28 de maio de 2010

Vergílio em nome da terra

Acabo de publicar uma não recensão de Faustino Vaz do romance em nome da terra, de Vergílio Ferreira.

Iniciativa Legislativa de Cidadãos

Com 35 mil assinaturas, é possível travar a aplicação do Acordo Ortográfico. Se discorda da aplicação do Acordo Ortográfico, assine aqui e divulgue.

27 de maio de 2010

Mónica sobre Darwin

Maria Filomena Mónica recorda aqui Charles Darwin.

O instinto da arte

Acabei de publicar aqui a página de apresentação da edição portuguesa do livro Arte e Instinto (cujo título original, literalmente traduzido, é O Instinto da Arte).

25 de maio de 2010

Defesa da diversidade

photo by babastevevia PhotoRee

O Carlos põe aqui o dedo na ferida: caso toda a gente se dedicasse à matemática, física, filosofia e história, por exemplo, não haveria pão; não haveria restaurantes; não haveria supermercados nem mercearias. Há duas grandes confusões presentes quando as pessoas objectam ao que disse o Carlos e que me parece uma verdade inevitável.

A primeira está patente logo no primeiro comentário ao apontamento do Carlos: consiste em pensar que fazer pão ou guiar um taxi ou trabalhar num supermercado são coisas "estúpidas". Mas nem a ideia original do Carlos fala de estupidez, nem tem seja o que for a ver com isso. Podemos ver o que está em causa de outro modo: imagine-se que toda a gente se interessava exclusivamente por fazer pão; nesse caso, não haveria médicos nem pedreiros. Nem filósofos, nem físicos. Dizer isto não é dizer que estas actividades são "estúpidas". Do mesmo modo, dizer que se toda a gente se interessasse por história, matemática, física, filosofia, etc., não haveria padeiros, não sugere que ser padeiro é estúpido.

A segunda é uma incapacidade para compreender e aceitar a diferença. Presumivelmente, isto é fruto de provincianismo ou de falta de experiência de vida. As pessoas não têm todas os mesmos interesses. Felizmente. O que para uma pode ser um projecto de vida estimulante e fonte de felicidade, para outra pode ser uma perspectiva deprimente. Quem sofre desta incapacidade para ver a diferença não consegue aceitar que uma pessoa possa gostar do que ela não gosta (ou pior: do que ela finge gostar por pensar que dá estatuto social, mas da qual realmente não gosta), e se ela por azar gosta de matemática, não consegue entender como se pode gostar de ser taxista. Ou vice-versa.

Claro que está aqui subjacente outro aspecto: a valorização social. Socialmente, um emprego como professor universitário é mais valorizado do que um emprego como taxista. Mas isto é apenas um reflexo de uma sociedade classista e palerma. Lutar contra isso não é lutar contra os taxistas, mas antes lutar contra a ideia de que ser professor universitário tem mais valor ou é "superior" a ser taxista. Lutar contra uma sociedade classista não é querer acabar com actividades vistas como menores, mas antes acabar com a ideia de que tais actividades são menores. Lutar contra o classismo é lutar pela valorização de profissões tradicionalmente desvalorizadas.

O que se segue de tudo isto no que respeita ao ensino? Que se deve dar uma formação científica e cultural a todos os cidadãos e que se lhes deve dar também a oportunidade de escolher a área de actividade na qual pretendem dar a sua contribuição à sociedade em que vivem.

E o que pensa o leitor?

24 de maio de 2010

III Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP

Encontram-se abertas as inscrições para o III Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP, que ocorrerá de 18 a 22 de Outubro no IFAC, em Ouro Preto. O prazo para inscrição na modalidade de ouvinte e de autor de comunicação termina dia 9 de agosto. Aos autores de comunicação aprovados será cobrada uma taxa no valor de R$ 15,00 para confirmação da inscrição. Aos ouvintes e participantes de mini-curso as inscrições serão gratuitas e poderão inscrever-se presencialmente até ao dia 18 de outubro, caso haja vagas remanescentes. Para ambas as modalidades, as inscrições deverão ser realizadas através do envio da ficha de inscrição (disponível aqui), completamente preenchida, para este e-mail. Mais informações...

