3 de julho de 2011

Livros ou calhamaços?

Já tenho aqui protestado contra a falta de qualidade que se encontra com demasiada frequência no panorama editorial português, seja pelo desleixo das traduções, pela ausência de verdadeiras revisões científicas ou até pela adopção de convenções editoriais e académicas ultrapassadas. Mas poderia também falar da própria qualidade física dos livros: encadernação, impressão, tipo de papel, etc. Também aqui as coisas deixam muito a desejar e também aqui temos de começar a ser um pouco mais exigentes.

A propósito dos meus anteriores protestos, um amigo e colega dizia-me há dias que concordava comigo, acrescentando que só se safavam mesmo as edições da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), as da Imprensa Nacional - Casa da Moeda (IN-CM) e pouco mais.

Ora aí está algo de que discordo. Imagino que a FCG e a IN-CM imponham muito respeitinho, mas também aqui temos de olhar para a realidade em vez de nos curvarmos acriticamente perante siglas tão veneráveis. A verdade é que muitas obras publicadas por essas editoras padecem dos mesmíssimos defeitos que aqui tenho apontado. E nem sequer a qualidade física dos livros destas duas editoras é melhor do que a das outras. Pelo contrário, creio mesmo que a qualidade física dos livros destas editoras está abaixo da média nacional. 

Basta pensar na encadernação dos livros da IN-CM, que talvez seja muito boa, desde que não se usem muito e se deixem intocáveis na estante. Mas se os abrirmos e folhearmos várias vezes (o que é normal, sobretudo com livros que estudamos e consultamos repetidamente), corremos o risco de ficar com um ou outro caderno na mão. Por sua vez, os da FCG nem sequer se conseguem manter abertos a não ser com a ajuda de pesos e contrapesos. 

Mas se falarmos da qualidade da impressão e do papel, as coisas não melhoram. A impressão é quase sempre suja, fazendo lembrar os jornais antigos, que eram feitos com as velhas chapas de impressão. O papel, sobretudo o das edições da FCG, é demasiado duro (cortante, por vezes) e chega a parecer papel almaço. O resultado é tornar livros normais em verdadeiros calhamaços, pesados e volumosos. Em ambos os casos os livros ficam rapidamente velhos e as folhas com manchas de fungos, como se pode ver nas fotos. É verdade que qualquer livro envelhece e isso tem de se notar, mas estes envelhecem demasiado depressa. 

Mas termino com algo que é simplesmente incompreensível em edições que se pretendem academicamente irrepreensíveis. O leitor que procure algumas das informações mais básicas sobre o livro, como por exemplo a data de publicação, não terá a sua vida facilitada. E isto verifica-se quase só nestas duas editoras. 

8 comentários:

  1. Olá Aires,
    No que respeita às edições da CG e INCM esrtou de acordo. Nunca gostei, aliás. Mas não concordo de uma forma geral já que há melhorias notáveis na maioria dos livros que hoje em dia se comercializam em POrtugal. Só para pegar em alguns exemplos que tenho aqui em cima da mesa: Se por um lado a edição recente do Peter Singer na Filosofia Aberta da Gradiva deixa a desejar, como toda a colecção, com papel de qualidade sofrível, que envelhece rápido e com umas capas do século passado, por outro lado, da mesma editora, tenho aqui o volumoso livro de Álvaro Santos Pereira que é um pedaço de folhas que dá gosto ter na mão. São mais de 550 pp que podes manusear à vontade sem medo que o livro se rasgue. Uma boa edição, portanto. Em termos físicos temos já livros com muitíssima boa qualidade. Aqui há uns anitos sim, qualquer livro que comprássemos corria o risco de se abrir ao meio ou descolar todo. Claro que se juntarmos "qualidade física" com "qualidade técnica" é quase certo encontrar falhas na esmagadora maioria dos livros e, aí sim, concordo contigo.

