4 de fevereiro de 2011

Como havemos de viver?


A resposta de Peter Singer é que o melhor é viver uma vida ética. Será?

8 comentários:

  1. O que Singer quer dizer, obviamente, não é que o melhor (eticamente) seja viver uma vida ética. Isso seria trivial. A ideia é que o melhor (para o próprio agente) é viver uma vida ética.

    Eu acho desconcertante que Singer, dada a sua concepção de vida ética, defenda isto. A vida ética, de acordo com o utilitarismo (de actos), é uma vida que consiste numa dedicação sem tréguas à promoção imparcial da felicidade. Nesta vida até ir ao cinema ou comprar um tapete novo para a sala é condenável, pois deveríamos antes usar o dinheiro em donativos à Oxfam ou à UNICEF. Basicamente, devemos tornar-nos instrumentos para converter recursos em tanta felicidade quanto possível. As nossas relações, projectos e compromissos pessoais deverão subordinar-se a esse desígnio, e ser erradicados caso se revelem incompatíveis com ele. Para mim, uma vida dessas seria absolutamente deprimente. Se a vida ética for como Singer a pinta, há vidas muito melhores do que a vida ética. Quase todas.

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  2. Olá Pedro,

    Na visão de Singer, se quisermos avaliar a acção quanto à ética, parece-me que é melhor, porque gera mais felicidade, oferecer dinheiro à Unicef, por exemplo, do que comprar um tapete novo para a sala, que provavelmente gerará apenas mais felicidade para uma mão cheia de pessoas. No entanto, daí não se segue que comprar o tapete é algo errado. Salvar duas pessoas pode ser melhor do que salvar 1, mas salvar só uma não é errado só por si.

    Acho difícil que Singer caia na posição que apresentaste pois parece demasiado óbvio que deixar para trás de tudo os nossos projectos que não visam promover (pelo menos directamente) a maior felicidade não parece uma vida muito interessante de se viver (e provavelmente nem sequer é possível fazê-lo, porque a nossa biologia simplesmente não permite agirmos sem meter o nosso próprio organismo numa parte significativa da equação).

    A ideia, penso eu, é arranjar um compromisso entre as duas coisas e não nos podemos esquecer que muitos actos feitos para nos beneficiar podem estar a contribuir para podermos beneficiar os outros depois (se bem que, admito, este argumento pode também ser usado pelo egoísta que não pretende ajudar os outros, mas a diferença está pelo menos na intenção, ainda que não a possamos saber).

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  3. O utilitarismo é a ideia de que a felicidade de todos conta, e não apenas a minha própria.

    O utilitarismo não é a caricatura de que a minha felicidade não conta, tendo eu de ser mero instrumento da felicidade alheia.

    O que pode ser desconcertante é a ideia de que, independentemente das conexões causais e afectivas existentes entre mim e os outros, tenho o dever de tudo fazer para os ajudar, desde que isso não implique que eu fique pior que eles. Isto parece-me falso, e vê-se melhor pondo as coisas ao contrário: acaso eu penso que, se estiver a passar fome, um gajo do outro lado do mundo tem o dever de me mandar um pão? Não. Se ele o fizer, é louvável e fico agradecido, mas ele não tem o dever de o fazer.

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  4. Oi Pedro,

    Eu concordo com o Desidério, mas acrescentaria algo ainda. Sua objeção me parece auto-refutante. Note, se viver essa vida, que segundo você o utilitarista de ação recomenda, fosse deprimente, se fosse deprimente para qualquer um vivê-la, então o utilitarismo de ação não poderia recomendá-la. Afinal, ele pretende a maior felicidade de TODOS, e todos ficariam muito deprimidos em viver como você sugeriu. Me parece que você provou justamente o que não queria: que o utilitarismo de ação não recomenda o tipo de vida que você pensa.
    Funciona?

    Além disso, há uma pequena correção: O Singer não é um utilitarista de ação. Ele é um utilitarista de DOIS NÍVEIS. Ou seja, que apela a um equilíbrio entre o de regras e o de ação. Na primeira parte do seu livro Ética Prática ele menciona e explica isso.

    Um abraço.

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  5. Olá!


    Um pouco mais rigorosamente, o utilitarista diz que a felicidade de cada um dos outros conta tanto como a minha. (Espero que não me tenhas atribuído a caricatura, Desidério!) Sendo as coisas como são, pôr de parte a maioria dos meus interesses e relações mais significativos seria a melhor forma de produzir uma maior felicidade geral (algo que é diferente de uma maior felicidade para todos: a máxima felicidade geral pode implicar uma grande infelicidade para alguns). Ora, reformar todo a minha vida no sentido de maximizar o bem seria devastador para mim (e para todas as pessoas minimamente sãs), pelo que me parece errado, absurdo mesmo, sustentar que devo fazê-lo porque essa seria a melhor vida para mim.

    Acho que a opção dos dois níveis não ajuda nada, porque a melhor maneira de maximizar a felicidade seria adoptar regras de beneficência extremamente exigentes.

    O livro do Singer é muito interessante, mas nesta discussão ele espalha-se. Um dos seus erros básicos é discutir como se as únicas duas opções fossem ter um tipo de vida mesquinhamente egoísta (que ele, com razão, diz levar à infelicidade do agente) e adoptar uma vida ética (como ele a entende: maximizar a felicidade). Esta disjunção é falsa.

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  6. Segundo Singer, em que medida é forte a exigência ética ajudar os outros? Aqui está a resposta dele, no clássico "Famine, Affluence, and Morality":

    "One possibility, which has already been mentioned, is that we ought to give until we reach the level of marginal utility - that is, the level at which, by giving more, I would cause as much suffering to myself or my dependents as I would relieve by my gift. This would mean, of course, that one would reduce oneself to very near the material circumstances of a Bengali refugee. It will be recalled that earlier I put forward both a strong and a moderate version of the principle of preventing bad occurrences. The strong version, which required us to prevent bad things from happening unless in doing so we would be sacrificing something of comparable moral significance, does seem to require reducing ourselves to the level of marginal utility. I should also say that the strong version seems to me to be the correct one."

    Sucintamente: Singer defende que (1) ter uma vida ética implicaria reduzirmos o nosso bem-estar de tal forma que ficaríamos a viver quase como os mais desgraçados do mundo: (2) devemos ter essa vida porque isso é o melhor para nós. Aceitar simultaneamente 1 e 2 é descabido.

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  7. Olá, Pedro!

    Obrigado pelas achegas! Na verdade, faz falta um artigo em português, claro e directo, que articule estas críticas a Singer, em particular, e ao utilitarismo, em geral. Em português é infelizmente demasiado comum críticas a Singer e ao utilitarismo baseadas em incompreensão, ou até má vontade, por se pensar que se trata de uma teoria incompatível com a religião.

    Podemos distinguir duas coisas diferentes: a maneira como Singer aplica o utilitarismo, e outras maneiras alternativas de o fazer. Eu não penso que a maneira como ele aplica o utilitarismo seja a única alternativa. E concordo que a ideia igualitarista de pôr toda a gente a viver relativamente mal para que todos os que agora estão muitíssimo mal ficassem melhor soa a falso; mas note-se que isto não é mais do que a ideia cristã de um igualitarismo radical. O que estou a tentar dizer é que o que me parece errado na posição de Singer não resulta tanto do utilitarismo em si, mas antes do seu igualitarismo radical. Mas talvez eu esteja a ver mal.

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  8. O novo link é este: http://criticanarede.com/lds_singer.html

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