23 de maio de 2010

Literaturas e atitudes


Defendo algumas ideias talvez insensatas no artigo de opinião "Literatura, Aventura e Mentira", a propósito da literatura infantil e juvenil. E o que pensa o leitor?

22 de maio de 2010

Filosofia da filosofia

Acabo de publicar a minha tradução da introdução do livro The Philosophy of Philosophy, de Timothy Williamson.

A reflexão filosófica sobre o que fazemos quando fazemos filosofia, e como poderemos fazê-lo melhor, é importante porque tem um certo poder orientador e clarificador. Não raro, revela pressupostos positivistas indefensáveis que, levados a sério, ou transformariam a filosofia em história ou a transformariam em conversa mole de fim-de-semana, sob a capa de uma atitude existencial algo infantil, ou então a transformariam numa mera disciplina da lógica. Do meu ponto de vista todos estes pontos de vista têm duas coisas em comum. Primeiro, uma insensibilidade à força dos problemas centrais da filosofia. Segundo, a convicção (filosófica e portanto autorrefutante!) de que as ciências esgotam o domínio do cognitivo.

Williamson é um dos filósofos contemporâneos que está a milhas de distância de qualquer destas atitudes perante a filosofia, e por isso a milhas de distância de uma certa maneira de encarar Wittgenstein ou Quine, que em certos sectores são vistos como vacas sagradas que não podem ser postas em causa. Leia-se-lhe o texto, e discutamo-lo.

20 de maio de 2010

100 000

Não sou muito de andar a ver as estatísticas de acesso da Crítica. Mas hoje fui ver os registos, e a barreira dos cem mil visitantes únicos foi ultrapassada em Março, com 103 mil visitantes. Em Janeiro 41 mil pessoas diferentes visitaram a Crítica, em Fevereiro 61 mil e em Abril 95 mil. Neste mês de Maio já 60 mil pessoas vieram até cá. Note-se que estas são as estatísticas da revista Crítica, e não deste blog.

A razão pela qual não dou muita importância às estatísticas de acessos é que são em grande parte ilusórias. Primeiro, o sistema procura contar apenas um acesso por pessoa; mas isto é imperfeito porque a mesma pessoa conta como duas sempre que limpa o cache do seu computador ou muda de computador. Segundo, a esmagadora maioria das visitas (79 %) tem a duração de 30 segundos ou menos: são pessoas que estão de passagem, procuram algo e não encontraram o que queriam. De modo que, descontando tudo isto, é razoável considerar que quando se tem 100 mil visitas isso corresponde a cerca de 5 mil leitores reais.

19 de maio de 2010

O absurdo segundo Nagel

Acabo de publicar o artigo "Nagel e o Absurdo da Vida", de Matheus Silva, que argumenta que o argumento de Nagel a favor do absurdo da vida não colhe. E o que pensa o leitor?

18 de maio de 2010

Mais Murcho

Acabei de actualizar a minha página académica, com alguns powerpoints que serviram de base a várias palestras ou aulas.

Problemas da estética

Acabo de publicar a minha tradução do informativo artigo de Jenefer Robinson sobre problemas da estética, que dá uma visão geral da área.

Descrições definidas

Acabo de publicar um artigo de Sagid Salles Ferreira, de carácter introdutório, sobre a teoria das descrições definidas de Bertrand Russell, e respectivas críticas. Espero que seja útil e estimulante.

17 de maio de 2010

Francis Bacon

A compreensão humana não é um exame desinteressado, mas recebe infusões da vontade e dos afetos; disso se originam ciências que podem ser chamadas “ciências conforme a nossa vontade”. Pois um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade. Assim, ele rejeita coisas difíceis pela impaciência de pesquisar; coisas sensatas, porque diminuem a esperança; as coisas mais profundas da natureza, por superstição; a luz da experiência, por arrogância e orgulho; coisas que não são comumente aceitas, por deferência à opinião do vulgo. Em suma, inúmeras são as maneiras, e às vezes imperceptíveis, pelas quais os afetos distorcem e contaminam o entendimento. Novo Órganon, parágrafo XLIX.

