29 de setembro de 2011

Confusão conceptual e naturalismo

Sou simpático às críticas de Williamson ao naturalismo contemporâneo: parece-me mergulhado em confusão conceptual e cientismo. Apesar de ter gostado do primeiro artigo que escreveu no NYT sobre o tema, não falei dele aqui porque não era tão bom quanto eu estava à espera. Mas agora tudo ficou em pratos limpos, na resposta de Williamson à resposta de Rosenberg ao seu artigo original. É uma leitura fundamental.

15 comentários:

  1. A argumentação de Williamson não me convence, mas a resposta de Rosenberg só piora tudo. O problema da argumentação de Williamson (em seu primeiro texto) é que ele supõe que os naturalistas defenderiam certas teses que não vejo sendo defendidas pelas melhores formulações do naturalismo, as formulações que realmente deveriam preocupá-lo.

    Por exemplo, Williamson diz que segundo o naturalismo só existiria aquilo que eventualmente pode ser descoberto pelo método científico. Isto é um anti-realismo esquisito (onde o que pode ser conhecido determina o que existe) que não é encontrado no naturalismo metafísico de, por exemplo, Armstrong. Neste caso do naturalismo metafísico a condição necessária para a existência é ser físico (ou, minimamente, ser espaço-temporal, sendo que dificilmente a física abandonará o que é espaço-temporal) e não poder ser descoberto como físico, pois o que é físico o é objetivamente.

    Williamson assume que o naturalismo envolve tal tese (que, se não é equivocada, certamente não é emblemática do naturalismo) e que uma saída para o naturalista seria, então, defender alguma concepção não muito restritiva do que conta como ciência: se torna um problema de demarcação. A conveniente flexibilidade do critério de demarcação naturalista seria o artigo de fé apontado por Williamson.

    Penso que Williamson esteja certo neste ponto, sobre o naturalista que defendesse tal coisa, mas ele parece ignorar totalmente naturalistas que não defendem o reducionismo epistêmico (o caso paradigmático é Fodor). Ora, se Armstrong e Fodor, naturalistas declarados e eminentes, não defendem aquilo que Williamson imputa ao naturalismo, então devemos ter suspeitas sobre aquilo que Williamson considera uma tese disseminada ou representativa do naturalismo.

    Williamson ataca consequências do que seria uma tese próxima do verificacionismo, algo que pode ser chamado de naturalismo metodológico, e pensa, equivocadamente, que este é todo o naturalismo que há para atacar. Não só o naturalismo não consiste apenas em tal tese como tampouco tal tese é sua melhor versão.

    Rosenberg não percebe tais questões e defende exatamente aquilo que Williamson considera naturalismo, e neste sentido Williamson está corretíssimo em sua crítica. Isto é, Rosenberg pressupõe que todo naturalista precisa defender que a ciência é a fonte mais fiável de conhecimento, algo que simplesmente não se verifica. Claro que o naturalismo coloca o conhecimento científico (especialmente o físico) no centro da cena, mas isto não é o mesmo que adotar um reducionismo grosseiro e auto-refutante.

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  2. Há muitas coisas erradas em muitas versões de naturalismo; o difícil é ver uma qualquer versão de naturalismo que não seja cognitivamente trivial, ainda que não o seja historicamente. Penso que uma pessoa é naturalista, no único sentido que me parece relevante, quando, perante relatos místicos de experiências pessoais que pretendem justificar com força máxima crenças que não há razão independente para pensar que são verdadeiras, exige que tais experiências sejam cuidadosamente avaliadas, com o objetivo explícito de ver se não serão ilusões. Isto não é historicamente trivial, mas é cognitivamente trivial. Não é historicamente trivial porque a história da humanidade tem sido feita e continua sendo feita de pessoas que protegem cuidadosamente as suas crenças mais queridas da avaliação cuidadosa e explicitamente crítica. Mas é cognitivamente trivial porque não há outra maneira de estudar realmente as coisas: o resto é vício intelectual.

