9 de abril de 2011

Glossário de português-faz-de-conta

Disse Wittgenstein que os limites da nossa linguagem são os limites do nosso mundo. Talvez Wittgenstein esteja certo, até porque não temos razões para pensar que tudo o que ele disse é errado. Nesse caso, vale a pena tentar sondar os limites da nossa linguagem, olhando em particular para o uso que damos à língua portuguesa. Eis um exercício que pode ajudar a compreender os limites do nosso mundo: o esboço de um glossário de português-faz-de-conta. Aqui ficam alguns exemplos para começar.

PORTUGUÊS-FAZ-DE-CONTA - PORTUGUÊS
O senhor diz que P, mas eu diria antes que Q = Não concordo que P
O que o senhor acabou de dizer é uma inverdade = Isso é falso
Um actor espantoso = Um actor muito bom
Um actor absolutamente espantoso = Um actor muito bom
É extremamente bom = É muito bom
É o melhor a nível europeu = É o melhor da Europa
A é melhor do que B em termos de resistência = A é mais resistente que B
Fazer amor = Ter relações sexuais
Incontornável = Inevitável
Numa lógica de poder = Na luta pelo poder (No exercício do poder)
Este quadro é horrível = Não gosto deste quadro
Não se pode reduzir A a B = B não conta
Um problema que desde sempre atormenta os filósofos = Um problema filosófico

Aceitam-se outros contributos.
  

14 comentários:

  1. Qual é mais comum de ser utilizada «Esta música é horrorosa» ou «Não gosto desta música»? E serão expressões equivalentes? Na realidade os limites da linguagem expõem o mundo tal como o percebemos e como interagimos com ele e, muitas vezes, traduzem certas relações das quais nem temos consciência. Neste caso quando dizemos «Esta música é horrorosa», estamos a atribuir o horror à música, a qualificá-la, a transferir a responsabilidade para a obra. Estamos a dizer que o horror é uma propriedade daquela obra em particular. Estamos a falar da obra. Resta dizer depois porquê. A implicação necessária de se "acusar" uma obra de ter aquela propriedade é que isso nos obriga a justificá-la e a ter uma "prova" ou um "critério objectivo" sob pena de a nossa afirmação não ser aceite.

    Por outro lado, quando dizemos «Não gosto desta música» estamos a transferir todo o ónus para nós. Da música não dizemos nada. Apenas falamos de nós e do modo como a música nos afecta. E isto é puramente subjectivo, eventualmente poderemos dar alguma justificação ou critério para tal desprezo, mas isso não vai implicar mais nada. Os outros contentar-se-ão em saber a nossa opinião e se discordarem será um problema nosso e deles mas ninguém terá de ser vergado nesta discussão. Aliás, provavelmente não se abrirá uma discussão. Será apenas uma perspectiva pessoal.

    E assim estamos a ver como duas frases que parecem sinónimas na realidade são tão diferentes e têm implicações tão distintas. Uma coisa é acusarmos o que nos é exterior, pretendermos saber algo sobre essas coisas. Outra, bem diferente, é admitir a nossa subjectividade e, eventualmente, alguma limitação ou falta de contexto para compreender aquilo que simplesmente existe e, muitas vezes, não pede nem é tido nem achado para ser adjectivado.

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  2. Aires
    O seu dicionário é "muito bom".
    Só não compreendo porque "Não se pode reduzir A a B = B não conta." Eu interpretaria (de uma forma simplificada), A é mais ou melhor ou mais complexo... que B. Ou o "não conta" advém do facto de neste caso, normalmente, preferirmos A?
    Mas não obrigatoriamente.
    Cumprimentos.
    Luísa

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  3. Luísa, com exemplos percebe-se melhor. Imagine uma pessoa que critica outra por estar a afirmar coisas logicamente inconsistentes. Frequentemente a resposta é que nem tudo se pode reduzir à lógica. Nestes casos, o que se quer realmente dizer é que a lógica não conta. Claro que isto é incorrecto, mas a minha proposta é fazer um glossário em que as pessoas querem dizer algo diferente do que realmente dizem.

    Musicólogo, procuro nesse caso (o exemplo refere a música como poderia referir qualquer outra coisa) sublinhar a tendência para o exagero, como se as pessoas estivessem a passar constantemente por sentimentos arrebatadores, negativos ou positivos. Na maior parte das vezes as pessoas não querem dizer que se horrorizam com a música que ouvem; querem apenas dizer que não gostam (ou que é desagradável, ou que é simplesmente má).

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  4. Bom, presumo que os sentimentos arrebatadores sejam sempre de adesão e não de repulsa. O que quero dizer é que se trata de sentimentos algo excessivos para caracterizar o que realmente se passa. Como se o excesso fosse uma prova de grande sensibilidade.

