29 de novembro de 2010

Relativismo


Stephen D. Hales, que organizou o excelente Metaphysics: Contemporary Readings (1999) e é autor de um livro sobre o perspectivismo de Nietzsche, organizou agora um bem-vindo Companion to Relativism para a Blackwell (que agora se chama Wiley-Blackwell). Na contracapa podemos ler a seguinte apresentação:

O relativismo é um dos conceitos mais antigos — e mais polarizadores — da filosofia. Cativou pensadores desde os tempos de Protágoras (que defendia a noção) e Platão (que não a defendia). O relativismo é criticado por papas, por afastar as pessoas das verdades religiosas absolutas, e acusado por muitos comentadores sociais de ser o responsável por muitos dos males sociais. Com algumas excepções notáveis, os filósofos do séc. XX desvalorizaram o relativismo por ser um conceito obviamente errado ou até auto-refutante.

Mas na última década mesmo os seus mais severos críticos se deram conta de que o relativismo é uma opção legítima para explicar vários fenómenos, incluindo a discórdia irrepreensível, a utilidade de lógicas alternativas, a diversidade de moralidades entre culturas, e os diferentes esquemas conceptuais ontológicos. Reflectindo uma reavaliação há muito necessária, A Companion to Relativism apresenta o mais recente pensamento sobre o papel do relativismo na filosofia da linguagem, epistemologia, ética, filosofia da ciência, lógica e metafísica. As contribuições originais para este volume apresentam a investigação de ponta de vários estudiosos que abordam o relativismo de várias perspectivas e subáreas da filosofia.

O livro está dividido em seis partes. Na primeira, quatro ensaios tentam caracterizar o relativismo. A segunda é dedicada à linguagem, e inclui seis ensaios. A terceira é dedicada ao relativismo epistémico, e tem cinco ensaios. A quarta, com seis ensaios, é sobre o relativismo moral. A quinta é sobre o relativismo na filosofia da ciência e tem quatro ensaios. Finalmente, a sexta é dedicada ao relativismo lógico, matemático e ontológico, e tem seis ensaios. Entre os autores dos ensaios encontramos Paul Boghossian, Dan Lopéz de Sá, Kenneth A. Taylor, Duncan Pritchard, Christopher W. Gowans, David B. Wong, Alexander Bird, Christopher Norris, Stewart Shapiro e Otávio Bueno. Com 680 páginas, é uma leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema.

27 de novembro de 2010

Em defesa do tecnicismo


Sven Ove Hansson, director da Theoria, revista sueca de filosofia, argumenta aqui que os filósofos têm o direito, e até o dever, como outros especialistas de outras áreas, de ser técnicos. Eu concordo, mas talvez o leitor discorde. Fica aberta a discussão.

25 de novembro de 2010

Os animais tem direitos morais?

Autores incluídos: Peter Singer, Tom Regan, Carl Cohen, Jan Narveson, J. Baird Callicott, James Rachels, Jeff McMahan.
Edição para breve.


23 de novembro de 2010

Argumentos abortados sobre o aborto

A próxima sessão do SPF da UFOP será sexta-feira, dia 26 de Novembro, e tem por título "Argumentos Comuns na Defesa da Legalização do Aborto: Por Que Não Funcionam?" (Bárbara Pádua, UFMG). Sumário: Quando se discute a legalização do aborto pode-se perceber que há certos argumentos que são frequentemente utilizados para a sua defesa. Tais argumentos podem ser encontrados nos jornais, discursos políticos, e variadas manifestações sociais. O objetivo desta apresentação é mostrar que os argumentos mais divulgados para se defender a legalização do aborto não são boas razões para sustentar essa posição. Essa análise, ainda que bastante introdutória, já permite delinear os problemas filosóficos que se encontram no problema da legalização do aborto.

A filosofia é inútil?

Discussão no programa de televisão Câmara Clara, aqui.

21 de novembro de 2010

"O", "é" e nove planetas


Quem desespera por não encontrar na filosofia o género de discursos de auto-ajuda que imagina constituir a disciplina ficará ainda mais desesperado com a minha crónica desta semana. Paciência.

Carlos Marques

Peço ao Carlos, caso esteja a ler isto, que me contacte; ou a quem tiver o seu contacto, que mo comunique. (Não adianta escrever para o email do blog logosfera, porque já o tentei e não obtive resposta dele.)

20 de novembro de 2010

O galho da filosofia


Nas zonas mais anémicas da cultura põe-se a filosofia no galho mais alto da hierarquia imaginária das coisas. Mas o Luiz Helvécio Marques Segundo discorda aqui. E o leitor?

