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Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2010

Vergílio em nome da terra

Acabo de publicar uma não recensão de Faustino Vaz do romance em nome da terra, de Vergílio Ferreira.

Mónica sobre Darwin

Maria Filomena Mónica recorda aqui Charles Darwin.

O instinto da arte

Acabei de publicar aqui a página de apresentação da edição portuguesa do livro Arte e Instinto (cujo título original, literalmente traduzido, é O Instinto da Arte).

Mete a filosofia onde quiseres

Metafilosofia? O que é isso? É o que responde Luiz Helvécio Marques Segundo, em poucas palavras. Aqui.

Susan Haack em português

Acabo de publicar a recensão de Matheus Silva do livro Filosofia das Lógicas, de Susan Haack. Boa leitura!

Defesa da diversidade

photo by babastevevia PhotoRee
O Carlos põe aqui o dedo na ferida: caso toda a gente se dedicasse à matemática, física, filosofia e história, por exemplo, não haveria pão; não haveria restaurantes; não haveria supermercados nem mercearias. Há duas grandes confusões presentes quando as pessoas objectam ao que disse o Carlos e que me parece uma verdade inevitável.

A primeira está patente logo no primeiro comentário ao apontamento do Carlos: consiste em pensar que fazer pão ou guiar um taxi ou trabalhar num supermercado são coisas "estúpidas". Mas nem a ideia original do Carlos fala de estupidez, nem tem seja o que for a ver com isso. Podemos ver o que está em causa de outro modo: imagine-se que toda a gente se interessava exclusivamente por fazer pão; nesse caso, não haveria médicos nem pedreiros. Nem filósofos, nem físicos. Dizer isto não é dizer que estas actividades são "estúpidas". Do mesmo modo, dizer que se toda a gente se interessasse por história, matemática…

III Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP

Encontram-se abertas as inscrições para o III Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP, que ocorrerá de 18 a 22 de Outubro no IFAC, em Ouro Preto. O prazo para inscrição na modalidade de ouvinte e de autor de comunicação termina dia 9 de agosto. Aos autores de comunicação aprovados será cobrada uma taxa no valor de R$ 15,00 para confirmação da inscrição. Aos ouvintes e participantes de mini-curso as inscrições serão gratuitas e poderão inscrever-se presencialmente até ao dia 18 de outubro, caso haja vagas remanescentes. Para ambas as modalidades, as inscrições deverão ser realizadas através do envio da ficha de inscrição (disponível aqui), completamente preenchida, para este e-mail. Mais informações...

Literaturas e atitudes

Defendo algumas ideias talvez insensatas no artigo de opinião "Literatura, Aventura e Mentira", a propósito da literatura infantil e juvenil. E o que pensa o leitor?

Filosofia da filosofia

Acabo de publicar a minha tradução da introdução do livro The Philosophy of Philosophy, de Timothy Williamson.

A reflexão filosófica sobre o que fazemos quando fazemos filosofia, e como poderemos fazê-lo melhor, é importante porque tem um certo poder orientador e clarificador. Não raro, revela pressupostos positivistas indefensáveis que, levados a sério, ou transformariam a filosofia em história ou a transformariam em conversa mole de fim-de-semana, sob a capa de uma atitude existencial algo infantil, ou então a transformariam numa mera disciplina da lógica. Do meu ponto de vista todos estes pontos de vista têm duas coisas em comum. Primeiro, uma insensibilidade à força dos problemas centrais da filosofia. Segundo, a convicção (filosófica e portanto autorrefutante!) de que as ciências esgotam o domínio do cognitivo.

Williamson é um dos filósofos contemporâneos que está a milhas de distância de qualquer destas atitudes perante a filosofia, e por isso a milhas de distância de uma cert…

100 000

Não sou muito de andar a ver as estatísticas de acesso da Crítica. Mas hoje fui ver os registos, e a barreira dos cem mil visitantes únicos foi ultrapassada em Março, com 103 mil visitantes. Em Janeiro 41 mil pessoas diferentes visitaram a Crítica, em Fevereiro 61 mil e em Abril 95 mil. Neste mês de Maio já 60 mil pessoas vieram até cá. Note-se que estas são as estatísticas da revista Crítica, e não deste blog.

A razão pela qual não dou muita importância às estatísticas de acessos é que são em grande parte ilusórias. Primeiro, o sistema procura contar apenas um acesso por pessoa; mas isto é imperfeito porque a mesma pessoa conta como duas sempre que limpa o cache do seu computador ou muda de computador. Segundo, a esmagadora maioria das visitas (79 %) tem a duração de 30 segundos ou menos: são pessoas que estão de passagem, procuram algo e não encontraram o que queriam. De modo que, descontando tudo isto, é razoável considerar que quando se tem 100 mil visitas isso corresponde a cerc…

O absurdo segundo Nagel

Acabo de publicar o artigo "Nagel e o Absurdo da Vida", de Matheus Silva, que argumenta que o argumento de Nagel a favor do absurdo da vida não colhe. E o que pensa o leitor?

