ideia de que havia uma maneira especial de pensar. Consistia em pensar para o lado, dando relevância a outra coisa que não o que parece relevante à primeira vista. Talvez esta técnica mais ou menos mágica de pensar seja importante e mereça divulgação. Mas hoje em dia, no contexto dos blogs, faz falta a defesa do pensamento anti-lateral, pois o que mais se vê é alguém escrever um artigo sobre cosmologia e depois os comentários são todos sobre carapaus. Foi o que aconteceu no meu artigo anterior. De modo que é tempo de fazer a apologia do pensamento anti-lateral, e de estimular os comentadores a comentar exactamente o que está escrito e não seja o que for que, por via de interessantes associações de ideias e palavras, lhes ocorre naquele momento. Uma boa regra é: se nada tenho para dizer sobre o que acabei de ler, não vale a pena falar de outra coisa fingindo que estou a falar daquilo. Ao fim ao cabo, ninguém é obrigado a comentar. E o silêncio, muitas vezes, é de ouro.

29 de abril de 2010

Sociedades da privacidade e desresponsabilização

Falei noutro texto de uma característica curiosa de algumas sociedades a que chamo “sociedades da privacidade” — sociedades nas quais a vida privada é a única coisa genuinamente valorizada pela generalidade das pessoas, encarando-se a profissão como uma coisa chata que se tem de fazer para ganhar a vida. Poderia ter-lhes chamado “sociedades da infantilidade”, pois só adultos com uma mentalidade infantil podem ter esta perspectiva da vida.

Mas não falei de um aspecto central da mentalidade das sociedades da privacidade: a desresponsabilização. Ao falar com qualquer profissional de qualquer área, ele dirá cobras e lagartos da sua própria profissão: que muita coisa está mal, que devia ser diferente, etc. Mas, surpreendentemente para quem não tem essa mentalidade infantil, esse mesmo profissional nunca sequer tentou melhorar as coisas na sua profissão — quanto mais tentar continuamente melhorá-las, como é próprio de qualquer profissional propriamente dito.

Isto compreende-se melhor com uma analogia, sem a qual quem está mergulhado na mentalidade das sociedades da privacidade não entende. Imagine-se alguém que se queixa continuamente que o seu quarto está sujo; e que ainda por cima, os lençóis estão rotos; ademais, as paredes precisavam de ser pintadas. E continua a fazer este discurso ano após ano, sem nada fazer para melhorar o seu quarto. Dado tratar-se agora da vida pessoal, isto é patentemente absurdo. Mas isto é exactamente o que nas sociedades da privacidade as pessoas fazem com a sua própria profissão. E assim dão a imagem de críticos contundentes da sua própria profissão, pensando que isso lhes fica bem, quando na verdade apenas revela a sua mentalidade infantil, segundo a qual a responsabilidade última sobre a sua própria profissão não é dos profissionais dessa profissão, mas de qualquer outra coisa longe e abstracta: o governo, os políticos, a ONU, talvez.

28 de abril de 2010

Ciência e contradição pragmática

Uma tendência recente de alguns intelectuais públicos é uma certa histeria pró-ciência, geralmente associada a uma igual histeria anti-religião. Esta atitude foi rapidamente copiada por alguns defensores nacionais da ciência. E está profundamente errada.

O erro chama-se “contradição pragmática”. É o que acontece quando uma pessoa grita: “Não estou a gritar!”. É o que acontece quando o facto de se fazer algo contradiz o que se está a afirmar. No caso dos patriotas da ciência, para usar a expressão de Carlin Romano, a contradição resulta de o discurso montado contra a religião e em prol da ciência exibir todos os vícios de forma e conteúdo que eles mesmos dizem ver na religião e na superstição. Neste artigo, Carlin Romano explica o que há de errado com esta postura.

27 de abril de 2010

Parricídio filosófico

O Rolando afirma aqui e aqui que a filosofia do 12.º ano em Portugal morreu. Isto não é novidade. Ao passo que antes do actual programa havia várias turmas de filosofia do 12.º ano em cada escola, hoje dificilmente há uma escola por distrito que tenha uma só turma do 12.º ano de filosofia.

Mas por que razão isto aconteceu? A verdade, desagradável, é que foram os próprios professores que a mataram ao inventar um programa absurdo, que consiste numa lista de obras de leitura integral. As minhas críticas mais minuciosas ao programa encontram-se neste livro. Aqui, só quero sublinhar o seguinte: com um programa em que é impossível prever que formação o aluno terá no final do ano, seria previsível que os cursos que exigiam formação em filosofia tenham deixado de a exigir, como foi o caso de Direito (que envolve milhares de alunos em todo o país, todos os anos). Daí a desertificação, que era perfeitamente previsível.