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  2. "sem medo que o livro se rasgue. " queria dizer "sem medo que o livro se quebre ao meio descolando, por exemplo, ou soltando cadernos"

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  3. Uma coisa que me chama atenção é a qualidade do trabalho artístico das capas das edições em língua portuguesa. Como se não bastasse traduzir mal, muitas vezes colocam capas ridículas se comparadas ao original. Compare, por exemplo, a capa do original "Consciousness and Language" http://www.amazon.com/Consciousness-Language-John-R-Searle/dp/0521597447/ref=sr_1_4?s=books&ie=UTF8&qid=1309695162&sr=1-4 com a versão em português do Brasil "Consciência e Linguagem" http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=22170031&sid=62497119713427335845536418&k5=2DCB2BA7&uid=

    Eu sei que a ilustração da capa não é o elemento mais importante do livro, mas é um elemento estético importante.

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  4. Já agora aproveito para falar de um pequeno pormenor que me parece negligenciado por muita gente. Se estivermos numa biblioteca só com livros ingleses, é uma beleza: na lombada, todos os títulos estão impressos na mesma direcção. Mas no caso dos livros portugueses, cada lombada de cada livro é à sua maneira, o que obriga a uma ginástica constante do pescoço.

    A regra inglesa é muito simples: colocando o livro em cima de uma mesa, com a capa para cima, as letras da lombada devem estar de pé e não de cabeça para baixo. Já nos livros portugueses cada qual faz como quer. Resultado: as estantes parecem um circo.

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  5. Rolando, claro que as coisas estão bastante melhor do que já estiveram. Não era isso que estava em causa. Para te dar alguns exemplos de livros com qualidade (incluindo as capas, Matheus) há as mais recentes edições dos livros do Scruton em português: Beleza (Guerra e Paz) e As Vantagens do Pessimismo (Quetzal). E poderia dar muitos outros de diferentes editoras. Mas a qualidade média é baixa e a da FCG e da IN-CM ainda pior (isto não se aplica a todos os livros dessas editoras, claro). E também poderia dar exemplos de livros com pouca qualidade em inglês: O Naming and Necessity (Blackwell) é uma miséria.

    Mas parece que discordamos relativamente à qualidade da impressão, papel, etc. da colecção Filosofia Aberta. Creio que tanto o papel, como a impressão, a encadernação e até o tamanho da fonte são muito bons. Mas pronto, eu aqui sou suspeito, apesar de nada ter que ver com esses aspectos.

    Já agora, Matheus, por estranho que pareça (mesmo para mim próprio) já deixei de comprar livros por causa da capa. Estou a lembrar-me de uma edição de Lolita, do Nabokov, com uma capa tão incrivelmente parva, que não fui capaz de comprar.

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  6. Foi bem lembrado o "Naming and Necessity", Aires. A qualidade daquele papel reciclado e daquela capa é uma vergonha, ainda mais para um clássico da filosofia.

    Eu também discordo do Rolando no que diz respeito à qualidade do material dos livros da coleção "Filosofia Aberta": me parecem muito bons, o papel e a impressão. Só não gosto das capas.

    Eu já cortei meu dedo com o "Principia Ethica" da edição da Calouste, que tem uma tradução muito mal feita também.

    Uma edição muito gostosa de ler foi do livro do Desidério: "Pensar outra vez". Se os outros livros da editora Quasi estiverem no mesmo nível de qualidade, estão de parabéns.

    O engraçado é que para algumas pessoas basta que o livro tenha capa dura, seja enorme (de preferência se for bilíngüe e cheio de notas de rodapé), e muito caro, para que seja uma boa edição. Nenhum desses fatores que mencionamos acima importa.

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  7. Aires,
    Sim, tens razão. A Filosofia Aberta melhorou muito. Trata-se de uma colecção já com largos anos. Os primeiros volumes não eram tão bons. Tive de comprar duas vezes o Newton Smith, mas é verdade que a qualidade dos livros melhorou ao longo dos anos. O exemplo não foi o mais feliz.

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  8. A Quasi fazia muitos livros muito bem feitos e esteticamente apelativos. Infelizmente, faliu. Mas o mesmo género de elegância e qualidade física encontra-se hoje em algumas editoras portuguesas; mais do que há uns anos. O livro do Rowe ficou excelente, tanto física como esteticamente.

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