28 de março de 2011

Conviver com as diferenças

Acabo de publicar aqui a crónica desta semana. O que pensa o leitor?

16 comentários:

  1. Há muito preconceito mútuo entre continentais e analíticos. Talvez uma solução possível fosse uma maior disposição em conhecer o que é feito (e como é feito) em termos de filosofia do "outro lado". Mesmo que fosse para confirmar os juízos anteriores. Isso seria muito mais respeitável de cada parte: emitir um juízo sobre o que se conhece. Não era essa a advertência de Descartes sobre os juízos em matéria sobre a qual não temos clareza e distinção?

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  2. Obrigado pelo comentário.

    Quem na graduação contactou quase só com a filosofia continental, como foi o meu caso, sabe perfeitamente como é a filosofia continental, e se optou pela analítica foi precisamente porque aquele género de filosofia lhe parecia desinteressante.

    Curiosamente, nas universidades onde os alunos contactam praticamente apenas com a filosofia analítica, não se vê animosidade contra a filosofia continental, ao passo que quando eu era estudante a animosidade contra a filosofia analítica, por parte de pessoas que nada conheciam dela, era quase uma lei da natureza.

    Assim, concordo que há preconceito, mas não me parece que seja simétrico.

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  3. Discordo Tiago,

    há muito mais preconceito do lado dos continentais que do lado dos analíticos. Sejamos francos: todo aluno de filosofia no Brasil é bombardeado por todos os lados de filosofia continental desde o primeiro período e a filosofia continental no nosso país é majoritária.

    Isso quer dizer que em vários departamentos um aluno que prefere filosofia continental pode passar a graduação inteira sem ter uma idéia do que é filosofia analítica, mas um aluno que prefere filosofia analítica não pode se dar a esse luxo, pois teve a infelicidade de fazer uma disciplina de ética, epistemologia ou metafísica que consistia em doutrinamento de Nietzsche, Husserl ou Heidegger. Eu não tenho um único colega interessado em filosofia analítica que não leu vários filósofos continentais, mas conheço vários continentais que nunca leram uma linha de filosofia analítica.

    É claro que sempre há alguns alunos mais radicais em ambas as partes e o preconceito é muitas vezes vergonhoso. Mas se há uma coisa pior que esse preconceito de ambas as partes é a atitude vergonhosa de alguns analíticos que querem ser politicamente corretos e colocam filosofia analítica e continental no mesmo nível como formas de fazer filosofia igualmente satisfatórias. Se por um lado não é louvável declarar uma guerra de analíticos contra continentais, mesmo porque os analíticos perderiam, pois são minoria, por outro lado não devemos ser desonestos e dizer que lixo filosófico tem o mesmo valor que filosofia rigorosa.

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  4. É importante também lembrar que um filósofo é analítico quando ele sabe fazer filosofia como os analíticos. Como a filosofia no Brasil caminha a passos de caracol e há muito atraso acadêmico encontramos muitos professores e alunos que são tidos como "analíticos", mas que não fazem nada além de repetir de maneira dogmática filósofos analíticos como Quine, Wittgenstein ou Fraassen. Quem pensa que fazer filosofia é comentar filósofos e fazer teses sobre "o conceito de X em Y" não é filósofo analítico: na melhor das hipóteses é continental que pensa que é analítico.

    Uma consequência disso é que a filosofia analítica no Brasil é muito menor do que alguns imaginam.

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  5. Desidério, de facto há preconceitos de ambas as partes, mas seria enganador dizer que estão igualmente distribuídos por analíticos e continentais, pois as coisas não são, nessa matéria, simétricas. Ainda estou para ver uma história da filosofia escrita por continentais que dê a mesma importância e destaque aos filósofos ditos analíticos como, por exemplo, Kenny na sua Nova História da Filosofia Ocidental o faz em relação aos filósofos ditos continentais. De facto o espírito de abertura é impressionantemente maior entre analíticos do que entre continentais. Penso que, ao contrário do que acontece com muitos analíticos, os continentais olham para outras formas de filosofar como uma ameaça; como se estivessem implicitamente a ser postos em causa.