    Ser naturalista no sentido de rejeitar quaisquer entidades que não tenham localização espácio-temporal parece-me dogmático, porque é dogmático rejeitar seja o que for sem bons argumentos. É tão dogmático quem rejeita a existência de entidades sobrenaturais, por exemplo, sem argumentos adequados, como quem as aceita igualmente sem argumentos adequados. E não interessa se tal rejeição é apenas metodológica. Um investigador é tanto mais virtuoso quanto mais se dispõe à revisão contínua e cuidadosa de todas as suas crenças e de todos os seus métodos.

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  3. Desidério,

    Não sei se compreendi bem tuas colocações. O único sentido relevante em que uma pessoa te parece naturalista é no caso de um naturalismo cognitivamente trivial? Se for assim, então você pensa que a questão do naturalismo ("O que é o naturalismo?") é mais um problema de história do que um problema com importância cognitiva e filosófica?

    Não entendo porque o único sentido que você considera relevante de naturalismo (o que sugere que você sabe da existência de outros sentidos) é exatamente aquele que é cognitivamente trivial.

    Sobre a rejeição da existência de entidades sem localização espaço-temporal, de fato é algo que pode ser dogmático, mas qualquer crença pode ser dogmática. O importante é que os defensores do naturalismo não a tomem como um artigo de fé, e isto eles não fazem, pois você encontra sem dificuldade os argumentos em defesa de tal tese: no artigo chamado "Naturalism, Materialism and First Philosophy" de Armstrong, por exemplo.

    Enfim, não vejo qualquer razão para aceitar que ou o naturalismo é uma tese cognitivamente banal ou é uma tese dogmática. Aliás, um detalhe importante aí é notar que o dogmatismo está nos proponentes, não na própria tese, e mesmo que alguns naturalistas sejam dogmáticos, isto dificilmente funciona como um argumento contra o próprio naturalismo.

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  4. Talvez eu esteja enganado, ou não me tenha exprimido claramente. É cognitivamente trivial, ainda que não historicamente, que devemos analisar com cuidado as nossas crenças, teorias e convicções. É epistemicamente vicioso proteger as nossas crenças mais queridas da crítica, pondo-as para lá da crítica paciente e imparcial.

    Se o naturalismo é a ideia de que devemos aceitar como plausíveis as teorias que são objeto de crítica cuidadosa e resistem a essa crítica, isso é cognitivamente trivial.

    Se o naturalismo é a tese específica de que, como afirma Armstrong, “a realidade consiste em nada mais a não ser um sistema espácio-temporal único omni-abrangente”, esta não é uma tese suscetível de prova científica, e nem sequer empírica. Ora, se o naturalismo defende, além dessa tese, que só os métodos da ciência e o conhecimento a posteriori são fidedignos, isto é pelo menos teoricamente instável, pois a própria tese do naturalismo não é o género de tese que possa ser estabelecida pela ciência e nem empiricamente: só pode ser estabelecida pelo raciocínio filosófico, a priori, que é exatamente o que Armstrong tem feito a vida toda. Assim, o naturalista, para não ser incoerente, tem de aceitar o pensamento puro, a matemática, a lógica, o raciocínio a priori. Se não os aceitar, é incoerente. Se os aceitar, o naturalismo torna-se trivial: é apenas a ideia de que, se tivermos boas razões — sejam elas fruto da ciência apenas ou da filosofia ou da matemática ou da teoria da literatura — para aceitar P, devemos aceitar P.

    Espero agora ter sido mais claro. Todas as críticas são bem-vindas: eu posso estar enganado e não tenho outro modo de o saber a não ser ler as críticas dos outros.

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  5. Desidério,

    Sim, agora ficou claro. Não conheço ninguém que tenha defendido que o naturalismo é a tese de que só devemos aceitar (ou aceitar como plausível) aquilo que é submetido ao escrutínio rigoroso. Se isto for naturalismo, de fato é cognitivamente trivial, o problema é que, além de nunca ter visto isso ser chamado de naturalismo, não vejo qualquer razão para que seja chamado assim. Poderia ser chamado de naturalismo (ainda que não seria, neste caso, um naturalismo promissor) se fosse também defendido que só o escrutínio científico (empírico) é rigoroso e adequado. Parece ser o que Rosenberg pensa e, mesmo que seja falso, neste caso não seria trivial, faria sentido chamar tal tese de "naturalismo".