Defender a filosofia, com verve

Acabo de publicar um artigo de opinião cheio de verve de João Carlos Silva, "Três Demónios Inimigos da Filosofia", que denuncia alguns dos obstáculos epistemológicos habituais que nos afastam da filosofia. E o que pensa o leitor?

Fugir da filosofia

Já falei noutro apontamento da curiosa fuga constante da filosofia para outras coisas (literatura, lógica, psicologia, história, etc.); esta atitude poderá resultar de ao entrar na universidade se descobrir com espanto que o conceito popular de filosofia (algo parecido com auto-ajuda, mas com citações de verdades arcanas) ser afinal falso: não é isso que encontramos nos textos de Platão ou Aristóteles, Ockham ou Descartes, Hume ou Kant, Russell ou Frege. Num texto antigo e muito retórico, "O Fariseu", falei ironicamente dos profissionais da filosofia que não têm o mínimo interesse pela sua própria disciplina. E o que pensa o leitor?

16 de maio de 2010

Doutrinação e liberalismo

Tenho reparado muitas vezes que quando os alunos são libertados da doutrinação dando-lhes a conhecer outras alternativas que até então estavam silenciadas, os professores mais doutrinários gritam então que os alunos estão a ser doutrinados. Aparentemente, só há problema se forem doutrinados na doutrina que não se professa, ao passo que se forem doutrinados na que se professa não há qualquer problema. Vale a pena reler o texto "Anti-liberalismo", de João Cardoso Rosas, que narra um exemplo hilariante.

15 de maio de 2010

Democracia de fachada

No artigo "Democracia de Fachada" teço algumas considerações sobre o que levará quem verbalmente se diz democrático a agir de maneira anti-democrática. A ideia central é que a democracia, correctamente entendida e praticada, nos põe perante a nossa própria falibilidade epistémica. E o que pensa o leitor?

14 de maio de 2010

J. S. Mill

É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; um Sócrates insatisfeito do que um idiota satisfeito. E se o idiota, ou o porco, têm opinião diferente, é porque apenas conhecem o seu lado da questão. A outra parte da comparação conhece ambos os lados.

12 de maio de 2010

Mentir é feio

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Miguel RM, como muitos dos defensores do famigerado acordo ortográfico, sugere falsidades neste apontamento. Dá ao público a impressão falsa de que com a nova ortografia a maneira portuguesa e a maneira brasileira de escrever são uma só. Mas isto é falso. "Espectador", que antes brasileiros e portugueses escreviam do mesmo modo, passa agora a ser escrito de maneira diferente em Portugal e no Brasil; e o mesmo acontece a "perspectiva" e "aspecto". E, claro, "café da manhã" em Portugal não quer dizer pequeno-almoço, e no Brasil o pequeno almoço é apenas um almoço pequeno. Os fatos em Portugal são roupa, mas no Brasil são o que nós chamamos "factos". Uma das mentiras do Miguel, como de outros defensores do acordo, é sugerir sistematicamente que o acordo é uma unificação ortográfica. Não é.

Miguel afirma que a obra da Gulbenkian referida se destina a todos os lusófonos, e não apenas aos portugueses -- sugerindo que por isso faz sentido usar a nova ortografia. Eu desafio-o a comprar as obras da Gulbenkian no Brasil, a preços razoáveis. O problema da falta de circulação dos livros portugueses em Portugal e vice-versa não é ortográfico; é um problema económico e de mentalidades. A unificação ortográfica, se a houvesse, não facilitaria a circulação de livros entre os dois países. Mas o pior é que nem há unificação ortográfica; há apenas uma nova ortografia.