    Por que será? Bom, como tu e o Matheus sugeriram, muitos de nós conhecemos os dois lados (pois o que estudámos nos nossos cursos de filosofia foi filosofia continental e optámos por fazer filosofia analítica) e podemos comparar. O trabalho, o cuidado, o estudo e o rigor que se exigem ao filósofo continental é risivelmente pouco quando comparado com o que se exige ao filósofo analítico (não estou a falar do continental armado em analítico, claro).

    Eu sei que isto é pouco conciliador e não é politicamente correcto. Mas não posso mentir a mim mesmo.

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  6. Na verdade, uma das razões, mas não a única, que me fez considerar desinteressante a filosofia continental era a impossibilidade de errar. Na filosofia continental não é possível errar filosoficamente; podemos errar historicamente, atribuindo a Kant, por exemplo, o que ele não pensava, mas não há erros filosóficos, no sentido de argumentos errados ou teorias erradas. Seja o que for que uma pessoa encartada queira escrever, está bem: nenhum raciocínio erra e nenhuma teoria erra pela simples razão de que não há quaisquer critérios de avaliação rigorosa de raciocínios e teorias, aceitando-se ou rejeitando-se o que se conforma ou não às ideias preconcebidas que já temos (nomeadamente, políticas, religiosas e existenciais). Ora, eu considerava, e considero, que uma prática intelectual na qual não é possível errar não é uma prática intelectual interessante. A pura arbitrariedade poderá ser interessante para a livre expressão da alma, mas a minha alma não ansiava por esse tipo de expressão algo vagabunda, mas antes por uma coisa mais modesta: uma compreensão mais profunda das coisas.

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  7. Desidério, tanto seu texto quanto seus comentários aqui são de uma lucidez maravilhosa! É com prazer que divulgo!

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  8. Na minha opinião há vantagens em estudar filosofia analítica, muitas mais que estudar filosofia continental. No entanto não vejo assim tantas vantagens em usar a distinção “analítico” e “continental” já que, como referes e mostras no teu texto, acabam sempre por ser vagas. E uma das grandes vantagens em estudar filosofia analítica é que deixamos de ver nos argumentos filosóficos aquilo que nos apetece. Um dos maiores aborrecimentos que tive na minha vida foi tirar um curso de filosofia que insistentemente me mostrava que eu era incapaz de ler os textos de Platão ou Aristóteles, muito menos os de Heidegger. E um dos abusos do curso foi o de não me ter dado a possibilidade de ver as coisas de um outro ângulo, o da filosofia analítica. Não tive pitada de referências analíticas a não ser o tal círculo de Viena, muito mal tratado nas sessões de epistemologia. E assim fui ficando perdido no curso e acabei-o mais motivado pelo fim do que pelo percurso. Curiosamente foi no final do curso que, pela Filosofia Aberta da Gradiva tomei contacto com dois livros que mudaram a forma como eu ensino filosofia, o Que quer dizer tudo isto? Do Nagel e o Elementos básicos de filosofia do Warburton. Estes livros foram a minha primeira bibliografia de filosofia analítica. Para ser sincero nem me incomodei muito se eram analíticos ou não: 1º porque nem sequer percebia bem a diferença; 2º porque não tive a oportunidade de encontrar na altura professores suficientemente cultos para poder discutir o conteúdo desses dois livros. (a maioria andava de dieta bibliográfica). O que mais me interessou nesses dois livros foi precisamente a clareza com que se pode comunicar a filosofia aos estudantes, condição que me parece central numa actividade como a filosofia. Para além disso os problemas da filosofia começaram a fazer sentido por si mesmos, sem ser o resultado de uma imposição mais baseada nas preferências pessoais. Mas é claro também para mim que esta opção pode ter a ver com razões pessoais também, já que a clareza com que se pensa sempre me entusiasmou mais do que algo mais virado para o terrorismo verbal. Tive alguma sorte em ter um professor que se preocupava com a clareza no meu ensino secundário e que se tornou rapidamente o maior responsável pela minha opção de estudar filosofia. Na academia não voltei a encontrar outro igual.