19 de novembro de 2010

O lugar da lógica e da argumentação no ensino da filosofia

Acaba de ser publicado o volume, organizado por Henrique Jales Ribeiro e Joaquim Neves Vicente, com as comunicações apresentadas no Colóquio Internacional O Lugar da Lógica e da Argumentação nos Programas de Filosofia do Ensino Secundário, realizado em Dezembro do ano passado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Dois dos textos, um meu e outro de Artur Polónio, estão publicados também na Crítica. Os outros são os seguintes (recorro a excertos da sinopse feita por Henrique Jales Ribeiro):

Victor Thibaudeau (Université de Laval, Canadá), defendendo em «L'étude de la première opération de l'intelligence: au coeur de la formation intelectuelle au niveau pré-universitaire» que «em vez de perguntarmos que lugar deve ter esta ou aquela matéria específica de lógica ou de argumetação em tais programas, deveremos antes questionarmo-nos não só sobre quais serão as operações intelectuais que estão na base dessas matérias (...). Partindo da distinção feita pela lógica tradicional entre três operações da inteligência (definição, enunciação, raciocínio), Thibaudeau mostra o papel essencial e incontornável da primeira, que tem sido negligenciado pelos programas de filosofia não apenas no Canadá e nas Américas, mas também na Europa e no resto do mundo, em proveito especialmente da terceira (raciocínio)».

Silvia Rivas e Carlos Saiz (Universidade de Salamanca e Universidade Pontifícia de Salamanca), apresentam alguns resultados do programa de intervenção (ARgumentación, DEcisión, SOlución de problemas en Situaciones cotidianas = ARDESOS) por eles desenvolvido, o qual «visa melhorar significativamente as competências do pensamento crítico dos jovens, e que têm divulgado e experimentado internacionalmente».

José Aredes (CFUL; Universidade Aberta), defende em «Argumentação e cuidado de si» que o ensino da filosofia, e o da lógica e da argumentação em especial, deve ser comandado pelo desiderato de contribuir para a formação de uma nova maneira de ser e, consequentemente, de viver e de ver o mundo.»

Mário Pissarra (ES Dr. Manuel Fernandes, Abrantes) que, em «O ensino da lógica no ensino liceal e secundário», entende o ensino «da lógica como um 'jogo', ao encontro da curiosidade e apetite insaciáveis dos jovens alunos».

Joaquim Neves Vicente (Universidade de Coimbra) alega em «Do primado de uma logica utens sobre uma logica docens no ensino da filosofia na educação secundária» que a utilidade da lógica pode e deve «ser pensada antes do plano propriamente metacognitivo do raciocínio e da argumentação, como Thibaudeau tinha sugerido na sua comunicação a respeito da 'primeira operação da inteligência', quer dizer, aquela em que a lógica se interessa pela maneira como um 'dado objecto de pensamento foi formado, pelas relações que ele pode envolver com outros objectos de pensamento que ocupam a mente de uma pessoa, pelas diversas maneiras de como ele pode ser nomeado e, depois, definido'».

Serge Cospérec (Université de Paris XII) aponta, em «La place de la logique et l'argumentation dans l'enseignement secondaire de philosophie en France» algumas «razões para explicar o flagrante insucesso francês quanto ao ensino da lógica e da argumentação (...). O autor desmascara alguns preconceitos, mostrando como a aprendizagem da lógica é condição, em certa medida, do trabalho filosófico ele mesmo», concluindo que o programa de filosofia para o secundário em França deve ser profundamente revisto e «encarado de acordo com uma perspectiva de que a filosofia consiste essencialmente na procura de resolução de problemas».

Henrique Jales Ribeiro (Universidade de Coimbra) conclui com o esclarecedor texto «O lugar da lógica e da argumentação: do ensino superior ao ensino secundário em Portugal», indicando as «competências em matéria de lógica e de argumentação que os ex-alunos do ensino secundário devem possuir quando entram na universidade», acabando por mostrar que o programa do secundário é «tecnicamente errado e confuso», uma vez que é simultaneamente «obeso cientificamente» e «magro pedagogicamente». Com efeito, «referindo-se aos erros e confusões do programa e, em particular, ao paralelismo que nele é estabelecido entre a lógica formal e a silogística aristotélica a respeito do estudo da noção de validade formal, Jales Ribeiro concorda plenamente com as críticas já feitas por Artur Polónio e Aires Almeida. (...) Jales Ribeiro conclui a sua comunicação propondo uma reformulação de vários aspectos do programa, designadamente quanto aos conteúdos a leccionar e às competências a adquirir.»

Este volume é publicado pela Unidade I&D - Linguagem, Interpretação e Filosofia, da Universidade de Coimbra. 

Uma boa notícia

O exame de Filosofia, a realizar no final do 11º ano, vai regressar, como noticia hoje o Público. É uma boa notícia para a filosofia e para o seu ensino. Pena é, por um lado, que nas escolas pouco ou nada se saiba disso; apenas se sabe que irá haver teste intermédio (facultativo) no dia 22 de Fevereiro. Por outro lado, um exame com o actual programa e sem orientações, é um enorme risco. Dado que o ano lectivo já começou há quase um período e que o programa não mudou nos últimos anos, algumas escolas começam já a recorrer às anteriores orientações. Mas o ideal seria mesmo rever o programa, que cada vez mais vozes mostram ser manifestamente deficiente. 

