19 de janeiro de 2011

Nietzsche e Clark Kent


Nietzsche é dos poucos filósofos que, como acontece com as estrelas de rock e de cinema, poderia dar-se ao luxo de ter clube de fans. As afirmações bombásticas e radicais, a impaciência para a argumentação cuidadosa e a loucura dão-lhe um ar de espectacularidade que, em grande parte, explicam a adesão quase incondicional e imediata de muitos que procuram sobretudo emoções fortes na filosofia. 

Esta relação quase emocional com a filosofia de Nietzsche costuma ter como consequência impedir que se estude cuidadosamente a sua obra e se avaliem criticamente as suas ideias, procurando distinguir o que é filosoficamente interessante do que o é menos. Em vez disso, a vulgata apologética e o lugar comum acrítico tornam-se moeda corrente. É o que, provavelmente, sucede com a tão badalada ideia nietzscheana do super-homem (Übermensch). O filósofo Brian Leiter, que é também um dos mais destacados estudiosos da obra de Nietzsche (daqueles que o estudam de forma crítica e desapaixonada), considera precisamente que a ideia do super-homem não só não é uma ideia central e estruturante do pensamento de Nietzsche, como defende nem sequer ter grande importância. Leiter, autor deste excelente blogue sobre Nietzsche, faz notar que, em toda a obra de Nietzsche, o Übermensch apenas é referido no prólogo de Assim Falava Zaratustra - livro que Leiter considera ser dos menos representativos - em termos filosóficos, embora não em termos literários - do pensamento do seu autor. 

Outra das noções que Leiter diz ter pouca importância é a noção de vontade de poder, que muito raramente aparece nos livros publicados em vida por Nietzsche. Tudo isto pode ser confirmado na curta entrevista que Leiter deu a Nigel Warburton para a excelente série Philosophy Bites.     

3 comentários:

  1. Li 5 livros de Nietzsche e estou no sexto( Aurora), e discordo totalmente de Brian Leiter. A idéia de super-homem é de total intensidade tanto na obra filosófica de Nietzsche, como também na filosofia moderna. O super-homem do filósofo é citado mas profundamente no Assim Falava Zaratustra, entretanto há também significativas referências em Genealogia da Moral e também no autobiografia de Nietzsche-Ecce Homo.
    Assim Falava Zaratustra é sem dúvida o principal livro de Nietzsche. Reside nesse livro não só a idéia do super-homem, há também uma idéia muito conhecida da filosofia de Nietzche-O Eterno Retorno. Assim Falava Zaratustra é um dos principais livros da filosofia moderna.

    Parabéns pelo blog, muito bem elaborado. Acredito que é esse tipo de blog e esse tipo de assunto que ainda em falta pelas páginas da internet atualmente.

    Edvan(www.edvanjesus.blogspot.com)

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  2. É possível que o super Homem esteja presente em toda a obra de Zaratustra, não necessariamente sob esta mesma forma, mas para mim parece evidente que o autor se refira a Ele com insistência. Também, é preciso perguntar se este livro que é considerado o menos representativo para o autor da crítica também o é para o autor do livro, o que parece ser um engano quando observamos a maneira como o filósofo se refere à sua obra no Ecce Hommo. Se não me engano, foi aqui mesmo que li: Para que algo seja verdadeiro, é necessário que alguém creia nisso e que isso seja de fato verdadeiro. E segundo o que pude estudar do autor, ele não deixou nenhum rastro de que esta crítica pudesse ser verdadeira.

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  3. Concordo que Nietzsche, como filósofo, seja essencialmente um catalisador de emoções, persuasivo por excelência, e "Assim Falou Zaratustra" seja, pelo seu estilo poético/prosaico, o expoente máximo do megalomanismo estéctico do autor, no qual se poderia incluir também a sua primeira obra "A Origem da Tragédia", escrita com mais paixão do que lógica, conforme afirmou posteriormente o próprio Nietzsche.

    Contudo não concordo com a "impaciência para a argumentação cuidadosa" depois de ter lido o "Anticristo" e "A Genealogia da Moral", obras bem elaboradas a nível de pesquisa, estrutura e interpretação históricas, no meu entender.

    Julgo, por isto, que a melhor forma de compreender Nietzsche, é fazê-lo da forma como o autor sempre se expressou, ou seja, a meio caminho entre a paixão e a razão, dado que não são de todo inconciliáveis, mas antes complementares´na sua obra, ambivalência essa que demarca Nietzsche dos restantes filófofos e lhe dá o estatuto iconográfico que se lhe reconhece, não tanto na filosofia, mas principalmente no meio artístico que o contempla e ao qual Nietzsche prestava as suas maiores vénias.

    "Temos a arte para não morrer da verdade"

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