31 de dezembro de 2011

29 de dezembro de 2011

O anti-racista racista

Será possível ser racista quando pensamos que somos anti-racistas? Defendo aqui que sim, mas o leitor talvez não concorde.

Morreu Dummett

Morreu anteontem Sir Michael Dummett, um dos mais influentes filósofos da linguagem do séc. XX. Um obituário, em inglês, da autoria de A. W. Moore está aqui.

28 de dezembro de 2011

As edições de 2011


Qualquer escolha dos livros mais significativos do ano começa por ser algo subjectiva. Digo “algo” e não “totalmente” pois há livros que são de importância decisiva para qualquer boa escolha. Assim, se escolher o livro de Ben Dupré na minha lista pode depender mais das minhas opções particulares no que respeita à divulgação e estudo da filosofia, o mesmo julgo não acontecer com edições como as de Anthony Kenny, essenciais a qualquer bom estudo que se pretenda fazer de filosofia com livros traduzidos ou escritos directamente em língua portuguesa. Em termos de quantidade as coisas são sempre reduzidas já que o nosso diminuto mercado não coloca grandes dilemas sobre o que escolher. Como tenho feito ao longo dos últimos anos, de seguida apresento os livros de filosofia que, no ano 2011, foram publicados em Portugal e que melhor contribuíram para o meu estudo contínuo deste maravilhoso e infindável saber.

 Anthony Kenny, Nova História da Filosofia Ocidental, 4 Volumes (Gradiva), Tradutores: Pedro Galvão, Fátima Carmo (Vol i), António Infante (Vol ii), Célia Teixeira (Vol iii) e Cristina Carvalho (Vol iv). Revisão de Aires Almeida




A Nova História da Filosofia Ocidental começou a ser publicada em língua portuguesa ainda no ano de 2010, sendo que somente os 2 últimos volumes foram publicados em 2011. Mas temos de novo uma história da filosofia actualizada. Mas esta história da filosofia é muito mais que uma história dos filósofos e das suas ideias. Trata-se de uma verdadeira obra de filosofia, uma vez que os problemas são discutidos como num bom livro de filosofia. Uma obra fundamental para quem se interessa pela filosofia e a sua história.



 Roger Scruton, As Vantagens do Pessimismo, Quetzal, Tradução de João A. F. e Silva

É um livro arrojado, mas provavelmente um dos que em 2011 mais me influenciou. A tese central é que nos tempos que correm vale a pena regressar a algum pessimismo coincidente com algumas ideias da direita tradicional. Scruton dá-nos razões para pensar que o optimismo desenfreado pode não constituir a saída mais adequada para os problemas políticos que assistimos hoje em dia. Dá que pensar.





 William Rowe, Introdução à filosofia da religião, Verbo, Tradução de Vitor Guerreiro

Numa boa tradução esta edição é muito significativa já que, até à data, não dispúnhamos de qualquer boa edição contemporânea de introdução à filosofia da religião. O livro é de leitura acessível, sem perder pitada de rigor, o que significa que é acessível mesmo a quem não tem formação em filosofia. E trata de problemas que interessa a qualquer ser humano expondo os argumentos principais e respectivas objecções. Isto para além de ser uma leitura que permanentemente questiona o leitor e coloca as suas crenças à prova.







 Desidério Murcho, Filosofia em Directo, FMFS

O ano de 2011 arrancou em Janeiro logo com uma edição de filosofia escrita em português do nosso colega e amigo Desidério Murcho. Pela primeira vez entramos numa cadeia de super mercados (do grupo da Fundação que publicou este ensaio e que também fez a distribuição do livro a par com as livrarias tradicionais) e deparamo-nos com um livro com o nome Filosofia em Directo. E de facto é nisso que consiste a proposta de Desidério neste pequeno grande livro, um contacto directo com as questões filosóficas contemporâneas.






 Desidério Murcho, 7 ideias filosóficas, Bizâncio

Um pouco na continuação de Filosofia em Directo, 7 Ideias filosóficas pega em algumas máximas famosas da filosofia e lança o mote para o desafio de pensar filosoficamente pela própria cabeça. De salientar a escrita do autor que está cada vez mais clara, cada vez mais apurada. Um bom livro de filosofia que pode servir de referência em qualquer contexto onde se faça filosofia. E um livro de um dos autores mais produtivos na filosofia em língua portuguesa.




 Susan Wolf, O sentido da vida, Bizâncio, Trad. Desidério Murcho

A ideia que passa na maioria dos cursos de filosofia em Portugal sobre a filosofia da existência, muitas das vezes reduz-se a escritos de Heidegger e Sartre. Mas há mais, muito mais para estudar nessa área da filosofia. E este livro é uma boa porta de entrada à discussão contemporânea desses problemas, indo mais além do que os lugares comuns da Universidade Portuguesa.