Portanto, não se queixem agora os professores portugueses de filosofia, pois foram eles mesmos, e não o Ministério da Educação, que provocou esta situação. Os professores que fizeram aprovar e que aplaudiram este programa do 12.º ano deviam ter a hombridade de reconhecer o mal que fizeram à filosofia no país.

Quando fiz uma palestra sobre o ensino da filosofia, na Universidade do Porto, publicando depois este texto, algumas pessoas disseram (não escreveram, pois estas pessoas nunca têm a frontalidade de fazer críticas de cara levantada, parecem ter medo que alguém as leve presas) que eu era louco porque estava a condicionar o ensino da filosofia aos interesses comerciais dos editores. Isto é o tipo de ideias que têm as pessoas que não encaram o estudo da filosofia a sério. No meu modesto entender, não pode haver estudo de qualidade da filosofia sem bons livros; isto só não é evidente quando se concebe a filosofia como uma conversa de café de aristocratas cheios de tédio pela vida. Ora, não há bons livros quando fazemos um programa que na prática significa que num dado ano há 40 alunos a ler uma dada obra, outros 50 a ler outra, etc., distribuindo-se assim por dezenas de obras opcionais.

Estes dois factores mataram a filosofia no 12.º ano: mataram-na escolar, editorial e socialmente. Agora, é como se não existisse. Mas, por favor, assuma-se as culpas. Não se trata de crucificar os culpados; errar é humano e toda a gente erra. Eu conheço pessoalmente alguns dos responsáveis pelo programa, e não tenho qualquer azedume ou irritação perante eles. Fizeram um mau trabalho; toda a gente erra; paciência. Mas é importante aprender com os erros e só aprendemos com erros se começarmos por os assumir. Portanto, quem aplaudiu o programa do 12.º ano, e não apenas quem o fez, deve agora reflectir e assumir que errou, em vez de vir agora queixar-se que não há filosofia no 12.º ano. Só assim evitaremos voltar a fazer os mesmos erros. Reponham-se os exames de filosofia no 11.º ano, e estaremos a um passo de reactivar o 12.º, depois de se fazer um verdadeiro programa de filosofia para o 12.º ano.

No país da filosofia II

A França é um país onde praticamente não se escrevem livros introdutórios às diferentes disciplinas da filosofia. Mas isso não impede as pessoas de se entusiasmarem com uma boa polémica filosófica, como a que tem ocupado os principais jornais e canais de televisão franceses nos últimos dias.

A polémica surgiu a propósito do último livro de Michel Onfray, publicado na semana passada. Ainda o livro, intitulado Le Crépuscule d'une Idole: L'Affabulation Freudienne (O Crepúsculo de um Ídolo: A Efabulação Freudiana), não tinha saído e já soavam as trombetas a anunciar o escândalo. Onfray tem-se desdobrado nos jornais e televisões, queixando-se dos mimos com que o têm presenteado: fascista, anti-semita, maniqueísta de direita (parece que o problema é ser de direita porque chamar-lhe maniqueísta de esquerda não seria ofensivo) e outras tiradas ad hominem.

Para quem acompanha minimamente o ambiente intelectual no país da filosofia, isto até que nem devia ser assim tão surpreendente. Os intelectuais franceses (em França as coisas nunca se passam só entre filósofos, até porque os não filósofos são sempre um bocadinho filósofos) pelam-se por uma boa polémica que lhes permita aguçar o verbo e exibir a sua autoridade. O estilo quase heróico, contundente, e fanfarrão é muito frequente entre os "intelectuais" franceses. É por isso que as discussões raramente se ficam apenas por aí; transformam-se normalmente em polémicas. A polémica, diferentemente da discussão, assemelha-se mais a um desporto radical, com montes de adrenalina a saltitar. É também por isso que o grande público nunca regateia o espectáculo de uma boa polémica filosófica nos jornais ou na TV.

Mas o que diz Onfray de tão escandaloso, a ponto de suscitar tamanha polémica? Bom, num ambiente intelectual como o francês, só o título do livro já chega para justificar o escândalo. Onfray ousa tocar num dos nomes da santíssima trindade filosófica que caracteriza o universo intelectual e filosófico francês dos últimos cem anos. Houve tempos não muito distantes em que encontrar um filósofo ou intelectual francês que não fosse marxista, nietzscheano ou freudiano era mais difícil do que encontrar um padre ateu. Muitos eram simultaneamente marxistas, nietzscheanos e freudianos.

