5 de outubro de 2011

Oferta de livros

Acabo de publicar um excerto de Justiça: o que é fazer a coisa certa, de Michael J. Sandel, traduzido por Heloísa Matias e Maria Alice Máximo (Civilização Brasileira, 2011). Em colaboração com a editora, a Crítica tem três exemplares para oferecer exclusivamente aos leitores brasileiros. Basta escrever um pequeno comentário discutindo os casos do bonde desgovernado. Os autores das três melhores respostas serão depois contactados por mim e o editor enviar-lhes-á um exemplar do livro de Sandel. Só serão consideradas as respostas enviadas até dia 10 de Outubro de 2011.

42 comentários:

  1. Bom dia.

    Na minha visão sobre a hipótese do bonde sem freio, o conflito não é o número de vidas envolvidas, portanto pouco importa se fossem cinco ou vinte pessoas no bendito trilho.

    Para dar corpo ao raciocínio, tenho que tentar uma definição do que é "Justiça". Já de início peço perdão pois como estudante de primeiro ano de graduação, minha bagagem literária do tema ainda é pouca. Mas enfim, qual seria o conceito por trás desse termo tão utilizado...

    O homem é um animal político, diz Aristóteles. E concordo com ele, o ser humano apenas se realiza como Homem quando vive em sociedade, fora ele apenas sobrevive. Os conceitos que ditam aquilo que chamamos de Moral não nos são inatos, e sim transmitidos pelo meio social que vivenciamos. Quando Sandel diz que a reflexão moral é dialética, infere-se que é a experiência do indivíduo e da sociedade como um todo quem dita sua elaboração. Considero desse modo que qualquer almejo de Moral "universal" ou "natural" é incoerente, pois sendo ela contingente, não poderia ser ao mesmo tempo nenhum desses dois aspectos.

    Seguindo o raciocínio, deduzo que a Justiça é um conceito moldado pela Moral vigente. Isso explica porque temos tantas discrepâncias entre atitudes ditas justas no espaço e no tempo.

    Voltando ao bonde. O fato de termos dúvidas ao optar pelos atos sugeridos se deve ao fato de que o que consideramos justo não goza de clareza suficiente. Matar por si só já é um ato injusto, então porque diabos essa seria uma opção válida moralmente?

    Poderíamos, na posição do motorneiro, simplesmente optar por não fazer coisa alguma, nos omitir. É uma conduta reprovável não decidir qual operário vai morrer e qual vai sobreviver? Tudo bem, aí entramos no detalhe agravante da situação, eram cinco em um trilho e apenas um no outro. Mas aqui, como eu me permiti discordar no início, o relevante não é o número de vidas. Por quê?

    Retomamos o conceito de Justiça. Na minha concepção, a Justiça como produto da Moral é uma ferramenta da sociedade. Qual a função de tal ferramenta senão garantir a procedência do objetivo social? Os homens vivem em sociedade pois assim eles usufruem de benefícios que não teriam como indivíduos solitários. O que rege os homens é a Moral, e esta como já se disse, é contingente. Cada homem possui experiências diferentes de seu semelhante, mesmo por exemplo da mesma família (ou é raro encontrar um filho que discorda de seu pai?). Para amenizar tais conflitos, entra a ferramenta Justiça. Esta é a égide da teleologia do corpo social. Os objetivos de uma comunidade podem ser os mais variados, é a necessidade que molda os fins almejados.

    Assim quando pensamos na hipótese do bonde, temos que pensar qual é o desfexo que seria mais prezado pela sociedade? Cinco, dez ou vinte homens em um trilho, diz pouco. Suponhamos que os cinco operários do primeiro trilho sejam indivíduos de já avançada idade e sem dependentes, enquanto o indivíduo solitário do outro trilho seja o pai de uma família de seis crianças, e você como motorneiro saiba disto. Por que nossa valoração sobre o caso pode ter variado? Porque temos cinco vidas contra uma ou porque nesse ato extremo procuramos realizar o fim social almejado (a "Justiça")?

    Ficamos em dúvida no caso porque desconhecemos as circunstâncias e não dispomos de meios de valorá-la, aí nascem absurdos como este percebido por Sandel, onde a maioria é induzida a optar pela morte de um para salvar cinco em uma oportunidade, mas em outra oportunidade semelhante (do gordo na ponte) não.

    Se entre os cinco homens no trilho estivesse o presidente dos Estados Unidos, teriam empurrado o pobre gordinho dez vezes na frente do bonde se possível...

    Ou não (rs)...

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  2. O papel de experiências mentais é o de colocar em evidência as intuições a respeito do caso. Dito isso, o "trolley problem", nas duas diferentes apresentações do problema, nos mostra que a maioria das pessoas podem possuir intuições divergentes para resolver problemas que são de natureza semelhante. Apenas isso, as intuições da maioria das pessoas é incoerente. Intuições mostram algo verdadeiro sobre juízos morais? Deveriam?
    Barbara Pádua

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  3. Podemos oferecer uma resposta para esse experimento mental em suas duas versões. Na primeira versão, precisamos escolher se devemos ou não desviar o bonde desgovernado para matar um ao invés de cinco operários. A intuição da maioria das pessoas diz que devemos desviar o bonde e eu penso que essa intuição está errada. A idéia de que devemos sacrificar a vida de uma pessoa para salvar a vida de cinco perde todo o atrativo se pensarmos no que realmente acontece: estamos assassinando uma pessoa inocente.