Problemas da estética

Acabo de publicar a minha tradução do informativo artigo de Jenefer Robinson sobre problemas da estética, que dá uma visão geral da área.

Descrições definidas

Acabo de publicar um artigo de Sagid Salles Ferreira, de carácter introdutório, sobre a teoria das descrições definidas de Bertrand Russell, e respectivas críticas. Espero que seja útil e estimulante.

Francis Bacon

A compreensão humana não é um exame desinteressado, mas recebe infusões da vontade e dos afetos; disso se originam ciências que podem ser chamadas “ciências conforme a nossa vontade”. Pois um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade. Assim, ele rejeita coisas difíceis pela impaciência de pesquisar; coisas sensatas, porque diminuem a esperança; as coisas mais profundas da natureza, por superstição; a luz da experiência, por arrogância e orgulho; coisas que não são comumente aceitas, por deferência à opinião do vulgo. Em suma, inúmeras são as maneiras, e às vezes imperceptíveis, pelas quais os afetos distorcem e contaminam o entendimento. Novo Órganon, parágrafo XLIX.

Defender a filosofia, com verve

Acabo de publicar um artigo de opinião cheio de verve de João Carlos Silva, "Três Demónios Inimigos da Filosofia", que denuncia alguns dos obstáculos epistemológicos habituais que nos afastam da filosofia. E o que pensa o leitor?

Fugir da filosofia

Já falei noutro apontamento da curiosa fuga constante da filosofia para outras coisas (literatura, lógica, psicologia, história, etc.); esta atitude poderá resultar de ao entrar na universidade se descobrir com espanto que o conceito popular de filosofia (algo parecido com auto-ajuda, mas com citações de verdades arcanas) ser afinal falso: não é isso que encontramos nos textos de Platão ou Aristóteles, Ockham ou Descartes, Hume ou Kant, Russell ou Frege. Num texto antigo e muito retórico, "O Fariseu", falei ironicamente dos profissionais da filosofia que não têm o mínimo interesse pela sua própria disciplina. E o que pensa o leitor?

Doutrinação e liberalismo

Tenho reparado muitas vezes que quando os alunos são libertados da doutrinação dando-lhes a conhecer outras alternativas que até então estavam silenciadas, os professores mais doutrinários gritam então que os alunos estão a ser doutrinados. Aparentemente, só há problema se forem doutrinados na doutrina que não se professa, ao passo que se forem doutrinados na que se professa não há qualquer problema. Vale a pena reler o texto "Anti-liberalismo", de João Cardoso Rosas, que narra um exemplo hilariante.

Democracia de fachada

No artigo "Democracia de Fachada" teço algumas considerações sobre o que levará quem verbalmente se diz democrático a agir de maneira anti-democrática. A ideia central é que a democracia, correctamente entendida e praticada, nos põe perante a nossa própria falibilidade epistémica. E o que pensa o leitor?

J. S. Mill

É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; um Sócrates insatisfeito do que um idiota satisfeito. E se o idiota, ou o porco, têm opinião diferente, é porque apenas conhecem o seu lado da questão. A outra parte da comparação conhece ambos os lados.

Mentir é feio

photo by TerryJohnstonvia PhotoRee
Miguel RM, como muitos dos defensores do famigerado acordo ortográfico, sugere falsidades neste apontamento. Dá ao público a impressão falsa de que com a nova ortografia a maneira portuguesa e a maneira brasileira de escrever são uma só. Mas isto é falso. "Espectador", que antes brasileiros e portugueses escreviam do mesmo modo, passa agora a ser escrito de maneira diferente em Portugal e no Brasil; e o mesmo acontece a "perspectiva" e "aspecto". E, claro, "café da manhã" em Portugal não quer dizer pequeno-almoço, e no Brasil o pequeno almoço é apenas um almoço pequeno. Os fatos em Portugal são roupa, mas no Brasil são o que nós chamamos "factos". Uma das mentiras do Miguel, como de outros defensores do acordo, é sugerir sistematicamente que o acordo é uma unificação ortográfica. Não é.