    Você tem razão sobre Armstrong usar o raciocínio filosófico para defender sua tese (e, com isto, defender que não é a penas o raciocínio científico que serve para o conhecimento), portanto, você tem razão sobre a importância do naturalista (ao menos o que defende o naturalismo metafísico) aceitar o conhecimento a priori. Contudo, isto não foi algo que neguei, foi exatamente o problema que identifiquei na argumentação de Williamson: simplesmente não segue do naturalismo o anti-realismo e a consequente rejeição do conhecimento a priori, fosse assim seria um mistério o que Armstrong quer dizer quando chama sua posição de "naturalismo". É apenas uma variedade de naturalismo, uma especialmente fácil de atacar e implausível, que tem tal resultado, não é negar esta variedade que torna interessante dizer "não sou naturalista".

    Com isto, discordo de ti que quando se aceita o conhecimento a priori o naturalismo se torna trivial, mesmo porque ele não se torna aquilo que ele nunca foi (a ideia cognitivamente trivial discutida acima), o que ele pode se tornar é uma tese metafísica bastante substancial (como a que é defendida por Armstrong).

    Em suma, identificar o naturalismo ou como uma tese trivial ou como uma tese auto-refutante não é fazer justiça ao mesmo. Não vejo razões para identificá-lo como uma tese trivial e não vejo razões para reduzi-lo à uma tese auto-refutante.

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  6. Obrigado pelas objeções. Penso que mesmo assim as coisas não ficaram claras. Não afirmei que alguém defende explicitamente a versão trivial de naturalismo; afirmei, que, no espaço das possibilidades, ou a pessoa defende algo trivial sem se aperceber disso, ou algo auto-refutante, igualmente se se aperceber disso. É auto-refutante defender o naturalismo quando este tem a si associada a ideia de que só os métodos de ciências empíricas como a física são de levar a sério. Isto é claramente auto-refutante porque nenhum argumento da física existe a favor da ideia de que só os métodos da física são para levar a sério. Eis outra versão de naturalismo auto-refutante: as únicas entidades que existem têm localização espácio-temporal, e nenhum conhecimento a priori de aspetos substanciais da realidade é possível. Isto é auto-refutante porque não se pode saber empiricamente que as únicas entidades que existem têm localização espácio-temporal.

    As coisas ficam ainda piores. Uma parte importante do naturalismo contemporâneo é apenas uma rejeição camuflada de entidades misteriosas como deuses ou anjos. É a ideia de que uma visão científica do mundo é incompatível com a aceitação de tais entidades. Mas isto é falso e revela falta de probidade intelectual. O que é incompatível com a visão científica do mundo é a rejeição de ideias sem análise cuidadosa e sem bons argumentos. É tão vicioso intelectualmente quem rejeita a teoria de Darwin sem outras razões que não a circularidade de desconfiar que isso é incompatível com a existência do Deus teísta, como é intelectualmente vicioso quem rejeita a existência de Deus sem outras razões que não a circularidade de desconfiar que isso é incompatível com a sua mundividência científica.

    Claro que estes são os extremos mais infelizes da moda atual do naturalismo. Mas mesmo considerando versões que não resultem de improbidade intelectual, como talvez seja o caso de Armstrong, é difícil ver como tais posições podem evitar ser auto-refutantes. Ou estou a ver mal? É capaz de formular um tipo de naturalismo que não seja auto-refutante?

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  7. Desidério,

    Um ponto sobre o qual estamos de acordo é este: se o naturalismo inclui a tese de que só há o conhecimento empírico, científico, então ele é auto-refutante. Seria o mesmo problema que (Popper e outros) identificaram no verificacionismo, por exemplo, no qual o próprio princípio não obedece ao seu conteúdo: o princípio de verificação é inverificável, a tese de que só há conhecimento empírico não pode ser empiricamente conhecida.

