27 de fevereiro de 2011

Crença envergonhada


"Linguagem Religiosa", originalmente publicado sem título por George Orwell em Março de 1944, põe em causa a tentação de interpretar alegoricamente linguagens religiosas que, na verdade, só fazem sentido quando são interpretadas literalmente. Interpretadas literalmente durante milénios, tornou-se entretanto patentemente óbvio que somos incapazes de continuar a acreditar no que tais linguagens afirmam -- e inventámos a mentira de que afinal continuamos a acreditar, mas essas linguagens são alegóricas. É Orwell no seu melhor.

4 comentários:

  1. Quando se afirma, defensivamente, que não se podem nem se devem ler os livros sagrados das religiões de forma literal, e que é preciso ter em conta o contexto histórico, o meio cultural, a mentalidade, os mitos e conhecimentos disponíveis na época, assim como o simbolismo inerente aos mesmos, esquece-se provavelmente que os seus redactores talvez não tivessem esse entendimento do que escreveram, que não foi provavelmente essa a forma como se compreenderam a si mesmos, nem foi tampouco esse o modo como foram lidos, ouvidos, comentados e interpretados, tanto pelos seus contemporâneos como pelos seus leitores, interpretes e assumidos ou pretensos representantes ao longo de séculos ou milénios de história das religiões.
    Não significa isto necessariamente que essa não seja a forma mais correcta de ler os textos, mas tão só que, uma vez adoptada semelhante estratégia, é difícil saber onde parar. Pois o que é que impede de, nesse caso, levar o procedimento até às suas últimas consequências e considerar até os dogmas fundamentais das mesmas religiões como relativos à mentalidade e cultura da época, reduzindo-os assim, juntamente com a sua pretensão a verdades absolutas, a meros mitos humanos, demasiado humanos, mas nada mais do que isso? Porque não, então, colocar Deus, os milagres, as visões, as revelações, os sacrifícios, os rituais, os mandamentos, as proibições, as conversões, os símbolos, o sagrado, enfim, a própria fé e tudo aquilo que constitui a essência de uma religião, porque não colocar tudo isso no mesmo saco e pensar que, tal como aconteceu com muitas (todas?) outras religiões já mortas, se tratavam apenas de formas simbólicas humanas, específicas de uma determinada época e cultura, ou reveladoras do Homem universal, mas desprovidas de qualquer significado transcendente digno desse nome e, sobretudo, não provando coisa nenhuma sobre a sua alegada verdade, tal como é reivindicada pelos crentes? Porquê parar onde as autoridades religiosas convenientemente estipulam que se pare, a fim de, ao mesmo tempo, adaptar a interpretação e o entendimento religiosos aos tempos modernos, aos novos conhecimentos, à nova mentalidade e à consciência crítica característica dos nossos tempos, e salvarem ainda assim aquilo que lhes interessa salvar e que constitui o núcleo central da sua fé, protegendo-o dos efeitos corrosivos daquele método de leitura? Será intelectualmente honesto proceder desta maneira, cortar onde interessa cortar, reduzir e relativizar o que interessa ou não pode deixar de ser relativizado e reduzido, por conveniência estratégica ou por submissão e rendição às exigências intelectuais e aos novos cânones culturais, mas fazê-lo apenas para preservar o essencial intocável, sem que, no entanto, exista qualquer razão válida que justifique essa distinção ou salvaguarda?