 Colin McGinn, O carácter da mente, Gradiva, Tradutor Fernanda O`Brian

Um dos principais textos introdutórios a esta área da filosofia, a filosofia da mente, agora disponível numa boa tradução. McGinn é um filósofo já com dois ou três livros traduzidos e um dos filósofos vivos mais apetecíveis do nosso tempo.






 Peter Singer, A vida que podemos salvar, Gradiva, Tradutor Vitor Guerreiro


Creio que Peter Singer dispensa apresentações. É na minha opinião – e de muitos – um filósofo notável, com uma invulgar mas desejável capacidade de nos deixar a filosofar sem que nos demos conta de que estamos a fazê-lo. Neste livro Singer dá-nos algumas razões para pensar que temos a obrigação moral de ajudar os povos mais pobres. Este livro deu, em Portugal, origem a uma página no Facebook, com centenas de amigos, com o nome do Livro.





 Bem Dupré, 50 ideias de filosofia que precisa mesmo de saber, D. Quixote, Tradutor. Jorge Pereirinha Pires

Este foi talvez o melhor livro que conheci de divulgação de  filosofia traduzido em 2011 que dá uma ideia correcta do que se faz nas mais diversas áreas da filosofia. Pertence a uma colecção que está a ser publicada pela D. Quixote e trata-se de uma pequena obra que se recomenda como mini enciclopédia de filosofia. Nota-se um ou outro atropelo na tradução que enganará o leitor desprevenido.






 Michael Sandel, Justiça, fazemos o que devemos?, Presença, Tradutor: Ana Cristina Pais

Este livro poderia aparecer logo no topo. É simplesmente o livro que mais gostei de ler de filosofia em 2011. Justiça é a compilação das aulas de Sandel em Harvard, onde lecciona. É extraordinário como se pode escrever filosofia deste modo. Aconselho vivamente a ler o capítulo sobre Kant e descobrir como é que se pode explicar Kant, um autor complexo, de um modo impecável, sem qualquer tropeção. É um livro de filosofia claramente acima da média.




A. C. Grayling, O livro dos livros, uma Biblia humanista, Lua de Papel. Tradutores: Ana Filipa Vieira, Carlos Leone, Joana Custódia Jacinto, Rosa Maria Fina e Rosalinda Rodrigues da Silva. 

Não é bem um livro de filosofia, mas uma Bíblia alternativa à Bíblia da revelação. Trata-se de uma Bíblia dirigida ao raciocínio e não à revelação ou à fé. O texto é disposto tal como na Bíblia, em duas colunas. Mas é um livro dirigido ao grande público e a pessoas que gostam de pensar activamente. 

Collins de borla

Um dos melhores dicionários de língua inglesa está agora inteiramente disponível online, gratuitamente: o Collins. Senhor de definições claras e rigorosas, é um modelo de dicionário. Além disso, inclui nomes próprios, o que faz dele uma pequena enciclopédia.

Dicker sobre Kant

Acabo de publicar aqui a recensão de Pedro Merlussi ao livro Kant's Theory of Knowledge, de Georges Dicker.

23 de dezembro de 2011

O Desafio de Singer

Os argumentos de Singer:
  1. A capacidade de sofrer (experimentar prazer e dor) é a base para o tratamento igual em uma comunidade moral.
  2. É garantido tratamento igual a alguém somente no caso do seu bem-estar contar igualmente para os outros independentemente de “como são ou que capacidades têm”, embora a forma assumida pelo nosso tratamento possa “variar de acordo com as características de quem é afetado”.
  3. Animais não-humanos têm a capacidade de sofrer.
  4. Logo, o bem-estar dos animais não-humanos deve contar igualmente para o bem-estar dos humanos.
  5. Logo, devemos fazer tanto esforço para evitar causar dor e sofrimento em animais não-humanos, como fazemos para evitar dor e sofrimento em humanos, levando em consideração os diferentes modos como podem sofrer os seres sencientes.
  6. Logo, “devemos fazer mudanças radicais em nosso tratamento dos animais que envolveria nossa dieta, os métodos de pecuária que usamos, procedimentos experimentais em várias áreas da ciência, nossa abordagem à vida selvagem e caça, armadilhas e a vestimenta de peles, e áreas de entretenimento como circos, rodeios e zoológicos.”
O Desafio de Singer: Você é capaz de encontrar alguma característica que todos os humanos têm e nenhum não-humano tem de forma a garantir a colocação dos humanos no interior da comunidade moral e os não-humanos fora dela, ou que nos permita considerar o sofrimento humano moralmente mais importante do que o sofrimento não humano?