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  5. Ah, percebo! Como se a preocupação em avaliar consistência ou implicações lógicas fosse coisa de espíritos "fechados", por oposição aos espíritos "abertos", os quais estando libertos dessas cadeias lógicas podem apreciar em toda a sua plenitude ... sei lá... as propriedades de uma pulseira do equilíbrio (passo a publicidade). ;)
    Obrigada pelo esclarecimento.
    Luísa

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  6. Proposta:

    "É um problema que está longe dos interesses humanos" = "Este problema não me interessa"

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  7. "É uma mais-valia" = "É uma vantagem"

    "Toda a problemática de..." = "O problema de..."

    "É todo um..." = "É..."

    "Tem muitas funcionalidades" = "Tem muitas funções"

    "Argumentos lógicos" = "Argumentos"

    "Lógico-dedutivo" = "dedutivo"

    "Isto é ideológico" = "Isto põe em causa ou questiona crenças de que gosto muito"

    "Lógica linear" = "Falta de imaginação"

    "Isto é escolástico" = "Isto é difícil"

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  8. "Isso é interessante" = "Não tenho ponta de um corno para dizer acerca disso, mas sinto-me inteligente a comentá-lo"

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  9. Um dos tiques linguísticos mais nocivos é o uso errado de aspas. Sem ter muita noção dos usos correctos das aspas -- nomeadamente, para falar de palavras ou frases, que são entidades físicas, e não dos seus significados -- usa-se aspas a torto e a direito para indiciar um suposto distanciamento que nunca é adequadamente esclarecido. Uma pessoa pode parecer sofisticada ao usar aspas nas palavras "verdade" ou "realidade", por exemplo, mas precisamente porque nunca explica como raio seria possível pensar sem os conceitos que estas palavras exprimem, faz apenas figura de tolo. Curiosamente, nas zonas mais anémicas da cultura académica não há diferença entre fazer figura de tolo e ser sofisticado: em ambos os casos, trata-se apenas de usar palavras de maneira esquisita. Como se ser físico ou pintor fosse apenas uma questão de usar símbolos esquisitos e palavras difíceis, sem qualquer compreensão genuína do que raio estamos falando.

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  10. Até onde sei o uso de aspas na filosofia só é distinto do uso comum em dois casos: 1) quando é utilizado para diferenciar o uso e a menção ao conceito 2) quando é utilizado para implicitar no contexto que o conceito em questão é controverso ou admite qualificação.

    Quem usa aspas do modo que você menciona apenas superficialmente usa aspas como em 2. O que acontece nesses casos é que algumas pessoas pensam que é chique ser retórico e sugerir tolices que não conseguem defender de maneira explícita. Essas pessoas são mais ou menos como os racistas que dizem "Ele é negro, mas é honesto". Você não poderá acusá-lo de racismo porque ele não disse literalmente que todo negro é geralmente desonesto, mas sugeriu isso por meio do "mas". E isso vale para tudo: falácias de apelo à autoridade, ad hominem, acusações veladas, etc. Usa-se aspas como pretexto para afirmar imbecilidades de maneira velada do mesmo jeito que alguns sugerem correções de português para sugerir de maneira velada que você é um imbecil: isso não é dito de maneira explícita, mas está implícito no contexto e todo mundo percebe isso.

    Isso não é uma discussão sobre o uso de palavras esquisitas e tiques linguísticos, mas acerca das atitudes cretinas que motivam as pessoas a usar as palavras desse jeito para defender idéias de maneira velada.

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  11. "Isso é simplesmente disparatado" = "não me parece correcto mas não sei dizer porquê"

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  12. Isso é filosofia continental - isso é muito difícil.

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  13. Se o "filósofo"(aspas usadas como ironia. Vale ou não?), se ele está dizendo que o limite de nosso mundo é o limite de nossa linguagem e só se expande esse mundo quando ampliamos nossa linguagem.Então cada qual com seu cada qual.Qual o problema? Imagine se o romancista vai sintetizar as as orações, reduzir as frases... Têm mais que encher linguiça mesmo, como v.g. Rui Barbosa, prolixo que só ele mesmo.
    Ademais, se eu acho uma mulher horrorosa, olho o aspecto físico ou fisionômico. Se não gosto de uma mulher linda é porque dela só se aproveita o corpo e não a convîvência. Há quem diga que a lógica não tem lógica e pode ser imoral.
    Finalmente, ninguém discutiu o emprego daquele subjuntivo do autor do Blog.(não vou reduzir para blogueiro, pois, pode ser pejorativo tanto mais quanto devendo usar aspas):
    "esperemos que gostes". Que consideremos ser uma falha, espera-se que discutamos, isto é, esperamos que apreciem.
    Será que ensandeci?
    Sem embargo, tenho direito de falar minhas bobagens também.
    Fui!
    Fernando Garcia

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