Ora, Onfray, diz ter lido tudo o que Freud escreveu, incluindo toda a sua correspondência, e concluiu que o fundador da psicanálise foi um brilhante impostor, que manipulou, distorceu intencionalmente e até inventou casos que nunca aconteceram. Considera que a psicanálise não tem qualquer carácter científico (eia, Onfray descobriu a pólvora!) e que se assemelha mais a uma religião com os seus sacerdotes obedientes ao papa fundador, sem esquecer a promessa de cura dos males das pessoas. Pior, Onfray defende que tudo começa no duvidoso carácter do seu fundador, que se considerava um génio da ciência só igualado por Copérnico e Darwin, mas que trabalhou e escreveu durante doze anos sob o efeito da cocaína em que se tinha viciado, que teve continuadamente relações adúlteras com a cunhada, que gostava muito de dinheiro, que era misógino e homofóbico, etc.

Onfray até parece ser um tipo simpático, com um discurso mais claro e articulado do que muitas das vedetas filosóficas francesas, sempre prontas a cantar de galo. Mas, ficamos algo perplexos com alguns dos seus argumentos, sobretudo quando o vemos queixar-se dos ataques ad hominem que lhe são dirigidos.

Enfim, no país da filosofia há "discussões filosóficas" assim.

Temos um bom ensino da filosofia no ensino secundário?

Quando discuto o ensino da filosofia no ensino secundário em Portugal defendo a ideia de que temos um mau ensino da filosofia partindo de uma premissa que é algumas vezes discutida, a de que temos uma má formação académica em filosofia. O argumento formalizado será este:

Se temos uma má formação em filosofia, então temos um mau ensino da filosofia
Temos uma má formação em filosofia
Logo temos um mau ensino da filosofia

O argumento é válido, é um Modus Ponens. Mas será um bom argumento? Para ser um bom argumento, além de ser dedutivamente válido, tem de ter premissas verdadeiras e as premissas tem de ser mais plausíveis que a conclusão. Que acha o leitor? 

Ensino e filosofia, linguagem e metafísica

Estarei na UFMG, em Belo Horizonte, nos próximos dias 3 e 4 de Maio para dar duas conferências.

A primeira, intitulada "Ensinar a Filosofar", dia 3 de Maio, às 11:30 horas, dirige-se a alunos de licenciatura e versa sobre alguns dos problemas que o ensino da filosofia enfrenta, sobretudo no ensino médio, e que estratégias se pode usar para os resolver.

A segunda, intitulada "Kripke Acerca da Linguagem e da Metafísica", dia 4 de Maio, às 14:00 horas, dirige-se a alunos de graduação e mestrado que já tenham tido algum contacto com as teorias da referência e do significado de Russell e Frege (descritivismo), e visa esclarecer aspectos centrais da teoria da referência de Kripke, incluindo alguns aspectos da sua metafísica que costumam ser confundidos (e.g. a tese da designação rígida não implica o essencialismo; na verdade, sem ela é impossível ser anti-essencialista).

26 de abril de 2010

Um mundo sem Deus

Está já à venda a minha tradução de Um Mundo Sem Deus: Ensaios sobre o Ateísmo, colectânea de ensaios dirigida por Michael Martin (originalmente, um dos Cambridge Companions). Na Crítica podemos ler um dos capítulos: "Teorias Antropológicas sobre a Religião".

Palavra e objeto

A edição brasileira de Palavra e Objeto, de Quine, com tradução de Sofia Stein e minha está já à venda no site da Vozes. Ainda não chegou às livrarias, contudo. Na Crítica, podemos ler dois excertos da minha tradução: "Proposições e Frases Eternas" e "Ascensão Semântica".

Pitágoras e os pitagóricos

Poucas pessoas sabem que quase tudo o que se conta por aí sobre Pitágoras e os pitagóricos é mentira. Desde a publicação de Weisheit und Wissenschaft: Studien zu Pythagoras, Philolaus und Platon 1962, de Walter Burkert, sabemos que a imagem tradicional de Pitágoras é quase inteiramente falsa. O mito resulta de várias vicissitudes históricas, a principal das quais foi o facto de os sucessores de Platão desejarem encontrar uma autoridade antiga que defendesse algo semelhante à sua versão de platonismo. Mesmo a ideia tradicional de que Pitágoras terá sido um matemático exímio, ainda que não tenha descoberto o famoso teorema que hoje tem o seu nome, é presumivelmente falsa; segundo o próprio Aristóteles, os pitagóricos desenvolveram um misticismo numerológico, mas nada que se parecesse com matemática propriamente dita; sobretudo, não foram os pitagóricos que descobriram a noção de demonstração matemática.