    Temos a ilusão de que isso não é assim por várias razões: aparentemente o operário escolheu estar envolvido nesse tipo de situação devido ao alto risco do seu trabalho, apenas puxamos a alavanca e a morte do outro operário é uma consequência não intencional desse ato, estamos apenas desviando o bonde e não assassinando uma pessoa diretamente, etc. Essas respostas não resistem a um exame crítico: estar disposto a trabalhar em situações de alto risco é muito diferente de estar disposto a ser sacrificado em um cálculo moral, e a ação que provoca a morte de uma pessoa não é menos intencional se apenas desloca a direção de um acidente – ao desviar o bonde você não apenas realiza uma ação que tem efeitos ruins, você realiza uma ação que irá tirar a vida de um inocente. Além disso, você não tem qualquer responsabilidade pelo bonde desgovernando e não possui qualquer obrigação moral de mudar a sua trajetória para tirar a vida de um inocente. Repare que podemos oferecer uma resposta utilitarista para justificar essa conclusão: em uma sociedade na qual o sacrifício de inocentes é moralmente permissível devido a cálculos utilitários viveríamos sob constante medo e insegurança.

    Agora consideremos a segunda versão do experimento mental: podemos empurrar o homem pesado sobre os trilhos para salvar a vida dos cinco operários. Devemos fazer isso? Curiosamente, a intuição da maioria das pessoas é de que não devemos fazer isso. Penso que essa intuição está correta por razões semelhantes às apresentadas acima: não há qualquer diferença entre o contexto da segunda e da primeira versão do experimento mental que seja moralmente relevante. Talvez o que leve as pessoas a pensarem que a morte do inocente na segunda versão é pior se deve á proximidade do agente moral e da vítima: na primeira versão apenas puxamos uma alavanca, mas na segunda versão empurramos uma pessoa. Uma razão que reforça esse último argumento é apresentada pelo próprio Sendel. Suponhamos que na segunda versão podemos puxar uma alavanca para atirar o inocente aos trilhos. Isso é correto? A intuição da maioria que diz que devemos sacrificar o inocente no primeiro caso será de que não devemos fazer isso, mas aqui percebemos que há uma opção moral injustificada.

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  4. Apesar de todo o debate sobre a diferença (ou semelhança) entre as duas situações penso que o caso seja outro: em circunstâncias extremas, em que os raciocínios morais não são possíveis em função do tempo, o melhor a se fazer é “jogar a moeda” ou tirar a sorte.
    Ambos os exemplos envolvem uma situação peculiar que torna problemática qualquer possibilidade de resolução por princípios, sejam os deontológicos, utilitaristas etc: o tempo para calcular e escolher algum percurso de ação. Assim como no caso de uma mãe que segura seus dois filhos que estão prestes a cair em um abismo e precisa abandonar um deles; caso não haja nenhuma reação da mãe, todos morrem incluindo ela. A mãe não poderá raciocinar ou criar justificativas para sua ação porque precisa agir. Do mesmo modo, o motorneiro não poderá criar raciocínios ou argumentos para convencer a si mesmo de que deve seguir tal caminho e não o outro, ele deve agir.
    Em termos mais simples o que estou a defender é: dilemas morais demandam tempo para que o agente pense em princípios, argumentos, justificativas etc. Essas situações são bem diferentes dos dilemas sobre o aborto a eutanásia ou dos direitos dos animais, porque estes últimos possibilitam um debate e um conflito de teses e argumentos. Quando não há tempo para pensar, o que devemos fazer é seguir nossas intuições ou mesmo tirar a sorte. Em casos como do bonde ou da mãe não há tempo para pensar. Por isso, nesses casos extremos, devemos “jogar a moeda”.

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  5. Mas, Leandro, a questão é saber o que nós, aqui, e com muito tempo, podemos pensar sobre aqueles casos. Como argumentava Mill, trata-se de pensar agora, quando temos tempo, para depois, se por azar estivermos naquelas situações, já sabermos a que conclusões chegámos.

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  6. O caso do trolley (ou, caso do trem desgovernado) apresenta a seguinte situação. Em uma linha férrea há um trem que segue desgovernado. Observando o trilho pelo qual o trem irá percorrer, nele se encontra cinco trabalhadores que fazem a manutenção da linha. Nesta situação estamos na posição de desviar o curso do trem, através de uma alavanca, que troca o caminho do trem para uma bifurcação da linha que ele percorre. Contudo, nesta bifurcação da linha há um outro trabalhador. Seja qual for o caminho que o trem percorrer ele irá ocasionar a morte de alguém. Se mantermos o trem na linha que está, os cinco trabalhadores morrem. Se desviarmos o curso do trem, apenas um trabalhador morrerá. Em vista desta situação, pergunta-se: devemos alterar o curso do trem?

