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Falar com os botões


Uma das curiosas ilusões cognitivas relacionadas com a linguagem é a ideia, aparentemente contestada por Wittgenstein, de que a linguagem é uma coisa muito pessoal: na verdade, há razões para pensar que, como outros aspectos epistémicos e cognitivos humanos, é uma coisa muito social. Não no sentido corrompido de ser uma “construção social” ou uma “narrativa” entre outras, como é comum ouvir-se nas zonas anémicas da cultura académica contemporânea, mas no sentido cognitivo de ser necessário que seres falíveis como nós calibrem continuamente as suas crenças e práticas com as dos seus semelhantes, não para eliminar os erros, o que é impossível, mas para os domesticar estatisticamente, de modo a não tornar impossível qualquer regularidade e consequentemente qualquer linguagem e qualquer cognição. P. M. S. Hacker apresenta aqui, em tradução de Filipe Lazzeri, o muito discutido argumento de Wittgenstein contra a linguagem privada, um dos mais famosos ataques à ideia de que podemos falar com os nossos botões sem ter como pano de fundo uma linguagem que serve para falar com os outros, e não apenas connosco mesmos.

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  1. O novo link do artigo é este: http://criticanarede.com/linguagemprivada.html

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