15 de março de 2011

Filosofia e ensino em 1962

A escola onde lecciono tem uma história muito rica. Como seria de esperar um local a visitar é a sua biblioteca. Obviamente a minha biblioteca particular é muito mais rica em referências contemporâneas de filosofia. Mas vale a pena vasculhar o baú da biblioteca da escola. Hoje, por acaso, encontrei um manual de filosofia datado de 1962. Disponho de um prazo apertado para requisição desta obra dado tratar-se de um livro a preservar pela escola, pelo que ainda não li como devia partes deste livro, mas a primeira impressão que tenho é curiosa. Este livro datado de 1962 consegue, mesmo com alguma limitações notórias, ser melhor para ensinar filosofia que a esmagadora maioria dos manuais de que dispomos hoje em dia. Ao folhear o índice deste manual percebemos quase imediatamente que está organizado por problemas da filosofia e não por autores. A parte consagrada à lógica e ao que se chamava metodologia ocupa cerca de 250 páginas , mais de metade da totalidade do livro, o que não deixa de ser espantoso se compararmos que a lógica ocupa hoje em dia uma parte muito pequena do programa da disciplina e é até muito mal vista por muitos professores de filosofia. Uma das áreas com destaque no livro é a metafísica e, dentro dela, o problema da possibilidade do conhecimento. O cepticismo ocupa também um lugar de algum destaque, ao passo que hoje em dia ensinamos filosofia do conhecimento sem praticamente abordar o cepticismo. O livro apresenta ainda um capítulo daquilo que poderíamos hoje chamar filosofia da mente, inexistente nos programas actuais de filosofia. Esse capítulo chama-se “Psicologia racional” e aborda, entre outros problemas, o do dualismo mente-corpo (ali aparece como alma-corpo). Mesmo que em pouco tempo me tenha apercebido de alguns erros elementares, como o das definições de dedução e indução, ainda assim é um manual concentrado nos problemas da filosofia. Falta-lhe uma bibliografia que me mostraria se o manual não é apenas uma tradução de obras estrangeiras. Mas seja lá o que for, arrisco sem grandes margens de falhanço que o livro é mais competente para ensinar filosofia que a maioria dos livros do secundário de que dispomos actualmente, mais infectados pela sociologia do que pela filosofia. Fiquei mesmo com vontade de ler cuidadosamente este volume para perceber o quanto tem mudado a forma como encaramos o ensino da nossa disciplina. 

8 comentários:

  1. Rolando,

    qual o propósito de divulgar um manual da década de 60 que não é editado mais, que ninguém poderá comprar e ao qual ninguém terá acesso com exceção dos alunos da sua escola?

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  2. Quanto às matérias, manuais como estes eram inequivocamente filosóficos, ao contrário de muitos que andam por aí (mas cada vez menos!). O problema, parece-me, é que tinham uma abordagem muito dogmática aos problemas filosóficos: em vez de encorajarem a discussão de perspectivas diferentes, e de manterem uma certa neutralidade, apontavam a resposta tal como a correcta e pronto. Depois dirás se a minha apreciação é injusta.

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  3. Matheus,
    Pensei que isso era óbvio. O interesse é histórico. As pessoas em Portugal (e provavelmente até no Brasil) tem acesso a esta obra nas bibliotecas. E há até outro interesse: se muitos professores de filosofia procurarem este manual, vão constatar que a divisão entre filosofia e analítica e continental no ensino não passa de uma discussão sem sentido.
    Depois, Matheus, não esqueças: o livro deve encontrar-se por aí nas bibliotecas :-) até se encontra mais facilmente este livro que muitos livros contemporâneos que aqui divulgamos, já que a maioria das bibliotecas não fazem updates constantes.

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  4. A divulgação deste e de outros livros poderia contribuir, caso as pessoas não sejam mal intencionadas, para ver que o trabalho que anda a ser feito em Portugal em prol da excelência do ensino da filosofia, nada tem a ver com "os analíticos a tomar o poder", mas antes com uma preocupação genuína pela qualidade paupérrima do ensino da filosofia, de que a nossa geração foi vítima -- apanhando com tolices pseudo-sociológicas, tolices relativistas, historietas mentecaptas da filosofia, etc.: tudo, menos história da filosofia minimamente séria ou temas genuinamente filosóficos, tratados com referências filosóficas reais, ao invés de inventadas. Como assinalou o Pedro e o Rolando, estes manuais antigos tinham com certeza deficiências, mas eram de longe preferíveis -- até pela seriedade científica e escolar -- do que as tolices de senso comum com palavras caras que entretando se tornou moeda corrente no ensino da filosofia a partir dos anos 70, e do qual eu fui uma das muitas vítimas.

