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As duas culturas


Na minha vida profissional são muitas as vezes que ouço dizer “ah, isso é para os de letras que eu cá sou uma pessoa muito prática, já que sou de ciências”, ou então: “ah, isso é para os tipos de ciências que são muito bons nos cálculos, mas maus a pensar e reflectir”. Ou ainda outros, como “quem faz a acta é o de português que está melhor preparado”. Estas situações são comuns e são reveladoras que as pessoas, na generalidade, não se importam muito de passar atestados de ignorância a si mesmas quanto às bases mais elementares de uma formação universitária que é saber pensar pela própria cabeça, seja a formação nas chamadas ciências exactas ou ciências humanas. O facto é que estas expressões que ouço com frequência são tiques que se apanham nas universidades, onde essa separação entre ciências humanas e ciências exactas explica a divisão dos departamentos académicos. Mas por que razão especial alguém licenciado em filosofia tem de escrever bem, mas não é obrigado a fazer cálculos matemáticos? Ou por que razão especial alguém licenciado em matemática, física ou biologia não tem obrigação de escrever tão bem e não tem de ter qualquer contacto com os livros de Kundera, Kafka ou Eça de Queiroz? Não parece haver qualquer razão bem pensada para esta divisão, a não ser cliché académico. Esta é a tese principal que C. P. Snow defende em As Duas Culturas (Editorial Presença, 1995, trad. Miguel Serras Pereira). Trata-se de um pequeno texto, resultado de uma conferência de Snow em Cambridge, corria o ano de 1959. Um texto que desmistifica esta separação e que merece a nossa atenção. É certo que muita coisa mudou após a divulgação das ideias de Snow, sendo que uma delas que mais se destaca é que hoje em dia temos muitos mais cientistas a escrever sobre ciência com uma qualidade literária digna dos melhores escritores da humanidade.

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