10 de maio de 2010

Lógica e metafísica

Tome-se um argumento dedutivamente válido qualquer, daqueles cuja validade é captável na lógica clássica, por exemplo (como o modus ponens). É impossível que as premissas desse argumento sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Em que sentido de “impossível”? Por definição, é logicamente impossível. Mas o que quer isso dizer? A resposta comum é que se trata de uma modalidade linguística. Diz respeito à forma lógica e às palavras usadas. A impossibilidade é linguística ou formal.

Mas que argumento existe a favor de tal coisa? Não pode ser o argumento de que nós podemos detectar a validade do argumento olhando apenas para a forma lógica e portanto para a expressão linguística do argumento. Este argumento seria como defender que quem matou o Silva foi as pegadas na lama, porque descobrimos quem o matou vendo as pegadas. O que nos permite descobrir que um argumento é válido não tem de ser o que o faz ser válido. Sabemos pela forma lógica que um argumento é válido, mas o que o faz válido pode ser outra coisa.

O quê? A realidade. É porque é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa que o argumento é válido. E essa impossibilidade é uma característica da realidade. A realidade não comporta a possibilidade de aquelas premissas serem verdadeiras quando a conclusão é falsa. Esta impossibilidade, contudo, é descoberta por nós olhando apenas para a forma lógica.

De modo que o fundamento da validade não é a lógica. Não é a linguagem. É a realidade extralinguística. (A excepção é quando o argumento tem por objecto a linguagem.)

A posição contrária a esta tem outra desvantagem, além de não ter aparentemente qualquer argumento a seu favor. (E além de confundir modos de conhecer com modos de ser.) É que essa posição presume implausivelmente que a linguagem não é algo como rios e pedras. Mas a linguagem é algo como rios e pedras: é um fenómeno natural como outro qualquer, mas que envolve pessoas e intenções e muitas outras coisas. Mas tem de ser uma parte da realidade; não é como que uma névoa mágica que paira sobre a realidade mas não faz parte dela. De modo que mesmo a posição que parece dizer que o fundamento da validade não é a realidade mas sim a linguagem, diz de facto que o fundamento da validade é a realidade: mas um dado aspecto da realidade. E não explica por que razão esse aspecto da realidade — o aspecto linguístico da realidade — tem um poder que os outros aspectos da realidade não têm, quando aparentemente o que ocorre num argumento válido é ser impossível que a realidade seja tal que torne as premissas verdadeiras e a conclusão falsa.

E o que pensa o leitor disto tudo?

9 de maio de 2010

Dois extremos

Acabei de publicar um excerto do livro de introdução à filosofia da educação de T. W. Moore, com o título "Duas Concepções de Educação: a mecanicista e a orgânica", em tradução de Rui Daniel Cunha. A oposição em causa nestas duas concepções de educação (ou, para ser mais rigoroso, ensino) exprime-se por vezes em inglês opondo o sage on the stage (o sábio no palco) ao guide on the side (o guia do nosso lado). No primeiro caso, a que Moore chama concepção mecanicista, o professor debita conhecimento para ser memorizado e compreendido pelos alunos; corresponde às aulas expositivas, que constituem para a maior parte de nós o único género de aulas que teve ou que dá. No segundo caso, a que Moore chama concepção orgânica, trata-se de criar condições para que os próprios estudantes façam o seu percurso, surgindo o professor como um guia mais experiente, disposto a ajudar quando necessário.

Do meu ponto de vista, ambas as concepções estão erradas porque por vezes é mesmo preciso expor e seria estúpido pôr o aluno a descobrir, ao passo que outras vezes, é importante pôr o aluno a descobrir, porque não se aprende correctamente sendo-se apenas exposto a exposições (passe o aparente pleonasmo).

