9 de fevereiro de 2011

"É uma ideia muito válida!"

As pessoas comuns não imaginam a confusão que fazem com a palavra "validade" -- usam-na quase sistematicamente como sinónimo de "ter valor". Mas a validade não tem coisa alguma a ver com isso, quando a aplicamos a raciocínios ou argumentos. Graham Priest explica aqui o que é afinal a validade, com tradução de Célia Teixeira.

10 comentários:

  1. Achei o texto muito válido. rsrs

    Mas falando sério: não acho que as pessoas comuns de fato façam confusão com a noção de validade. Acho que a maioria das pessoas simplesmente desconhecem a noção de validade tal como utilizada em lógica.

    O que aconteceu é que a lógica se apropriou de um termo que já existia, a "validade", e lhe deu um significado técnico, assim como a física se apropriou de um termo que já existia, por exemplo "massa", e lhe deu um sentido técnico.

    Mas não podemos dizer que o padeiro está fazendo confusão com o termo "massa" quando o utiliza para falar da massa de pão. O que podemos dizer é que ele não conhece o significado técnico do termo, tal como utilizado em física.

    Da mesma maneira não podemos dizer que as pessoas comuns estão fazendo confusão com o termo "validade" quando o utilizam para falar de uma idéia de valor. O que podemos dizer é que elas desconhecem o significado técnico do termo, tal como utilizado em lógica.

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  2. Olá, Iago!

    A confusão não consiste em usar a palavra "validade" como sinónimo de "tem valor" em contextos comuns. A confusão é passar desses contextos para contextos em que se fala de argumentos e raciocínios, usando o termo do mesmo modo.

    A analogia não é, pois, entre o padeiro que usa, e bem, "massa" no sentido diferente da física, mas de um padeiro que depois disso começa a falar da queda dos corpos e da velocidade e aceleração... e continua a usar a palavra "massa" pensando que quer dizer o mesmo que nos outros contextos.

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  3. Olá!

    É, nesse caso é confusão mesmo.

    Acho grave que isso aconteça em uma aula de filosofia, por exemplo, onde as pessoas presumivelmente deveriam ter esses conceitos esclarecidos.

    Em contextos comuns não acho grave, geralmente percebe-se quando a pessoa não utiliza a noção de validade no sentido técnico, e geralmente entende-se bem o que ela quer dizer.

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  4. Já vi algo parecido mas igualmente infeliz no uso das palavras ''verdadeiro'' e ''falso'': pessoas utilizando os termos corretamente para se referir às premissas (individualmente) e depois reutilizando-os para se referir ao argumento inteiro, concluindo que o argumento é verdadeiro ou falso. E quando você se coloca a disposição de explicar que argumentos não podem ser verdadeiros ou falsos, as pessoas se assustam. E o mais legal aqui é que o equívoco se se dá somente no âmbito da lógica.

    Eu fico me perguntando se é algo tão contraintuitivo assim a noção de que um argumento não pode ser verdadeiro ou falso.

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  5. Já que toda proposição carrega um valor de verdade, e um juízo de valor é uma proposição, segue-se que todo juízo de valor carrega um valor de verdade.

    O que há de errado com este argumento?

    Desde já agradeço!
    Samuel Viveiros Gomes - Palmas/TO, Brasil.

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  6. O argumento é válido, mas a segunda premissa é falsa. Um juízo de valor pode não exprimir uma proposição, mas antes um mero desejo, por exemplo.

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  7. Sr. Desidério, obrigado pela resposta, é de grande valia para mim.

    Agora, se um juízo de valor não expressa necessariamente uma proposição, e tanto esta quanto aquele são expressos em frases declarativas, então nem toda frase declarativa expressa uma proposição. E se nem toda frase declarativa expressa uma proposição, e um argumento é constituído de proposições, então nem toda frase declarativa pode ser utilizada em argumentos. Certo?

    A um juízo de valor eu não posso determinar se é verdadeiro ou falso?

