13 de abril de 2011

Uma exceção à regra

Quando ouço alguém mencionar com gosto as profundezas filosóficas da literatura eu já espero pelo pior: romances que centram toda a relevância do mundo em mesquinharias subjetivas, contos acerca das angústias de pessoas mal resolvidas e poemas com expressões pomposas que só contêm banalidades ou falsidades evidentes. Uma exceção à regra é Simplicidades insolúveis - 39 histórias filosóficas de Roberto Casati e Achille Varzi. O livro é composto de pequenas histórias repletas de experimentos mentais, raciocínio intenso e sutilezas conceituais que demonstram a delicadeza da argumentação filosófica: suponha que façamos um livro que só contém desenhos para auxiliar os turistas. Se para compreender os desenhos precisamos interpretá-los qual é a utilidade de apenas utilizar desenhos em primeiro lugar? Este livro seria útil? E o que diria se alguém colocasse um cubo de granito diante de si e afirmasse que em seu interior há uma reprodução fiel do Davi de Michelangelo em escala reduzida. Seria correto dizer que é um Davi circundado por um estrato de granito? Ou só podemos dizer que seria um David se viesse a ganhar essa forma? E se uma empresa pretendesse cormecializar um ácido universal? Como fazer isso sem um invólucro universal? Deixo uma passagem do livro para o leitor:

A auto-referência se explica por si

Aqui estou. Peço desculpas pelo início um tanto brusco. Mas preciso dizer que estou muito feliz de ser o primeiro parágrafo deste diálogo.

Sorte sua. Eu não estou nem um pouco satisfeito de ser o segundo. O pior é que as coisas já estão assim, e não há nada que se possa fazer. Ficarei preso aqui para sempre!

O que você quer dizer?

É inútil fazer perguntas a ele: o tempo dele já se esgotou, e você não obterá nenhuma resposta. Na melhor das hipóteses, sou eu quem poderá responder a você. E lhe digo uma coisa: um texto não poderia ser diferente daquilo que é. Não poderia nem sequer ter uma palavra a mais ou uma vírgula a menos, porque nesse caso já seria um outro texto. E se alguém diz de si mesmo que é o primeiro parágrafo de um diálogo, então ele nunca poderia ser o segundo ou o terceiro, assim como um parágrafo que se diz segundo ou terceiro jamais poderia ser o primeiro. Eu, por exemplo, sou o quarto parágrafo deste diálogo e, como digo isso abertamente, não posso imaginar uma situação em que eu tomaria o seu lugar.

Quanto a mim, prefiro não ter esse vínculo. Não digo explicitamente em que parte do diálogo compareço, portanto, poderia perfeitamente comparecer em outro lugar.

Ótima idéia. Estou com você!

Desculpem, mas acho que vocês estão cometendo um erro. Na minha opinião, os parágrafos que apareceram antes de vocês também poderiam comparecer em outro ponto do diálogo. Por exemplo, o primeiro parágrafo poderia muito bem estar em segundo lugar.

5 comentários:

  1. Roberto Casati (suponho que é o mesmo) participa também neste volume:

    http://books.google.pt/books?id=UbiwroR0084C&dq=roberto+casati+sounds&source=gbs_navlinks_s

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  2. Sim Vitor,

    e também é autor deste livro aqui sobre as sombras: http://www.livrariadafisica.com.br/detalhe_produto.aspx?id=24763

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  3. Chegou hoje. O livro é demais! Simplesmente maravilhoso! Obrigado pela dica.

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  4. O novo link: http://www.livrariacultura.com.br/busca?N=0&Ntt=simplicidades+insol%C3%BAveis+-+39+hist%C3%B3rias+filos%C3%B3ficas+

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