Na verdade, isto corresponde ao modo informal como aprendemos coisas uns com os outros; por vezes, aprendemos com os outros por exposição porque os outros estão em posição de saber mais do que nós e seria estúpido termos nós de passar pelo mesmo processo que eles passaram para saber o que sabem. Mas por vezes é estúpido usar esse processo porque desvirtua o que se pretende ensinar. Considere-se a diferença entre 1) saber de alguém que foi ao supermercado onde está exactamente a prateleira da hortaliça orgânica -- caso em que é estúpido a outra pessoa começar com parvoíces no sentido de nós passarmos pelo mesmo processo de tentativa e erro que ele passou para o descobrir; e 2) aprender a andar de bicicleta com alguém, caso em que temos mesmo de passar por um processo semelhante de tentativa e erro.

Considero que o simplismo educativo consiste em pensar que só um dos modelos se aplica. E o leitor?

8 de maio de 2010

Orwell sobre a felicidade

No artigo com o enganador título "Podem os Socialistas ser Felizes?" Orwell fala com lucidez da opacidade da felicidade. O que pensa o leitor? Eu já havia referido este texto em "Soberba Epistémica, Estatismo e Legislação".

Falibilidade e necessidade

Uma confusão constante em filosofia é entre conceitos epistémicos e metafísicos. Uma parte infelizmente importante de debates confusos e sem interesse baseia-se nesta confusão. Um desses casos é a confusão entre falibilidade e necessidade. São conceitos inteiramente distintos. O primeiro é meramente epistémico. O segundo é metafísico.

Dizer que algo é falível é dizer que nos podemos enganar. Não é dizer que algo é contingente. Algo ser contingente é algo que é de certo modo poder ser de outro. Mas isso nada tem a ver com falibilidade. Por exemplo, é contingente que não está a chover em Ouro Preto; poderia estar a chover. Mas o meu diagnóstico de que não está a chover, se for falível, não é por ser contingentemente verdade que não está a chover, mas antes por estar a chover e eu pensar erradamente que não está a chover. O que faz a falibilidade do meu juízo não é a contingência da chuva, mas o meu engano. Um juízo é falível não quando diz que p num mundo em que p havendo outro mundo possível em que não p, mas antes quando diz que p em mundos possíveis nos quais não p.

Dizer que algo é necessário nada tem a ver com a falibilidade, com o engano. Se p for uma verdade necessária, pode ser ou não transparente, óbvia, imediata. Muitas verdades necessárias são erradamente tidas como falsas, porque as pessoas se enganam. A necessidade de uma verdade não implica a sua infalibilidade: não implica que não nos podemos enganar pensando que é falsa.

Confundir necessidade e falibilidade é confundir o que as coisas são com o que pensamos que as coisas são. Confusão mortal para quem quiser fazer filosofia com lucidez.

O que pensa o leitor?

7 de maio de 2010

As delícias da linguagem

Acabei de receber um exemplar da minha tradução parcial de Palavra & Objeto, de Quine. A secção 47, traduzida por mim, tem por título "Um enquadramento para a teoria". O original é "A framework for theory". Mas mudaram a minha tradução para "Uma armação para a teoria". Gostaria de saber se a armação é de aço ou de madeira.

As frases ou proposições condicionais também mudaram de sexo e passaram a ser "os condicionais" em vez de "as condicionais", o que no mundo de hoje se compreende e aplaude, dado o direito à transsexualidade e tudo isso.

No início da bibliografia podemos ler, no original: "Listam-se apenas as obras a que se alude algures no livro" (Only those works are listed that are alluded to elsewhere in the book). Mas na tradução lê-se "Somente aos trabalhos listados aludiu-se em algum lugar do livro", uma maravilhosa frase enigmática que dá logo outra densidade ôntica ao velho Quine.