M. F. Burnyeat explica aqui a revolução que foi o livro de Burkhert, e como ainda hoje alguns autores têm dificuldade em deitar para o lixo a mitologia associada a Pitágoras e aos pitagóricos. Um dos poucos autores que teve essa coragem foi Charles Kahn. Para minha surpresa, o livro de Kahn sobre os pitagóricos está traduzido no Brasil, com o título Pitágoras e os Pitagóricos: Uma Breve História (Loyola). Excelente notícia!

23 de abril de 2010

22 de abril de 2010

Uma Breve História da Filosofia Moderna


Já dispomos de uma tradução brasileira do livro de Roger Scruton, Uma Breve História da Filosofia Moderna. Foi publicada pela editora José Olympio. O livro pode ser comprado aqui.

Roger Scruton

Acabei de saber a partir do Blogue, Logosfera, da autoria de Carlos Marques e Helena Serrão da publicação para breve em Portugal do livro de Roger Scruton, A Short History of Modern Philosophy : From Descartes to Wittgenstein (Routledge Classics). A edição em Portugal será da Guerra & Paz que de resto já tem publicados outros títulos de Scruton. Pode ler-se um excerto da obra aqui

Sentido na vida

A Princeton University Press acaba de anunciar um novo livro de Susan Wolf sobre o sentido da vida. Trata-se de apenas dois ensaios sobre o tema, seguidos de comentários críticos de John Koethe, Robert M. Adams, Nomy Arpaly & Jonathan Haidt, precedidos por uma introdução de Stephen Macedo, que pode ser lida aqui. Na Crítica podemos ler de Susan Wolf os artigos "Os Sentidos das Vidas" e "O Sentido da Vida"; e no livro Viver para Quê? encontra-se o seu ensaio clássico, "Felicidade e Sentido: Dois Aspectos da Vida Boa".

20 de abril de 2010

No país da filosofia

Se há país onde onde a filosofia e o seu ensino têm um estatuto de intocabilidade é a França. Os franceses consideram-se mesmo o país da filosofia. Por isso, todos os estudantes franceses têm de fazer, no final do secundário (o bac, como lhe chamam), um exame nacional de filosofia.

O bac philo é uma verdadeira instituição. O exame tem apenas uma pergunta (o que está de acordo com o programa, que é simplesmente uma lista de noções filosóficas e outra de autores, que os professores podem combinar como quiserem) e os estudantes têm de dissertar sobre o assunto. Há na net vários sítios, como este, este ou este, com listas de questões possíveis e sugestões de respostas a essas questões, que se fazem pagar pelos seus serviços.

Uma das coisas que se tem discutido frequentemente entre estudantes é se os resultados do exame do bac philo são uma lotaria, dada a disparidade de critérios e daquilo que se pode dizer numa prova assim. Muitos alunos e pais encaram as coisas precisamente dessa forma: o resultado do exame de filosofia é uma questão de mera sorte. 

Ora, parece que se instituiu também o chamado bac blanc, que é um teste de preparação para o exame final, em tudo semelhante ao exame, e que é realizado por esta altura em todas as escolas. Um jovem que acabou de realizar essa prova disse-me hoje qual foi a questão do bac blanc. Foi a seguinte: Pode-se ganhar a vida a trabalhar? (Peut-on gagner sa vie en travaillant?)

Eis uma proposta para o leitor: tentar responder a este interessantíssimo problema filosófico.
Eis também a minha tentativa: Poder pode, pois foi o que os meus pais fizeram; mas não seria a mesma coisa... que ganhar a vida sem trabalhar.

E são estas as entusiasmantes notícias do país da filosofia. 

15 de abril de 2010

Informação e contição

Numa resposta ao Rolando, Frank defendeu implicitamente que num argumento dedutivo válido a informação contida na conclusão está já contida nas premissas, sendo apenas um rearranjo desta. Será? O que pensam os leitores?

Pessoalmente, não consigo tornar interessante, ou sequer verdadeira, esta afirmação, que era muito comum em livros de lógica dos anos 50. Por exemplo, o argumento "Sócrates era grego; logo, a vida tem sentido ou a vida não tem sentido" é válido. E não vejo que a informação da conclusão esteja contida nas premissas.

O único sentido que consigo dar à afirmação tradicional é o seguinte: qualquer pessoa adequadamente formada, que saiba lógica, é capaz de saber que a conclusão é verdadeira se as premissas o forem. Mas isto não significa que a conclusão não contenha mais informação do que as premissas. A menos que se defina falaciosamente "informação" ou "conhecimento" de maneira a que seja idêntico a "conhecimento a posteriori".