    Intuitivamente dizemos que este é um dilema moral Mas, seria de fato? Um dilema moral é uma situação a qual somos obrigados a agir de dois modos que são conflituosos entre si. Por exemplo, aceitemos as seguintes máximas como princípios morais: devemos primar pela vida; devemos causar o maior bem possível; devemos respeitar a autonomia alheia. A partir destas três máximas, pensemos o caso do trolley. Nós devemos primar por toda vida (tanto dos cinco trabalhadores da linha principal, quanto pela vida do único trabalhador na linha secundária). Também devemos causar o maior bem (é argumentável que podemos entender esta máxima como causar o menor mal possível, se nossa ação irá causar algum mal invariavelmente). E devemos respeitar a autonomia de todos os seis, sem impor a eles ações que eles não têm escolhas. Assim, se mantermos o curso do trem na linha principal, então não causamos o menor mal possível e, é argumentável, que privamos a vida a um maior número de trabalhadores (pensando em termos quantitativos). Todavia, se alterarmos o curso do trem, então nossa ação irá causar a morte do único trabalhador na linha secundária. Deste modo, não respeitamos sua vida, e sua autonomia. Assim, intuitivamente vemos no caso do trolley uma situação que somos obrigados a tomar um, de dois cursos de ação, que irá ocasionar alguma quebra dos princípios morais.

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  7. A este caso podemos apontar duas coisas. Primeiro, vamos discutir se há de fato algum dilema. Para que ocorra o caso de um dilema, somos obrigados a fazer duas coisas, mas somos capazes de fazer apenas uma. E, seja qual for nosso curso de ação, automaticamente não cumpriremos alguma de nossas obrigações. Destarte, uma ideia básica que temos acerca das obrigações é que, se somos obrigados a fazer algo, então somos capazes de fazê-lo. Isto parece pouco questionável, pois pense no caso de sermos obrigados a fazer algo, e.g., pular de um prédio e com o bater dos braços começar a voar e, ao mesmo tempo, somos incapazes de fazê-lo. Do fato de sermos incapazes de cumprirmos nossas obrigações, segue-se que essas não são obrigações. Se aceitarmos isso, seria o caso do trolley um dilema? Não, pois se somos obrigado a agir de modo que não violemos qualquer uma daquelas máximas, em uma situação que não somos capazes de fazê-lo, então alguma dessas máximas não é uma obrigação. Isto é, se somos obrigados a cumprir todos os três princípios, e se ao cumprirmos um deles somos incapazes de cumprir os outros (e vice-versa), nos parece que algum desses princípios não é uma obrigação.

    Não obstante, mesmo que não seja um caso de um dilema moral, ainda assim precisamos agir de algum modo. Qual deles será? Eis o segundo ponto que podemos apontar deste caso. O princípio que guiará nossa ação depende da teoria moral que aceitamos. Deste modo, se aceitarmos um consequencialismo, é argumentável que diante de seus princípios de ação nós devemos mudar o curso do trem e direciona-lo para a linha secundária, salvando máximo de pessoas possíveis. Como vimos, no entanto, agir deste modo irá ferir alguns outros princípios. Esses outros princípios, porém, não seriam prioritários se somos guiados por uma teoria moral consequencialista. Por outro lado, se assentimos a uma teoria moral deontológica, nosso curso de ação poderá ser outro. Este segundo ponto tenta deixar claro que, mesmo que não haja um dilema, ainda iremos justificar nossa ação por princípios que damos assentimento. Mas, esses próprios princípios não são unânimes segundo teorias morais. Um curso de ação no qual implicará na morte dos cinco trabalhadores pode ser uma ação justificada por uma teoria moral, e por outra não. Deste modo, quais são os princípios que devemos levar em conta para guiar nossa ação ainda é caso de debate nas discussões sobre filosofia moral.

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  8. Os meus comentários sobre o primeiro caso do Trolley também são comentários ao segundo caso. Assim, por economia, apresentei apenas o primeiro.

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  9. No primeiro caso, o melhor percurso de ação é desviar e matar apenas um, considerando que inevitavelmente ou uma pessoa irá morrer ou cinco pessoas irão morrer. Não é apenas intuitivamente plausível, mas racionalmente justificável. Em uma avaliação pautada pelo princípio utilitarista, penso que as consequências imediatas e em longo prazo dessa ação (matar apenas um) são melhores que a outra opção. Imediata porque matar um ao invés de cinco conduz a promoção do bem-estar (interesse, prazer etc.) de cinco e ao sofrimento apenas de um. Em longo prazo porque futuramente, possíveis operários que irão trabalhar nos trilhos terão a certeza de que suas chances de morrer diminuirão se o motorneiro escolher sempre matar um ao invés de cinco; o medo de morrer diminui e portanto, o sofrimento. Apesar de parecer uma resposta terrível e sem sentimento moral, ou mesmo que não considere o direito das pessoas, reafirmo que nesse caso seria inevitável matar uma pessoa ou cinco. No segundo caso, apesar de haver um benefício imediato jogando o gordo nos trilhos, como no primeiro caso, penso que o prejuízo a longo prazo supera os benefícios. Em uma sociedade pautada pela regra “usar uma pessoa inocente na promoção de bem-estar de várias é correto” – as pessoas viveriam constantemente com medo de serem usadas em situações extremas como essas. No mesmo caso de matar uma pessoa inocente para doar seus órgãos para cinco pessoas doentes. Os dilemas morais demandam ações ideais e creio que nesses casos as ações ideais sejam essas.