O que se lê na página 17 do original eu traduziria assim:
O padrão de condicionamento é complexo e inconstante, de pessoa para pessoa, mas há pontos de congruência geral: combinações de perguntas e de estimulações não-verbais que quase certamente provocam uma resposta afirmativa a qualquer pessoa que se possa adequadamente considerar que pertence à comunidade discursiva relevante. Johnson tropeçou numa dessas combinações, pondo-se frente a um estímulo que despoletaria uma resposta afirmativa de qualquer um de nós à questão de saber se está ali uma pedra.
Mas o que se lê na pág. 40 da edição brasileira é:
O padrão de condicionamento é complexo e inconstante de pessoa a pessoa, porém existem pontos de congruência geral: combinações de questões e estimulações não verbais que são muito prováveis de provocar uma resposta afirmativa de qualquer um adequado a ser considerado como parte da comunidade de fala relevante. Johnson enfrentou tal combinação, examinando um estímulo que precipitaria uma resposta afirmativa de qualquer um de nós à questão se há uma pedra ali.
O original inglês é:
The pattern of conditioning is complex and inconstant from person to person, but there are points of general congruence: combinations of questions and non-verbal stimulations which are pretty sure to elicit an affirmative answer from anyone fit to be numbered within the relevant speech community. Johnson struck such a combination, putting himself in the way of a stimulus that would trigger an affirmative response from any of us to the question whether a stone is there.

O problema da indução

Do meu ponto de vista, há muita confusão quanto ao problema da indução. Parece-me um erro pensar que o problema da indução é não ser uma dedução. E é isto que queremos dizer quando afirmamos que o problema da indução é a verdade das premissas não excluir a falsidade da conclusão (ou não garantir ou "preservar" a sua verdade); ou quando dizemos que os argumentos indutivos não têm uma forma lógica válida. Em ambos os casos é como uma pessoa queixar-se que a divisão não é válida porque não é como a multiplicação. Parece-me que algumas formulações do problema da indução, como estas, denunciam uma incompreensão do mesmo. O próprio Hume parece por vezes fazer esta confusão, mas nem sempre.

Qual é então, do meu ponto de vista, o verdadeiro problema da indução? É um problema comparativo. Temos uma confiança na dedução que não temos na indução porque temos codificações extremamente sofisticadas e informativas que nos explicam as validades dedutivas: são as lógicas formais. Estas lógicas são circulares; mas são circularidades informativas. E é isto que não temos no caso da indução. Não temos lógicas indutivas informativas, que esclareçam a validade dos argumentos indutivos, contrastando-a com a invalidade. Temos apenas os chamados métodos de Mill -- o que é surpreendente, porque já passou mais de um século desde que ele os inventou. Mas os seus métodos são meras regras ad hoc; não têm a sistematicidade de uma lógica formal. Por isso, quando estamos perante um argumento indutivo que nos parece válido, nunca sabemos bem se é realmente válido nem, se o for, não sabemos explicar por que razão é válido. É este o problema da indução, do meu ponto de vista. E o que pensam os leitores?

5 de maio de 2010

Às voltas com a indução

O raciocínio indutivo não pode ser justificado indutivamente; isso seria circular. Nem pode ser justificado dedutivamente — isso seria demasiado forte, transformando a indução em dedução.
Se o leitor pensa que isto é um problema, terá de considerar que o seguinte é também um problema, ou então explicar por que não o é:
O raciocínio dedutivo não pode ser justificado dedutivamente; isso seria circular. Nem pode ser justificado indutivamente — isso seria demasiado fraco, transformando a dedução em indução.

3 de maio de 2010

A probabilidade de Deus

Pedro Galvão estará no Seminário de Filosofia Analítica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para falar da probabilidade de Deus, no dia 7 de Maio, às 16 horas, na sala 5.2. Resumo:
O universo, pelo que ficámos a saber graças aos avanços na física cosmológica, está minuciosamente afinado para a existência de vida racional. Isto significa, por exemplo, que o seguinte parece ser verdade a respeito de várias constantes físicas: se estas tivessem assumido valores ligeiramente diferentes, nunca poderia ter surgido alguma vez vida racional, nem sequer outras formas de vida. A afinação minuciosa do universo motivou um novo argumento teleológico a favor da existência de Deus. Os seus defensores sustentam que esta aumenta significativamente a probabilidade da perspectiva teísta. Há, porém, uma forma de dar conta da afinação minuciosa que dispensa a existência de qualquer afinador inteligente: admitir que o nosso universo é apenas um entre muitos universos. Defenderei que, dada a afinação minuciosa em causa, deveremos inferir que a disjunção «afinador ou multiverso» é efectivamente muito provável. Para justificar a opção por uma das hipóteses disjuntas em detrimento da outra, ambas as partes envolvidas neste debate filosófico têm invocado o critério da parcimónia. Argumentarei que este critério, devidamente entendido, coloca em vantagem a hipótese do afinador -- o qual, no entanto, não tem de ser identificado com Deus.