Fonte: Haslanger, Sally. 24.02 Moral Problems and the Good Life, Fall 2008. (Massachusetts Institute of Technology: MIT OpenCourseWare), http://ocw.mit.edu (Accessed 23 Dec, 2011).

22 de dezembro de 2011

Libertação Animal



Desde o ano passado está disponível Libertação Animal (Martins Fontes, 2010, 488 pp.) de Peter Singer, traduzido por Marcelo Brandão Cipolla e Marly Winckler. A tradução é baseada na edição mais recente de Animal Liberation, de 2009, e contém um prefácio do próprio Singer escrito exclusivamente para a edição brasileira. O primeiro capítulo pode ser lido aqui.

Mente e materialismo

Acabo de publicar aqui a recensão de Bruno Angeli Faez do livro Psicologia e Neurociência, de Saulo de Freitas Araújo.

História da metafísica moderna

A CUP acaba de publicar The Evolution of Modern Metaphysics, de A. W. Moore. Incluindo Descartes, Espinosa, Leibniz, Hume, Kant, Fichte, Hegel, Frege Wittgenstein, Carnap, Quine, David Lewis, Dummett, Nietzsche, Bergson, Husserl, Heidegger, Collingwood, Derrida e Deleuze, será certamente uma leitura crucial para qualquer pessoa genuinamente interessada em metafísica.

20 de dezembro de 2011

Quine em português


Acabo de saber da publicação de De um ponto de vista lógico (262 pp.) de W. V. O. Quine (1908-2000) pela Editora Unesp. Não tive ainda acesso à edição, mas a julgar pelas publicações anteriores da mesma editora, é de se esperar um bom acabamento gráfico. Quanto à tradução, a editora não disponibilizou quaisquer excertos e nem mesmo o nome do tradutor; é uma pena!

16 de dezembro de 2011

15 de dezembro de 2011

O livro dos livros



Está nas bancas das livrarias portuguesas o mais recente livro do filósofo A. C. Grayling, intitulado O Livro dos Livros: Uma Bíblia Humanista (que no original é The Good Book: A Secular Bible), traduzido para a editora Lua de Papel. 

Trata-se de um livro diferente de todos os outros que Grayling escreveu, tendo levado mais de uma década a trabalhar nele. A ideia é apresentar uma espécie de alternativa humanista à Bíblia, na qual Grayling reúne algumas das melhores e mais inspiradoras ideias colhidas em mais de um milhar de livros escritos ao longo de 2500 anos. Daí o título português.

São quase 700 páginas, com duas colunas por página e 14 livros divididos em capítulos e versículos. Os livros são os seguintes: 1. Génesis, 2. Sabedoria, 3. Parábolas, 4. Concórdia, 5. Lamentações, 6. Consolações, 7. Sábios, 8. Canções, 9. Histórias, 10. Provérbios, 11. O Legislador, 12. Actos, 13. Epístolas e 14. O Bem.

Penso que A. C. Grayling dispensa apresentações, mesmo para o público português. E parece estar confirmado que será o convidado principal do próximo Encontro Nacional de Professores de Filosofia, a realizar em Lisboa em 2012.

Para quem gosta de oferecer livros no Natal, talvez este seja o livro ideal.


Carl Sagan

A cura para um argumento falacioso é um argumento melhor, e não a supressão de ideias.

11 de dezembro de 2011

Reabilitar a metafísica

Foto: Aires Almeida

É bem conhecida a intenção de Kant em reabilitar a metafísica que, em seu entender, estava enredada em disputas e discórdias intermináveis. Mas se a intenção de Kant era curar a metafísica das maleitas que tinha contraído, a cura não foi melhor. Deu-lhe um tal tratamento, que acabou por a deixar de quarentena durante tempo mais do que suficiente, entregando os seus pertences à razão prática. E foi assim que quase acabou por matá-la de solidão. Como é compreensível, a solidão doentia é propícia ao delírio. Deste modo, Kant entregou a metafísica que queria reabilitar no regaço dos delírios idealistas que ele mesmo despertou.

Com poucas excepções, a metafísica pós-kantiana acabou por se render à epistemologia ou aos devaneios idealistas ou a ambos. E chegou tão maltratada ao séc. XX que se tornou quase irreconhecível (basta ver o que os positivistas lógicos pensavam ser a metafísica). Foi assim que muitos concluíram que os problemas do livre-arbítrio, da existência de Deus, do sentido da vida, mas também da identidade através do tempo, dos universais, da causalidade ou da modalidade nem sequer mereciam ser discutidos. Pensavam que nem sequer cabia à filosofia discuti-los.

