22 de fevereiro de 2011

Cuidado com os especialistas

4 comentários:

  1. «O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, e por fim acaba sabendo tudo sobre nada.»

    George Bernard Shaw

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  2. O argumento que a Noreena nos traz não é novo, mas é apresentado de forma extremamente convincente. A primeira vez que ouvi falar no excessivo poder concedido aos peritos (ou especialistas) foi no contexto académico, num artigo publicado em 2000 no British Medical Journal (Sackett DL. The sins of expertness and a proposal for redemption. BMJ 2000; 320: 1283). O seu autor, médico e investigador aposentado, defendia que a opinião de peritos - como ele próprio - fazia mais mal do que bem ao avanço científico. E exortava à reforma compulsiva e a o dar lugar aos mais novos.

    No essencial concordo com este ponto de vista mas considero, no entanto, que o argumento principal cai na falácia da petitio principii, na medida em que é necessário ser-se um perito para transmitir a mensagem de que a opinião dos peritos é sobrevalorizada... Como contornar este problema?

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  3. Olá, Manuel

    Penso que a sua interessante dificuldade não se põe, porque não se trata de argumentar que devemos deitar ao lixo as opiniões dos especialistas, mas antes que devemos exercer sobre elas o mesmo saudável sentido crítico que exercemos com quaisquer outras opiniões. Um aspecto interessante da nossa psicologia revelado por Noreena Hertz é que quando as pessoas estão a ouvir ou ler opiniões de especialistas as zonas de análise crítica do cérebro se desligam literalmente; ora, o que precisamos é que isso não aconteça.

    Se me permite uma nota pessoal, o mais desconcertante nisto, para mim, como professor, é a recusa que a maior parte dos alunos tem perante a atitude crítica: preferem mil vezes que eu debite umas coisas quaisquer que possam decorar e esquecer, do que compreender e avaliar cuidadosamente o que eu digo. Poderá haver da parte das pessoas limites cognitivos biológicos que as impedem de exercer as suas capacidades críticas quando os assuntos são mais complexos do que a cerveja, a novela e o futebol.

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  4. Este vídeo devia ser visto por todos os professores que querem cultivar a autonomia crítica dos seus alunos na sala de aula (e que professor não o quer fazer?)

    Noreena Hertz revelou um facto biológico dos seres humanos extremamente preocupante. Parece que ao ouvir um especialista numa determinada área o ser humano tendencialmente desliga de forma involuntária a parte do seu cérebro responsável pelo "sentido crítico" e pelas tomadas de decisão.

    Ora na sala de aula o especialista é o professor e os seres humanos que desligam o seu "sentido crítico"... bem, todos sabemos quem são.

    Ou seja, parece-me que somos obrigados a concluir que para exercitar a autonomia crítica dos seus alunos o professor tem de deixar de ser o especialista na sala de aula.

    E isto implica mudanças enormes não só na atitude que assume perante os seus alunos mas também na atitude que assume perante a sua disciplina - tem de genuinamente passar a encarar a disciplina como um problema a resolver (com os seus alunos) e não como um problema que foi resolvido por outros fora da sala (especialistas).

    Encarar a sua disciplina como um problema vivo é, a meu ver, a única forma de cultivar e fomentar o sentido crítico dos alunos cativando-os para a discussão activa de ideias, para o desacordo numa palavra, para a rebelião - parafraseando Hertz.

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