26 de junho de 2011

A crença básica de Plantinga

Acabo de publicar o artigo "A Epistemologia Reformista de Plantinga", de Domingos Faria.

7 comentários:

  1. Ora aqui está um excelente artigo de filosofia da religião: inteligente, lúcido, informado, bem escrito, bem argumentado, criticamente imparcial... enfim, revelando todas as qualidades necessárias e suficientes para se fazer filosofia de qualidade. Temos filósofo! Dito isto, como era justo que se dissesse, e porque o artigo e a teoria que nele é analisada o justificam inteiramente, vamos agora ao que mais importa, ou seja, à discussão crítica dos problemas de fundo e das teses e argumentos que ali são apresentados para os resolver. Ora, talvez uma forma interessante de o fazer seja tomarmos a sério as questões para discussão que o próprio autor expressamente coloca no final do artigo, respondendo-lhes e solicitando a réplica daquele ou de quem quiser participar na discussão. Assim, uma vez que o autor decidiu não se comprometer filosoficamente, de forma explícita, nem com a aceitação das teses e argumentos da teoria de Plantinga nem com a sua rejeição, conseguindo manter uma posição criticamente imparcial na análise daquela (apesar de, subtilmente, parecer haver, no mínimo, indícios de alguma reserva crítica) e deixando a cada um a possibilidade de pensar por si e retirar as suas próprias conclusões, talvez a sua posição pessoal quanto ao valor filosófico da teoria pudesse ser explicitada mediante a resposta àquelas questões e o desafio para igualmente o fazer.
    Muito sinteticamente, não querendo exagerar na extensão do comentário e tentando evitar repetições e redundâncias em relação ao próprio artigo, diria apenas que, no que diz respeito à 1ª das questões para discussão (a 7ª na lista completa), a minha resposta é negativa, considerando-a devidamente justificada pelos 5 argumentos/objecções críticas que o autor apresenta no texto, já que estes me parecem, no seu conjunto, racionalmente mais fortes que os que procuram provar o contrário; quanto à 2ª das questões de discussão (a 8ª), diria que, uma vez rejeitado carácter apropriadamente básico da crença em Deus, essa questão, logicamente, já nem sequer se coloca. No entanto, se fosse esse o caso, e se por infundada ou gratuita não entendermos carente de uma explicação racional de âmbito psicológico, sociológico ou antropológico, mas sim carente de uma justificação racional suficiente capaz lhe assegurar um grau de probabilidade razoável, então também aqui a minha resposta tem de ser negativa, face ao exposto atrás; quanto à 3ª e última questão, responderia igualmente que não, que não é ética nem epistemicamente legítimo acreditar em Deus sem qualquer prova, argumento ou indício dignos desse nome, tal como não o será, provavelmente, em relação ao que quer que seja, sejam entidades naturais ou sobrenaturais, físicas ou metafísicas, com a agravante de a crença em Deus (no deus crstão ou teísta) postular a existência de um ser de tal forma extraordinário que desafia todos os nossos conceitos, intuições e experiências humanas, parecendo em aberta contradição com boa parte daquilo que existe e acontece, bem como com parte substancial do nosso conhecimento disso mesmo. Ora, como já foi dito, creio que pela mesma pessoa (o saudoso Carl sagan), se é verdade que ausência de prova não é prova de ausência, também é verdade que afirmações extraordinárias carecem de provas extraordinárias, logo, quando se quer sinceramente conhecer a verdade sobre o que quer que seja, não se pode nem se deve simplesmente acreditar sem qualquer prova, argumento ou indíco razoável, sob pena de nos tornarmos vítimas das nossas próprias ilusões e de aeitarmos como verdade aquilo que, pura e simplesmente, queremos que o seja.
    E o que pensam o autor e/ou os outros leitores?

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  2. Caro João Carlos,

    Obrigado pelo comentário! O texto que escrevi foi pensado essencialmente para leccionar a teoria de Plantinga nas aulas de filosofia da religião. Por isso, tentei ser imparcial quer na explicação da teoria, quer na apresentação das objecções, de modo a estimular o pensamento crítico dos alunos.
    Pessoalmente, às três questões de discussão tendo a responde “não”. Mas, e se existirem pessoas que têm uma experiência directa e imediata de Deus? Imaginemos que Adão e Eva foram pessoas reais que viveram no paraíso numa experiência directa e coloquial com Deus. Não teriam eles uma crença apropriadamente básica na existência de Deus? Não me parece logicamente impossível uma crença em Deus apropriadamente básica. Aliás, Adão e Eva não precisavam de argumentos, provas ou indícios, para crer de forma justificada na existência de Deus. No entanto, penso que as objecções são fortes e parecem desmontar a teoria de Plantinga – Mas, será que as objecções deitam por terra toda a teoria de Plantinga?. E, já agora, como responderia o próprio Plantinga a estas objecções??? (É algo sobre o qual estou muito curioso!).

