30 de julho de 2011

Filosofando?

Acabo de publicar aqui a recensão de Sérgio R. N. Miranda do livro didáctico Filosofando, de Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins.

13 comentários:

  1. Concordo em grande parte com as críticas realizadas ao Filosofando. Particularmente com a apresentação do que é Filosofia e com a ausência de textos complementares adequados. Também acrescentaria que algumas unidades têm capítulos em excesso, alguns dos quais absolutamente desnecessários (como o capítulo sobre a construção da consciência moral que não passa de um estudo do pensamento psicológico de Piaget e Kolberg).

    Eu gostaria de oferecer uma explicação para sua 4a. edição:

    1) É o manual mais completo dentre os disponíveis para o público brasileiro (por mais incrível que seja, é o único com capítulos sobre lógica que permite minimamente trabalhar com a noção de premissas e conclusão, com o estudo do silogismo e com lógica proposicional)

    2) Faltam alternativas melhores (vejam as outras opções do PNDL) Para efeito de comparação, basta olhar o tipo de exercício do livro Filosofia (Marilena Chauí) ou do Fundamentos da Filosofia (Gilberto Cotrim) - são apenas uma lista de itens a serem identificados no texto. O Filosofando pelo menos estabelece a possibilidade de pensar.

    3) O programa de filosofia das escolas brasileiras também segue a pragmática dos vestibulares. É preciso oferecer ao aluno o que é cobrado nos exames. Infelizmente, em vários casos (incluindo Universidades Federais) o que se exige do aluno é conhecimento de história da filosofia.

    4) O livro reflete o tipo de formação que as Universidades e Faculdades de Filosofia oferecem ao estudante brasileiro de graduação em Filosofia. Não preciso mencionar aqui a subserviência intelectual aos "grandes" filósofos europeus e a predominância da história da filosofia, carência de formação lógica e ausência quase absoluta da tradição analítica.

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  2. Aproveitando o assunto, gostaria de fazer uma indicação de uma edição brasileira de um livro de divulgação de filosofia. O livro é o "Guia Ilustrado Zahar: Filosofia", do Stephen Law. Essa edição brasileira é uma tradução do "Eyewitness Companions: Philosophy".

    O livro é bem convidativo ao leitor (muitas imagens e citações espalhadas pelo texto), e ao mesmo tempo parece ser algo de excelente qualidade. Ele começa com uma breve introdução histórica e depois é todo temático, passando por epistemologia, metafísica, ética, filosofia da mente, filosofia da religião, filosofia política, filosofia da ciência e algo de pensamento crítico.

    O autor também parece bem competente. O Stephen Law é da Universidade de Londres e trabalha muito com divulgação filosófica. Não li de capa a capa esse livro, mas já li outros textos dele, e achei que são muito bons. Os textos costumam ser divertidos e muito competentes (e.g. http://stephenlaw.blogspot.com/2007/03/whats-wrong-with-gay-sex.html ).

    Penso que valeria a pena se alguém se animasse em fazer uma resenha desse livro. A principio, parece uma excessão à péssima bibliografia introdutória brasileira.

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  3. Um excerto desse livro, que está também publicado em Portugal, está aqui.

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  4. Tiago, quanto ao ponto 4 do seu interessante e informativo comentário, é preciso traçar uma distinção clara entre história da filosofia e historietas da filosofia.

    A história da filosofia, bem feita, não pode ser a) mencionar de longe aspectos culturais e contextuais dos autores, nem b) comentários gratuitos sobre o pretenso facto de o filósofo ser um mero reflexo do seu tempo, qual marioneta da história, nem c) jogos de palavras com base em palavras usadas pelos filósofos.

    Bem feita, a história da filosofia envolve a) a formulação rigorosa dos problemas, teorias e argumentos dos filósofos, b) análise rigorosa das suas ideias e c) apresentação rigorosa dos conceitos filosóficos centrais no pensamento de um dado autor.

    Uma das maiores mentiras académicas é a confusão permanente entre a história da filosofia e as historietas da filosofia. Citação esdrúxula, comentário gratuito, associação livre de palavras, cultura geral, mera repetição e paráfrase do texto original, sintaxe convoluta e vocabulário recôndito não devem ser confundidas com história da filosofia bem feita.

    Assim, eu não concordo que o livro reflicta a predominância da história da filosofia na formação dos colegas, mas antes a falta gritante de uma boa formação em história da filosofia. Mas, claro, tal como é impossível fazer boa história da medicina sem saber coisa alguma sobre medicina, também não é possível fazer boa história da filosofia sem saber filosofia.

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  5. Caro Desidério. De fato, não me referia à história da Filosofia como algo de menor importância nos cursos de formação filosófica do Brasil. Penso que uma visão histórica da filosofia é fundamental para compreensão de vários problemas e tentativas de solução dos mesmos por filósofos da tradição ocidental. Por isso concordo com sua ponderação.