Eis como Russell procura refutar a ideia de que nunca há conhecimento novo nas conclusões dos raciocínios dedutivos válidos:

Há um velho debate entre filósofos sobre a questão de saber se a dedução alguma vez fornece conhecimento novo. Podemos agora ver que fornece, pelo menos em certos casos. Se já sabemos que dois e dois são sempre quatro, e se sabemos que Brown e Jones são dois, assim como Robinson e Smith, podemos deduzir que Brown e Jones e Robinson e Smith são quatro. Isto é conhecimento novo, que não está contido nas nossas premissas, porque a proposição geral «dois e dois são quatro» nunca nos disse que há pessoas como Brown e Jones e Robinson e Smith, e as premissas particulares não nos dizem que há quatro deles, ao passo que a proposição particular deduzida diz-nos efectivamente estas duas coisas. (Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia, 1912, cap. 7)
O que pensa o leitor?

Prémio de título mentiroso

Depois de descobrir a edição portuguesa de Ryle, eis um novo caso de edição enganosa: o livro de Putnam intitulado O Colapso da Dicotomia Facto/Valor no Brasil chama-se... O Colapso da Verdade. Não há diferença alguma entre os dois, pois não?

14 de abril de 2010

Cícero

Não saber o que aconteceu antes do nosso próprio nascimento é ser sempre uma criança.

13 de abril de 2010

Thomas Mautner

Muitos autores começam por admitir que não têm uma definição clara de pós-modernismo e que não é claro o que é abrangido pelo termo, mas depois passam a celebrá-lo intensamente — um procedimento curioso.

11 de abril de 2010

Lógica no secundário

Acabo de publicar um artigo de opinião de Rui Daniel Cunha, intitulado "A Lógica no Ensino Secundário". Está aberta a discussão.

Teoremas da completude

Acabo de publicar uma recensão, da autoria de Rui Daniel Cunha, do livro The Mathematics of Logic, de Richard Kaye.

9 de abril de 2010

Big Bang chega a Portugal


Mais vale tarde que nunca. Big Bang, de Simon Singh, chega finalmente a Portugal, em edição que a Gradiva anuncia para este mês. Originalmente publicado em 2004, a tradução brasileira foi publicada em 2006. Trata-se de um dos melhores livros de divulgação científica que me foi dado ler. A recensão que publiquei em 2006 sobre a edição inglesa está aqui. Se quer saber quem somos, de onde viemos e tudo isso, leia este livro e deixe-se de fitas.

A mente segundo Dennett segundo João

Acabo de publicar uma recensão, da autoria de Eduardo Benkendorf e Nivaldo Machado, do livro A Mente Segundo Dennett, de João de Fernandes Teixeira.

7 de abril de 2010

Consumismo cultural

Quando se fala de consumismo dá-se quase sempre o exemplo de pessoas que  não resistem a comprar electrodomésticos, gadgets, roupas de marca, jornais desportivos e coisas assim. Além disso, o consumista é frequentemente visto como alguém inculto e vagamente exibicionista. Mas isto não passa de uma caricatura bastante enganadora, pois dá a entender que o consumismo exclui os chamados "bens culturais", como os livros, os discos ou os concertos.

Há pessoas que coleccionam livros e discos como quem colecciona caricas ou gadgets. E não vejo qualquer superioridade dos consumidores de livros e discos em relação aos consumidores de telemóveis. Ambos são consumidores e, na maior parte dos casos, ambos exemplificam o mesmo tipo de atitude social.

O consumidor de livros, quando já perdeu a ilusão de que comprar muitos livros o torna mais letrado, limita-se a comprar livros por rotina ou para impressionar os outros com uma erudição que não tem. Quantas vezes esses livros nunca são lidos ou são apressadamente lidos apenas para não se ser apanhado em falso numa conversa?

Research, scholarship, education

Esta tríade conceptual resume bem o que deveria ser a missão de qualquer universidade, distinguindo claramente três actividades fundamentais, que não devem ser confundidas, ainda que todas ganhem com a interacção com as outras. Infelizmente, não sei sequer como raio dizer isto em português.

A confusão entre estes três aspectos é recorrente nas zonas mais debilitadas da vida académica. Chama-se “investigação” ou “pesquisa” ao que de facto é, na melhor das hipóteses, mera scholarship: relatos, que podem ser muito importantes e bem feitos, da investigação alheia. Mas a investigação, propriamente dita, é a criação de conhecimento novo; não é repetir o que disse Kant, é fazer o que fez Kant. Por outro lado, sem uma educação sólida, nunca será possível ter bons investigadores, porque ficaram de tal modo mal formados desde o início que na melhor das hipóteses conseguirão fazer relatórios sofríveis sobre o que disse Aristóteles ou Platão.

