6 de fevereiro de 2011

Crónica da semana


A crónica desta semana é vaidosamente assinada por mim e tem por título "A Incoerência da Vaidade".

7 comentários:

  1. Desidério,

    Sobre a afirmação “…o primeiro quadro cubista [não] tem mais valor por não existir qualquer quadro cubista anterior” penso o seguinte:

    Imaginemos que alguém descobria a cura do cancro e que, depois de uma bateria de testes, se confirmava que a sua aplicação era, em uma de duas situações, viável ou inviável. Tratando-se da primeira hipótese (aplicação viável) o reconhecimento seria imediato, mas tratando-se da segunda hipótese (aplicação inviável – imaginemos que os efeitos secundários eram superiores aos benefícios), nesse caso, o mais provável era que a descoberta não ficasse sequer para a história, ou seja, não seria propriamente uma cura do cancro. Ainda quanto à primeira hipótese, a aplicação viável da cura do cancro, ou simplesmente a descoberta da cura do cancro, ou ainda “a primeira” cura do cancro, seria certamente um momento sem paralelo, mesmo que, posteriormente, se descobrisse uma cura mais simples e mais eficaz.

    Assim, julgo que, do mesmo modo, se o primeiro quadro cubista apenas tivesse o mérito de ser o primeiro e não tivesse qualquer outro mérito reconhecível, provavelmente nem teria existido o cubismo. Mas os restantes quadros desse estilo, mesmo sendo mais “apurados”, não retiram o mérito às “Demoiselles de Avignon” (o primeiro quadro cubista).

    Da mesma forma que “Les Demoiselles de Avignon” de Picasso está para o cubismo;
    a “Impressão do Sol Nascente” de Monet está para o impressionismo;
    a “primeira aguarela abstracta” de Kandinsky está para o Abstraccionismo;
    o “Urinol” de Duchamp está para o Dadaísmo, etc. Seguramente o valor destas obras não é apenas a ruptura, a diferença ou a originalidade, nem necessitam de ser o melhor daquilo que preconizaram, mas elas foram, de facto, “ prezadas” e “admiradas” por serem “novidades superlativas”.

    Por isso mesmo entendo que a afirmação mais correcta seria: “…o primeiro quadro cubista [não] tem mais valor [apenas] por não existir qualquer quadro cubista anterior” (sublinhando a palavra “apenas”).


    Té,

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  2. Olá, Zé!

    Obrigado pela sugestão. Não tenho assim tanta certeza que ser primeiro confira por si valor. O valor que o primeiro quadro cubista tem resulta primariamente de o próprio quadro ter valor, e não de ser o primeiro. Ser o primeiro, na melhor das hipóteses, poderá acrescentar algo ao valor que já tem. Imagina que o primeiro quadro cubista era horrível, de tal modo que as pessoas teriam sido unânimes em considerá-lo destituído de valor. Mais tarde, outra pessoa aparecia com um quadro claramente no mesmo estilo, mas de valor. O primeiro não teria qualquer valor, mas o segundo tê-lo-ia.

    Eu penso que a tua objecção e sugestão é boa porque emerge de uma concepção contemporânea do valor da arte que me parece profundamente ilusória, uma concepção que põe a novidade acima de tudo o resto — e o resultado disso é gente a fazer originalidades parvas, só para ver se aquilo pega (e às vezes pega!) e ficam famosas, em vez de se cultivar o cuidado artístico, a sobriedade, o amor por um trabalho bem feito, o treino intenso das nossas aptidões para fazer algo que não se pode fazer do pé para a mão.

    No entanto, posso estar enganado. Reconheço que a minha posição é radical. Termino com mais uma experiência mental. Imagine-se que se descobria que afinal, antes de As Meninas de Avinhão, outro pintor obscuro tinha pintado um quadro cubista que tinha durante todo este tempo estado esquecido na casa dos seus familiares. Retiraria isso algum valor às Meninas de Picasso? Não creio.

    O que pensas de tudo isto?

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  3. Olá Desidério,

    Também não creio que ser o primeiro, no âmbito da criação artística, confira valor por si só. A imagem que me ocorre é a de alguém a ser o primeiro a cortar a meta numa corrida sem sentido. Mas no caso de “As Meninas de Avinhão”, e de outras obras que foram precursoras, a imagem que me ocorre é outra, é a de alguém que desbrava um caminho, demolindo um muro e, daí em diante, todos podem ver mais além. Depois disso é muito fácil ver para lá do muro, mas antes… era impossível. Daí achar justo o reconhecimento do primeiro que imaginou que haveria algo para além do muro e, derrubando-o, deu a possibilidade a outros de verem mais além.