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  9. Rolando, eu compreendo o que queres dizer: a mim também não me interessa se é analítico ou continental, interessa-me apenas se tem qualidade. Acontece que os nossos padrões de qualidade são muitíssimo influenciados pelas expectativas que temos. Como a minha expectativa perante a filosofia é primariamente cognitiva, não me interessei minimamente por Heidegger quando o estudei, nem pelas leituras que os meus professores faziam dos clássicos.

    Mas reconheço que muitas pessoas vêm para a filosofia com outras expectativas que não as cognitivas, o que é perfeitamente legítimo: vêm para a filosofia para resolver angústias pessoais ou questões existenciais (ou apenas para adquirir um vocabulário e um porte prestigiante, supostamente erudito, que lhe garanta um passaporte no reino etéreo do mundo académico). Eu vejo isso nos meus alunos: muitos vêm para a filosofia sem qualquer tipo de expectativas cognitivas, esperando apenas algo como uma espécie de Paulo Coelho, mas menos obviamente infantil. Quando se vem com estas expectativas, é natural que uma leitura primariamente cognitiva de Platão — discutindo cuidadosamente os argumentos a favor ou contra a vida depois da morte no Fédon, por exemplo — não tem qualquer interesse: o que interessa é fazer uma leitura encantatória do texto, plena de associações surpreendentes de palavras gregas com ideias sedutoras, lendo o texto como se estivesse cifrado, sendo necessário ser um místico do verbo para penetrar nos labirintos do texto. Analogamente, essa pessoa irá procurar na filosofia dos sécs. XIX e XX precisamente esse tipo de textos, a que podemos chamar “misticismo verbal:” Derrida, Heidegger, Deleuze e outros autores respondem assim muito bem a estas expectativas. Isto é ligeiramente redutor porque há menos misticismo verbal, ou pelo menos é de um tipo diferente, noutros autores, como Nietzsche ou Husserl.

    Assim, quem vem para a filosofia para descobrir o mundo, irá considerar uma perda de tempo os anos que passou a estudar os chamados filósofos continentais. Pelo contrário, quem vem para a filosofia com uma expectativa não primariamente cognitiva (http://criticanarede.com/html/ed2.html), considerará um completo tédio andar anos a formar-se para saber o que é realmente um argumento, a consistência (que nada tem a ver com a consistência de um pudim!), a coerência (que é irrelevante num argumento), os constituintes e as relações de uma teoria, e para contactar com problemas profundamente abstractos e que nada têm a ver com as ansiedades existenciais e da angst. Daí que o problema dos universais ou da identidade dos objectos ao longo do tempo ou a análise cuidadosa dos argumentos a favor e contra a existência de Deus sejam pura e simplesmente vistos como tolices sem interesse. Um caso muitíssimo revelador é o tema do sentido da vida: a abordagem analítica do tema é completamente irrelevante para quem não tem uma abordagem primariamente cognitiva da filosofia porque o que essa pessoa espera não é a chatice do costume dos analíticos (análise cuidadosa do problema, formulação precisa, argumentação cuidada a favor e contra ideias), mas antes um discurso inspirador, sedutor, cativante. E isso, claro, não encontra nos textos analíticos sobre o tema. Este exemplo é bom para esclarecer também outra questão: repare-se que, estilisticamente, os textos analíticos do séc. XX são muitíssimo mais semelhantes aos clássicos gregos, medievais e modernos, do que os textos continentais o são. De modo que, para não rejeitar toda a tradição filosófica ocidental, quem não tem um interesse primariamente cognitivo na filosofia treslê propositadamente os clássicos, procurando neles cifras secretas, porque o texto tal como directamente está apresentado é demasiado... cognitivo.

    Concluindo: quando o nosso interesse na filosofia é primariamente cognitivo, é natural gostar dos livros de Warburton e Nagel de que gostaste; mas se o interesse não for primariamente cognitivo, a pessoa irá detestar esses livros, precisamente por terem as características que te cativam a ti e a mim.

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  10. A ideia do interesse cognitivo que falas traduz bem a situação que falei.