Quero formular esta tríade em português, mas não sei como. Como traduzir “scholarship” neste contexto? “Research” é investigação (ou pesquisa, no Brasil), “education” é óbvio — mas como traduzir “scholarship”? O leitor pode ajudar-me?

6 de abril de 2010

Compre artigos pelo Comut


Essa dica vai para os brasileiros interessados em comprar artigos de filosofia: todo pesquisador brasileiro sabe que para adquirir artigos não disponíveis gratuitamente no Portal Capes, só é possível recorrer a duas opções: comprar o artigo diretamente no site do periódico relevante ou comprar através do Comut, por meio da biblioteca de sua universidade. O que pouca gente sabe é que é possível comprar os artigos diretamente no próprio site do Comut, sem mediação da biblioteca e com preços ainda mais baixos. Para comprar os artigos pelo site, basta seguir os seguintes passos:

1° Passo: para se cadastrar no site utilize o seu número de CPF (ou documento estrangeiro equivalente) e senha.

2° Passo: escolha as opções cadastro -> bônus -> comprar, nessa ordem. Aqui você comprará o bônus que irá gastar na compra de artigos, capítulos de livro, anais de congressos ou teses. O valor do bônus não diminui com a frequência da compra. O valor é de R$1,82 para cada bônus. Se você comprar 15 bônus e gastar 10, por exemplo, os 5 restantes não prescrevem, ou seja, a qualquer momento que surgir a necessidade de solicitar algum material, o seu saldo estará disponível. A opção Pagamento com cartão de crédito, embora esteja no site, não é mais disponível. O único meio de comprar os bônus é através de boleto, que pode ser pago por meio de débito on-line ou em qualquer terminal de auto-atendimento.

3° Passo: entre em solicitação -> formulário e escolha se quer comprar um artigo, capítulo de livro, anais de congresso ou teses.

4° Passo: preencha os dados de identificação do texto que deseja comprar pelo Comut e escolha continuar. Em seguida, você poderá escolher pelo menos sete bibliotecas de base nacionais para a pesquisa do documento desejado. Caso você não saiba onde se encontra o material, esse é o momento de usar a busca monitorada: não selecione nenhuma biblioteca e marque no final do formulário as opções Busca Monitorada no Brasil ou Busca Monitorada no Exterior.

A opção de pesquisa nas bibliotecas de base tem custo zero, mas as buscas monitoradas têm custo adicional. Se você solicitar busca monitorada no Brasil, o custo do documento aumenta em 2 bônus, por exemplo, um artigo de 20 páginas tem o custo de 4 bônus, com a busca monitorada o custo aumenta para 6 bônus, 4 bônus do custo inicial mais 2 bônus da busca monitorada. Caso a gerência do Comut não localize o material, o pedido é cancelado e você não terá custo nenhum. Com a busca monitorada no exterior o custo final aumenta em 4 bônus. Às vezes, dependendo do país, fica um pouco mais caro. Mas o Comut solicita uma autorização antes, informando o novo valor. Quando escolho busca monitorada no exterior eu sempre marco simultaneamente busca monitorada no Brasil. O custo vai ser o mesmo, marcando só exterior ou marcando exterior e Brasil.

5° passo: Nessa etapa você escolherá a forma de envio. As mais comuns são e-mail e correio normal nacional, essas duas tem um custo de R$1,82 a cada bônus (equivale a 5 páginas). As outras formas têm um custo muito alto, no caso do sedex nacional, por exemplo, é de R$21,84 para cada 5 páginas. Eu sempre escolho email: às vezes o artigo é enviado no mesmo dia. O artigo é escaneado e depois convertido em pdf, ou seja, você receberá em seu e-mail o artigo em formato pdf. Depois é só aguardar. Você pode verificar o andamento de seus pedidos em Situação da solicitação e consultar seu saldo na seção Cadastro.

Alguém poderia perguntar qual é o interesse de comprar artigos pelo Comut se podemos ir direto na fonte e comprar os artigos nos próprios periódicos. A resposta é que ao comprar pelo Comut você tem uma vantagem: se o artigo desejado já estiver em alguma biblioteca do Brasil, você pagará apenas pela cópia do artigo, o que custa menos do que comprar o artigo no próprio periódico. Agradeço ao Cláudio, responsável pelo Comut na biblioteca da Fafich (UFMG) pela infinita paciência e inúmeros esclarecimentos. Sem ele não conseguiria fazer este post. Espero que essa notícia seja útil aos possíveis interessados!