Felizmente, as coisas são agora muito diferentes e a metafísica acabou por ser filosoficamente reabilitada por filósofos como Saul Kripke, David Lewis, David Armstrong e Alvin Plantinga, entre muitos outros. Sem esquecer o resistente Bertrand Russell. Agora sim, podemos dizer que a metafísica recuperou uma tradição que, desde Platão e Aristóteles (sobretudo este), passando pelos medievais, tinha sido interrompida e cedido o seu lugar à epistemologia, em grande parte graças a Kant.

Como alguém de que não me recordo disse: ainda que nos esqueçamos da metafísica, a metafísica não se esquece de nós. A metafísica vem sempre ao de cima.

10 de dezembro de 2011

Como não justificar a filosofia

Este é o título do meu artigo de opinião, que acabo de publicar aqui. E o que pensa o leitor?

8 de dezembro de 2011

Filosofia e argumentos de autoridade

Foto: Aires Almeida

Não é raro vermos estudantes de filosofia ou candidatos a filósofos usarem expressões do tipo «como mostrou Nietzsche», «como sabemos desde Kant» ou «Hume ensinou-nos que». Expressões como estas revelam, contudo, uma forma falaciosa de raciocínio, pelo que devem ser evitadas quando se discutem questões filosóficas. 

O raciocínio subjacente a expressões como estas tem a forma do argumento de autoridade: fulano diz que P, logo PNeste caso, a autoridade a que se apela é algum reputado filósofo. Mas, como é sabido, nem sempre os apelos à autoridade são bons argumentos. Por vezes, como é aqui o caso, trata-se de apelos falaciosos à autoridade. Porquê?

Não porque a autoridade invocada não seja especialista na área nem porque não seja reconhecido como tal pelos seus pares. E também não é porque o especialista em causa tenha fortes interesses pessoais no que está a ser afirmado. Nada disso acontece aqui. 

Mas há ainda outra condição que tem de ser satisfeita para um argumento de autoridade ser bom: que os especialistas na matéria não discordem significativamente entre si. Ora, se há coisa que sabemos é que não há matérias filosóficas substanciais sobre as quais os filósofos não discordem significativamente entre si. 

Assim, quando usamos argumentos desse tipo em filosofia, estamos a apelar falaciosamente à autoridade. Até pode ser verdade que Kant disse que não se pode provar a existência de Deus. Mas daí não se segue que Kant mostrou que a existência de Deus não pode ser provada. Mesmo que ela não possa, efectivamente, ser provada.  

Podemos, contudo, interpretar caridosamente expressões como as referidas atrás. Numa interpretação caridosa, o que a pessoa que afirma «Como Nietzsche mostrou, não há factos, apenas interpretações» quer dizer é simplesmente que concorda com a ideia de Nietzsche de que não há factos, mas apenas interpretações. Só que esta é uma maneira muito enganadora de exprimir a sua concordância.

5 de dezembro de 2011

Cidadãos iluminados

Neo-realismo serôdio by AiresAlmeida
Neo-realismo serôdio, a photo by AiresAlmeida on Flickr.

Não são poucos aqueles que reclamam uma educação para a cidadania e para os valores nas nossas escolas. Ao que parece, trata-se de uma educação que seja capaz de formar cidadãos responsáveis, críticos e solidários. 

O que me deixa curioso é saber como essas pessoas que querem agora uma educação para a cidadania e para os valores conseguiram tornar-se eles próprios cidadãos responsáveis, a ponto de se baterem por uma educação para a cidadania. 

Será que estão a falar, afinal, de uma educação como aquela que tiveram nas suas escolas? Ou será que eles se tornaram cidadãos críticos e responsáveis apesar da escola que frequentaram?

1 de dezembro de 2011

David Deutsch

David Deutsch lançou em Março um novo livro, The Begining of Infinity: Explanations that Transform the World que prossegue o trabalho já presente em The Fabric of Reality  (1997). Na Crítica temos aqui a minha tradução da sua comunicação TED, que podemos ver abaixo.

Deutsch é professor na Universidade de Oxford, e deu contributos cruciais para a teoria da computação quântica. Cientista de formação, os seus livros são não apenas abrangentes -- incluindo a filosofia -- como constituem uma excepção entre cientistas, pela reflexão profunda e lúcida sobre a natureza da ciência, da teorização e do que é compreender melhor a realidade. Afastando-se dos convencionalismos, idealismos e instrumentalismos que andam associados ao empirismo, constitui uma lufada de ar fresco para quem tem fortes intuições realistas, como eu, e para quem desconfia que há algo de profundamente errado na mundividência empirista. Aconselho vivamente a leitura de ambos os livros; e não sou o único professor de filosofia a fazê-lo: David Albert faz o mesmo aqui.

