31 de agosto de 2010

Como falsificar uma obra musical?

Goodman explica aqui por que razão é impossível falsificar uma obra de arte musical, apesar de ser possível falsificar uma pintura. Mas Kivy discorda aqui. E a procissão ainda nem vai no adro, como veremos.

27 de agosto de 2010

Paleolítico pós-estruturalista


Visitei recentemente, na minha terra natal, o interessante Museu do Côa, acabadinho de inaugurar. Fiquei agradavelmente surpreendido, sobretudo com o que vi lá dentro, pois a fabulosa paisagem envolvente é algo a que já estou habituado desde pequeno. 

O museu é pequeno, mas bastante informativo e atraente, recorrendo de forma adequada às novas tecnologias, mas sem aparatos despropositados. Desde o som ambiente, que reproduz o que se pensa ser o ambiente característico de há cerca de 15 mil anos, à catalogação de indícios geológicos e à apresentação virtual de todo o parque, a impressão que fica é muito boa. Conversei durante algum tempo com uma das guias do parque arqueológico, que me pareceu bastante bem preparada e sobretudo muito entusiasmada com o seu trabalho. Só senti falta de informação mais detalhada e esclarecedora sobre a delicada questão dos diferentes métodos de datação da arte rupestre, nomeadamente das gravuras. 

Uma semana depois visitei o museu de Altamira e, embora este tenha uma dimensão muito maior, não vi grande diferença (não estou a incluir aqui a impressionante réplica da gruta original com as famosas pinturas de Altamira). Acresce que o próprio edifício do Museu do Côa é uma coisa despojadamente estranha. Chega a parecer um achado arqueológico no alto do monte sobranceiro aos rios Côa e Douro. Um achado contemporâneo, que ora se confunde com o próprio solo onde está implantado ora (visto do rio) sugere um megalito moderno a perturbar as alturas. 

Há, contudo, algo no interior do museu que me deixou francamente decepcionado e que mostra até que ponto  as ciências humanas se encontram nos últimos tempos expostas às mais delirantes leviandades académicas. Numa das salas do museu encontra-se um enorme painel a esclarecer o visitante sobre as várias formas de estudar ou compreender as gravuras paleolíticas. São, então, apresentadas as quatro diferentes abordagens ou formas de interpretação das gravuras: uma delas é interpretar as gravuras do ponto de vista da arte pela arte; outra é a abordagem xamanística; a terceira é a abordagem simbólica; a quarta é a interpretação... estruturalista e pós-estruturalista. 

Conversei com a guia sobre o que fazia o estruturalismo e pós-estruturalismo ali (ainda por cima trata-se frequentemente de coisas incompatíveis), ao que me respondeu que a maioria dos estudos recentes sobre arte paleolítica partem de uma perspectiva estruturalista e pós-estruturalista. Enfim, pós-estruturalismo paleolítico. 

O que pensa disto o leitor?

A primeira foto é da entrada do museu, a segunda uma projecção numa parede interior e a terceira é a vista do exterior do museu para o rio Douro.

20 de agosto de 2010

Fim à vista

No que respeita ao destino final do universo, havia três hipóteses.
  1. O universo poderia atingir um ponto estacionário, em que a força de expansão seria neutralizada pela gravidade, mantendo-se o universo mais ou menos como é agora. 
  2. Ou a força da gravidade acabaria por vencer a força da expansão, e o universo acabaria por se contrair, dando origem a um Big Crunch (a que talvez se seguisse outro Big Bang). 
  3. Ou a força da expansão seria superior à da gravidade, continuando o universo a expandir-se para sempre, acabando toda a matéria por se dispersar cada vez mais. 
Esta última hipótese parece agora ter sido confirmada.

16 de agosto de 2010

Definir a arte

Acabo de publicar a minha tradução do pequeno mas informativo artigo "A Definição da Arte", de Kathleen Stock.