    Eu me referia à falta de capacidade de formulação de problemas centrais, de análise crítica e de certa audácia intelectual para não ficar somente repetindo filósofos consagrados. Os graduandos não são incentivados ao menos a investigar se os filósofos preferidos de seus professores conseguiram chegar perto de uma solução para os problemas que se propuseram.

    Tendo conhecido da filosofia apenas a repetição de teses tradicionais, sem discuti-las, sem analisar os argumentos, sem propósito sincero de investigar os problemas (ou historieta da filosofia, como quiser), é até injusto esperar que os egressos dos cursos de graduação ofereçam a possibilidade de pensamento filosófico aos alunos do ensino médio.

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  6. Além do excelente livro de Stephen Law, temos no Brasil "Uma breve introdução à filosofia" de Thomas Nagel.

    Na linha do aprender fazendo, também gosto muito do "As ferramentas dos Filósofos" de Julian Baggini e Peter S. Fosl (Edições Loyola). Trata-se de um compêndio de metodologia filosófica para ser lido como um todo ou apenas consultado por assunto.

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  7. Essa resenha chega num momento oportuno, e seria importante que tivéssemos também resenhados os demais livros selecionados para distribuição para os estudantes brasileiros do ensino médio.

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  8. Caro Marcelo, a Crítica está sempre de portas abertas para receber recensões de livros didácticos de filosofia. Mas só posso publicar o que me enviam, não posso inventar as recensões do nada!

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  9. Caro Tiago, concordo que é um pouco injusto exigir que os estudantes do ensino médio, ou da graduação, façam o que muitos professores universitários são incapazes de fazer, dada a formação deficiente que tiveram. Isso pode até provocar um certo azedume entre colegas.

    Mas deixe-me apresentar uma perspectiva construtiva: com boa vontade, todos podemos tentar fazer melhor, sabendo que teremos feito um bom trabalho se os nossos alunos fizerem melhor do que nós. Assim, apesar de a formação originalmente recebida ter deixado muito a desejar, podemos ao mesmo tempo ter a bonomia de tentar que os nossos alunos não tenham o mesmo azar do que nós, e podemos, a pouco e pouco, muito modestamente, ir alargando as nossas leituras e o nosso estudo, ficando a pouco e pouco a par do que se publica e discute por esse mundo fora, em vez de ficarmos limitados às bibliografias nos nossos professores, muitas vezes exclusivamente em português, desconhecendo o que emana dos mais importantes centros de estudo do mundo e das mais importantes casas editoras do mundo. Em suma, podemos todos esforçarmo-nos por sair do provincianismo bibliográfico que recebemos dos nossos professores, para que possamos dar aos nossos alunos uma formação melhor do que a que tivemos.

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  10. Esta esclarecedora recensão fez-me pensar nos manuais de filosofia portugueses. Não sei há quanto tempo existe este manual, mas parece-se muito com os manuais de Portugal, revelando as mesmas fraquezas e os mesmos defeitos. Até o grafismo aqui descrito é semelhante ao dos manuais. Pensei que só por cá se viam manuais assim, tão inúteis quanto exuberantes. Felizmente as coisas parecem estar a melhorar por aqui.

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  11. Eu tenho esse livro: eu o li quando estava no ensino médio e fiz os exercícios de cada um dos seus 41 capítulos. O meu livro está caindo aos pedaços e não sei dizer qual é a edição, mas pela recensão do Sérgio me pareceu óbvio que as autores pioraram muito um livro que já era ruim.

    Outro manual péssimo que não recomendo a ninguém é o "Convite à filosofia", de Marilena Chauí. Se me lembro bem, na edição que vi tinha um erro grosseiro ao apresentar o quadrado lógico de Aristóteles. Foi outro livro que li avidamente quando não fazia idéia do que é um manual minimamente sério.

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  12. Concordo que o "Guia Ilustrado", de Law, é um suspiro em meio a tantas obras obsoletas utilizadas no Ensino Médio no Brasil. Acrescentaria apenas minha impressão de que a parte dedicada à lógica (no que diz respeito aos raciocínio dedutivos) é consideravelmente menor do que o que acredito ser o ideal. Ainda assim, me parece muito melhor que a abordagem da Chauí, que dedica mais espaço ao tópico mas contém (ou continha, ma minha velha edição) alguns erros preocupantes.

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  13. Acho essa análise do "Filosofando" válida. Só queria ver uma disposição maior para produzir e indicar meios para se criar um material de qualidade, em vez de escrever um texto que só repete o óbvio. Na Universidade cansei de ver professores que criticavam materiais de "divulgação da filosofia" mas a única coisa que produziam eram artigos clichês publicados de 2 em 2 anos em alguma revista qualis B5.

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