Miguel afirma que a obra da Gulbenkian referida se destina a todos os lusófonos, e não apenas aos portugueses -- sug…

Lógica e metafísica

Tome-se um argumento dedutivamente válido qualquer, daqueles cuja validade é captável na lógica clássica, por exemplo (como o modus ponens). É impossível que as premissas desse argumento sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Em que sentido de “impossível”? Por definição, é logicamente impossível. Mas o que quer isso dizer? A resposta comum é que se trata de uma modalidade linguística. Diz respeito à forma lógica e às palavras usadas. A impossibilidade é linguística ou formal.

Mas que argumento existe a favor de tal coisa? Não pode ser o argumento de que nós podemos detectar a validade do argumento olhando apenas para a forma lógica e portanto para a expressão linguística do argumento. Este argumento seria como defender que quem matou o Silva foi as pegadas na lama, porque descobrimos quem o matou vendo as pegadas. O que nos permite descobrir que um argumento é válido não tem de ser o que o faz ser válido. Sabemos pela forma lógica que um argumento é válido, mas o que o faz válido po…

Dois extremos

Acabei de publicar um excerto do livro de introdução à filosofia da educação de T. W. Moore, com o título "Duas Concepções de Educação: a mecanicista e a orgânica", em tradução de Rui Daniel Cunha. A oposição em causa nestas duas concepções de educação (ou, para ser mais rigoroso, ensino) exprime-se por vezes em inglês opondo o sage on the stage (o sábio no palco) ao guide on the side (o guia do nosso lado). No primeiro caso, a que Moore chama concepção mecanicista, o professor debita conhecimento para ser memorizado e compreendido pelos alunos; corresponde às aulas expositivas, que constituem para a maior parte de nós o único género de aulas que teve ou que dá. No segundo caso, a que Moore chama concepção orgânica, trata-se de criar condições para que os próprios estudantes façam o seu percurso, surgindo o professor como um guia mais experiente, disposto a ajudar quando necessário.

Do meu ponto de vista, ambas as concepções estão erradas porque por vezes é mesmo preciso ex…

Orwell sobre a felicidade

No artigo com o enganador título "Podem os Socialistas ser Felizes?" Orwell fala com lucidez da opacidade da felicidade. O que pensa o leitor? Eu já havia referido este texto em "Soberba Epistémica, Estatismo e Legislação".

Falibilidade e necessidade

Uma confusão constante em filosofia é entre conceitos epistémicos e metafísicos. Uma parte infelizmente importante de debates confusos e sem interesse baseia-se nesta confusão. Um desses casos é a confusão entre falibilidade e necessidade. São conceitos inteiramente distintos. O primeiro é meramente epistémico. O segundo é metafísico.

Dizer que algo é falível é dizer que nos podemos enganar. Não é dizer que algo é contingente. Algo ser contingente é algo que é de certo modo poder ser de outro. Mas isso nada tem a ver com falibilidade. Por exemplo, é contingente que não está a chover em Ouro Preto; poderia estar a chover. Mas o meu diagnóstico de que não está a chover, se for falível, não é por ser contingentemente verdade que não está a chover, mas antes por estar a chover e eu pensar erradamente que não está a chover. O que faz a falibilidade do meu juízo não é a contingência da chuva, mas o meu engano. Um juízo é falível não quando diz que p num mundo em que p havendo outro mundo p…

As delícias da linguagem

Acabei de receber um exemplar da minha tradução parcial de Palavra & Objeto, de Quine. A secção 47, traduzida por mim, tem por título "Um enquadramento para a teoria". O original é "A framework for theory". Mas mudaram a minha tradução para "Uma armação para a teoria". Gostaria de saber se a armação é de aço ou de madeira.

As frases ou proposições condicionais também mudaram de sexo e passaram a ser "os condicionais" em vez de "as condicionais", o que no mundo de hoje se compreende e aplaude, dado o direito à transsexualidade e tudo isso.

No início da bibliografia podemos ler, no original: "Listam-se apenas as obras a que se alude algures no livro" (Only those works are listed that are alluded to elsewhere in the book). Mas na tradução lê-se "Somente aos trabalhos listados aludiu-se em algum lugar do livro", uma maravilhosa frase enigmática que dá logo outra densidade ôntica ao velho Quine.

O que se lê na pág…

O problema da indução

Do meu ponto de vista, há muita confusão quanto ao problema da indução. Parece-me um erro pensar que o problema da indução é não ser uma dedução. E é isto que queremos dizer quando afirmamos que o problema da indução é a verdade das premissas não excluir a falsidade da conclusão (ou não garantir ou "preservar" a sua verdade); ou quando dizemos que os argumentos indutivos não têm uma forma lógica válida. Em ambos os casos é como uma pessoa queixar-se que a divisão não é válida porque não é como a multiplicação. Parece-me que algumas formulações do problema da indução, como estas, denunciam uma incompreensão do mesmo. O próprio Hume parece por vezes fazer esta confusão, mas nem sempre.

