21 de maio de 2011

Timothy Williamson

A percepção não esgota o nosso contacto com a realidade; também podemos pensar. Não nos deram qualquer razão para aceitar o preconceito empirista de que o que não pode ser imaginado perceptivamente é por isso mesmo suspeito.

2 comentários:

  1. Pode a percepção justificar as nossas crenças acerca da realidade? A resposta curta, simples e directa só pode ser sim... e não: sim, no que diz respeito àqueles aspectos da realidade que somente através da percepção podemos tomar conhecimento directo ou inferido de que existem e como são, nomeadamente tudo aquilo que possui existência física e consequente localização no espaço e no tempo, como sejam todas as coisas, seres, fenómenos e acontecimentos. Quer como ponto de partida para o conhecimento, quer como ponto de chegada para a sua verificação, confirmação ou falsificação, o recurso à percepção, ainda que tecnológica e artificialmente ampliada, é, nestes casos, absolutamente indispensável, pois sem ela não teríamos acesso a qualquer informação possível sobre a existência e natureza dos objectos que queremos conhecer - ou pelo menos daqueles que nos são exteriores, se nos referirmos exclusivamente à percepção sensorial do mundo exterior a nós próprios. Assim, mesmo sem nos garantir, por si só, a transparência do real, uma vez que se trata de um processo complexo de tradução e processamento da informação, desde o nível da captação sensorial até ao nível cerebral da representação e interpretação dos dados, combinando portanto nesse processo, e de forma dificilmente destrinçável, aspectos objectivos da realidade com elementos subjectivos do sujeito, só a experiência perceptiva nos permite conhecer parte significativa daquilo a que costumamos chamar realidade, e que corresponde ao mundo físico das coisas, processos e acontecimentos a que a experiência sensorial nos permite aceder, ainda que parcial e aproximativamente, de uma forma condicional e limitada ao nosso aparelho cognitivo em geral e àquilo que o subsistema da nossa percepção animal e humana é capaz de captar e processar. Visto que esse mesmo aparelho cognitivo foi biologicamente seleccionado e construído ao longo da evolução da vida e do homem, isso explica simultaneamente que, ao nosso nível, por um lado, ele seja frequentemente fonte de erro, ilusão e engano, mas que também, por outro lado, o seu grau de adequação à realidade do mundo externo seja, grosso modo e à nossa escala, razoavelmente significativa, pois de outra forma não sobreviveríamos por inadaptação cognitiva ao meio ambiente. É precisamente o facto de o nosso sistema perceptivo ser parte integrante do nosso aparelho cognitivo de adaptação natural ao mundo ambiente que fornece alguma garantia de objectividade possível ao nosso conhecimento e, deste modo, alguma justificação às nossas crenças sobre a realidade;(continua)

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  2. (continuação) não, por outro lado, porque também é certo que não só a percepção está longe de ser cognitivamente infalível, induzindo-nos frequentemente em erro, iludindo-nos e distorcendo a realidade, fazendo-nos acreditar que vemos ou sabemos o que não é real, ou, pior ainda, que a realidade é tal como a vemos, gerando a ilusão persistente da transparência perceptiva do real, para além de que existem seguramente entidades, aspectos, dimensões ou níveis da realidade que não são (ou não nos são) perceptivamente acessíveis, dado não existirem ou se não manifestarem directamente no espaço-tempo físico - ou estando fora do nosso alcance perceptivo, mesmo quando tecnologicamente ampliado -, não podendo portanto ser conhecidas nem justificar as crenças que possuímos sobre uma realidade que nos é inacessível exclusivamente por esse meio – caso dos números, ideias, valores, significados, princípios, mas também dos pensamentos, desejos e sentimentos -, invalidando deste modo a crença ingénua de que só existe o que podemos ver ou sentir, isto é, o que podemos simplesmente percepcionar. Essa ingenuidade é patente, por exemplo, em expressões populares como “ver para crer” ou “só acredito naquilo que vejo”, como se só o que fosse visível pudesse ser real ou justificar a crença. E embora estas máximas que compõem o senso-comum coexistam popularmente de forma pacífica com a suas contraditórias, como é o caso de “as aparências iludem” e outras, elas anular-se-iam logicamente caso nos déssemos ao trabalho de as tentar compatibilizar, já que, como é evidente, se só podemos ver as aparências, e estas supostamente iludem, então não faria muito sentido acreditar precisamente nisso, não é verdade?!

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