Esquecimento global

Excelente artigo no Der Spiegel, equilibrado e informativo, sobre o problema do aquecimento global. Infelizmente, só para quem lê inglês.

Coleção Os Grandes Filósofos


A editora Unesp tem contribuído para o desenvolvimento da filosofia no Brasil com publicações de obras de filosofia indispensáveis. Ela já publicou a algum tempo a tradução da excelente coleção de bolso da Routledge: "Os Grandes Filósofos" . Os consultores da coleção são Ray Monk e Frederic Raphael. Os livros têm em torno de sessenta páginas e apresentam um pouco da vida e da teoria de filósofos como Bertrand Russell, Collingwood, Hume, Ayer, Schopenhauer, entre muitos outros. Vale a pena conferir!

A Filosofia de Leibniz


Alguns livros de Leibniz e sobre a sua filosofia foram publicados em português, vale a pena divulgá-los:

Livros electrónicos chegam ao Brasil

A Livraria Cultura disponibiliza a partir desta semana livros electrónicos em formato PDF e ePub. A maioria destes livros são em língua inglesa.

Um dilema moral

François de Salignac de la Mothe Fénelon (1651-1715), bispo de Cambrai, é o autor do romance Les aventures de Télémaque 1699 (As Aventuras de Telémaco 2006), que transmite um conjunto de ideais políticos ponderados e sensatos a ser observados pelos governantes de um país. O anarquista e romancista inglês William Godwin (1756–1836), pai de Mary Shelley (1797–1851), autora de Frankenstein, or the Modern Prometheus 1818 (Frankenstein, ou o Prometeu Moderno), usou Fénelon como paradigma de um grande benfeitor da humanidade na seguinte experiência mental.

O leitor pode salvar apenas uma pessoa de um edifício em chamas. Das duas que estão no interior, um é um criado, um bêbado preguiçoso e grosseiro, dado a brigas e desonesto, a outra é o Arcebispo Fénelon. Quem deve salvar?

A resposta é óbvia: deve salvar o grande benfeitor da humanidade, porque, ponderando todos os factores, é isto o que terá provavelmente as melhores consequências. (Godwin era utilitarista.)

Mas há um senão nesta história.

E se o bêbado grosseiro, etc., for o seu pai?

5 de abril de 2010

Plágios, tradutores e autores

Denise Bottmann, tradutora brasileira, tem agitado as águas pardas da melancolia editorial brasileira. Descobriu que uma prática infeliz de alguns editores brasileiros consiste em reeditar traduções antigas, mudando o nome do tradutor — para um nome fictício ou não, não interessa — fingindo tratar-se de nova tradução.

Não fosse o tradutor nos países de língua portuguesa (Portugal incluído) considerado um moço de recados, e esta prática seria naturalmente inaceitável e impugnável em tribunal. Pois imagine-se o que seria eu, como editor, pegar num romance qualquer com trinta ou quarenta anos (ou duzentos anos!), e que caiu no esquecimento, reeditá-lo e... tirar o nome do autor e enfiar-lhe outro nome qualquer. Evidentemente, num caso destes, o crime intelectual seria evidente. Já no caso dos tradutores as pessoas assobiam para o ar e fingem que está tudo bem.

Do meu ponto de vista, isto deve-se ao estatuto absurdo que tem o tradutor em Portugal e no Brasil, ao contrário do que ocorre em França ou na Inglaterra: na lusofonia, o tradutor não é considerado um autor, o que é inaceitável. Os nomes dos tradutores de países culturalmente mais sofisticados vêm na capa dos livros, e os tradutores têm direitos intelectuais sobre a sua tradução: são co-autores, juntamente com o autor original. É um trabalho intelectual criativo, único, irrepetível. E que dá muito, muito trabalho, para ser bem feito. É inaceitável usar o trabalho de um tradutor, eliminando-lhe o direito de autoria.

Do meu ponto de vista, já que as práticas editoriais fraudulentas, denunciadas pela Denise, são infelizmente muitas, é preciso legislar para proteger o tradutor. E um passo importante nessa direcção é passar a ser obrigatória a menção do nome do tradutor na capa de todos os livros traduzidos.

Denise tem sido perseguida pelos editores cujos plágios ela provou no seu blog. Dois editores brasileiros levantaram-lhe processos em tribunal — isto é kafkiano, pois é como um ladrão que levanta um processo ao jornalista que lhe denunciou os trabalhos nocturnos. Leia o blog da Denise e, caso concorde, assine esta petição. É tempo de pôr cobro a estas práticas.