    Claro, do mesmo modo que o verificacionismo, ainda há algum espaço para argumentar, mas pessoalmente não é um naturalismo que me interessa defender, como já disse, não penso que ele seja promissor.

    Nosso desacordo está no seguinte: defendo que um naturalismo que não rejeita o conhecimento a priori não seja cognitivamente trivial, e que o naturalismo não precisa rejeitar o conhecimento a priori.

    Para me deter no caso do naturalismo de Armstrong, ainda no artigo que mencionei, o argumento que ele apresenta para defender a inexistência de entidades abstratas depende de três teses: o mundo espaço-temporal é causalmente auto-suficiente, há razões conceituais para pensar que entidades abstratas não podem interagir causalmente com o mundo, há razões empíricas para pensar que entidades abstratas não interagem causalmente com o mundo. Com estas três teses (não estou aqui formulando-as com o rigor de um argumento porque não me interessa estabelecê-las) Armstrong conclui que entidades abstratas devem ser eliminadas por parcimônia. O que interessa é que Armstrong depende explicitamente e reconhecidamente do conhecimento a priori para alcançar sua conclusão, e não é algo que ele nega (embora ele diga que não é na parte conceitual que ele colocaria mais peso).

    De fato os naturalistas costumam não se entusiasmar com o conhecimento a priori (como Kim observa em uma nota do artigo "The American Origins of Philosophical Naturalism", se fosse oferecida ao naturalista a oportunidade de estabelecer a priori sua tese ou mostrar que é uma verdade científica provável, ele preferiria a segunda opção), mas disto não segue que os naturalistas sempre rejeitem o conhecimento a priori.

    Agora, penso que além da posição de Armstrong ser digna de ser considerada naturalismo, ela não é cognitivamente trivial. Armstrong não nega o conhecimento a priori e, portanto, não refuta a si mesmo.

    Se a rejeição do conhecimento a priori fosse um componente essencial do naturalismo, concordo contigo que ele seria um desastre, mas não me parece que seja um componente essencial.

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  8. Se identificamos o naturalismo apenas com a tese de que não há entidades sem localização espácio-temporal, trata-se de uma tese filosófica como outra qualquer, sendo razoável aceitá-la se tivermos melhores argumentos para a aceitar do que para a rejeitar. Afinal, é como a discussão sobre o nominalismo, que rejeita universais: nada de novo na discussão filosófica. Eu próprio sou simpático ao naturalismo, se é isto que queremos dizer com a palavra.

    Mas não é isto que os filósofos hoje em dia tipicamente querem dizer com a palavra. O que eles pensam que é o naturalismo é uma nova versão de verificacionismo empirista. O que as pessoas querem dizer é que, metodologicamente, excluímos entidades sobrenaturais, por exemplo, da nossa investigação — e depois clamamos que não há tais entidades precisamente porque a nossa investigação não as descobriu. Isto não é particularmente sábio. Além disso, elege-se a física como a única ciência genuína e o conhecimento empírico como o único género genuíno de conhecimento — quando sem a matemática, que é a priori, não há física contemporânea, quando sem histórica não há biologia, quando sem lógica não temos como saber se os argumentos são válidos ou não.

    O problema do naturalismo é o seu paroquialismo, por um lado, e o facto de ser auto-refutante, por outro. Nenhum destes problemas emerge se o naturalismo for apenas a tese filosófica, adequadamente defendida, de que não existem entidades sem localização espácio-temporal.

    Considere-se o seguinte: pode um naturalista admitir a existência de entidades sem localização espácio-temporal, se tivermos bons argumentos a favor dessa tese? Esta é a questão crucial. Se sim, o naturalismo é trivial; se não, é intelectualmente vicioso, porque é uma profissão de fé imune a argumentos.

