Avançar para o conteúdo principal

Nietzsche e Clark Kent


Nietzsche é dos poucos filósofos que, como acontece com as estrelas de rock e de cinema, poderia dar-se ao luxo de ter clube de fans. As afirmações bombásticas e radicais, a impaciência para a argumentação cuidadosa e a loucura dão-lhe um ar de espectacularidade que, em grande parte, explicam a adesão quase incondicional e imediata de muitos que procuram sobretudo emoções fortes na filosofia. 

Esta relação quase emocional com a filosofia de Nietzsche costuma ter como consequência impedir que se estude cuidadosamente a sua obra e se avaliem criticamente as suas ideias, procurando distinguir o que é filosoficamente interessante do que o é menos. Em vez disso, a vulgata apologética e o lugar comum acrítico tornam-se moeda corrente. É o que, provavelmente, sucede com a tão badalada ideia nietzscheana do super-homem (Übermensch). O filósofo Brian Leiter, que é também um dos mais destacados estudiosos da obra de Nietzsche (daqueles que o estudam de forma crítica e desapaixonada), considera precisamente que a ideia do super-homem não só não é uma ideia central e estruturante do pensamento de Nietzsche, como defende nem sequer ter grande importância. Leiter, autor deste excelente blogue sobre Nietzsche, faz notar que, em toda a obra de Nietzsche, o Übermensch apenas é referido no prólogo de Assim Falava Zaratustra - livro que Leiter considera ser dos menos representativos - em termos filosóficos, embora não em termos literários - do pensamento do seu autor. 

Outra das noções que Leiter diz ter pouca importância é a noção de vontade de poder, que muito raramente aparece nos livros publicados em vida por Nietzsche. Tudo isto pode ser confirmado na curta entrevista que Leiter deu a Nigel Warburton para a excelente série Philosophy Bites.     

Comentários

  1. Li 5 livros de Nietzsche e estou no sexto( Aurora), e discordo totalmente de Brian Leiter. A idéia de super-homem é de total intensidade tanto na obra filosófica de Nietzsche, como também na filosofia moderna. O super-homem do filósofo é citado mas profundamente no Assim Falava Zaratustra, entretanto há também significativas referências em Genealogia da Moral e também no autobiografia de Nietzsche-Ecce Homo.
    Assim Falava Zaratustra é sem dúvida o principal livro de Nietzsche. Reside nesse livro não só a idéia do super-homem, há também uma idéia muito conhecida da filosofia de Nietzche-O Eterno Retorno. Assim Falava Zaratustra é um dos principais livros da filosofia moderna.

    Parabéns pelo blog, muito bem elaborado. Acredito que é esse tipo de blog e esse tipo de assunto que ainda em falta pelas páginas da internet atualmente.

    Edvan(www.edvanjesus.blogspot.com)

    ResponderEliminar
  2. É possível que o super Homem esteja presente em toda a obra de Zaratustra, não necessariamente sob esta mesma forma, mas para mim parece evidente que o autor se refira a Ele com insistência. Também, é preciso perguntar se este livro que é considerado o menos representativo para o autor da crítica também o é para o autor do livro, o que parece ser um engano quando observamos a maneira como o filósofo se refere à sua obra no Ecce Hommo. Se não me engano, foi aqui mesmo que li: Para que algo seja verdadeiro, é necessário que alguém creia nisso e que isso seja de fato verdadeiro. E segundo o que pude estudar do autor, ele não deixou nenhum rastro de que esta crítica pudesse ser verdadeira.

    ResponderEliminar
  3. Concordo que Nietzsche, como filósofo, seja essencialmente um catalisador de emoções, persuasivo por excelência, e "Assim Falou Zaratustra" seja, pelo seu estilo poético/prosaico, o expoente máximo do megalomanismo estéctico do autor, no qual se poderia incluir também a sua primeira obra "A Origem da Tragédia", escrita com mais paixão do que lógica, conforme afirmou posteriormente o próprio Nietzsche.

    Contudo não concordo com a "impaciência para a argumentação cuidadosa" depois de ter lido o "Anticristo" e "A Genealogia da Moral", obras bem elaboradas a nível de pesquisa, estrutura e interpretação históricas, no meu entender.

    Julgo, por isto, que a melhor forma de compreender Nietzsche, é fazê-lo da forma como o autor sempre se expressou, ou seja, a meio caminho entre a paixão e a razão, dado que não são de todo inconciliáveis, mas antes complementares´na sua obra, ambivalência essa que demarca Nietzsche dos restantes filófofos e lhe dá o estatuto iconográfico que se lhe reconhece, não tanto na filosofia, mas principalmente no meio artístico que o contempla e ao qual Nietzsche prestava as suas maiores vénias.

    "Temos a arte para não morrer da verdade"

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

O filósofo preferido dos filósofos

É curioso ouvir o podcast que, para marcar o lançamento do segundo livro de Philosophy Bites, da responsabilidade de David Edmonds e Nigel Warburton, eles disponibilizaram sobre o filósofo favorito de muitos dos filósofos e filósofas que entrevistaram. 
São quase 70 filósofos e filósofas das mais variadas áreas e tendências filosóficas que se pronunciam sobre o seu filósofo favorito, justificando brevemente a sua escolha. É certo que a maior parte dos filósofos são de língua inglesa, mas também os há, embora poucos, de língua francesa. Mesmo entre os filósofos de língua inglesa, muitos não são filósofos analíticos. Confesso que não conheço muitos deles, mas há outros que talvez sejam conhecidos dos leitores, como Ronald Dworkin (que referiu Kant), David Chalmers (Carnap), Kit Fine (Aristóteles), Michael Sandel (Hegel), Peter Singer (Henry Sidgwick), Michael Dummett (Frege), Tim Crane (Descartes), Susan Wolf (Aristóteles), Stephen Neale (Russell), Noël Carroll (Aristóteles), Brian Lei…

O que é uma análise?

Há duas maneiras de entender uma análise, o que pode parecer surpreendente. Deparei-me recentemente com este aspecto ao trabalhar na segunda edição do Dicionário Escolar de Filosofia.

Podemos entender uma análise de um dado conceito como uma apresentação de outros conceitos mais básicos que captem inteiramente o primeiro. O exemplo típico é algo como a análise do conceito de virgem como pessoa que nunca teve relações sexuais. Esta é a concepção fraca de análise. Na concepção forte, o que resulta da análise, para ser realmente uma boa análise, terá de ser uma frase analítica. Realmente, “Uma pessoa virgem é uma pessoa que nunca teve relações sexuais” é uma frase analítica. As tentativas de análise filosófica são tipicamente vistas como tentativas de análise no sentido forte: se fosse realmente verdade que o conhecimento é crença verdadeira justificada, essa afirmação seria analiticamente verdadeira.

Isto colide com a ideia de que não só a filosofia, mas também as ciências como a física o…