    Mas, considero que existem também aspectos na teoria de Plantinga que acho plausíveis. Por exemplo, quando argumenta que o indiciarismo e o fundacionalismo clássicos são incoerentes... e por isso muitas críticas à crença em Deus (como a de Clifford) não funcionam.

    Uma questão. Pareces defender que só é razoável acreditar naquilo em que temos indícios ou provas. Mas, será que não existem algumas circunstâncias em que estamos justificados a acreditar em algo mesmo sem indícios? Por exemplo, acredito que estou a escrever num computador. Esta minha crença não é inferida de outras crenças ou indícios. Simplesmente limito-me a ver um computador e a escrever no teclado, e isso justifica a minha crença. Ou talvez não?!

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  3. Caro Domingos,

    Justificada que foi a imparcialidade e a ausência de uma posição crítica pessoal explícita na apresentação da teoria e respectivas objecções, e tendo agora ficado claro qual seria ela, vamos então aos possíveis pontos de discórdia entre nós ou em relação à teoria em si mesma: 1) Quanto à questão de saber se a possível existência de pessoas que tivessem uma experiência directa e imediata de Deus (Adão e Eva, na tua experiência de pensamento) funcionaria ou não como exemplificação ou argumento decisivo a favor da existência de uma crença apropriadamente básica em Deus, confirmando assim uma das premissas básicas da teoria em questão, julgo que tal hipótese, a verificar-se, em vez de resolver o problema, mais não faria do que deslocá-lo para outro lado, ficando nós com o problema de saber se essa experiência supostamente directa, imediata e coloquial, que alegadamente tais indivíduos teriam ou pretenderiam ter de ou com Deus, seria verdadeiramente uma experiência directa, imediata e coloquial da entidade objectivamente existente chamada Deus, e não uma experiência ilusória, delirante ou alucinada de uma entidade apenas subjectivamente existente com o mesmo nome e características da primeira, mas em todo o caso ficando nós sem saber se possuíam ou não verdadeiramente uma crença apropriadamente básica na existência de Deus, que era afinal o problema de onde originalmente tínhamos partido. Dir-me-ás, porventura, que tal crença não seria básica para nós, que não a temos, mas sê-lo-ia para eles, que a têm. Pois, só que isso não nos dá qualquer razão válida para acreditarmos nela, uma vez que não passaria de uma experiência privada, fosse ela individual ou colectiva, a que só teriam pretensamente acesso aqueles eleitos que pudessem participar dela. Além disso, o facto de não te parecer logicamente impossível uma crença apropriadamente básica em Deus não prova por si só que ela seja de facto possível, nem mesmo que, caso ela não seja logicamente impossível - por não conter necessariamente qualquer contradição formal -, que tal implique que o seja real ou cognitivamente, isto é, que tal possibilidade lógica seja também epistémica, física e metafísica. Ironizando um pouco, é claro que Adão e Eva - enquanto entidades mítico-literárias ou ficcionais - não precisavam de provas, argumentos ou indícios para crer de forma justificada na existência de Deus, nós é que precisamos desses argumentos, provas ou indícios para crer na existência real deles e do ser de que supostamente teriam uma experiência de tal forma directa e imediata que dispensaria aqueles. Porém, não é necessário recorrer a exemplos imaginários para ilustrar esse ponto, uma vez que desde sempre, e até hoje, que pessoas reais alegaram ter essa experiência directa, imediata e coloquial com a divindade, desde os simples crentes durante a oração, até aos místicos e santos de todos os tempos, ficando aqueles a quem tais experiências são inacessíveis com o problema de saber se as mesmas são ou não epistemicamente válidas, assegurando verdadeiramente a existência objectivamente independente do ser a que supostamente se referem, ou se, pelo contrário, são cognitivamente duvidosas e não oferecem qualquer garantia objectiva do que afirmam ou pressupõem. Não alegava o ex-presidente americano, George W. Bush, que conversava pessoalmente com Deus? Quem sabe até se não terá recebido ordens directas do seu interlocutor priveligiado para invadir o Iraque, não é verdade?! (continua)