Uma sugestão de um leitor

Um leitor contactou-me a propósito do disparate que foi dezenas de comentários totalmente laterais ao meu apontamento. Eu tenho algum prurido em apagar comentários que, sendo laterais e irrelevantes para o tema do apontamento em causa, me atacam ou mandam bocas, porque os autores depois queixam-se que estou a fazer censura. Não é disso que se trata. É preciso distinguir discordâncias de ideias e ataques a ideias que eu ou outra pessoa escreve de ataques a pessoas. Mas a verdade é que situações como a desse apontamento, com dezenas de comentários totalmente laterais, frustram os leitores. O leitor que me contactou disse-me que começou a ler os comentários por se interessar pelo tema do apontamento, para descobrir depois de os ler que nenhum o discutia. E fez uma analogia importante: seria como navegar na Crítica, ir para a secção de filosofia da mente, e depois de ler várias páginas de um artigo descobrir que nada tem a ver com essa disciplina. É frustrante.

O que podemos fazer? Duas coisas. Primeiro, os autores do blog não mais responderão a insultos nem a comentários laterais. Este serão apenas ignorados ou mesmo apagados.

Mas o leitor que me contactou disse outra coisa que é verdade: sendo laterais, algumas coisas ditas no dito apontamento foram importantes, mas estavam no lugar errado. Nomeadamente (digo eu), as críticas gerais à Crítica, as sugestões de leitores sobre o que gostariam de ler, são sempre bem-vindas; mas não como comentários a um apontamento sobre outro tema. Então, o leitor sugeriu-me a criação de um fórum.

À partida, não sou muito sensível à ideia. Mas gostaria de ouvir os leitores. Outra alternativa seria a criação de um fórum por email, no YahooGroups, que exige bastante menos trabalho da minha parte. Gostariam os leitores que existisse um fórum online ou por email associado à Crítica?

2 de maio de 2010

Racionalidade distribuída

Quando li pela primeira vez Sobre a Liberdade, de John Stuart Mill, obra publicada pela primeira vez em 1859, fiquei surpreendido com um aspecto epistémico que não tinha visto mencionado pelos historiadores e comentadores (ainda que eu esteja longe de conhecer a bibliografia sobre esta obra). Mill defende uma tese epistémica extremamente forte, mas muitíssimo plausível, sobre a racionalidade: o que chamo tese da racionalidade distribuída. O que pensa o leitor?

1 de maio de 2010

Bertrand Russell

É claro que é possível que todas ou qualquer uma das nossas crenças possa estar errada, e consequentemente todas devem ser adoptadas com pelo menos um ligeiro elemento de dúvida. Mas não podemos ter razão para rejeitar uma crença excepto com base noutra crença qualquer.

Filosofia antiga renovada

Está já à venda em Portugal a tradução de Fátima Carmo do primeiro volume da monumental Nova História da Filosofia Ocidental, de Sir Anthony Kenny (Gradiva). No Brasil, os quatro volumes estão já editados, pela Loyola.

Uma refutação dos anti-aléticos

Se não há verdades, não há erros.
Se não há erros, somos todos infalíveis.
Mas não é verdade que sejamos todos infalíveis.
Logo, há verdades.
Uso muitas vezes este argumento para ver como pode um anti-alético responder-lhe. Até hoje, não vi uma resposta satisfatória. Talvez o leitor tenha uma. Mas, seja ela qual for, não pode cometer a “falácia da falta de vergonha na cara”, que consiste em rejeitar a lógica que refuta a sua própria posição, mas aceitar a mesmíssima lógica para argumentar a favor dela.