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  10. Será que o fundamental em ambos os casos é o número de vidas que são salvas em prol do sacrifício de uma? O que nos leva ao quebra-cabeça é a suposição de que esse seja o caso. É justamente esta suposição que eu negarei a seguir. Sustentarei que os dois exemplos representam casos de tipos diferentes, e que a decisão a ser tomada, seja intuitiva ou por princípios deve considerar essa diferença.
    Sustentarei que existe uma importante característica no segundo caso que não está presente no primeiro. Nomeadamente, apenas no segundo caso estamos tratando um ser humano como meio. Por sua vez, isso talvez forneça elementos para algumas de nossas teorias morais mais influentes responderem aos exemplos.
    A diferença é a seguinte: no segundo caso o gordinho é usado como meio para freiar o bonde enquanto que no primeiro caso isso não ocorre. Vejamos qual escolha temos que fazer em cada caso.
    primeiro caso: a) não desviar o bonde e ter como consequência a morte de cinco pessoas ou b) desviar o bonde e ter como consequência a morte de uma pessoa.
    segundo caso: a) não empurrar o gordinho para a morte e ter como consequência a morte de cinco pessoas ou b) empurrar o gordinho para a morte e não ter como consequência a morte de cinco pessoas.
    Aqui já podemos ver com clareza que no segundo caso uma pessoa é usada como meio. O único meio pelo qual eu posso salvar os cinco operários é empurrando o gordinho. Ao contrário, no primeiro caso, o meio para salvar os cinco operários é desviar o bonde. A morte do operário, nesse caso, é apenas uma consequência do motorneiro desviar o bonde.
    Talvez essa diferença nos ajude a justificar a intuição de que o melhor a se fazer, no primeiro caso, é desviar o bonde e atropelar apenas um operário. Enquanto que no segundo caso o melhor a se fazer é não empurrar o gordinho e atropelar as cinco pessoas.
    Por exemplo, um deontologista, como Kant, poderia alegar que usar uma pessoa como meio é sempre algo ruim. Portanto, deve ser moralmente proibido. Já um utilitarista poderia dizer que desviar o bonde (no primeiro caso)é a ação moralmente correta. Já no segundo caso, não empurrar o gordinho é a ação moralmente correta. Pois se as pessoas usassem outras pessoas como meio provavelmente teríamos uma vida menos tranquila e consequentemente menos feliz. Nós viveríamos sempre com medo de sermos a bola (o meio) da vez.
    Portanto, se aceitarmos que há uma diferença importante entre os dois casos, talvez seja possível resolver o quebra-cabeça.

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  11. Kherian,

    "Destarte, uma ideia básica que temos acerca das obrigações é que, se somos obrigados a fazer algo, então somos capazes de fazê-lo. Isto parece pouco questionável, pois pense no caso de sermos obrigados a fazer algo, e.g., pular de um prédio e com o bater dos braços começar a voar e, ao mesmo tempo, somos incapazes de fazê-lo".

    O exemplo do prédio não funciona: ser obrigado a fazer X, no sentido de ser forçado fisicamente a fazer X ou precisar fazer X para sobreviver, é bem diferente de ter uma obrigação moral de fazer X.


    "O princípio que guiará nossa ação depende da teoria moral que aceitamos."

    Isso não é o caso. Um defensor de uma teoria consequencialista pode defender que nos dois casos é errado poupar a vida dos cinco, ou que apenas no primeiro caso isso é permissível ou que em ambos os casos isso é permissível – e em qualquer uma das respostas ele poderia utilizar razões consequencialistas. Um partidário de uma teoria deontológica poderia estar de pleno acordo com qualquer uma dessas respostas por razões não consequencialistas. Por outro lado, consequencialistas podem discordar entre si também por razões consequencialistas – se forem utilitaristas podem ter discordâncias acerca de elementos factuais envolvidas nesses casos e acerca de sutilezas conceituais acerca do próprio princípio de utilidade.

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  12. Leandro,

    se considerarmos a maximização do bem-estar sem qualquer qualificação justificaremos a escravidão de minorias e todo gênero de atrocidades. A literatura sobre o tema está repleta de contra-exemplos a esse gênero de resposta. Suponha, por exemplo, que um assassino está à solta e a população está revoltada com a inépcia da polícia que é incapaz de descobrir quem é o assassino. Uma multidão furiosa se aglomera em torno da delegacia e o embate entre a polícia e a multidão gerará muitas mortes. O chefe de polícia, contudo, é um utilitarista e decide que a melhor saída é escolher qualquer pessoa inocente aleatoriamente como bode expiatório e condená-lo à morte. Isso parece justo? É claro que não – repare que para espicaçar ainda mais a sua intuição moral eu posso ainda acrescentar algumas modificações como dizer que o inocente nesse caso é você ou sua mãe, por exemplo. Outro contra-exemplo à maximização não qualificada é o seguinte: imagine que no Brasil fosse uma tradição de séculos aprisionar certas minorias e jogá-las aos leões. Essa tradição bárbara faz parte da vida de uma maioria que se regozija com isso, portanto, ela maximiza o bem-estar, se considerarmos todos os envolvidos. Isso é justo? É claro que não. Sinto muito, mas não podemos simplesmente insistir que o princípio de maximização de bem-estar deve ser correto se ele leva a esse tipo de consequência. Por modus tollens, devo inferir que ele é incorreto. Além disso, o fato de ser inevitável que uma ou cinco pessoas morram ignora uma distinção importante: se não desviar o bonde, você não matará ninguém, pois não é responsável pelo bonde. Se desviar o bonde, estará não apenas matando uma pessoa, como também matando uma pessoa que não morreria se não fosse por sua decisão.

