15 de julho de 2011

Philosophy TV

Não é nada mal poder dar uma espiada em conversações filosóficas de alto nível e é exatamente isto que o site Philosophy TV nos oferece: uma espiada em conversas de filósofos como Alvin Goldman, Graham Priest, Roy Sorensen, Don Marquis, Michael Tooley, Roger Crisp, Peter Singer, Michael Slote, entre outros. O site já contém mais de trinta conversações sobre problemas como o relativismo moral, a desobediência civil, o terrorismo, o aborto, o problema do livre-arbítrio, o realismo científico, as lógicas desviantes, o papel das intuições na filosofia, a meta-metafísica e a causalidade. É um bom site para quem se interessa por boa filosofia.

6 comentários:

  1. Uma coisa curiosa com o Singer é esta: perante a objecção de que o utilitarismo tem implicações práticas muito contra-intuitivas, responde que as intuições morais não são para levar a sério. Mas depois, sempre que discute esta questão da obrigação de ajudar, expõe o exemplo do criança no lago, apelando às nossas intuições morais sobre que deveríamos fazer nesse caso.

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  2. Pedro,

    eu concordo com você que o Singer tende a ser arbitrário nesse ponto. É até bom ver um eticista aqui no blog criticando o Singer, caso contrário os mais incautos podem cair no erro de pensar que ele é a voz da verdade na ética. Eu tenho a impressão de que não só o Singer, mas muitos utilitaristas (falo de pessoas que conheço pessoalmente) tendem a subestimar as objeções com suas justificativas consequencialista, como se fosse a coisa mais fácil do mundo passar por cima de todas as intuições. Ou simplesmente ignoram as intuições, como o Broad, ou propõem alguma desculpa mal feita com equilíbrio refletido.

    Eu não estou dizendo que o utilitarismo é incorreto, pois acredito em alguma versão do utilitarismo, mas sim que ele não é uma teoria tão invencível quanto algumas pessoas tendem a pensar – sobretudo quando não há especialistas da área por perto para criticá-los. É argumentável que o utilitarismo é muito exigente, aniquila a nossa motivação para agir eticamente, tem a consequência de que sejamos meios para os fins dos outros, etc, etc.

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  3. Talvez ele não seja arbitrário. Parece-me que Singer pensa realmente que o apelo a intuições morais sobre casos não serve para justificar (ou refutar) princípios morais. No entanto, ele sabe que, apelando às nossas intuições sobre casos como o da criança do lago, conseguirá persuadir-nos mais eficazmente. E por isso apela às nossas intuições. Será isto desonesto? Sim, é capaz, mas é o que devemos esperar de um autor consistentemente utilitarista: ele nem sempre vai escrever o que julga ser verdade; vai escrever o que julga que levará os seus leitores a adoptar as atitudes que promovem o bem. (No caso em apreço, a adoptar uma atitude mais benevolente em relação a quem vive em grande pobreza.)

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  4. Pedro, talvez estejas a ser um pouco injusto com Singer, tanto no teu primeiro comentário como no segundo. Não me parece incoerente ao sugerir que as intuições morais não são para levar a sério, mesmo quando recorre às nossas intuições morais no exemplo da criança do lago. O que se passa é que, para mostrar que as nossas intuições não podem ser o critério do que é moralmente certo e do que é moralmente errado, ele tem de recorrer às próprias intuições. É por isso que a analogia dele é esclarecedora: se as nossas intuições acerca da criança do lago não coincidem com as nossas intuições sobre a doação de parte do nosso rendimento para salvar pessoas que nunca vimos, é porque as intuições não podem ser o critério decisivo. Eu acho que o argumento do Singer é mais do tipo: se pensamos que é uma obrigação nossa salvar a criança do lago, então temos de pensar que é uma obrigação nossa fazer o equivalente para salvar pessoas que nunca vimos; e, conversamente, se pensamos que não é uma obrigação nossa salvar salvar o africano faminto, então é incoerente pensar que salvar a criança do lago é uma obrigação nossa . Ora, para a analogia se verificar, o critério da moralidade tem de ser estritamente utilitarista, dado que as intuições são divergentes. É por isso que Singer não se limita a dizer que, no caso da criança do lago, Singer não se limita a apelar para as nossas intuições. Pelo contrário, o que ele faz é justificar essa intuição com base nas consequências previsíveis.

    É verdade que Singer não se detém muito a explicar isso, pois parte do princípio de que as pessoas na verdade intuem facilmente que as consequências de não intervir para salvar a criança do lago são claramente mais graves do que as de intervir. Isto é como se a intuição funcionasse como detector de utilidade e não como princípio moral, se é que me consigo fazer entender.

    É também por isto que acho não estar a ser desonesto.

    Já o Michael Slote me parece ter alguma dificuldade em explicar como é que a empatia pode funcionar como critério de moralidade, sendo ele objectivista. Como Singer diz, e Slote reconhece, as nossas reacções empáticas são fenómenos psicológicos contingentes (resultantes da evolução, etc.). Ora, como podem fenómenos dessa natureza, contingentes e sujeitos à evolução, constituir o princípio objectivo da moralidade? Não estou a sugerir que não é possível, mas apenas que é muito difícil ver como. Aliás, a própria ideia da educação moral como uma espécie de educação sentimental, parece incompreensível se não soubermos por que razão havemos de ser empáticos.

    Bom, isto são apenas algumas ideias que me ocorrem depois de ver a conversa e de ler os vossos comentários.

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  5. Aires, o Singer é um adversário declarado da metodologia do equilíbrio reflectido. Quem adopta esta metodologia não toma as intuições morais como sacrossantas; toma-as apenas como um dos pontos de de partida da reflexão ética. Isso de pegar em intuições aparentemente em conflito e depois procurar princípios que nos levem a resolver o conflito ou a reconsiderar alguma das intuições é a essência da metodologia referida: que o Singer rejeita (mal, achou eu), mas que depois utiliza da forma que indicas. Se não há inconsistência, é porque o Singer, afinal, reconhece algum valor epistémico às intuições morais. Mas nunca o vi reconhecer isso, nem, vendo bem, discutir o assunto em pormenor. Seja como for, esta seria uma boa questão para lhe colocar.

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  6. É curioso observar que aquilo que deveria ser uma discussão académica equilibrada entre duas formas diferentes de abordar a pobreza (utilitarismo vs. sentimentalismo), se transforme em grande medida na defesa dos argumentos do P. Singer em função de todos os outros. E este fenómeno parece ser recorrente sempre o Singer participa em debates. Eu também não sou um utilitarista (embora admita que muitos dos meus comportamentos o são em função das suas consequências) mas admito que o pensamento do Singer desafia de tal forma as nossas intuições morais (o tal conflicto com o equilíbrio reflexivo, que o Pedro Galvão referiu) que damos por nós a tentar rebater os seus argumentos com mais força do que propriamente a defender os nossos. Por isso confesso que, neste vídeo, gostava de ter ouvido mais sobre virtudes e menos sobre utilitarismo...

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