    Quanto à “novidade” como uma espécie de “originalidade sem referente”, soa-me a tolice. Por vezes, seguindo a imagem anterior, é como se o “precursor” se tivesse encostado ao tal muro, fazendo com que este ruísse acidentalmente – mas o “precursor” inadvertido logo se levanta para indicar o caminho que nunca antevira!

    Essa ilusão é exponenciada pela especulação (teórica, crítica, económica, etc.) que requer a novidade pronta a impingir (seria interessante ver a filosofia analítica ao serviço da desmistificação de certos embustes no domínio artístico).

    Quanto à experiência que o Desidério propõe, não duvido que essa mesma especulação, perante a descoberta do “verdadeiro” primeiro quadro cubista, não retirando qualquer valor às “Meninas” de Picasso (que derrubou o muro), iria certamente conferir valor ao quadro descoberto, nem que fosse simplesmente por este ser “novidade” (ou seja, nem que para isso fosse necessário construir um muro só para, logo a seguir, o derrubar).

    Té,

    PS – virá também a propósito um e-mail (que acabo de receber) de promoção de cursos de verão na Escola de Belas Artes de Salzburgo e onde se pode ler (e deixo à consideração dos leitores da CRÍTICA):
    “Art and non-art
    Finally Mladen Stilinovic calls his course Reflections on art and no-art – considering the significance of "production, speed and laziness" for artistic work. The boundaries between what art is and what it is not are dissolved.”

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  4. Olá, Zé

    Obrigado pela paciência! Não nego que a novidade tenha valor; mas nego que tenha valor superlativo. E nisto parece que estamos de acordo. Depois tu insistes no valor contextual que uma novidade pode ter; eu concordo, mas parece-me que há aqui uma confusão. Uma coisa é o valor do quadro em si, outra coisa é o valor das perspectivas que esse quadro nos abre. Esta segunda coisa é completamente contextual — depende de mil coisas que não têm que ver com o quadro em si. Ora, parece-me contra intuitivo dizer que o quadro X, que se perdeu e por isso ninguém o viu, não tem tanto valor quanto o Y, que inaugurou uma corrente artística — coisa que o X teria feito se não se tivesse perdido. Repara que no meu artigo o que está em causa é o valor da criação em si; e neste caso parece-me óbvio que o criador de X está a par do criador de Y, apesar de um ter “derrubado muros” e o outro não. Mas posso estar a ver mal — e sei que estou a deitar no lixo uma parte importante da feitiçaria contemporânea com a ideia de originalidade.

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  5. Olá Desidério,
    Eu é que agradeço a atenção!

    Relendo o que já foi dito, apresento a seguinte afirmação:

    “É verdade que prezamos e admiramos, correctamente, a novidade superlativa. Esta é, sem dúvida, uma manifestação valiosa da criatividade.” (na sua crónica “A incoerência da vaidade”)

    O Desidério apresenta a originalidade como sendo a “novidade superlativa” e assim poder-se-á depreender que “é verdade que prezamos e admiramos, correctamente, a [originalidade]”.

    Então não entendo porque está a “deitar no lixo” a originalidade, ou porque será “exagerada” a atenção que lhe é dada (se é correcto que esta seja “prezada” e “admirada”).

    Essa afirmação remete-me para o "instinto da arte" de Denis Dutton (2010; 94-95), quando este associa também a “novidade” à “criatividade”, incluindo-as na sua lista de itens centrais (ou poder-se-ia dizer “superlativos”?) de traços característicos que podem ser encontrados interculturalmente nas artes. Denis Dutton associa ainda a estes dois termos, paritariamente, a originalidade. Ora esses aspectos possuem, em seu entender, uma dupla valência, uma mais atractiva (o factor surpresa e o seu valor de entretenimento) e outra mais técnica. Ambos os aspectos ajudam a definir “um espaço de desenvolvimento da individualidade ou genialidade na arte” e Denis Dutton particulariza esse domínio como alheio a regras e rotinas (idem).

    São afinal mais tópicos de reflexão!
    Té,

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  6. Talvez seja mais claro o que estou a defender pensando no seguinte: a originalidade, só por si, terá valor? Se sim, então tem valor superlativo; se não, então a originalidade tem valor quando está associada a outros atributos, mas não o tem caso contrário. A ideia comum hoje em dia é que a originalidade é importante em si, independentemente do resto. Isto faz as pessoas ficar desorientadas, procurando a novidade pela novidade, quando deviam procurar antes a criatividade, que é a base real do valor, e não a originalidade, que é algo que, acrescentada à criatividade, acrescenta valor, mas só por si é destituída de valor.

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  7. Este é o novo link da crónica: http://criticanarede.com/vaidade.html

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