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  11. Concordo inteiramente com tudo que foi dito. Um dos meus projetos filosóficos é a sistematização da relação entre a filosofia analítica e a filosofia continental (por mais que tais títulos sejam enganosos), o que seria uma questão meta-filosófica que abarcaria outros problemas profundos e significativos (não sendo apenas a articulação de um chauvinismo). O principal trabalho que me inspira nesse projeto é um texto antigo de Russell, Mysticism and Logic (http://www.archive.org/stream/mysticism00russuoft#page/n5/mode/2up), creio que seja um texto muito construtivo e pertinente para essa discussão.

    Uma ressalva que eu gostaria de fazer é que, ainda que não tenha sido afirmada, por vezes fica tácita a ideia de que o texto analítico não pode ter qualidades estilísticas ou literárias. É difícil argumentar rigorosamente e de forma bela, mas penso que não são possibilidades excludentes.

    Há um tipo de beleza que pode ser mais facilmente alcançada (e encontrada) no trabalho analítico, que é aquela beleza da simplicidade, a beleza matemática. Este é um tipo de beleza particularmente apreciado pelos próprios analíticos e não pelo "grande público". Porém, penso que um tipo mais "comum" de beleza possa também ser alcançado e que seja um tipo de qualidade pela qual os analíticos devem ter algum apreço (e muitos de fato têm).

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  12. Aceitando a caracterização das tradições analíticas e continentais como estando associadas a expectativas cognitivas e inspiracionais, respectivamente, resta ainda explicar por que motivo os leitores têm de optar e tomar partido por um dos campos.

    Eu não sou de filosofia, sou de física. Mas vou lendo alguma filosofia aqui e ali. Acho muito interessantes certos trabalhos de Foucault e de Deleuze, assim como acho muito interessantes certos trabalhos de Nagel e McGinn.

    Os estilos são, sem dúvida, muito diferentes. Mas mais importante do que a diferença de estilos é o facto de se dedicarem, pelo menos nos textos/livros que
    li, a abordar problemas muito diferentes.

    Por exemplo, Foucault faz uma análise crítica da História e dos componentes
    sócio-políticos que influenciam os critérios de veracidade num determinado contexto social (mas não de tudo, ao contrário do que certas caricaturas fazem correr por aí, pois nunca li Foucault afirmar ou sugerir que a validade dos resultados da física ou da matemática é sequer parcialmente determinada por relações sociais de poder; já o afirma que isso aconteceu quando analisa a evolução da psicologia e psiquiatria). McGinn (e Nagel) tratam, de forma bastante rigorosa e com um certo pendor científico, as questões da consciência e
    o problema mente-espírito. Deleuze tem livros muitíssimo fecundos sobre o cinema e livros onde expõe criticamente as ideias filosóficas de Nietzsche e Spinoza .

    Na verdade, eu nem sequer compreendo o que quer dizer isso dos continentais não serem analíticos. Como é que é possível pensar sem uma componente analítica? (Basta ir ao You Tube ouvir Foucault falar para perceber que, como qualquer trabalhador intelectual, ele emprega o raciocínio analítico todo o tempo).

    Parece-me que o termo analítico ou é utilizado nestas distinções de uma forma que não é rigorosa, ou então tem um significado técnico que não está claro explícita ou implicitamente no texto (nem nos comentários acima).

    Miguel

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  13. Miguel: é pura e simplesmente impossível escrever sobre certos temas sem usar argumentos. Até na Bíblia há argumentos. A diferença é 1) a qualidade e explicitação da argumentação e 2) a avaliação crítica dessa argumentação. 2 é proibido por muitos professores, que ensinam os alunos a repetir este ou aquele filósofo, independentemente de o filósofo em si ser ou não analítico.

    Quanto a 1, é natural que quem não tem formação filosófica não veja a diferença de qualidade da argumentação de Foucault ou de McGinn, tal como uma pessoa que não sabe matemática não vê diferença entre Fermat e um místico que fale do significado numerológico do número nove.