Comprei The Fabric of Reality depois de ter visto e traduzido a palestra TED abaixo, mas quando recebi o livro fiquei decepcionado: saltei para um capítulo escrito sob a forma de diálogo com o título "A Conversation about Justification" que apresenta e defende a posição de Popper segundo a qual a indução não tem qualquer papel na ciência. Isto deixou-me uma péssima impressão, porque as ideias de Popper sobre a indução me parecem não apenas erradas, mas tolas. Contudo, fiz mal em abandonar o livro devido a esse capítulo. Meses depois voltei ao livro,  comecei pelo capítulo 1, e fiquei de novo fascinado: David Deutsch é excelente, inovador, inteligente e subtil. Infelizmente, está profundamente errado quanto à indução e quanto à justificação, mas não só tem razão quanto a muitas outras coisas, como os seus livros constituem leituras cativantes que em muito alargam a nossa compreensão das coisas. Recomendo vivamente estes seus dois livros.

30 de novembro de 2011

Que programa de filosofia?

Faustino Vaz não responde à pergunta do título, neste artigo, mas defende uma dada direcção.

Pseudo-argumentos

Haverá realmente pseudo-argumentos? É o que me parece, neste artigo.

26 de novembro de 2011

Justiç, de Michael Sande

Peço aos leitores para não ficarem irritados com o título acima. Afinal, se o tradutor português pode amputar literalmente a parte final do livro de Sandel, por que razão não posso eu amputar as últimas letras do título e do autor do livro? 

Sim, a tradução portuguesa (Editorial Presença) do livro de Michael Sandel não está completa, pois o original inclui um útil e informativo índice analítico no fim, que simplesmente foi banido na tradução portuguesa. Ora, julgo que não compete ao tradutor alterar a obra que ele se deveria limitar a traduzir correctamente, amputando-a do que o próprio autor escreveu. Se o índice faz parte da obra original, então deve estar também na obra traduzida. 

A falta de respeito pelos leitores e pelos próprios autores por parte de alguns editores e tradutores portugueses parece não ter limites. Chama-se a isso atraso cultural.   

Já agora, a propósito de atraso cultural, a publicação de um livro como este, de um filósofo reputado como Sandel, é notícia nos melhores jornais dos países culturalmente mais activos, multiplicando-se as recensões críticas e até as entrevistas. Este livro foi recentemente traduzido no Brasil, e jornais como O Globo dedicaram-lhe a atenção que merece. Mas em Portugal continuamos entretidos com mais um opúsculo sobre as dores de barriga de Benjamin e com a milésima inanidade dos Zizekes.

24 de novembro de 2011

Direitos e deveres

Foto: Aires Almeida

Muitas pessoas defendem que quem não tem deveres não tem direitos. Isto significa que, em sua opinião, ter deveres é uma condição necessária para ter direitos. Mas será necessário ter deveres para ter direitos? Se pensarmos melhor, rapidamente concluímos que não é necessário ter deveres para ter direitos. 

Se, como muitas pessoas defendem, for verdade que alguns animais têm direitos, então torna-se claro que não é preciso ter deveres para ter direitos, dado que os animais obviamente não têm deveres. Mas poder-se-ia dizer que isso é ver as coisas ao contrário, pois é precisamente por ser necessário ter deveres -- e os animais não os terem -- que aqueles que defendem que os animais têm direitos estão enganados. 

Esta resposta é, contudo, insatisfatória. Ainda que muitos acreditem que os animais não têm direitos, há outros casos relativamente pacíficos de quem tenha direitos sem ter deveres: os bebés recém-nascidos têm direitos mas claramente não têm deveres. O mesmo acontece com os deficientes mentais profundos ou até com os nossos familiares mortos, a quem reconhecemos direitos sem exigirmos deveres. 

A ideia de que quem não tem deveres não tem direitos é, pois, uma ideia errada. Mas por que razão ela é tão frequentemente invocada neste tipo de discussão? Por que razão tantas pessoas a acham persuasiva?

A minha resposta é que a confundem com outra ideia que não só é correcta como é até trivial: a ideia de que não há direitos sem deveres. Ao passo que a afirmação «Quem não tem deveres não tem direitos» é claramente falsa, a afirmação «Não há direitos sem deveres» é trivialmente verdadeira.