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  9. Desidério,

    Conversei com o Matheus Silva recentemente e ele me disse a mesma coisa, que não é ao naturalismo de Armstrong que os filósofos tipicamente se referem, mas ao naturalismo de Rosengerg. O problema todo está no "tipicamente", pois me parece que ele esconde uma generalização indevida. Para que não houvesse este problema bastaria uma ressalva como "muitos naturalistas pensam que" ou algo assim. Simplesmente não vejo porque fazer a generalização, sobretudo se for considerado o risco de se atacar um espantalho.

    E não estou tentando transformar a exceção em regra, porque ainda que tenha falado mais de Armstrong, existem vários outros naturalistas eminentes que não defendem o naturalismo que está sendo atacado (Fodor, Dretske e Searle, entre outros). O que estou alegando, portanto, é apenas que o naturalismo não é necessariamente trivial ou auto-refutante, que é muitas vezes uma posição filosófica séria.

    Por fim, discordo de tua colocação de que, caso o naturalista seja persuadido de que existem entidades abstratas, então naturalismo seria trivial. Por que? Isto é o mesmo que dizer que, caso o idealista fosse persuadido de que existem entidades concretas, o idealismo seria trivial, ou que caso o dualista fosse persuadido de que existem apenas entidades concretas, então o dualismo seria trivial. Não vejo nenhuma razão na tua insistência em pressupor que o naturalismo, sem a rejeição do conhecimento a priori, seja trivial. Por que o naturalismo de Armstrong é trivial? Por que a possibilidade de que ele admita que existem entidades abstratas (em função de bons argumentos) torna a posição dele trivial? Seria assim apenas se, com isto, ele negasse que foi refutado, mas não vejo porque tal coisa ocorreria.

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  10. «o mundo espaço-temporal é causalmente auto-suficiente, há razões conceituais para pensar que entidades abstratas não podem interagir causalmente com o mundo, há razões empíricas para pensar que entidades abstratas não interagem causalmente com o mundo.»

    O homem, não podendo violar as leis da natureza, não obstante, pela sua relativa autonomia, não poderá ser considerado um mero produto da mesma. Essa autonomia manifesta-se numa interacção causal com o mundo e é, muitas vezes, expressão, de entidades abstractas agindo na mente do homem. Se considerarmos, como parece ser, que o papel destas entidades é não despiciendo, não teríamos aqui a refutação da referida auto-suficiência causal?

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  11. Caro Gregory

    Vejo agora as coisas mais clareza. O que se passa é o seguinte: há uma grande diferença entre considerar uma hipótese filosófica, entre outras, e aderir a ela dogmaticamente. É esta diferença que está em causa. Se uma pessoa formula com todo o cuidado e precisão uma hipótese filosófica, seja ela o naturalismo ou outra qualquer, não há aqui qualquer problema; tudo depende da discussão normal relativamente a essa hipótese. Mas se a pessoa adere a essa hipótese com uma convicção desproporcional aos argumentos a seu favor, isso é dogmatismo. Assim, a hipótese do naturalismo é trivial no sentido em que se o naturalista aceitar mudar de ideias perante razões em contrário, então essa é apenas uma hipótese entre várias; não tem qualquer centralidade. Mas se a hipótese do naturalismo é uma convicção imune à contra-argumentação, tornando-se a lente a partir da qual tudo o mais é visto, e rejeitando o que não se conforma a essa hipótese, é epistemicamente viciosa.

    Agora compara isto com o naturalismo tal como Armstrong o apresenta. Trata-se de uma hipótese filosófica como outra qualquer — como a hipótese essencialista de que Sócrates é essencialmente um ser humano, mas acidentalmente grego. Nenhum problema há aqui. Mas se eu agora tratar qualquer uma dessas hipóteses como doutrinas insuscetíveis de refutação porque constituem a base a partir da qual concebo tudo o resto, então estou a ser epistemicamente vicioso.

    Estas considerações aplicam-se a qualquer versão de naturalismo, pela simples razão de que se aplicam a qualquer hipótese filosófica, ou científica, seja ela qual for.