Bertrand Russell em quadrinhos

Logicomix - Uma Jornada Épica Em Busca Da Verdade é um delicioso romance de idéias em formato de quadrinhos que narra a vida do filósofo Bertrand Russell (1872-1970) e sua grande paixão pela lógica e os fundamentos da matemática. Russell foi um dos maiores defensores do logicismo: a tese de que a matemática poderia ser reduzida à lógica. Inúmeras celebridades da filosofia e da matemática como Frege, Cantor, Gödel, Wittgenstein e Hilbert são apresentadas de modo vívido - a figura neurótica de Wittgenstein é simplesmente hilária. A auto-referência dos narradores dentro do livro é interessante e a visão romântica de que o gênio é um doido varrido e os lógicos são heróis na batalha de vida ou morte pelos fundamentos da matemática é bem explorada. Há intencionalmente algumas imprecisões históricas, mas as questões de lógica não são abordadas de maneira leviana. Não deixe de ler este livro!

Filosofia no NYT

O New York Times inaugurou um blog de filosofia, chamado The Stone. Destaque para o impressionante artigo de Tim Williamson sobre a imaginação. No meu artigo "Pensamento Selvagem" argumento que um valor que pelo menos alguma ficção tem é o alargamento cognitivo que possibilita. Faltou-me dizer que isso se faz por via da imaginação.

13 de agosto de 2010

12 de agosto de 2010

4 de agosto de 2010

Randolph Mayes

Um espantalho espanta corvos porque a maioria dos corvos é estúpida o bastante para pensar que ele é um homem de verdade. Similarmente, um homem de palha lógico é uma interpretação imprecisa do que alguém tenha dito. Mas, assim como o espantalho, é similar o bastante à coisa verdadeira para que as pessoas ignorantes, desinformadas e desatentas não percebam. Assim, do mesmo modo que um dos mais espertos dos corvos pode ganhar a admiração de seus colegas ao apanhar com o bico os olhos de um espantalho, alguém que lida com interpretações de homens de palha pode parecer estar refutando o raciocínio de alguém, quando ele está na verdade apenas distorcendo-o. (Violations of the Principle of Charity: The Straw Man Fallacy)

3 de agosto de 2010

Submissões

A partir de agora passarei a divulgar estatísticas trimestrais simples de submissões de artigos para a Crítica, feitas pelo Rolando Almeida, a quem muito agradeço.

No trimestre de Maio a Julho, recebemos 28 submissões, das quais foram rejeitadas 21. Duas foram aceites e cinco ainda estão por decidir. Como se vê, o índice de rejeições, presumindo que os que estão por decidir terão uma decisão favorável à publicação, é de 75%. Se os que estão por decidir forem rejeitados, o índice será de cerca de 92%.

Apesar de estes números dizerem respeito apenas ao último trimestre, não são muito diferentes do que aconteceu em trimestres anteriores. Mas agora passaremos a poder comparar estes números, publicamente.

2 de agosto de 2010

A filosofia é um disparate?

É improvável que o leitor pense que a filosofia é um disparate -- pois nesse caso não estaria aqui. Mas o que responder a quem o pensa? E como descobrir se as pessoas o pensam sem se aperceberem disso? Enviando-me a módica quantia de apenas 500 dólares, terá a resposta para todas estas perguntas, e muitas mais, além da solução do velho problema de saber se devemos mudar o óleo do carro quanto o carro está frio ou quando o carro está quente. Mas se não tiver agora aí o dinheiro à mão, leia à mesma o meu artigo "A Possibilidade da Filosofia", e pague depois.

Concurso filosofia da música


O resultado do concurso filosofia da música é o seguinte:

vencedor - Filicio M.

Devo referir que ponderei a hipótese de transferir este concurso para o fim das férias, quando a probabilidade de haver mais concorrentes seria maior, e também porque a generalidade dos textos apresentados deixa muito a desejar. Sei que pedi textos curtos, mas algumas contribuições são demasiado breves, não tanto em caracteres mas quanto à ausência de discussão, limitando-se a listar teses, a fazer referências históricas, ou a aderir com força adjectival a uma tese qualquer que intuitivamente parece mais pacífica. Um exemplo do que pretendo seria o seguinte: começar por uma ideia, digamos, a de que a experiência de ouvir música é uma experiência emotiva, e ver se isso é ou não indício suficiente para pensar que a música representa emoções. Apresentar uma das principais ideias que contrariam esta tese.

