13 de fevereiro de 2011

Filosofar com Agostinho


Os bons filósofos são interessantes mesmo quando erram; os maus, desinteressantes mesmo quando acertam. O que faz um filósofo interessante, do meu ponto de vista, é o cuidado posto na teorização e no raciocínio; o que me parece intensamente desinteressante é um filósofo que usa retórica no lugar de raciocínio e pretensas visões pessoais e indiscutíveis em vez de teorização.

A história da filosofia é rica de filósofos intensamente interessantes, mas que muitas vezes são desvirtuados por histórias da carochinha que se fazem passar por histórias da filosofia, e comentários ignorantes que se fazem passar por erudição.

Vale a pena ler aqui a apresentação e discussão das ideias de Agostinho oferecidas por Gareth B. Matthews: um exemplo de rigor textual e ao mesmo tempo filosófico, mostrando assim a importância de Agostinho para o pensamento filosófico de hoje.

2 comentários:

  1. O autor afirma "Agostinho está a introduzir aqui, talvez pela primeira vez na filosofia ocidental, a noção do nosso próprio mundo fenoménico, o mundo de aparências do qual se está ciente enquanto sujeito consciente, ou intelectivo. Pensa-se geralmente que a ideia de um mundo fenoménico é uma noção moderna que tem origem em Descartes. Mas já está presente em Agostinho".
    Creio que o autor não deva ter lido com cuidado os textos de Sextus Empiricus. Não sou especialista, apenas um curioso a respeito de filosofia e já li em alguns textos a respeito do pirronismo que Sextus afirma que apenas poderia ser considerada verdadeira a afirmação a respeito do que fosse percebido pelos sentidos externos (os cinco sentidos) e internos (a reflexão sobre as idéias na mente). Em outros termos, a visão fenomenalista de que a verdade pode ser deduzida apenas de fenômenos presentes aos sentidos (externos e internos) aparece ao menos na obra de Sextus. Não sei se há ocorrência anterior.

    ResponderEliminar
  2. O autor não está a dizer que não há noção do mundo fenoménico antes de Agostinho, mas antes que a há antes de Descartes, dando Agostinho como exemplo. Não está a afirmar que Agostinho foi o primeiro a ter uma noção clara de tal coisa.

    Sexto Empírico morreu 144 anos antes de Agostinho nascer, o que faz de ambos quase contemporâneos.

    Não é verdade que Sexto Empírico considerasse que a verdade poderia ser deduzida dos fenómenos presentes aos sentidos: Sexto considerava que a verdade não poderia deduzir-se fosse do que fosse, porque nada se pode saber.

    Além disso, reconhecer que temos sentidos, internos e externos, não é o mesmo que reconhecer a existência de um mundo fenoménico que, conceptualmente, poderia existir sem que existisse qualquer mundo exterior, que é o que está em causa em Agostinho e Descartes.

    ResponderEliminar