18 de novembro de 2010

¬(P . ¬Q) ⊢ P ⊃ Q não é uma forma argumentativa válida

"Não é o caso que ambos P e não Q logo se P então Q" é uma forma argumentativa válida na lógica clássica. Um exemplo de argumento válido com essa forma é o seguinte: Não é o caso que ambos, risco o fósforo e ele não se acende. Logo se risco o fósforo, então ele se acende.

Contra-exemplo de Geoffrey Hunter: Não é o caso que ambos: Geoffrey Hunter é solteiro e Geoffrey Hunter é não casado. Logo se Geoffrey Hunter é solteiro, então Geoffrey Hunter é casado.

16 de novembro de 2010

SPF

A próxima sessão do Seminário Permanente de Filosofia da UFOP ocorre dia 19 de Novembro próximo, às 14 horas, e tem o intrigante título "Se Entender, Tem Significado" (Fernando Fabrício Rodrigues Furtado, UFOP).

15 de novembro de 2010

Cambridge Companion to William James

A tradução brasileira de André Oídes do Cambridge Companion to William James, dir. de Ruth Anna Putnam, está já disponível na Idéias & Letras. Note-se que um dos melhores artigos sobre autores do Dicionário de Filosofia, de Mautner, é precisamente o de Ruth Anna Putnam sobre William James.

Sócrates à conversa com Aristóteles...

... sobre políticos e poetas maçadores? Não só é apócrifo como é anacrónico e muito divertido. O texto é de Artur Polónio, e está aqui.

Argumentos e explicações


Um aspecto que confunde por vezes o neófito -- e o não tão neófito -- é a diferença entre um argumento e uma explicação. Acabo de publicar a tradução de Artur Polónio de um texto de Douglas Walton, "Argumentos e Explicações", retirado do seu livro Fundamentals of Critical Argumentation (CUP, 2006). No artigo "Argumento, Persuasão e Explicação" eu abordo também este tema, entre outros. A maneira mais simples de distinguir argumentos de explicações é ver que num bom argumento as premissas têm de ser mais plausíveis do que a conclusão, e esta é o que está em disputa; ao passo que numa explicação a "conclusão" (o que linguisticamente parece uma conclusão) é precisamente o que não está em disputa e é muitíssimo mais plausível do que as explicações avançadas (que, linguisticamente, parecem premissas, mas não são).

14 de novembro de 2010

Isso nem se discute?


Na crónica desta semana, Aires Almeida põe em causa o hábito comum de declarar indiscutíveis certas ideias. E o que pensa o leitor?

13 de novembro de 2010

Ensinar a brincar?

Acabo de publicar a minha tradução do artigo "Em Busca da Excelência", de Algis Valiunas, que se atreve a pôr em causa as ideias mais comuns hoje em dia sobre educação. E o que pensa o leitor?

11 de novembro de 2010

Mais filosofia da religião


Acabei hoje mesmo a revisão da tradução de Vítor Guerreiro do livro Introdução à Filosofia da Religião, de William L. Rowe, que será publicado no início de 2011 pela Verbo. Renovei a minha opinião de que se trata de uma excelente introdução à filosofia da religião, com a dose certa de acessibilidade e clareza, mas sem desprezar complexidades e aprofundamentos necessários. Podemos já ler na Crítica um excerto do livro: "A Ideia de Deus." A Verbo publicará o livro não só em Portugal, mas também no Brasil, depois de devidamente adaptado.

Se juntarmos este livro ao A Ética da Crença, recentemente publicado na Bizâncio, ficamos com a possibilidade de dar os primeiros passos seguros nesta importante área da filosofia.

7 de novembro de 2010

1 de novembro de 2010

Kit Fine

A filosofia é a mais estranha das disciplinas: visa o rigor, mas é incapaz de estabelecer resultados; procura lidar com as questões mais profundas, mas vê-se constantemente preocupada com as trivialidades da linguagem; e proclama ter a maior relevância para a investigação racional e para a conduta da nossa vida, mas é quase completamente ignorada. Mas o que é talvez mais estranho é a paixão e intensidade com que é feita por quem ficou preso nas suas garras.

Fazer contas à vida


Dos 16 artigos submetidos nos meses de Agosto a Outubro, 10 foram rejeitados, 1 foi aceite e 5 aguardam decisão. Isto representa um decréscimo acentuado do número de submissões, comparando com o trimestre anterior (de Maio a Julho), no qual recebemos 28 submissões.

Quanto a leitores, no mês de Outubro passaram por aqui mais de 98 mil pares de olhos, um ligeiro acréscimo relativo a Setembro (94 mil).