17 de abril de 2011

É preciso sensibilizar?

Na crónica desta semana, Aires Almeida opõe-se à recente mania de Sensibilizar as pessoas, em vez de as esclarecer ou discutir ideias. E o que pensa o leitor?

13 comentários:

  1. Parece-me que estas ações de sensibilização pressupõem algo: as pessoas são apáticas. Somente pensando desta forma é que se pode tentar sensibilizá-las, no entanto, são poucos os que se encontram neste estado, o resto, se quisesse aceitar uma idéia, o faria independente de estar sensibilizado ou não.
    Por fim, tentar sensibilizar as pessoas resulta em algo que considero indesejado, divulgação de idéias se torna panfletagem.

    ResponderEliminar
  2. A "sensibilização" é também um fenômeno frequente entre certos acadêmicos. A fim de calar uma discussão racional - sobre se os arguementos de Nietzsche contra a lógica são congentes, por exemplo - esses acadêmicos logo lançam mão da sensibilização dizendo que não cabe reduzir a filosofia de Nietzsche à "mera análise de argumentos", mas sim sentir aquilo que Nietzsche queria passar ao leitor através de seus aforismos. Dizem que nunca compreenderemos as idéias desse filósofo se não tivermos a sensibilidade adequada para tal.
    O problema é que ainda que tentemos nos sensibilizar para começar a discussão, a nossa sensibilidade nunca é a mais adequada, pois, dizem eles, já estamos predispostos a não ser caridosos com o filósofo.
    Além do mais, por que raios os "filósofos sensíveis" não podem também sentir uma "discussão lógica", como costumam dizer? Será que é porque podemos acusá-los de má vontade, de não serem sensíveis a um bom argumento?

    ResponderEliminar
  3. Vou opor-me ao Aires com um argumento muito simples:

    Se as pessoas são maioritariamente tolas, são imunes ao esclarecimento e à argumentação.
    Se são imunes ao esclarecimento e argumentação, resta-nos sensibilizá-las (manipulá-las).
    Ora, as pessoas são maioritariamente tolas.
    Logo, resta-nos sensibilizá-las ou manipulá-las.

    O argumento é válido, mas todas as premissas são disputáveis. Contudo, todas as premissas são efectivamente aceites por quem defende a sensibilização — defendendo, concomitantemente, a vacuidade da argumentação e do esclarecimento. Tanto o meu livro Filosofia em Directo como o Pensar Outra Vez, recebidos por quem está habituado à manipulação mas não à defesa explícita de ideias, receberam esta crítica (feita com boa vontade e não para deitar abaixo): “está tudo muito bonito, mas ninguém passa a pensar ou a fazer isto ou aquilo em função de argumentos.” Claro que quem diz isto pensa sempre que são os outros que são tolos e imunes a argumentos, e não eles mesmos. Resta saber se têm razão. Cada vez mais me parece que sim, que têm razão. Mas concordo com o Aires nisto: a escola deveria ser precisamente a excepção a esta tolice quasi universal, devia ser onde se aprende a avaliar cuidadosamente argumentos e a reagir apropriadamente a eles. Infelizmente, não é tal coisa.

    ResponderEliminar
  4. O primeiro problema do seu argumento é a pressuposição excessivamente pessimista de que pessoas pouco virtuosas epistemicamente são completamente imunes ao esclarecimento e à argumentação. Isso nunca é o caso: por mais dogmática que seja uma pessoa sempre há uma brecha ou uma informação que possa alterar uma de suas crenças e influenciar o seu comportamento. Basta dar uma olhada nas propagandas eleitorais que usam todo tipo de truque sujo e manobra publicitária para convencer os eleitores: eles nunca abrem mão dos argumentos. A maioria pode ser tola, mas não é completamente tola. A capacidade de discussão racional pode ser pequena, mas é diferente de capacidade nenhuma. Além disso, a argumentação está presente no dia a dia das pessoas nas suas diversas áreas: se não é da melhor qualidade é outra questão.