    Repare que a sua resposta para o custo-benefício a longo prazo do cálculo utilitarista atribui muita importância para o fato de no primeiro caso ser um operário que é assassinado e no segundo caso uma pessoa qualquer. Em ambos os casos estamos falando de pessoas não estamos? Quer dizer então que se trocássemos no primeiro exemplo um operário por uma pessoa que estava ali perto, a escolha será errada? Isso não me parece plausível. O aspecto moralmente relevante aqui é o fato de tirarmos a vida de uma pessoa inocente para salvarmos outras e não sua classe social. Ambas as pessoas inocentes não morreriam nessas situações se não fosse por nossas escolhas, não é mesmo? Portanto é assassinato a sangue frio nos dois casos e o custo benefício a longo prazo é baixo.

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  13. Paula,

    um primeiro problema da sua solução é que o princípio de nunca utilizar uma pessoa como um meio é inatingível. Utilizamos as pessoas como meio o tempo todo: utilizo as pessoas que trabalham na padaria para comprar pão e elas me utilizam como meio para obter dinheiro; utilizo meus professores como meio para adquirir conhecimento e eles me utilizam como meio para dar aulas e assim receber um salário; utilizo meus amigos como meios para ter uma conversa agradável, etc, etc. Portanto, sempre utilizamos as pessoas como meios para um fim. Você poderia objetar que nesses casos utilizamos as pessoas como meio e fim em si mesmas ao mesmo tempo, pois não violamos sua autonomia. Com essa qualificação do princípio de não violar a dignidade humana eu concordo.

    De qualquer modo, penso que essa justificação das intuições conflitantes não funciona: o fato de decidir que um operário inocente deve morrer devido a um cálculo utilitarista que fiz é, em todos os sentidos do termo, a utilização de uma pessoa como um meio para um fim, que é poupar a vida de cinco operários. O fato de você não estar próximo da pessoa e não empurrá-la na linha é moralmente irrelevante: estarei utilizando ela do mesmo jeito, pois ela não morreria simplesmente por estar naquela linha, mas morrerá se eu decidir que ela deve morrer.

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  14. Partindo do fato de que o motorneiro não é causador do descontrole do bonde, pode-se argumentar que por esta razão ele não pode ser diretamente responsável pela morte dos cinco operários. Entretanto, se fizesse o desvio para a direita, poderia ser diretamente responsável pela morte do único operário, uma vez que teria que optar por matar um inocente e na situação anterior ele apenas seria parte de uma corrente causal da qual a culpa seria de outrem. No primeiro caso, o motorneiro opta por não matar e deixar o bonde seguir seu curso fatídico e cinco operários morrem. No segundo caso, ele opta por matar um operário e apenas este morre. Assim, pode-se ter a impressão de que no primeiro caso temos uma ação moralmente correta porque temos cinco operários mortos, mas nenhum é assassinado. Já no segundo caso, teríamos uma ação moralmente incorreta porque aparentemente haveria um assassinato.

    Discordo deste argumento. Penso que a decisão mais acertada consiste em desviar para a direita e matar o único operário. Não há assassinato neste caso, porque tanto o único operário, quanto os outros cinco, são inocentes e neste caso o motorneiro não é menos vítima da circunstância do que quando deixa os cinco morrerem. Valho-me de um argumento utilitarista para defender a morte do único operário. Esta é preferível porque partindo do fato de que o motorneiro não sabe quem são os operários envolvidos, ele pode ignorar algum aspecto que é moralmente relevante na sua decisão (qual é a conduta moral, nível intelectual, capacidade de liderança, número de dependentes, etc. dos operários) e por isso precisa dar a todos o benefício da dúvida. Além disso, dado que no meio de cinco operários há mais chances de haver pelo menos um ou provavelmente todos juntos possam contribuir mais significativamente para o bem da sociedade que o único operário, os cinco devem ser salvos e o outro sacrificado.

    Defendo também que o mesmo raciocínio deve ser empregado para o caso do indivíduo a ser empurrado para parar o bonde. Sustento uma defesa utilitarista do empurrão ao indivíduo para salvar os cinco, considerando que a situação é semelhante à do motorneiro, pois há uma única pessoa com a decisão nas mãos, na qual cinco vidas podem ser salvas e o bem da sociedade promovido por não sabermos de quem se tratam as pessoas envolvidas. Utilizar uma alavanca ou empurrar com as próprias mãos não constitui diferença relevante para a avaliação do caso. Seja empurrando, seja utilizando a alavanca, a responsabilidade é de quem toma decisão e a realiza.

    Tendemos a pensar que agimos de modo moralmente incorreto e que temos um assassinato quando empurramos o indivíduo para salvar os cinco porque ele é um inocente e, além disso, está mais próximo de nós, despertando-nos, aparentemente um senso de empatia. Novamente argumento que tanto o indivíduo a ser empurrado quanto os outros cinco são inocentes. Defendo também que salvar quem está mais perto não é mais empático que salvar quem está longe. É mais irracional que empático. Porém, ainda que admitíssemos que a empatia é importante em nossas decisões morais porque garante a sobrevivência de nossa espécie e mesmo a convivência com pessoas importantes para nós, neste caso, a empatia é argumento a favor de se empurrar o indivíduo e não de poupá-lo. Se ela é importante para a conservação de nossa espécie, então devemos utilizá-la em prol dos cinco, já que, deste modo, nossa espécie tem mais chances de sobrevivência. Se é importante para garantir nossas relações pessoais, como não sabemos quem está entre os cinco operários e quem é o indivíduo a ser empurrado, há mais chances de haver uma pessoa próxima entre os cinco sem que o saibamos.