    Mas mesmo que um filósofo não seja tão bom a argumentar, isso não é o pior, pois uma leitura crítica e cuidadosa desse filósofo pode retirar dele ideias e argumentos interessantes; o pior é o factor 2, que proíbe várias gerações de estudantes de avaliar criticamente os filósofos. O resultado é uma caricatura do trabalho académico, que em vez de consistir na discussão crítica rigorosa e pormenorizada dos argumentos dos filósofos, consiste apenas em paráfrases que reafirmam de modos supostamente poéticos, mas apenas patéticos, as ideias dos seus filósofos de eleição.

    Quem tem formação analítica não presta vassalagem a McGinn: antes procura refutá-lo. Quem tem formação continental presta vassalagem ao seu filósofo de eleição e limita-se a repeti-lo dogmaticamente com um ar de entendido.

    A saudável separação, ocorrida nas universidades, entre ciência e pseudociência nunca ocorreu infelizmente no caso da filosofia: está tudo misturado. E muita gente não consegue conviver com essa mistura, e quer eliminar a filosofia analítica, o que é curioso, do ponto de vista académico. Uma maneira de tentar eliminá-la é nunca a referir, e esconder a sua imensa bibliografia.

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  14. Desidério, obrigado pela resposta.

    Eu, na verdade, não faço a mínima ideia do que dizem ou fazem os ditos analíticos e continentais. Queria apenas acrescentar duas coisas.

    Primeiro, será que “clássico“ (para os ditos analíticos) e “não-clássico“ (para os
    outros) seria uma melhor classificação? E não ajudaria a explicar que, para numa formação de base, os “clássicos“ são prioritários já que equipam melhor os estudantes com as técnicas de base necessárias para a sua evolução intelectual.

    Segundo, estes despiques não serão, em parte, o resultado de não reconhecer que assuntos diferentes têm de ser abordados a partir de ângulos e com técnicas diferentes? Faço aqui uma analogia com aqueles físicos ou matemáticos que trabalham em sistemas biológicos. Dada a natureza da biologia, a matemática é empregue de um modo diferente. Há sempre quem diga que são maus matemáticos por não fazerem demonstrações rigorosas, ou maus físicos por não trabalharem com formalismos complexos. Isso não faz sentido, o critério deveria ser quão fecundo é esse trabalho nos problemas para o quais é feito.

    Miguel

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  15. Sim, num certo sentido, os filósofos continentais são “não clássicos”, no sentido em que pretendem subverter a tradição filosófica, apontar novos caminhos, fazer as coisas de modo diferente, muito diferente, de Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes ou Hume. Mas todas as classificações têm de ser vistas com um grão de sal, porque há muita diversidade entre os filósofos continentais. Ricoeur é continental, mas muitíssimo diferente de Derrida, assim como Heidegger é muito diferente de Nietzsche. Contudo, parece-me que um observador imparcial verá uma continuidade entre a filosofia clássica e a filosofia analítica, continuidade que não verá entre a filosofia clássica e a continental.

    Quanto a maneiras diferentes de fazer as coisas devido à diferença de objecto, não me parece que isso seja historicamente correcto porque muitos filósofos continentais tratam exactamente dos mesmos temas que os analíticos, mas de um modo radicalmente diferente. Tanto Frege como Husserl tratam dos fundamentos da lógica e da matemática, mas a diferença é abissal; tanto Derrida como Quine defendem a indeterminação do significado, mas as diferenças entre ambos são abissais.

    O preconceito dos analíticos é pensar que a filosofia continental é apenas pseudofilosofia, filosofia mal feita. Eu tenho este preconceito. (Os continentais têm outros preconceitos quanto à filosofia analítica.) Eu estou aberto a rever o meu preconceito, mas as pessoas que mais se ofendem quando eu afirmo isto são as que não escrevem uma linha séria que mostre a importância, seriedade e rigor de um qualquer filósofo continental, expondo as suas ideias e argumentos, e discutindo-as com distanciamento. Acaba por acontecer que o que vou lendo sobre os filósofos continentais é produzido por quem tem formação analítica, como este texto de Hales sobre Nietzsche (e que, ao contrário do que Hales parece pensar, não mostra Nietzsche propriamente a uma imagem favorável, mas antes como uma pessoa profundamente ignorante, não fazendo a mínima ideia do que falava quando falava de lógica).

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