4 de abril de 2010

Patriotismo linguístico

Uma língua reflecte muitas coisas. Não é uma entidade linguística pura, um instrumento puro de comunicação e entendimento, de arte e elegância. Reflecte aspirações sociais, objectivos políticos, modos de vida. Por vezes, reflecte o que há de mais tolo e caricato na mentalidade de uma população.

Portugal é um dos mais antigos países do mundo, com fronteiras inalteradas há quase nove séculos. No entanto, há uma certa ansiedade patriótica em alguns sectores da sociedade, resultado talvez da irrelevância cultural, económica e política do país em termos internacionais.

A língua portuguesa é, em grande parte, uma mentira política. Separou-se do castelhano artificiosamente, para marcar a diferença nacional — e os portugueses perderam com isso, pois hoje poderiam bem pertencer a essa gigantesca língua, sem que isso ameaçasse de modo algum a independência política e cultural de Portugal. Por vezes, essa separação linguística foi feita à toa: os portugueses deixaram de dizer “mais grande”, como em castelhano, mas continuaram incoerentemente a dizer “mais pequeno”; os brasileiros são mais coerentes e rejeitam as duas.

Todavia, quero falar de outro artificialismo mais recentemente introduzido na língua portuguesa de Portugal: o cagaço do gerúndio. Isto é muito recente, dado que em textos de Eça de Queirós ou de Fernando Pessoa se vê o gerúndio correctamente usado — para falar do que está em curso no momento. Assim, é correcto dizer “Estou escrevendo este apontamento” e um disparate português dizer “Estou a escrever este apontamento”. A minha hipótese é que a dada altura de finais do séc. XIX ou já no séc. XX algum português que não tinha sensatez em excesso sonhou que o gerúndio era brasileiro — porque realmente se abusa do gerúndio no Brasil — acabando por tirar das calças o que os brasileiros põem a mais na camisa.

Outro exemplo deste patriotismo linguístico é o “se vende”. No norte do país, é tradicional, e correcto, dizer “Se vende uvas”. É correcto porque a alternativa, “Vendem-se uvas”, usa uma forma igual ao reflexo de “A Joana vende-se”, que significa que ela se vendeu a si mesma, mas as uvas não se vendem a si mesmas. O medo do papão brasileiro fez os linguistas dar voltas aos miolos para justificar a segunda locução, mas a minha hipótese é que a justificação não é linguística: é meramente social e política, o resultado de um sentido histérico de patriotismo, que denuncia uma falta de sentido histórico da nação, sossegada há séculos sem quaisquer ameaças exteriores. Na verdade, a maior ameaça à nação é interior, na forma de patriotismos linguísticos histéricos como estes.

3 de abril de 2010

Refutação do materialismo

Segundo Leibniz, o que é verdadeiramente real, no sentido de ser real em última análise, é o que não depende de outra coisa qualquer para existir. É o que existe por si mesmo. A ideia é que o que depende de outra coisa deve a sua realidade a essa coisa, sem a qual não existiria.

Daqui segue-se que o verdadeiramente real não pode ter partes. Isto porque se tivesse partes dependeria delas para existir: uma bicicleta não pode existir sem as suas rodas, uma molécula sem os seus átomos.

Daqui segue-se que o que é verdadeiramente real não pode ter extensão espacial, pois tudo o que tem extensão espacial tem partes — as suas partes espaciais.

Daqui segue-se que o materialismo e o atomismo estão errados. O fundamentalmente real não pode ser material, porque não pode ter extensão espacial. Logo, tem de ser espiritual. QED

O que pensa o leitor?

2 de abril de 2010

Símbolos

Uma das ideias feitas curiosas é a de que devemos respeito e subserviência a certos símbolos: a bandeira, o hino, uma cruz, etc. Penso que isto é um disparate. Devemos respeito a pessoas, e não a símbolos. Na verdade, penso que qualquer adulto deve desrespeito aos símbolos, ou pelo menos completa indiferença.

Um aspecto curioso quando se fala de símbolos é a atitude paternalista das pessoas que os defendem. O argumento usado é mais ou menos este: “Sem o respeito pelos símbolos, seria o caos”. Quando pergunto a quem usa este argumento se sem respeito pelos símbolos me iria matar ou passar a ser um ladrão, ela responde que não — mas que isso aconteceria com "os outros". Isto é curioso. Nunca conheci pessoa alguma que aceitasse que sem símbolos se tornaria um renegado, e conheço infelizmente muitas bestas sem respeito algum pelas pessoas que no entanto respeitam os símbolos. Então, para que servem os símbolos?

A resposta é que serve para dominar e manter os seres humanos na menoridade intelectual.