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O companheiro de Platão em português


Acabo de ter conhecimento da edição brasileira, pela mão da Artmed, do Companion to Plato, dir. Hugh H. Benson, originalmente publicado pela Wiley-Blackwell na série Blackwell Companions to Philosophy. A obra reúne 29 artigos originais sobre Platão, de vários autores, dos quais se destacam Christopher Shields, A. A. Long (que por lapso surge apenas como A. Long!), Nicholas White, C. D. C. Reeve, Michael J. White, David Sedley, Charles Kahn, Gareth B. Matthews e Mary Margaret McCabe: a fina-flor dos especialistas em Platão. O livro está dividido em seis partes. A primeira, com quatro artigos, trata do método platónico e da forma do diálogo. A segunda, também com quatro artigos, trata da epistemologia platónica. A terceira é dedicada à metafísica de Platão e conta com seis artigos. A quarta parte tem quatro artigos dedicados à psicologia de Platão, e a quinta cinco artigos sobre a ética, a política e a estética de Platão. Finalmente, a sexta e última parte tem apenas três artigos dedicados ao legado platónico. Todas estas partes são antecedidas de três estudos sobre a vida de Platão, o problema da interpretação deste filósofo, e da interpretação de Sócrates.

A tradução brasileira é de Marco Antonio de Ávila Zingano, da Universidade de São Paulo. Infelizmente, fiquei mal impressionado com a tradução. Vejamos apenas um caso. No original lemos o seguinte, na página 103:
According to the picture we have of Socrates from the early Planotic dialogues, Socrates believed that recognizing a certain ignorance in himself was a form of wisdom, in fact a form of wisdom that otherwise inteligent people seem to lack. But what kind of ignorance? And what form of wisdom? As the considerable commentary on Socratic ignorance so eloquently testifies, it is difficult to be clear about 1) what exactly Socrates thought he did not know that, as he says, other people around him mistakenly thought they did know.
Uma tradução correcta deste trecho, ainda que exista sempre mais de uma tradução correcta, seria algo como o seguinte:
Segundo a imagem de Sócrates que nos é dada nos primeiros diálogos platónicos, Sócrates acreditava que reconhecer uma certa ignorância nele mesmo era uma forma de sabedoria, de facto, uma forma de sabedoria que pessoas que, noutros aspectos, eram inteligentes pareciam não ter. Mas que tipo de ignorância? E que forma de sabedoria? Como os consideráveis comentários sobre a ignorância socrática evidenciam tão eloquentemente, é difícil ver claramente 1) o que Sócrates pensava que não sabia e que, como afirma, as outras pessoas em seu redor erradamente pensavam que sabiam.
Na tradução publicada podemos ler:
Segundo o quadro que temos de Sócrates com base nos primeiros diálogos platônicos, ele acreditava que reconhecer um tipo de ignorância em si mesmo era uma forma de sabedoria, na verdade uma forma de sabedoria que pessoas inteligentes em outros campos pareciam não ter. Porém, que tipo de ignorância? E que tipo de sabedoria? Como prova tão eloquente o considerável comentário sobre a ignorância socrática, não é fácil ter clareza sobre 1) o que exatamente Sócrates pensava que não sabia que, como ele diz, outras pessoas em seu entorno pensava enganosamente que sabiam. 
Encontrei várias outras passagens assim: claras e directas no original, mas que custam a compreender na tradução -- e que muitas vezes não é possível entender, como nesta passagem a parte sobre a "prova tão eloquente", além da imprecisão de traduzir indiferentemente "kind" e "form" por tipo, e "picture" por quadro. De modo que não posso recomendar esta edição a quem dominar o inglês. Mas como infelizmente a maior parte dos alunos não lêem uma linha de inglês, é uma boa notícia que possam agora (tres)ler esta importante obra.

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