    Contudo, o tipo de naturalismo que mais é ventilado hoje em dia, incluindo por cientistas, é apenas uma forma de cientismo, elegendo a física como paradigma do que é científico, considerado que só é epistemicamente virtuoso o que é científico, considerando que não há conhecimento a priori, e que só existe o que a física diz que existe.

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  12. Desidério,

    Agora estamos de pleno acordo! Obrigado pela ótima discussão.

    Carlos Ricardo,

    Este não é o espaço para que eu defenda as teses de Armstrong, recomendo apenas que você leia os trabalhos dele. Não sei se compreendi bem tua objeção, o que posso adiantar é que ela carrega uma série de pressupostos que não me parecem plausíveis (ou mais plausíveis que a tese de Armstrong), como a ideia de que a autonomia exige algo sobrenatural ou que, pelo fato de tal autonomia nos permitir falar e pensar sobre entidades abstratas, tais entidades existem. Se isto fosse verdade, Armstrong teria sido refutado, mas não me parece verdade e, particularmente, fui convencido pelos argumentos de Armstrong, tanto que me considero um naturalista (neste sentido armstrongiano de naturalismo), portanto, penso que não seja tão fácil assim refutá-lo.

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  13. Gregory Gaboardi,

    Vou ler Armstrong. Entretanto, devo esclarecer que, na minha objeção, parti do pressuposto de que existem entidades abstratas, não necessariamente sobrenaturais, como mitos, ideias, conhecimento, e que o homem, actuando em função delas, não o fará por mero determinismo e, através da acção do homem, elas interagem causalmente com o mundo. O homem age e toma atitudes perante o que o "destino" lhe reserva. Não se limita a ser uma criatura da natureza. É também um criador. A sua relação com o universo não é mero efeito da natureza, também é ditada ou caracterizada pela forma como o homem reflete e realiza a sua vontade.

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  14. Eu concordo com o Desidério. O naturalismo que o Williamson critica é a tese de que os problemas filosóficos podem ser solucionados pelos métodos das ciências empíricas ou pelo menos tratados sem um projeto a priori de teorização próprio apenas da filosofia. É o que podemos chamar de uma tese metafilosófica acerca da natureza e do método da filosofia. Isso não quer dizer que qualquer tese filosófica que acompanha o termo “naturalismo” implica na aceitação dessa tese metafilosófica: eu posso defender alguma forma de naturalismo em filosofia da mente, metaética ou qualquer outra área e sub-área da filosofia sem aceitar a tese metafilosófica naturalista.

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  15. Penso que há um aspeto que ainda não deixei claro. É o seguinte: nenhuma metodologia é virtuosa se não incluir a sua própria revisão contínua. Em si, nenhum problema há acerca de teses metodológicas sobre como se deve fazer física, ou filosofia, ou seja o que for. Mas estas teses metodológicas tornam-se viciosas epistemicamente quando: 1) tentam transportar uma metodologia de uma área para todas as áreas (é o que acontece quando se elege a metodologia experimental da física como a única metodologia epistemicamente séria, o que deixa a matemática e a lógica num limbo); 2) não se limitam a afirmar que, até hoje, a metodologia M é a melhor que encontrámos, antes advogam que só existe ou só é relevante ou só é sério o que pode ser estudado pela metodologia M, não sendo essa metodologia revisível. 1 e 2 constituem o vício da Máquina de Salsichas: a ilusão humana permanente de que podemos deixar de pensar nos aspetos mais fundamentais das nossas metodologias porque descobrimos métodos automáticos que nos poupam o trabalho de pensar sobre questões fundacionais; agora, resta aplicar mecanicamente o que já sabemos que resulta. Isto é obscurantismo. É tão vicioso ser naturalista neste sentido — eliminando à partida qualquer outra metodologia — como é vicioso excluir à partida seja o que for que ponha em causa a nossa crença em Deus. Plantinga está próximo de ser vítima do segundo tipo de vício epistémico; daí que o texto dele que eu traduzi seja a imagem de espelho do naturalismo epistemicamente vicioso que Williamson e eu criticamos.

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