A diferença entre ambas as afirmações é a seguinte: na primeira afirmação, o sujeito que se diz ter deveres é o mesmo que se diz ter direitos; na segunda, os sujeitos com deveres e os sujeitos com direitos são ou podem ser diferentes. Isto compreende-se melhor quando se pensa que o direito de um indivíduo é o dever de outros. Por exemplo, se uma pessoa tem o direito de não ser torturada, outras pessoas terão o dever de não a torturar. Se um bebé tem o direito de ser alimentado, então alguém terá o dever de o alimentar.

Assim, é verdade que não há direitos sem deveres. Mas não é verdade que só quem tem deveres tem direitos. É bom não confundir o que é diferente.

16 de novembro de 2011

Estética, sentido e fracasso

Acabo de publicar um excerto do último livro de Susan Wolf, O Sentido na Vida e Por Que Razão é Importante (Bizâncio, 2011). Trata-se do comentário de John Koethe às palestras de Wolf que constituem o livro; no meu entender, juntamente com o comentário de Robert M. Adams, é um dos mais interessantes.

12 de novembro de 2011

A ética envolvida na crise do crédito


"The Chicago Sessions" é um documentário sobre o debate acerca das implicações éticas da crise do crédito envolvendo membros dos departamentos de direito e filosofia da Universidade de Chicago. O problema: saber quais são os princípios éticos que devem nortear a nossa sociedade após a crise hipotecária envolvendo empréstimos de alto risco que afetaram a economia mundial. Entre os participantes estão dois filósofos conhecidos: Martha Nussbaum e Brian Leiter. Vale a pena conferir.

Estética e filosofia da arte em Braga


Realiza-se na próxima semana, nos dias 17 a 19 de Novembro, o XIII Colóquio de Outono do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, subordinado ao tema geral Estética, Cultura Material e Diálogos Intersemióticos

Destaco os três painéis mais directamente ligados à estética e à filosofia da arte: o painel que tem como tema a música, com o filósofo da música Julian Dodd como convidado principal; o painel sobre o cinema, que conta com o filósofo Murray Smith e a filósofa Jinhee Choi, ambos autores de obras de filosofia do cinema; e o painel sobre pintura e fotografia, de que faço parte e no qual irei comentar a comunicações do filósofo canadiano Dominic McIver Lopes e da espanhola Francisca Pérez Carreño. A comunicação de Dominic Lopes é uma resposta ao polémico ensaio de Roger Scruton, no qual este argumenta contra a ideia de que há uma arte fotográfica. O ensaio de Francisca Carreño é sobre os diferentes tipos de expressão na pintura. Mas há muito mais. O programa completo pode ser consultado na página do colóquio

2 de novembro de 2011

30 de outubro de 2011

Thomas Nagel


O objectivo da metafísica é descobrir, nos termos mais gerais, como é realmente o mundo. Uma parte importante do projecto é determinar que tipos de coisas existem ou ocorrem independentemente das nossas respostas e crenças, e que tipos de coisas ou factos não têm existência independente das nossas respostas.

29 de outubro de 2011

Companions com 30% de desconto

Só durante o dia de hoje, a editora Idéias & Letras está a fazer um desconto substancial em todos os seus livros; uma boa oportunidade para comprar alguns dos Cambridge Companions to Philosophy.

28 de outubro de 2011

Nagel sobre Stroud sobre a metafísica

Vale a pena ler esta recensão de Thomas Nagel do último livro de Barry Stroud, Engagement and Metaphysical Dissatisfaction: Modality and Value (Oxford University Press, 2011). E também vale a pena ler regularmente o TLS.

23 de outubro de 2011

22 de outubro de 2011

Assim falou Searle

Vale a pena ouvir este podcast em que John Searle, no seu habitual modo -- muito directo e terra-a-terra -- fala dos seus interesses em filosofia.

21 de outubro de 2011

20 de outubro de 2011

Sete ideias à venda

Está já à venda no site do editor o meu livro Sete Ideias Filosóficas Que Toda a Gente Deveria Conhecer. Nas livrarias físicas e nas restantes livrarias online o livro deverá estar disponível dentro de dias.

15 de outubro de 2011

A arte de argumentar

A Rulebook for Arguments, de Anthony Weston, é um dos livros que mais ajuda qualquer estudante que queira ganhar autonomia intelectual: que queira saber pensar por si mesmo. Ajuda a escrever com clareza, rigor e precisão; ajuda a argumentar correctamente; e em resultado disso ajuda também a ler activamente textos argumentativos, sejam de filosofia ou não. A edição portuguesa tem por título A Arte de Argumentar, e foi traduzida por mim; a brasileira tem por título A Construção do Argumento, e foi traduzida por Alexandre Feitosa Rosas.