    Outra falha no seu argumento é ignorar que a informação e a discussão racional indiretamente sensibilizam e intervêm nos sentimentos das pessoas. Se por um lado a argumentação não se apóia na emoção, por outro lado ela afeta a emoção indiretamente. É possível induzir comportamentos e atitudes por meio de argumentos: Peter Singer influenciou muitas pessoas a adotarem o vegetarianismo ético por meio de argumentação cuidadosa e direta. Por outro lado há vários casos em que as tentativas de sensibilizar as pessoas sem argumentos fracassa miseravelmente: é o caso do Michael Moore no seu documentário mais recente sobre o capitalismo, que é é péssimo.

    Esse também é outro bom argumento contra a estratégia da sensibilização: como a sensibilidade das pessoas varia muito nunca saberemos qual é o melhor meio de sensibilizá-las, não temos critérios. A argumentação, por outro lado, tem um critério simples: os argumentos mais convincentes são os mais rigorosos, sofisticados e claros.

    O seu argumento é uma espécie de profecia pessimista autocumprida, pois se o aceitarmos como um bom argumento acabamos por estabelecer a verdade das premissas: pressupomos que devemos manipular as pessoas emocionalmente porque pressupomos que elas são imunes à argumentação e as pessoas se tornarão imunes à argumentação porque apenas são manipuladas emocionalmente.

    ResponderEliminar
  5. Luiz,

    os coitados que só sabem repetir as idéias de Nietzche se esquecem que estão usando um ARGUMENTO nesse caso. Eles ARGUMENTAM que devemos possuir uma espécie de sensibilidade especial para perceber a relevância das idéias de Nietzche, mas isso é ARGUMENTO!

    Essa conversa de sensibilidade especial é típica de quem não sabe defender suas idéias, mas quer defender o indefensável: só um coitado que não sabe argumentar direito fala uma burrice desse nível.

    ResponderEliminar
  6. Só me ocorreu agora que o que em diversos casos parecem tentativas de sensibilizar as pessoas são tentativas de informar e esclarecer as pessoas. Documentários que mostram as circunstâncias das pessoas que morrem de aids na Africa, por exemplo, podem ter como objetivo principal não a sensibilização mas a informação.

    ResponderEliminar
  7. Desidério, das premissas do teu argumento só não disputo a terceira: que as pessoas são maioritariamente tolas. Mas não concordo com as outras duas.

    Há muitos casos de pessoas tolas que, paciente e continuadamente expostas a argumentos, deixam de o ser, pelo menos passam a sê-lo menos. Até estou disposto a admitir que algumas pessoas são mesmo imunes ao esclarecimento e à argumentação, mas não serão certamente a maioria. O que se passa com a maioria das pessoas não é bem o serem imunes, mas o dar muito mais trabalho convencê-las através da argumentação do que recorrendo à manipulação. A argumentação exige muito mais tempo, paciência e energia. Manipulá-las fica muito mais económico. Aliás, muitas são tolas porque tiveram uma formação escolar que raramente as expôs à argumentação e discussão racional.

    A segunda premissa é ainda mais disputável, acho eu. Acho que está lá escondido um falso dilema. Por que não dizer antes o seguinte: se a maioria das pessoas são imunes ao esclarecimento e à argumentação, resta-nos obrigá-las (em vez de manipulá-las)?

    Afinal, não é isso que acontece com muitas das nossas leis? Por exemplo, as leis que proíbem as pessoas de fumar em espaços públicos fechados. Claro que podes tentar sensibilizar os fumadores para não fumarem junto dos outros (podes tentar dizer-lhes que é feio e que as pessoas elegantes não fazem tal coisa, que perdem potência sexual, etc.) e mesmo assim não deixarem de o fazer. Ora, a solução mais eficaz é simplesmente proibi-las de fumar em locais fechados. Paternalismo por paternalismo, é preferível o que não manipule as pessoas e que, ainda por cima, seja mais eficaz. Assim, se achas que um dado comportamento é inaceitável e que não devia ser permitido (as touradas, por exemplo), é melhor tentares convencer racionalmente os decisores políticos do que manipular as pessoas. E, claro, podes também tentar convencer através da discussão racional os que são susceptível de ser assim convencidos.