Creio que o Filicio M. no seu texto está a fazer uma confusão. Quando fala de expressão e expressividade está a tentar falar na diferença entre expressão e representação. Por exemplo, se fizer um gesto enfurecido este gesto exprime fúria mas não a representa, não é acerca da fúria, do modo como um manual de psicologia ou um poema lírico pode ser acerca de emoções como esta. Ainda assim, decidi atribuir-lhe o prémio porque o seu texto foi, pelo menos para mim, o mais claro de todos, além de que há nele um esforço real de "problematizar" (como se tornou moda dizer), ainda que eu pense que a distinção entre expressão e expressividade seja um equívoco, como já referi.

Quanto aos outros, houve demasiada ênfase na erudição histórica, na listagem de referências ou em mostrar a adesão prévia a uma tese qualquer. Assim que possível, farei alguns comentários nos posts originais e não aqui, sobre os textos, embora de momento esteja algo ocupado com uma revisão. Talvez o melhor seja os concorrentes que estiverem interessados em discutir a sua contribuição contacterem-me por email. Ou talvez faça um post à parte com esse fim. Logo veremos.

Haverá uma reedição deste concurso em Setembro, onde serão sorteados outros livros de filosofia da música, mas nessa ocasião usarei parâmetros mais específicos para a escrita dos textos.

Entretanto, peço ao vencedor que me envie por email o endereço para o qual deseja que envie o seu prémio.

Bom Verão a todos.

Música para as férias



Dois discos recentes com duas excelentes vozes femininas francesas: Zaz, que cantava nas ruas de Paris acompanhada por um guitarrista e um contrabaixista e que, com este primeiro disco, se tornou num caso de sucesso bem merecido; Patricia Petitbon, o soprano cheio de frescura e personalidade que se tem vindo a impor como uma das mais agradáveis cantoras líricas da actualidade. 
Zaz é um disco que nos faz pensar que afinal a moderna canção popular francesa ainda existe. Só que a música de Zaz soa a século XXI e não aos anos 60 do século passado. Tem o perfume das ruas de Paris, que ouvíamos em Edith Piaf, mas com um toque de pop, de hip hop e de jazz. Não se pense, contudo, que se trata de colagens ou de reciclagem de material antigo. Pelo contrário, é música nova em todos os sentidos e cheia de autenticidade. As letras são vaga e suavemente interventivas, mas o que mais se destaca é a invulgar musicalidade e desenvoltura da voz de Zaz. Uma voz de rua, por vezes inesperada e deliciosamente rugosa nas notas mais agudas, normalmente acompanhada por guitarra, contrabaixo, bateria e piano.
Rosso é o mais recente disco de Petitbon, com árias barrocas italianas (em que se destacam algumas árias de óperas de Händel), acompanhada pela Orquestra Barroca de Veneza, dirigida por Andrea Marcon. A voz de Petitbon impõe-se cada vez mais como uma das melhores da actualidade no seu registo. Mas o que torna este disco cativante é que Petitbon não se importa de arriscar oferecendo-nos interpretações com uma carga emocional muito pessoal, mas sem excessos nem exibicionismos fúteis. Consegue conferir à música barroca uma frescura a que não estamos habituados.   

1 de agosto de 2010

As escolhas dos leitores

Durante o mês de Julho a Crítica recebeu aproximadamente 50 mil leitores, cerca de metade do que é habitual. Isto ficará talvez a dever-se às férias de Verão, em Portugal, e ao intervalo das aulas, no Brasil. Note-se que estes números não incluem este blog. Os artigos mais visitados foram "O Que é a Arte?", de Aires Almeida, "Argumentos sobre o Aborto", de Pedro Madeira, "O Que é o Conhecimento?", de Elliot Sober e por fim o meu artigo "Como Fazer Exercícios de Lógica".