    Estranhamente, nos livros e artigos de lógica introdutórios que costumamos ler, dificilmente se encontra essa distinção sobre os tipos de frases declarativas (ou então eu não percebo). Por gentileza, o sr. poderia me indicar artigos que falam mais profundamente sobre isso?

    Desde já agradeço!
    por Samuel Viveiros

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  8. Nem todas as frases declarativas exprimem proposições, porque nem todas as frases declarativas têm valor de verdade. Uma frase como "As ideias verdes incolores dormem furiosamente juntas", famosamente inventada por Chomsky, é declarativa mas não tem valor de verdade.

    Alguns juízos de valor poderão exprimir proposições e outros não; depende. Apenas o conceito de juízo de valor em si não implica que exprima uma proposição -- nem que não exprima. A posição ingénua, errada, é que todo o juízo de valor, só pela sua natureza, não tem valor de verdade e por isso não exprime qualquer proposição.

    Quando se diz que só podemos usar frases que tenham valor de verdade em argumentos, estamos na verdade a dizer que só podemos fazê-lo em argumentos que possam ser analisados na lógica clássica. Mas podemos ter e temos outras lógicas, como a lógica dos imperativos, que estuda precisamente o raciocínio com frases imperativas, que precisamente por o serem não têm valores de verdade.

    Não sei o que lhe possa recomendar para ler, infelizmente! Talvez outro leitor possa ajudar.

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  9. Lendo os comentários do colega Samuel, sobre juízo de valor, proposição e valor de verdade, e as respostas do senhor Desidério Murcho, me apareceu uma dúvida:

    Como se aplicaria o princípio da não contradição a juízos de valor? Quer dizer, como lidar com sentenças do tipo "O hino nacional brasileiro é lindo e o hino nacional brasileiro não é lindo" ou "O hino nacional brasileiro é e não é lindo"?

    PS: senhor Desidério, poderia escrever um ensaio sobre estes assuntos específicos, seria de grande ajuda para os neófitos?

    William R. Neto

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  10. Se os juízos de valor exprimem proposições, acontece com os juízos de valor contraditórios o mesmo que com qualquer proposição contraditória: são necessariamente falsos se forem contraditórios. Se não exprimirem proposições, são contraditórios à mesma, mas num sentido diferente: não por não haver qualquer circunstância em que sejam ambos verdadeiros, mas antes por não haver qualquer circunstância em que ambos os juízos, se forem entendidos como imperativos, por exemplo, possam ser cumpridos. Se entendermos os juízos de valor como desejos ou anelos ou esperanças, serão contraditórios quando expressam o desejo de que ocorra um estado de coisas que nunca poderá ocorrer por ser incompossível.

    Mas parece-me que quem pensa que os juízos de valor não exprimem proposições não tem em mente as posições clássicas do projectivismo ou do emotivismo de Stevenson e depois dos positivistas, como Ayer — e ainda menos algo como a linguagem da moral de Hare — mas a ideia popular de que os juízos de valor são meras apreciações indiscutíveis, pessoais, de algo. Assim, uma pessoa diria “Sócrates é belo”, e isso seria uma mera manifestação indiscutível e sem qualquer conexão com a realidade de Sócrates, uma mera apreciação íntima. Este sentido brutal, digamos, da natureza dos juízos de valor é tão implausível que nem vale a pena discuti-la. Mas vale a pena esclarecer a confusão que está na sua base, que é a velha ideia de que se algo é difícil de discutir e se o consenso é difícil, então não vale a pena tentar e é melhor declarar logo que “é muito subjectivo.” Neste caso, é difícil explicar como dois juízos de valor poderão ser contraditórios, ou o equivalente disso, porque se olharmos para as nossas apreciações como se fossem ilhas, sem qualquer conexão com a realidade, o conceito de contradição deixa de se poder aplicar.

    Verei se será possível escrever algo sobre juízos de valor. Sei que é algo sobre o qual há imensa confusão nas más bibliografias que por aí circulam, e talvez valha a pena esclarecer o caso.

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