A Hackett acaba de anunciar A Workbook for Arguments, de David R. Morrow e Anthony Weston. Este volume de 500 páginas contém o texto completo do livro original de Weston, mas é complementado com inúmeros textos e exemplos, que ilustram cada uma das regras simples do livro original. Pelo que já me foi dado ver, parece-me muitíssimo bom.

14 de outubro de 2011

Kripke coligido

A Oxford University Press anuncia para este mês o primeiro volume de 512 páginas de Philosophical Troubles, que reúne vários artigos dispersos de Saul Kripke, e inclui alguns inéditos. Entretanto, John P. Burgess prepara um livro sobre Kripke, e disponibiliza já alguns excertos aqui.

13 de outubro de 2011

Percepção e realidade

Acabo de ler Inverted World, de Christopher Priest, um autor britânico que desconhecia. Fiquei bem impressionado com o livro, que agarra desde o início. Trata-se de uma história sobre uma cidade móvel, que começa por estar escrita na primeira pessoa, mudando depois para o ponto de vista da terceira pessoa, e regressando à primeira pessoa. As mudanças de perspectiva são cruciais porque é precisamente sobre isso que trata o livro. A personagem, assim como todos os habitantes daquela cidade móvel, pensa que vive num planeta estranho, onde ocorrem fenómenos físicos que obrigam à deslocação contínua da cidade -- um planeta que não é esférico, como a Terra. Grande parte da atracção do livro resulta precisamente da descoberta progressiva que a personagem vai fazendo do seu planeta, e nós com ela. E depois, no final, temos uma grande surpresa, de que não vou falar para não estragar a história. Impressionou-me a sensibilidade da narrativa, que por vezes é comovente, outras vezes apenas estranha e opressiva, mas sempre estimulante.

11 de outubro de 2011

10 de outubro de 2011

7 ideias filosóficas

O meu novo livro, Sete Ideias Filosóficas que toda a gente deveria conhecer (Bizâncio), já tem capa, e deverá sair em breve. Um excerto do livro está aqui.

9 de outubro de 2011

Williamson sobre a ciência



Gostaria de regressar ao artigo de Williamson no NYT sobre o naturalismo, que tem sido aqui objecto de uma interessante troca de argumentos. Não venho retomar essa discussão, mas simplesmente expor a minha surpresa com uma passagem do texto de Williamson sobre as teorias científicas. 

Diz ele, no segundo parágrafo, que as melhores teorias científicas actuais serão provavelmente substituídas por desenvolvimentos científicos futuros. Na verdade, esta é uma ideia muito comum, que só surpreende pelo facto de ser partilhada também por Williamson. 

Note-se que Williamson não diz que mesmo as melhores teorias científicas poderão vir a ser substituídas por outras no futuro. Isso é uma banalidade, que não há como contrariar. Não se trata, pois, de reconhecer a mera possibilidade de as teorias científicas actuais virem a ser descartadas no futuro; trata-se de afirmar que é provável isso acontecer com as melhores teorias actuais - ou seja, por maioria de razão, com todas as teorias. 

Mas o que justificaria tal afirmação? Que todas as teorias científicas do passado acabaram por ser posteriormente substituídas ou abandonadas? Se isso fosse verdade, talvez se justificasse afirmar que todas as teorias actuais virão provavelmente a ser descartadas. Mas a premissa é falsa, sendo facílimo encontrar casos de teorias do passado que estão longe de ser descartadas. E mesmo algumas teorias do passado que por vezes se diz estarem ultrapassadas - a física newtoniana, por exemplo - não o foram realmente, tendo antes sido melhoradas, completadas ou corrigidas em alguns aspectos. O que se passa é que os casos de teorias bem sucedidas são frequentemente ofuscados pelo alarido dos insucessos científicos. E nem sequer vale a pena contabilizar insucessos estrondosos, como a cosmologia geocêntrica ou a teoria do flogisto, como o faz notoriamente Thomas Kuhn. Isto porque o geocentrismo não passa, em bom rigor, de uma teoria pré-científica, e a teoria do flogisto surge numa área científica de investigação ainda pouco madura. À medida que a investigação numa dada área científica vai amadurecendo, também as suas teorias se tornam mais robustas. Ora, isto deveria refrear a tendência para pensarmos que as teorias do passado são como as do presente e as do presente como as do futuro.  

Mas talvez Williamson não parta daquela premissa falsa. Talvez parta de uma outra, esta sim, verdadeira: a de que algumas teorias do passado acabaram mais tarde por ser abandonadas ou substituídas por outras. Só que, neste caso, a premissa não chega para concluir que todas as teorias virão provavelmente a ser abandonadas ou substituídas por outras. Concluir tal coisa é fazer uma generalização precipitada.

