4 de abril de 2011

Raciocinar para nada

Raymond Smullyan, que escreve livros divertidos, plenos de quebra-cabeças lógicos, inventou o que George Boolos considera o mais difícil quebra-cabeças de sempre, explicando logo de seguida como resolvê-lo, usando recursos elementares da lógica clássica. O artigo onde o faz é este, e foi traduzido por Ricardo Miguel.

9 comentários:

  1. Não conhecia o quebra-cabeças mais difícil de sempre, mas o quebra-cabeças 2 já o tenho utilizado nas aulas de lógica no 11º ano para exemplificar o funcionamento semântico da bicondicional, só que numa versão diferente: o prisioneiro encarcerado numa torre com duas portas, uma para um precipício e outra para a liberdade, cada uma delas guardada por um guarda, sendo que um diz sempre a verdade e outro mente sempre. A ideia, bem explicada por Boolos, é que quando ligamos uma falsidade a uma verdade numa bicondicional, obtemos sempre uma falsidade.

    Mas este texto do Boolos é interessante porque mostra como os quebra cabeças mais complexos e difíceis se resolvem por composição, a partir dos outros dois mais simples.

    Uma pequena nota à tradução: em português diz-se Quirguistão ou Quirguísia e não Kirghisia.

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  2. Olá Aires,

    Obrigado pela nota à tradução. Das duas indicações 'Quirguistão' parece ser o nome mais usado em português para Kirghizia (para bem da precisão se puderem alterar o texto agradecia).

    Quanto ao puzzle, explicitamente este está aqui solucionado através de outras soluções intermédias para outros puzzles, mas o interessante para mim é o processo de construir a solução sem a referência a mais nada, apenas por cálculo lógico.

    Sei que há por aí outros artigos que dão outras soluções para o puzzle. E pelo menos um dá uma solução apenas com duas perguntas em vez de três como Boolos. Onde raio começar esta tarefa de solucionar um problema assim?

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  3. Oi Ricardo,

    por que não traduzir "puzzle" por "quebra-cabeças" ou "enigma"?

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  4. Olá Matheus,

    Por 'enigma' nunca traduziria pois é uma palavra com referentes muito mais abrangentes. Pensei em traduzir por 'quebra-cabeças', que é, de facto, uma expressão portuguesa usada com o mesmo significado que 'puzzle', que é um estrangeirismo. Mas uma vez que 'puzzle' tem já um uso muito corrente na nossa língua, e como o texto usa a palavra 'puzzle' ou o seu plural 29 vezes, a tradução ficava, no meu entender, menos económica ou simples e mais feia tendo 29 vezes a palavra 'quebra-cabeças'.

    Enfim, isto não é grande motivo para optar por 'puzzle', mas como não sou adepto de negar estrangeirismos só porque são estrangeirismos optei por 'puzzle'. Se fosse um daqueles casos em que o estrangeirismo pode dificultar a compreensão do texto ou que ele está lá só porque o tradutor se julga o máximo em usar uma palavra estrangeira, nesses casos sim, também eu acho que não faz sentido deixar de lado a palavra portuguesa (supondo, claro, que há uma palavra portuguesa adequada). Mas acho que neste caso nada disto é verdade.

    Já agora, quanto às correcções, começando pela nota do Aires, ficou ainda por alterar por 'Q' sempre que aparece 'K'. Para além disto, apareceu uma frase em itálico, "Mas e se A for o Aleatório?", que não está em itálico no texto original. Por fim, se no início do texto as letras 'A', 'B' e 'C' se querem em itálico (eu não coloquei, preservando o original, porque penso nessas letras como nomes próprios e em geral não uso itálicos neste tipo de palavras), então convém estarem em itálico no resto do texto, e não estão.

    Ao longo da tradução tive algumas dúvidas com pormenores destes e achei que o próprio Boolos estava descuidado com estas coisas, até no uso das aspas para mencionar palavras (como 'da' e 'ja'), coisa que o Desidério corrigiu.

    Mas por exemplo, na frase "Os deuses compreendem português, mas responderão a todas as perguntas na sua própria língua, na qual as palavras para “sim” e “não” são “da” e “ja,” numa certa ordem", pessoalmente, acho que 'sim' e 'não' não devem levar aspas porque as palavras estão ali a ser usadas e não mencionadas (como foram nesta frase). 'Da' e 'ja' é que estão a ser mencionadas como as palavras dos deuses para sim e não.

    E depois ao longo do texto o Boolos não usa aspas nem em 'da' nem em 'ja', nem em 'yes' nem 'no'.

    Bem, brincando um pouco com as palavras, traduzir é um puzzle que quebra muito a cabeça e as opções dificilmente se esgotam na solução que escolhemos.

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  5. Oi Ricardo,

    entendi as razões da sua escolha. É bom saber que você tem cuidado e se preocupa de verdade com as minúcias das traduções. E também concordo com você na questão da ausência das aspas na frase que mencionou.

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  6. Olá Ricardo,

    Também me interroguei, ao ler pela primeira vez o texto, se puzzle seria a opção mais acertada. Acabei por não referir isso porque raciocinei como o Ricardo: o termo não só é conhecido como até consta dos dicionários de língua portuguesa (veja-se o Houaiss, por exemplo) e a opção por quebra-cabeças teria o inconveniente apontado, tornando o texto menos fluído.

    Também concordo com o Ricardo quanto às aspas.

    Mas em relação ao Quirguistão, e ao contrário do que diz o Desidério, o texto ainda não está corrigido.

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  7. Ooops, acabei de ver agora outra vez e está corrigido sim. Peço desculpa.

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  8. Caro Ricardo

    Na versão publicada em livro, que pode ser diferente de outra, “But what if A is Random?” e “If A is Random, then neither A nor B is Random!” estão ambas em itálico. Na mesma versão podemos ler:

    The gods understand English, but will answer all questions in their language, in which the words for “yes” and “no” are “da” and “ja,” in some order.

    Concordo que seria defensável não usar aspas em “yes” e “no”, mas é igualmente defensável que se deve usar. Dado que o autor usa, e dado não ser um erro óbvio, é de usar. Não é um erro óbvio porquê? Porque podemos argumentar que estamos a abreviar algo como “as palavras para traduzir “sim” e “não” são...”

    Quanto aos itálicos nos nomes dos deuses (A, B, C), foi deslize meu: devia ter posto em todos os casos não por serem nomes, mas por poderem ser entendidas como meras abreviaturas, que se lê melhor em itálico para não serem confundidas com a palavra “A.” Mas como não fui consistente, e porque é mais fácil tirar os itálicos do que pôr em todos os casos em que os itálicos estavam em falta, tirei-os.

    Qualquer errata mais que descubram, é só dizer e eu corrijo. É essa a vantagem da Internet face aos livros: podemos corrigir facilmente, sem esperar por nova reimpressão.

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