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  15. Matheus,

    O exemplo do prédio é meramente ilustrativo para evidenciar como temos a intuição de que, se somos obrigados a fazer x, então somos capazes de fazer x. Ao dizer que o exemplo do prédio não funciona por que ser forçado fisicamente, parece que você não captou o intuito do exemplo. Além do mais, sua objeção não diz nada acerca da ideia que apresentei, mas apenas de um mero exemplo explicativo.


    Sua segunda objeção afirma que meu texto tentou dar respostas ao problema. Não foi o caso. Ressaltarei os pontos que mostram como não tentei responder, ou tentei mostrar como qualquer tese responderia ao problema:

    “[...] se aceitarmos um consequencialismo, é ARGUMENTÁVEL que diante de seus princípios...”

    Ou seja, é possível argumentar a partir daí, mas não que todo e qualquer utilitarismo o fará.

    “Por outro lado, se assentimos a uma teoria moral deontológica, nosso curso de ação PODERÁ ser outro.”

    Novamente, não digo se um deontologista irá defender tal coisa, mas que é possível.

    Já acerca especificamente da passagem que você citou ao final,

    “O princípio que guiará nossa ação depende da teoria moral que aceitamos”,

    não vejo como nossa ação, se for guiada por um princípio, este princípio não é derivado de uma teoria moral que aceitamos. Se aceito o deontologismo e por isso aceito os princípios x, y e z (somente), seria estranho agir de modo que utilize os princípios a, b e c. Talvez a isso chamem de Akrasia... (?!)

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  16. Matheus, perdoe-me por ter utilizado letras maiúsculas para ressaltar as passagens do texto. Não sei como utilizar itálico no blog para tê-lo feito.

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  17. Matheus,

    Gostaria de pontuar suas objeções sobre o meu texto.
    1. O que você quer dizer com a expressão “sem qualquer qualificação”. Com qualificações, seja lá o que isso quer dizer, o utilitarismo é aceitável?
    2. Conheço estes exemplos contra o utilitarismo e creio que existem muitos autores que os reconhecem como dificuldades insuperáveis para o utilitarismo. Eu não. Creio que um maior conhecimento do desenvolvimento e das variações do utilitarismo consegue mostrar a resposta para esses problemas. Aliás, esses contra-exemplos servem como premissas para a conclusão equivocada de que o utilitarismo não releva os direitos das pessoas ou que é um pragmatismo de baixo nível etc. Para simplificar, creio que o utilitarismo de regras consegue superar esses contra-exemplos citados por você (Procure por Claudio F. Costa que tem um bom artigo sobre esse ponto, porque acho que se debatermos apenas esse ponto aqui, o trabalho foge ao assunto central).
    3. O fato de ser eu o inocente não representa nada, aliás nem se for o presidente dos EUA. O princípio utilitarista deve considerar todos imparcialmente. Creio que você espicaçou a minha intuição com uma falácia: apelo emocional, não é? Não devo aceitar seu contra-exemplo porque eu estou nele e estou sofrendo ou porque minha mãe está nele.
    4. O fato de não desviar o bonde representa negligência que também envolve responsabilidade. No dilema, está claro que o motorneiro é o responsável pelo bonde e consequentemente pelo rumo que o bonde tomar. Se você como motorneiro aceita a ideia de não direcionar o bonde, você está escolhendo não desviar o bonde e, portanto, matando cinco pessoas. Do mesmo modo, os médicos não são condenados por não prestar ajuda às pessoas? Se você não desviar o bonde, estará matando 5 pessoas ou uma do mesmo jeito. Não desviar o bonde também é uma escolha, assim como dar um remédio A ou dar o remédio B ou não dar nenhum remédio. Você escolhe não desviar o bonde.
    5. Por fim, essa importância que você diz que eu dou para o fato de no primeiro caso ser um operário e no segundo uma pessoa qualquer não existe. A ideia de que as pessoas se sentem mais seguras vale para toda e qualquer pessoa. Citei os operários que possivelmente trabalharão nos trilhos porque são eles que estão presentes no dilema. Mas você pode pensar no mesmo exemplo trocando "os operários" pelos moradores do bairro, os empregados da usina nuclear, os empresários da Wall Street etc. Relembre que eu disse que em uma sociedade pautada pela regra “usar uma pessoa inocente na promoção de bem-estar de várias é correto” – as pessoas viveriam constantemente com medo de serem usadas em situações extremas como essas. Uma sociedade envolve todos os membros, classes etc.
    Eu como motorneiro devo agir nesta circunstância e a(s) morte(s) ocorrerá(ão). O fato de ser assassinato parece ser um carma para você. Se eu assassinar alguém, intencionalmente, mas esta pessoa está tentando me matar, não há problema nenhum. No caso do dilema do bonde é importante que se considere que é inevitável que alguém vá morrer ou algumas pessoas morrerão. No caso, você pode escolher minimizar os danos ou aumentar os danos.

