11 de abril de 2011

Prémio SPF 2010 atribuído a Luís Estevinha Rodrigues

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A edição de 2010 do Prémio SPF, promovido pela Sociedade Portuguesa de Filosofia com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, colocou a concurso uma questão no âmbito da epistemologia: Pode a percepção justificar as nossas crenças acerca da realidade?

O vencedor do prémio, no valor de 3500 €, foi Luís Estevinha Rodrigues (estudante de doutoramento em Filosofia da Universidade de Lisboa e professor do ensino secundário) autor de um ensaio que adoptou o enunciado da questão colocada como título.

No seu ensaio, Luís Estevinha Rodrigues defende que a percepção sensorial – e, em particular, a visão – origina crenças com conteúdo proposicional respeitante ao mundo exterior e, na maioria dos casos, embora não em todos, justifica da melhor maneira possível (com justificação epistémica ultima facie) essas crenças. A argumentação apresentada em defesa desta posição tem um pendor claramente pragmático, pois toma como premissa a existência de relações causais entre essas crenças perceptuais e as nossas acções, e usa a eficácia destas acções como prova não-derrotável da legitimidade da evidência perceptual que sustenta as ditas crenças. A condução de um automóvel ou a previsão da trajectória e velocidade da bola efectuada por um jogador de basebol são mencionadas como exemplos confirmadores dessa capacidade da percepção para recolher informação relevante e correcta acerca da realidade.

O júri do prémio SPF 2010 decidiu ainda atribuir uma menção honrosa a Tommaso Piazza (investigador auxiliar do Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto) autor de um ensaio intitulado «Percepções e Razões».

O ensaio de Tommaso Piazza parte do pressuposto de que muitas das razões que temos para acreditar algo acerca da realidade são proporcionadas pelas nossas experiências perceptivas. Aceitando também que só uma proposição pode constituir uma razão para acreditar nalguma coisa, o autor formula um princípio segundo o qual a relação entre essa proposição e a crença por ela suportada só pode ser uma relação lógica de consequência ou uma relação probabilística. O objectivo central do seu ensaio é defender este princípio de certas objecções que contra ele se erguem. Tais objecções têm origem em duas questões muito discutidas nos últimos tempos: a primeira é a questão de saber se o conteúdo (representacional) da experiência perceptiva é conceptual ou não-conceptual; e a segunda é a questão de saber qual é a forma desse conteúdo, no caso de ele ser conceptual – nomeadamente, se tem uma forma assertórica (como em «a caneta é verde») ou simplesmente fenomenal (como em «a caneta parece verde»). Os argumentos de Tommaso Piazza procuram estabelecer a conclusão de que, qualquer que venha a ser a decisão final a respeito destas duas questões, aquele princípio fundamental sobre a natureza inferencial da relação entre razões e crenças sobreviverá.

Os ensaios foram avaliados, sem conhecimento da identidade dos seus autores, por um júri composto por António Zilhão (Universidade de Lisboa), Ricardo Santos (Universidade de Évora), Sofia Miguens (Universidade do Porto) e Teresa Marques (Universidade de Lisboa).

A entrega do prémio terá lugar no decurso do 9º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, que ocorrerá na Universidade do Minho nos dias 9 e 10 de Setembro de 2011.

1 comentário:

  1. Interessante. Esta é uma discussão antiga mesmo no oriente, na escola (darshana) Vedanta é posta como "pramana", ou os 'meios válidos para conhecer'; algumas linhas vão afirmar a supremacia dos sentidos (pratyaksa), portanto da percepção, outros da lógica (anumana), e outros ainda das palavras dos textos sacros (shabda), ou considerado também "intuição". Existe discussões fantásticas a respeito no mundo vedantino!

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