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  2. (continuação) Porque não é Deus e a forma de o concebermos, tal como a fé que nele é depositada, também e apenas um símbolo ou um mito, por muito sugestivo ou significativo que seja para os seus fiéis e do ponto de vista humano em geral? Só porque é perigoso, herético ou blasfemo pensar assim? Mas não depende o valor dessas razões da verdade que elas próprias pressupõem, quer dizer, da verdade objectiva das crenças religiosas, não sendo por isso razões legitimamente aceitáveis por quem não partilha dessa fé? Como evitar que o efeito corrosivo da leitura histórico-crítica e cientificamente informada - pela antropologia, pela história, pela psicologia, pela sociologia, pela mitologia, pela crítica literária, pela ciência das religiões, etc - se estenda aos princípios fundamentais da fé, sem o fazer artificialmente e em consonância com a salvaguarda dogmática desses mesmos princípios? Como isentar os textos religiosos do ataque cerrado das hermenêuticas da suspeita e da desmistificação, que os vêem apenas como aos textos profanos, completamente desprovidos do estatuto sagrado que lhes é reconhecido pelos fiéis, e naturalmente criados por seres humanos, sem qualquer intervenção sobrenatural ou divina, apesar das suas pretensões a verdade revelada, logo sujeitos a todos os condicionamentos e determinações humanas comuns, a todas as ilusões e delírios, a todos os jogos de poder, a todas as manobras políticas ou ideológicas, a todos os interesses e pulsões inconscientes, sejam elas individuais ou colectivas? Esta é provavelmente a razão de fundo que explica a preferência dos fundamentalistas modernos de todas as religiões pela interpretação literal dos textos sagrados das suas respectivas tradições: cortam o mal pela raiz, controlando assim os estragos de forma literalmente radical, e lêem os livros tal como foram escritos e, provavelmente, entendidos pelos seus autores e seguidores ao longo dos séculos, não fazendo quaisquer concessões, cedências ou compromissos com a consciência moderna, evitando desse modo os perigos do deslizamento para o abismo do ateísmo que aquele método de leitura e esta consciência parecem necessariamente implicar. Resta saber, naturalmente, se, em desespero de causa, esse mecanismo político-ideológico de defesa radical contra a erosão da modernidade, com a sua blindagem de segurança imunitária total, não é exactamente o mais eficaz, tanto do ponto de vista dos resultados como do objectivo, ainda que seja conseguido à custa da alienação de todo o espírito crítico e de todo o conhecimento científico actualmente disponível, visto restarem poucas dúvidas de que se estes forem levados em linha de conta de forma coerente e consequente, sem limites arbitrários e racionalmente injustificados, então não há dogma religioso que se aguente intacto e toda a doutrina se arrisca a vir por água abaixo ou a ser arrasada pelas ondas sísmicas do pensamento critico racional.

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  3. Uma religião ao ser perspectivada «de fora» é reduzida a objecto que, enquanto tal, não lhe corresponde. O crente sabe que o essencial da sua religião não é o que ele pensa, mas o que ele faz e sente e testemunha, não apenas com palavras. Todo o pensamento se torna possível a todos, toda a palavra pode ser por todos usada, mas a Verdade é virtude e não existe nas palavras, nem nos livros, nem nas enciclopédias que explicam o que é a Verdade. E é com a Verdade que o crente se confronta, não com a verdade de uma fórmula, de um juízo ou de uma conclusão, mas com a virtude de ser verdadeiro, em tudo. O cristão sabe que o amor é a verdade, o amor à verdade não é só o primeiro mandamento, mas é a Lei. E a verdade é Deus e Deus está no mais pequenino de nós. O amor à verdade pode não estar no cientista, no filósofo, no literato, no político, no investigador, mas está no cristão. Ou não é cristão.
    Se Jesus Cristo não tivesse existido o Novo Testamento, enquanto texto inventado, ganharia uma importância que não lhe é reconhecida. Enquanto texto inventado, ser-lhe-ia tributada uma atenção e um valor que tem, mas por outras razões. Mas são os próprios evangelistas que não se assumem senão como relatores.
    Mas tudo o que puder contribuir para desiludir e desenganar e deitar por terra a mentira é bem vindo a quem não desespera da causa da verdade, que só teria a desesperar da causa da mentira.

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  4. O novo link do texto é este: http://criticanarede.com/linguagemreligiosa.html

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