4 de julho de 2011

Direito ao suicídio

Na sequência da publicação do livro A Morte, de Maria Filomena Mónica, a Fundação Francisco Manuel dos Santos promove a partir de hoje e até ao próximo dia 8, um debate online sobre o tema, com intervenções da autora, da médica Isabel Galriça Neto e minhas. Todos estão convidados.

12 comentários:

  1. Não conheço nenhuma razão moral que possa impedir uma pessoa que não tenha assumido responsabilidades em relações a terceiros a cometer suicídio. Isto independentemente dessa pessoa estar ou não estar em grande sofrimento.

    Pedro S. Martins

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  2. Eu conheço várias. Por exemplo, um cristão argumenta que a vida é dádiva de Deus, pelo que é imoral da nossa parte cometer suicídio: a nossa vida é pertença de Deus. E no Fédon Sócrates argumenta de modo semelhante, ao responder à objecção de que se a vida além morte é assim tão boa quanto Sócrates a pinta, então o melhor a fazer seria todos cometermos suicídio.

    Além disso, quando a pessoa que quer cometer suicídio não pode fazê-lo e precisa de ajuda, muitas pessoas rejeitam 1) que os outros tenham obrigação moral de o ajudar ou, mais radical, 2) que seja moralmente permissível que os outros o ajudem a morrer.

    Afirmei apenas que conheço várias razões morais para rejeitar a permissibilidade do suicídio. Outra coisa é saber se estas são boas razões.

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  3. Quando alguém diz que a vida é uma dádiva de Deus está a argumentar? Qual é o argumento?

    Eu posso acreditar que vida é uma dádiva dum elefante com sete cabeças e dezoito patas e que esse elefante não se importa nada que deitemos fora a sua dádiva. Posso até acreditar que esse elefante exige que deitemos fora a sua dádiva no dia em que fizermos 33 anos e 33 dias. Isto é argumentar? Isto é apresentar razões morais?

    Não acho que todas as pessoas tenham obrigação moral de o ajudar, mas isso não contradiz o que eu afirmei.

    Por outro lado, não conheço nenhuma razão moral que impeça que outros, se assim quiserem proceder, o ajudem a morrer.

    Pedro S. Martins

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  4. Sim, está a argumentar. Outra coisa diferente é saber se é um argumento cogente. Mas mesmo um argumento que não é cogente tem de começar por ser um argumento. Mesmo um mau pintor tem de começar por ser um pintor.

    Eu sei que popularmente se diz, perante um carro muito mau, que nem chega a ser um carro. E por extensão diz-se perante um argumento muito mau que nem é um argumento. Mas isto é uma maneira enganadora de falar. Tudo o que se está a afirmar é que se trata de um carro superlativamente mau, ou de um argumento superlativamente mau.

    Por outro lado, quando temos convicções profundas, como a convicção profunda de que Deus não existe, não é uma ideia particularmente generosa considerar que as convicções profundas de sentido contrário são de tal modo tolas que nem vale a pena levá-las a sério.

    Quem tem a convicção profunda de que uma dada divindade existe, poderá ter razões (boas ou não -- isso é outra história) para repudiar o suicídio. E a verdade é que o suicídio era proibido até há relativamente pouco tempo, na Europa, e os suicidas não podiam receber os ritos funerários comuns.

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  5. Está certo, existem argumentos que poderão ser ou não cogentes.

    Alguém me pode indicar um argumento cogente?

    Eu não defendo que as convicções profundas dos cristãos não merecem consideração. Considero-as crenças não justificadas e como tal sem lugar numa discussão racional. Daí até considerá-las tolas (desprezíveis) vai uma enorme diferença. A religião desmpenha um papel importantíssimo na vida de muitas pessoas e, ao contrário de alguns ateus, não estou nada convencido que seja uma boa ideia tentar que todas elas abandonem as suas crenças.

    O suicídio era proibido até há pouco tempo. E daí? Calculo que em muitos países ainda seja. Não percebo o argumento.

    Pedro S. Martins

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  6. Não conheço qualquer argumento que me pareça cogente a favor da impermissibilidade do suicídio. Mas Kant argumenta contra o suicídio na Fundamentação, Platão no Fédon e a posição comum até há não muito tempo era que a vida era uma dádiva de Deus e seria uma ofensa a Deus cometer suicídio.