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  18. Matheus,

    Quanto a sua primeira objeção eu concordo. Na minha resposta eu não entrei em pormenores desse tipo; não usar uma pessoa como meio poderia ser usado no sentido kantiano: os seres humanos possuem dignidade, um valor intrínseco.

    Quanto ao seu segundo ponto não vejo aí nenhum argumento contra minha resposta. Apenas o que defendi é que os dois casos são de tipos diferentes, pelo fato de um utilizar uma pessoa como um meio e no outro não. Eu não neguei a obviedade de que nos dois casos temos uma consequência ruim, nomeadamente a morte de uma pessoa (ou de cinco). Se o gordinho não estivesse no bonde a minha única alternativa seria atropelar os cinco operários e se no outro caso não houvesse nenhum operário no desvio minha melhor opção continuaria sendo a de desviar o bonde. Em outras palavras, desviar o bonde é que é o meio para salvar os cinco operários, matar um operário é apenas a consequência de se utilizar esse meio. Já no segundo caso o único meio é empurrar o gordinho.
    Nenhuma das suas objeções mostrou que essa diferença (que é intuitiva) entre os dois casos não funciona. Você apenas insistiu que nos dois casos haviam seres humanos sendo tratados como meio. Mas isso é justamente o que eu neguei e você não apresentou qualquer argumento a favor disso.
    Vale notar que o utilitarismo não é importante para minha resposta, foi apenas uma indicação. O fundamental de minha resposta é a diferença entre os dois casos. Eu apenas indiquei como o utilitarismo ou o deontologismo poderiam usar minha distinção para responder ao problema.

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  19. Kherian,

    Quanto ao exemplo você tem razão, eu me confundi: pensei que queria mostrar o contrário do que disse. Quanto ao seu segundo comentário: se é isso mesmo, de fato não tenho como lhe objetar, mas com isso está apenas reafirmando o óbvio e não acrescenta nada à discussão.

    Leandro,
    o que eu quis dizer com “utilitarismo não qualificado” consistem nas aplicações do princípio de utilidade que levam em conta apenas as conseqüências imediatas. Se nos limitarmos a aplicar o princípio de utilidade dessa maneira teremos que aceitar atrocidades morais. A sua resposta para a primeira versão do dilema retira toda a sua força dessa aplicação imediatista, que é geralmente problemática. A solução mais interessante, que aplica o princípio levando em conta as conseqüências a longo prazo de sacrificar o inocente, não é convincente: se na segunda versão não sacrificaremos um inocente devido às suas conseqüências a longo prazo também não sacrificaremos um inocente na primeira versão devido às suas conseqüências a longo prazo.

    A idéia de que o cálculo é imparcial a ponto de ignorar esses aspectos individuais me parece indefensável: se duas pessoas estão se afogando, sua mãe e um estranho, e ambas possuem as mesmas chances de sobrevivência, qual será a sua decisão no caso? Aparentemente o único modo inteiramente imparcial de decidir quem salvar é atirar uma moeda. Isso não é uma falácia de apelo emocional, é um aspecto factual importante nas nossas considerações morais – o Sandel inclusive discute esse tópico nesse livro. Ou, para insistir na mesma idéia considerando as conseqüências da sua decisão, suponha que uma das pessoas é Einstein (ou Thomas Edison ou qualquer outro bem feitor da humanidade) e a outra um completo estranho. Se aceitarmos ao pé da letra o que você diz, teremos que jogar uma moeda, pois não faz nenhuma diferença no cálculo da maximização do bem estar. Mais uma vez, isso parece fazer sentido se o cálculo é imediatista considerando o bem-estar dos envolvidos, mas ignora as conseqüências a longo prazo desse tipo de escolha.

    Quanto à afirmação de que o motorneiro é o responsável pelo bonde é preciso fazer uma distinção: o motorneiro pode ser responsável pela condução do bonde, mas não pode ser responsável pelo fato de o bonde estar desgovernado – o bonde pode estar desgovernado devido a uma falha mecânica, por exemplo. Como Sandel não afirma na formulação do experimento mental que o motorneiro é o responsável pelo fato de o bonde estar desgovernado você não pode pressupor que isso é o caso. É uma suposição demasiado importante nesse tipo de problema para ser suposta sem maiores explicações. No máximo o que você pode conseguir é acrescentar essa suposição para reforçar a sua posição, mas desse modo o exemplo original foi modificado.

    Eu já li alguns textos do Claudio Costa no site dele, mas não tinha lido esse ainda. Obrigado pela indicação, vou lê-lo depois.


    Paula,

    distinções conceituais existem para evitar erros. Se o princípio na sua versão ingênua é incorreto, você está errada em utilizá-lo. Aqui tem então o argumento: tanto na primeira como na segunda versão estamos utilizando a pessoa sacrificada como um meio para o fim de salvar mais vidas, mas em nenhum dos casos ela é considerada como um fim em si. É você que precisa apresentar um argumento independente para sustentar que o fato de empurrá-la, mas não o fato de enviar um bonde na sua direção, consiste na sua utilização como um meio.