    Mas talvez estejas a tomar alguns casos como se de sensibilização se tratasse e que, bem vistas as coisas, não são realmente casos de sensibilização, mas de informação. Estou a pensar no mesmo que o Matheus acabou de referir. Há documentários que nos confrontam com casos chocantes. Isso é sensibilizar? Não necessariamente. O que muitas vezes acontece é que ficamos a saber coisas que ignorávamos e isso é informação relevante. Por vezes as pessoas precisam simplesmente de ser informadas, pois muitas das suas opiniões são o que são por falta de informação. É o que Peter Singer faz quando confronta os leitores com informação que ignoravam completamente: por exemplo, que uma percentagem elevadíssima de experiências com animais não servem na prática para rigorosamente nada.

    Uma nota fina sobre o que pretendo com o texto, que é denunciar duas coisas: 1) o facto de a sensibilização estar gradualmente a substituir o esclarecimento e a discussão racional e 2) a atribuição de valor pedagógico à sensibilização.

    ResponderEliminar
  8. Talvez valha a pena explicitar que sensibilizar é argumentar -- apenas os argumentos são geralmente maus, inexplícitos e manipulativos. O meu contra-argumento baseia-se na ideia em que tenho vindo a reflectir sobre o que fará as pessoas que não estão habituadas à argumentação directa ter uma reacção de rejeição, ainda que sejam pessoas bem intencionadas. É um fenómeno difícil de entender bem. Mas talvez a ideia seja simplesmente que os outros são tolos e não se vai lá com argumentos; esta ideia, por sua vez, não é tão tola assim. Apenas peca por desprezar a possibilidade de se diminuir drasticamente a tolice expondo os tolos à argumentação explícita cuidadosa e convidando-os a argumentar também com cuidado.

    ResponderEliminar
  9. "Talvez valha a pena explicitar que sensibilizar é argumentar -- apenas os argumentos são geralmente maus, inexplícitos e manipulativos".

    Na mosca!

    ResponderEliminar
  10. A denúncia definitiva da ilusão que consiste em pensar que é possível sair da lógica para argumentar contra a lógica está aqui.

    ResponderEliminar
  11. Parece que este é um falso dilema: ou sensibilizamos (persuadimos), ou esclarecemos ideias e argumentos (convencemos).

    Argumentar é talvez a melhor maneira de sensibilizar as pessoas às razões ou torná-las sensíveis a razões. Em outras palavras, nada contribui mais para o valor da razão que a prática de argumentar, raciocinar e discutir ideias.

    É um erro pressupor que todos ou a maioria das pessoas já valoriza a razão por default ou, o que dá no mesmo, que a maioria já é totalmente sensível a razões por default. Talvez em algum grau, ou a prática de argumentar não teria efeito na valorização da razão/sensibilização a razões, mas disso não se segue que a prática não amplie e tonifique este valor/sensibilidade. E é disso que mais carecemos, uma cultura que valorize a razão.

    ResponderEliminar
  12. Olá Eros,

    "Argumentar é talvez a melhor maneira de sensibilizar as pessoas às razões ou torná-las sensíveis a razões."

    Parece-me que não, pois o autor usa "sensibilizar" num sentido em que a palavra contrasta com "aceitar um argumento cogente". Você parece usar sensibilizar no sentido: "tornar n mais apto a X", significado que eu atribuiria a palavra "capacitar". O argumento envolvido na sensibilização é um tipo de falácia com forte apelo emocional.

    Você deveria explicar porque este lhe parece um falso dilema... Não vi, desde o início, indício de dilema no texto.

    Eu entendo que o autor defende haver uma incompatibilidade entre sensibilizar e educar. Acontece que sensibilizar é encarado como prática pedagógica: há aí um contra-senso.

    Realmente, carecemos de uma cultura que valorize o debate e a competição saudável.

    Eduardo dos Santos Cruz

    ResponderEliminar
  13. Este é o novo link do artigo: http://criticanarede.com/sensibilizar.html

    ResponderEliminar