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Será que temos a obrigação moral de invadir a ignorância de um povo?

Não sou um apreciador de todo da música dos brasileiros Sepultura, ainda que alguns álbuns me tenham cativado. Um deles é o “Chaos A D”(1993). Neste álbum existe uma música que aborda o problema dos Kaiowas. Os Kaiowas eram uma tribo indígena sul-americana que cometeram suicídio em massa assim que tiveram o menor sinal de invasão cultural por parte de outros povos, nomeadamente a chamada “cultura ocidental”. Este sinal de protesto incluiu a violação das suas terras por parte governamental. A questão que aqui coloco é se temos a obrigação moral de "invadir" outros povos com a nossa cultura, nomeadamente a cultura científica que acreditamos melhorar em muito a vida em geral, ou se, pelo contrário, esses povos têm direito à ignorância da nossa cultura. Que pensar?

Comentários

  1. Nem com a melhor das intenções, quanto mais para lhes extorquir proveitos?! A ignorância é um conceito que se vem tornando cada vez mais preconceito e parangona ideológica. Também continua por demonstrar a maior bondade de uma cultura relativamente a outra. E tenho sérias reservas quanto a ser preferível uma genuína ignorância a um acervo de ideias falsas e distorcidas sobre as coisas.
    Outra questão é se há escolha.

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  2. Defender o direito de um "povo" (que não
    e um indivíduo identificável) à ignorância não é ao mesmo tempo privar os indivíduos dentro dessa população do seu direito à não ignorância? Digo isto porque muitas vezes os argumentos "multiculturalistas" são usados para dar poder a pessoas dentro dessas "culturas" sobre os restantes indivíduos, e quase sempre indivíduos ligados aos cultos religiosos predominantes, como se fosse óbvio que falam por toda a população.
    Nem sequer consigo compreender bem o que é isso de ter direito à ignorância. É o direito de escolher livremente não saber algo cuja existência ignoro?

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  3. Penso que o Rolando formulou inadequadamente o que queria. Neste blog não queremos conversa fiada, nem meras afirmações de ideias feitas. Queremos argumentos. Assim, quem pensa que nunca é legítimo influenciar culturalmente uma população, terá de explicar porquê. Quem pensa o contrário, deve fazer o mesmo. E os argumentos devem ser cuidadosamente pensados, devem ser apresentados explicitamente e devidamente assinados, porque os comentários anónimos serão apagados.

    Uma pessoa pode também, como o Vítor, pôr em causa os termos em que o problema está formulado; mas tem também de argumentar cuidadosamente, mostrando que há razões boas para pensar que o problema foi inadequadamente formulado.

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  4. Pois, pensando bem a forma como coloquei a questão pode resvalar para a sociologia de café, é verdade. Com efeito tinha em mente algo como isto: se conseguirmos mostrar que temos a obrigação moral de arrancar da ignorância uma determinada comunidade, será que moralmente se justifica uma investida militar, por exemplo? E tinha em mente outra coisa também: mesmo que uma determinada investigação coloque em causa as crenças da generalidade das pessoas, mesmo que tal lhes acarrete desconforto, será sempre moralmente aceitável avançar com a investigação, mesmo que tenhas essas tais consequências? Em todo o caso, aceito com clareza que falta precisão ao problema.

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  5. Depende da investida militar. Se tiveres um ditador que impede várias pessoas de ir à escola, e se essas pessoas protestam veementemente, porque desejam ir à escola, então parece adequado, em igualdade de circunstâncias, usar a força militar contra o ditador, para que as pessoas que antes lhe estavam subjugadas possam satisfazer o seu desejo de aprender.

    Mas se estás a pensar em obrigar as pessoas, a toque de baioneta, a ir à escola, isso parece-me errado. O paternalismo tem limites, e um dos seus limites claros é a força física. Se para salvar a vida de uma pessoa tenho de usar força física porque ela se recusa a ser salva, então não devo salvar-lhe a vida.

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