Qual é então, do meu ponto de vista, o verdadeiro problema da indução? É um problema comparativo. Temos uma confiança na dedução que não temos na indução porque temos codificações extremamente sofisticadas e informativas que nos explicam as validades dedutivas: são as lógicas formais. Estas lóg…

Às voltas com a indução

O raciocínio indutivo não pode ser justificado indutivamente; isso seria circular. Nem pode ser justificado dedutivamente — isso seria demasiado forte, transformando a indução em dedução.Se o leitor pensa que isto é um problema, terá de considerar que o seguinte é também um problema, ou então explicar por que não o é:
O raciocínio dedutivo não pode ser justificado dedutivamente; isso seria circular. Nem pode ser justificado indutivamente — isso seria demasiado fraco, transformando a dedução em indução.

A probabilidade de Deus

Pedro Galvão estará no Seminário de Filosofia Analítica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para falar da probabilidade de Deus, no dia 7 de Maio, às 16 horas, na sala 5.2. Resumo:
O universo, pelo que ficámos a saber graças aos avanços na física cosmológica, está minuciosamente afinado para a existência de vida racional. Isto significa, por exemplo, que o seguinte parece ser verdade a respeito de várias constantes físicas: se estas tivessem assumido valores ligeiramente diferentes, nunca poderia ter surgido alguma vez vida racional, nem sequer outras formas de vida. A afinação minuciosa do universo motivou um novo argumento teleológico a favor da existência de Deus. Os seus defensores sustentam que esta aumenta significativamente a probabilidade da perspectiva teísta. Há, porém, uma forma de dar conta da afinação minuciosa que dispensa a existência de qualquer afinador inteligente: admitir que o nosso universo é apenas um entre muitos universos. Defenderei que, dada a a…

Uma sugestão de um leitor

Um leitor contactou-me a propósito do disparate que foi dezenas de comentários totalmente laterais ao meu apontamento. Eu tenho algum prurido em apagar comentários que, sendo laterais e irrelevantes para o tema do apontamento em causa, me atacam ou mandam bocas, porque os autores depois queixam-se que estou a fazer censura. Não é disso que se trata. É preciso distinguir discordâncias de ideias e ataques a ideias que eu ou outra pessoa escreve de ataques a pessoas. Mas a verdade é que situações como a desse apontamento, com dezenas de comentários totalmente laterais, frustram os leitores. O leitor que me contactou disse-me que começou a ler os comentários por se interessar pelo tema do apontamento, para descobrir depois de os ler que nenhum o discutia. E fez uma analogia importante: seria como navegar na Crítica, ir para a secção de filosofia da mente, e depois de ler várias páginas de um artigo descobrir que nada tem a ver com essa disciplina. É frustrante.

O que podemos fazer? Duas …

Racionalidade distribuída

Quando li pela primeira vez Sobre a Liberdade, de John Stuart Mill, obra publicada pela primeira vez em 1859, fiquei surpreendido com um aspecto epistémico que não tinha visto mencionado pelos historiadores e comentadores (ainda que eu esteja longe de conhecer a bibliografia sobre esta obra). Mill defende uma tese epistémica extremamente forte, mas muitíssimo plausível, sobre a racionalidade: o que chamo tese da racionalidade distribuída. O que pensa o leitor?

Bertrand Russell

É claro que é possível que todas ou qualquer uma das nossas crenças possa estar errada, e consequentemente todas devem ser adoptadas com pelo menos um ligeiro elemento de dúvida. Mas não podemos ter razão para rejeitar uma crença excepto com base noutra crença qualquer.

Filosofia antiga renovada

Está já à venda em Portugal a tradução de Fátima Carmo do primeiro volume da monumental Nova História da Filosofia Ocidental, de Sir Anthony Kenny (Gradiva). No Brasil, os quatro volumes estão já editados, pela Loyola.

Uma refutação dos anti-aléticos

Se não há verdades, não há erros.
Se não há erros, somos todos infalíveis.
Mas não é verdade que sejamos todos infalíveis.
Logo, há verdades. Uso muitas vezes este argumento para ver como pode um anti-alético responder-lhe. Até hoje, não vi uma resposta satisfatória. Talvez o leitor tenha uma. Mas, seja ela qual for, não pode cometer a “falácia da falta de vergonha na cara”, que consiste em rejeitar a lógica que refuta a sua própria posição, mas aceitar a mesmíssima lógica para argumentar a favor dela.