Não pretendo mostrar que Williamson está errado nas suas críticas a certo tipo de naturalismo cientificista muito em voga, pois o seu argumento central não depende disto. Mas se é importante denunciar certos preconceitos cientificistas, como justamente faz Williamson no seu artigo, também me parece importante não resvalar para o erro simétrico, que consiste na relativização em bloco dos sucessos científicos. Talvez todos estes sucessos sejam efémeros - e temos de ter isso em conta - mas não deixa de ser injustificado darmos isso como quase certo. A não ser que disponhamos de alguma razão misteriosa para pensar que a verdade é irremediavelmente inacessível.

É possível que esteja a ser injusto com um texto que se destina ao grande público e onde compreensivelmente não há espaço para grandes subtilezas. Seja como for, não deixa de ser surpreendente. Ou talvez não?

As ilusões do prémio Nobel

Vale a pena ler o artigo "What's Wrong With the Nobel Prize in Literature", de Tim Parks, para contrariar um pouco a mania de pensar que onde há muito dinheiro e instituições de peso há juízos ponderados e inevitavelmente sensatos. A importância que é comum atribuir ao prémio Nobel (não apenas da literatura) é exagerada; mas o pior é basear-se na ideia de que os prémios Nobel são sinais inequívocos de excelência, quando na verdade são apenas sinais das opiniões peculiares dos membros da Academia Sueca. O mais triste é a importância exagerada atribuída ao prémio Nobel exprimir a tolice humana do costume de fantasiar que há juízos infalíveis, feitos por autoridades anónimas que têm um acesso privilegiado à verdade e que por isso excluem a discussão pública.

Ciência e bruxaria

Acabo de publicar um dos capítulos do meu livro Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade (Quasi, 2006): "Ciência e Bruxaria".

6 de outubro de 2011

Os melhores anjos da nossa natureza

O novo livro de Steven Pinker, The Better Angels of Our Nature: The Decline of Violence in History and Its Causes, era por mim aguardado com alguma expectativa, porque já tinha lido alguns excertos na Internet. Estou infelizmente ainda nas primeiríssimas páginas, mas para já estou muito bem impressionado.

Em contrapartida, John Gray faz aqui uma recensão que me parece delirante. O livro está cheio de dados empíricos que sustentam a tese de Pinker de que há hoje muitíssimo menos violência do que alguma vez houve desde que os seres humanos surgiram no planeta; mas esta ideia é incompatível com as ideias pessimistas de John Gray. O que faz este então? Ignora todos os dados e diz que Pinker está iludido, mas não apresenta um só argumento minimamente credível. Fiquei siderado com a recensão de Gray, pois é um pouco como ignorar os dados empíricos de que há 100 mil milhões de estrelas na nossa galáxia porque eu sempre defendi que só há vinte e três, sem qualquer sustentação empírica.

Em contrapartida, Peter Singer faz aqui uma recensão muitíssimo mais equilibrada, até porque descreve as ideias de Pinker e os dados empíricos em que se baseia.

Não sei se o livro será publicado em língua portuguesa -- com as suas 800 páginas, não é qualquer editor que lhe vai deitar a mão. Mas, juntamente com The Rational Optimist, de Matt Ridley, é uma leitura fundamental, que muda a nossa maneira de ver as coisas, ainda que não concordemos cegamente, e desde que não sejamos cegamente dogmáticos como John Gray.

William Godwin

Que magia há no pronome "meu" que deva justificar a nossa rejeição das decisões da verdade imparcial?

Justiça em Portugal

Está já à venda em Portugal o livro Justiça, de Michael J. Sandel. O site do editor não menciona o nome do tradutor, infelizmente. O livro é das melhores coisas que se pode ler sobre ética e filosofia política. Altamente recomendado.

5 de outubro de 2011

Oferta de livros

Acabo de publicar um excerto de Justiça: o que é fazer a coisa certa, de Michael J. Sandel, traduzido por Heloísa Matias e Maria Alice Máximo (Civilização Brasileira, 2011). Em colaboração com a editora, a Crítica tem três exemplares para oferecer exclusivamente aos leitores brasileiros. Basta escrever um pequeno comentário discutindo os casos do bonde desgovernado. Os autores das três melhores respostas serão depois contactados por mim e o editor enviar-lhes-á um exemplar do livro de Sandel. Só serão consideradas as respostas enviadas até dia 10 de Outubro de 2011.

1 de outubro de 2011

Pensar de A a Z

Acabo de ter notícia do lançamento no Brasil do livro Pensamento Crítico de A a Z, de Nigel Warburton, traduzido por Eduardo Francisco Alves (José Olympio, 204 pp.). É um bom livro, esclarecedor e muito claro, que recomendo vivamente.