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  5. Mas o Pedro referiu um aspecto com o qual não estou inteiramente de acordo, pelo menos a avaliar pelo livro que falei e disponho. O ensino da filosofia curiosamente não é mais dogmático neste manual que na maioria dos manuais feitos hoje em dia, com raras excepções, como sabemos. E vou dar aqui um exemplo. o último tema do livro é aquilo que o autor chama de teodiceia e dedicado ao que hoje chamamos, muito melhor, de filosofia da religião. Entre outros problemas abordados, como o problema do mal, temos também o problema da existência de deus, que com ele se relaciona. São apresentados 3 argumentos: Prova ontológica, provas cosmológicas e provas psicológicas. E para todos eles são apresentadas as respectivas objecções. Curioso, não? Estamos numa época em que só uma parte muito pequena da população portuguesa atingia este nível de ensino e tinha acesso a este estudo. Na filosofia moral estuda-se os pressupostos do utilitarismo. Nem me parece até que este manual seja tão dogmático como os actuais o que, na minha opinião, me indica que o ensino da filosofia em Portugal não teve qualquer continuidade, mas sim ruptura. Ontem deitei-me a ler este livro e ele é de longe superior à maioria dos livros de filosofia existentes no país para a ensinar no secundário. Claro que não disponho de dados até que ponto foi utilizado, se foi muito estudado, etc... mas ao contrário das minhas expectativas, em 1962 havia um cuidado muito maior para ensinar filosofia do que aquele que observo hoje em dia. Um estudo interessante seria encontrar o programa da altura e ver até que ponto o manual é uma continuidade do programa ou se é contrário ao programa. É como se estivermos a ler o Arte daqui a 50 anos, podemos ser induzidos na ideia errada que o ensino da filosofia na altura do Arte, em Portugal, era muito bom. E o mérito do Arte está nos autores e não no programa de ensino nem no ME que o promove.
    É curioso que até os exercícios que acompanham o final de cada tema, são melhores que a maioria das perguntas imbecis que apanho na maioria dos manuais de hoje. Para abrir o apetite deixo-vos só com um problema que é colocado nos exercícios sobre a filosofia moral: “Até que ponto lhe parece justificada a seguinte expressão: «Todo o bem possível é obrigatório e todo o bem realizado é meritório; mas será tanto mais meritório, quanto menos obrigatório»” hehe

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  6. Obrigado pela adenda, Rolando. Essa pergunta é impressionantemente boa: o género de coisa que hoje só se encontra num par de manuais que pugnam pela excelência do ensino da filosofia, ao arrepio de todos os outros, que são a maioria.

    Dizes bem, também, que não é possível saber se não estaremos perante uma excepção, sendo os outros manuais da altura, assim como os programas, decididamente maus. Mas mesmo que seja uma excepção é muitíssimo significativa. Pois se esse manual era uma excepção, foram as frivolidades do costume, as invejas e as más-línguas que permitiram que fosse deitado ao lixo, sem deixar rasto — um apagamento da história que é comum no ensino português da filosofia. E se não era uma excepção, então os que hoje se arvoram em representantes da tradição são pura e simplesmente impostores: a suposta tradição que representam não tem mais de um par de décadas.

    Gostaria que os profissionais portugueses da filosofia se deixassem de criancices e passassem, com boa vontade e honestidade, a fazer um trabalho sério, pugnando pela excelência, e cientes dos limites que todos temos. Não custa admitir que não se conhece a bibliografia didáctica actual da filosofia — até porque até há 15 anos, não existia em português. Não precisamos de fingir que conhecemos tal bibliografia quando a desconhecemos, nem que sabemos quais são os conteúdos centrais hoje discutidos em filosofia da religião ou estética ou epistemologia ou lógica. Qual é o problema de admitir o desconhecimento? Com uma atitude menos acriançada e mais modesta podemos, juntos, fazer um trabalho melhor, aprendendo uns com os outros, em vez de promover guerras de manjerona.

    Termino com mais uma esperança: era bom que os responsáveis pela liquidação da filosofia no 12.º ano assumissem as culpas publicamente, perante os colegas. Isso seria um sinal inequívoco de boa vontade e humildade. Evidentemente, essas pessoas não sabiam que ao defender um programa desastroso estavam a contribuir para a extinção da disciplina. Mas contribuíram para isso, mesmo assim. Quando os piores inimigos de uma dada área são os profissionais dessa área é urgente renovar essa área: não para despedir ou afastar pessoas, mas para as convidar a fazer um trabalho melhor, dando-lhes a conhecer instrumentos bibliográficos de qualidade. Mas se insistirmos em encarar esta renovação como um jogo de futebol, para ver que equipa ganha, está tudo estragado — além de se manifestar uma falta de profissionalismo completamente inaceitável.

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  7. nem percebo qual o espanto quando hoje em dia, no sec. 21 ainda há professores de filosofia que acusam o manual X e Y de serem manuais ateus somente porque expõem o ateísmo na filosofia da religião, questão que deveria ser interpretada como comum.

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  8. Tenho uma pequena parte da 5ª edição de um manual que talvez tenha começado a ser usado em 1942. É o seguinte: Magalhães-Vilhena, Vasco, Pequeno Manual de Filosofia; Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1977. Este pequeno manual tem 639 páginas.
    A pequena parte a que tenho acesso está escrita com bastante clareza. Tenho pena de não saber como se orienta nas matérias religiosas, nem os exercícios que propõe aos alunos. Mas é uma coisa a ver numa próxima passagem pela biblioteca Nacional.

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