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  4. (cont.) De qualquer modo, como é óbvio, o facto de haver hoje, ter havido no passado e, seguramente, continuar a haver no futuro muita gente que diz ter (e se calhar até tem) uma experiência directa, imediata e coloquial com Deus (ou com os deuses, ou com o seu Deus) não significa, em primeiro lugar, que isso revele uma crença apropriadamente básica e verdadeiramente justificada na existência objectiva dessa entidade (ou entidades), pois podem estar todos enganados e isso fazer simplesmente parte da loucura normal da humanidade, a qual, por ser mais ou menos universalmente partilhada, adquiriu a respeitabilidade própria das religiões; em segundo lugar, quer fosse ou não universal e objectivamente aceitável o valor de verdade de tais experiências, elas funcionariam sempre para os seus sujeitos como prova ou indício decisivo a favor da existência do divino, que nessa experiências se revelaria como evidência subjectiva; portanto, nesse sentido, até mesmo Adão e Eva, ou quem com eles comunga de experiência semelhante, precisariam de facto de provas ou indícios da divindade, correspondendo eles(as) à própria experiência e ao seu conteúdo supostamente verdadeiro, tal como eles a interpretariam, quer dizer, atribuindo ou reconhecendo a existência real do ser que experienciariam. Dir-me-ás, talvez, que não, que essa crença seria apropriadamente básica, na medida em que derivaria directamente de uma experiência, fosse ela sensorial, psíquica ou espiritual (mística); mas, pergunto-te eu, se não é precisamente tarefa fundamental da filosofia pôr em causa essas supostas crenças apropriadamente básicas, seja qual for o seu modo de geração, interrogando o seu valor de verdade e a legitimidade epistémica de as aceitar inocentemente como válidas. Será que cada um de nós tem o direito racional a tomar como garantidamente verdadeiras todas as crenças que lhe surgem subjectivamente como evidentes em si mesmas, chamando-lhes apropriadamente básicas e, logo, como virtualmente justificadas por si mesmas, dispensando assim qualquer exame crítico ulterior, nosso ou de outrem, que pudesse colocar em dúvida a sua veracidade ou basicidade? Então e os nossos sentidos, sentimentos, emoções, pensamentos ou intuições são infalíveis, por acaso? Devemos acreditar em tudo aquilo que vemos, sentimos, ouvimos ou pensamos, ou, pelo contrário, temos boas razões, isto é, uma infinidade de provas, argumentos e indícios, para duvidar da nossa infalibilidade cognitiva? O facto de uma crença não ser derivada de outras crenças, seja lógica, epistémica ou psicologicamente, não implica que ela seja racional e verdadeiramente justificada em si mesma, pois também pode derivar do desejo ou da necessidade de acreditar naquilo que se quer que seja verdade. Para além disso, é discutível que uma experiência do divino, seja qual for a natureza dessa experiência, não derive parcialmente, ou seja completamente independente de outras crenças porventura mais básicas, nomeadamente a crença de que aquilo que se vê, ouve, pensa ou experiencia de alguma forma, é verdadeiro e merece crédito por isso mesmo. É claro que, para responder às tuas últimas perguntas de forma algo paradoxal, quando me perguntas se existem ou não circunstâncias em que estejamos racionalmente autorizados a acreditar em algo mesmo sem indícios a favor, não me custa muito responder-te, condicionalmente, que talvez sim, mas teria imediatamente de te perguntar o que é que exactamente deve contar como indício, prova ou argumento favorável a essa crença. (continua)

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  5. (conclusão) Quanto ao exemplo que me dás, que poderia aplicar ao meu próprio caso agora, não tenho grandes dúvidas em aceitar como verdadeira a crença de que estou a escrever num computador, pelo simples facto de estar a ter essa experiência, mas, por outro lado, eu dou crédito real a essa experiência porque sei que existo, que estou acordado, que os meus sentidos normalmente não me enganam (pelo menos de forma tão clamorosa), que não estou doido (acho eu!), etc, etc, etc. Portanto, mesmo essa crença que parece tão básica, tão apropriadamente básica, depende, para ser creditada como verdadeira, de outras crenças que a tornam mais plausível e digna de crédito, sendo provavelmente o conjunto delas e das experiências que as suportam que justifica o seu realismo ou veracidade. Por outro lado, será pertinente a analogia da crença na existência Deus com a crença de que estou a escrever num computador? Enquanto qualquer outra pessoa pode verificar que estou, de facto, a escrever num computador, goste ou não de computadores e acredite ou não previamente em mim, já a crença em deus é "ligeiramente" mais difícil de autenticar como verdadeira, uma vez que parece depender das crenças prévias, pró ou contra, de quem as certifica, o que parece impossibilitar a existência ou, pelo menos, tornar mais difícil o reconhecimento de um critério verdadeiramente imparcial de decisão quanto ao valor epistémico de tais experiências.
    Assim, em jeito de conclusão, que o comentário já vai longo, quero apenas terminar por te dizer que me parece razoável pensar que, ainda que o grau de aceitabilidade racional de uma crença não possa ser determinado de forma infalível por um critério absoluto e evidente em si mesmo, como pretendia o fundacionalismo clássico, não resistindo este à sua própria critica ao fazer de si mesmo, incoerentemente, uma excepção injustificada à regra que ele próprio institui, isso não significa que o fundacionalismo não possa ele próprio ser reformado de modo a acomodar a critica de auto-refutação que lhe é feita, tornando-o não evidente em si mesmo, para poder funcionar como uma crença apropriadamente básica, mas sim como logicamente inferível, indutiva ou abdutivamente, como melhor princípio disponível de prudência heurística e epistémica, historicamente testado e cognitivamente seleccionado como o mais apto a lidar com a nossa falibilidade cognitiva essencial.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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