    Nem todas as crenças dos cristãos são crenças não justificadas. As justificações que alguns filósofos teístas têm a favor da existência de Deus são mais articuladas, convincentes e rigorosas do que as que as pessoas comuns têm a favor da sua crença na existência do mundo exterior.

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  7. "Não conheço qualquer argumento que me pareça cogente a favor da impermissibilidade do suicídio. Mas Kant argumenta contra o suicídio na Fundamentação, Platão no Fédon e a posição comum até há não muito tempo era que a vida era uma dádiva de Deus e seria uma ofensa a Deus cometer suicídio."

    Discutir o suícídio assistido e mais não sei o quê, sem que me apresentem um argumento cogente a favor da impermissibilidade do suicídio (de alguém sem responsabilidades assumidas em relação a terceiros e sem estar em sofrimento), parece-me interessante, mas não tão interessante como saber por que é que uma pessoa não tem o direito de se suicidar.

    Certo, Kant, Platão e, se calhar, o Zeca das Abróteas argumentaram contra. Óptimo. Argumentos cogentes, há algum? Se houver, elucidem-me por favor.

    "Nem todas as crenças dos cristãos são crenças não justificadas. As justificações que alguns filósofos teístas têm a favor da existência de Deus são mais articuladas, convincentes e rigorosas do que as que as pessoas comuns têm a favor da sua crença na existência do mundo exterior."

    Certíssimo, nem todas as crenças dos cristãos são crenças não justificadas. Graças a ti, eu conheço um dos melhores filósofos teístas. Não me convenceu, mas o problema pode ser meu.

    Repito, tudo o que peço é algo muito simples: um argumento cogente a favor da impermissibilidade do suicídio.

    Acho estranho que se discuta se uma pessoa em grande sofrimento tem direito ao suicídio assistido, sem que antes se discuta se uma pessoa nas condições que indiquei tem direito ao suicídio.

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  8. Os debates que a uns parecem interessantes, a outros parecem desinteressantes. Muitas pessoas pensam que o suicídio não é permissível. Isso é suficiente para que um debate sobre tal coisa faça sentido. O que conta é haver quem pensa que há argumentos cogentes contra a permissibilidade do suicídio.

    De modo semelhante, não há, presumivelmente, argumentos cogentes contra a igualdade política das mulheres. Mas no séc. XIX havia na Europa quem pensasse que havia tais argumentos, e foi por essa razão que outras pessoas, como J. S. Mill, argumentaram detidamente a favor da igualdade política das mulheres, procurando mostrar que os argumentos contrários não eram cogentes.

    E em qualquer dos dois casos, a conversa começa mal quando uma das partes declara logo de início que a outra é tola por crer no que é obviamente falso, ou por não crer no que é obviamente verdadeiro. O óbvio de uns é o contestável de outros.

    A liberdade de debate serve precisamente para contrastarmos os nossos óbvios e contestáveis, para aprendermos a ver as coisas do modo como os outros as vêem, comparando o que eles pensam com o que nós pensamos, analisando argumentos cuidadosamente. Pode ser que no fim não sejamos capazes de concordar; mas se discutirmos de boa-fé, ganhamos uma compreensão mais profunda, e menos arrogante, das várias posições em confronto.

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  9. Concordo com tudo o que escreveste, mas não sei se me terei explicado bem, porque o que escreveste não me parece uma resposta ao que eu escrevi.

    Era precisamente por estar interessado em discutir o tema que eu tinha pedido que me indicassem um argumento cogente a favor da impermissibilidade do suicídio nas condições que indiquei.

    P.S.Martins

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  10. NÃO DESEJO O MEU MAU A NINGUÉM...

    OLA!SOU UMA JOVEM DE (26ANOS) DE PE... É MUITO BOM SABE. AS PREVENÇÕES CONTRA O SUICÍDIO...POIS SEREI MUITO DISCRETA. NO MEU ATO"DE SUICIDA"SOU UMA INÚTIL, UM PESO NA VIDA DE TODOS...CANSEI AGORA É TARDE!!!ESCREVI UM CARTA DE DESPEDIDA..SERÁ MELHOR PRA TODOS...NÃO VOU FAZER FALTA NESSE MUNDO.

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  11. Escrevi um texto sobre o suicídio depois que um amigo querido se matou:

    http://conversasemonologos.wordpress.com/2011/10/19/o-direito-ao-suicidio/

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  12. O debate online sobre este assunto pode encontrar-se aqui: http://ffms.pt/debate/766/podemos-decidir-sobre-a-nossa-morte

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