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  20. Matheus,

    De fato o que eu tentei acrescentar a discussão é mostrar que, mesmo que o exemplo não seja o caso de um dilema moral (tal como tentei mostrar), ainda assim estamos diante de um grande problema moral: qual ação escolher? Aceito que não trouxe qualquer resposta ao problema (mas, até onde compreendi com "pequeno comentário" que está nas especificações deste pequeno concurso, não é necessário responder ao problema). Contudo, apenas tentei esclarecer um pouco as coisas. Se fui bem sucedido, isto eu não sei...

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  21. Matheus,

    Você insiste que matar o operário é o único meio para não matar os cinco. Imagine que nós temos uma pessoa no trilho ao lado, mas não se pode fazer o desvio. Essa pessoa continua sendo o meio? Parece que não. Imagine também que temos o desvio, mas nenhuma pessoa lá. E agora o que é o meio para salvar os cinco? O desvio. Parece que o que você está sustentando é: quando não tem ninguém no desvio o meio para salvar os cinco é desviar o bonde, mas quando tem uma pessoa no trilho, estranhamente, a pessoa é o meio e não mais o desvio.
    Assim como no exemplo original esses também mostram claramente que o meio é o desvio e não a pessoa. Atropelar essa pessoa é apenas uma conseqüência de se desviar o bonde.

    Já no segundo caso, alguém poderia dizer que o melhor a se fazer é atropelar os cinco operários, pois ao decidir empurrar o gordinho eu estaria usando-o como meio. Não há como parar o bonde a não ser empurrando o gordinho. Nesse caso um ser humano é usado como meio e por esta razão a melhor opção é atropelar os cinco.

    Acho que fui bem clara quanto a utilização do princípio: ele não pode ser usado nos dois casos pelo simples fato de que são fundamentalmente diferentes. Não entendi o que você quis dizer com “se o princípio na sua versão ingênua é incorreto, você está errada em utilizá-lo”.

    Sobre apresentar um argumento independente acho que já fiz isso no comentário anterior.

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  22. Oi Matheus,

    A Paula fez uma análise dos dois exemplos e encontrou uma diferença entre eles, que só no segundo alguém é tratado como meio. Ela forneceu um argumento para isso (ao contrário do que você sugeriu) e você não respondeu.
    Repare, de forma mais precisa: Os exemplos visam mostrar casos em que existe um único meio para realizar uma certa ação. A Paula parece aceitar o seguinte princípio, que não parece problemático, "Se A é o único meio para fazer B, então se A não está presente, não há como fazer B". Se o gordinho não está presente, não há como parar o trem (mantendo-se o resto igual). Mas se o operário do desvio não está presente, ainda temos como salvar a vida de cinco. Repare também que se não houvesse o desvio (se não fosse possível desviar o trem), então não seria possível salvar os cinco. Resultado, no primeiro caso desviar o trilho é o meio, e no segundo caso empurrar o gordinho o é. Só no segundo alguém é tratado como meio. Logo, os dois casos são diferentes.
    É claro que é possível descrever o primeiro caso assim “o único meio de salvar cinco é matar um”. Mas daí não segue que esse seja o modo correto de descrevê-lo. Eu penso que o princípio acima e as respectivas derivações dele mostram claramente, e de forma racional, que este não é o modo correto. Resta saber qual o seu argumento...
    Isso me parece correto, a Paula não parece apelar a nada extraordinário em seus argumentos. Aliás, me parece que você confunde o meio para realizar uma ação com as conseqüências dessa ação. Também que você aceita um princípio muito estranho que afirma que: Se alguém é levado em conta no cálculo utilitarista, então é usado como meio.
    Eis algum indício de que você parece aceitar esse segundo ponto: “o fato de decidir que um operário inocente deve morrer devido a um cálculo utilitarista que fiz é, em todos os sentidos do termo, a utilização de uma pessoa como um meio para um fim, que é poupar a vida de cinco operários”

    Concluindo, penso que você pressupõe mais aspectos controversos que a Paula. Por fim, minha objeção à sua própria resposta aos exemplos é que ela pressupõe uma análise superficial dos casos, não percebendo a diferença importante existente entre os dois.
    Abraço,
    Sagid.

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  23. Paula e Sadig,

    discordo de ambos. O argumento de vocês é que no primeiro caso poderíamos salvar as pessoas, mesmo se não houvesse o operário, pois seria o trilho, e não o operário, que é um meio para salvar as cinco pessoas. No segundo caso isso não ocorreria. Logo, é permissível sacrificar uma pessoa no primeiro caso, mas não no segundo. O problema desse argumento é que vocês estão modificando a primeira versão do problema para sustentar uma diferença que não existe no problema tal como foi formulado. No primeiro caso o único meio de salvar as pessoas é tirando a vida do operário que está no outro trilho, pois as circunstâncias exigem isso. Portanto, você não está comparando o segundo caso com o primeiro, como pode parecer, mas está comparando o segundo caso com um terceiro, que é inteiramente diferente.

    O que acontece é o seguinte: no primeiro caso você utiliza os trilhos e o operário da outra trilha para salvar cinco pessoas; no segundo caso você utiliza o gordinho para salvar cinco pessoas; e no terceiro caso você utiliza os trilhos como um meio para salvar cinco pessoas. O problema é que o fato de que no primeiro caso também utilizamos os trilhos como um meio (e não apenas o operário) não é suficiente para sustentar a intuição de que a morte do operário é apenas uma consequência da sua decisão e ele não é utilizado como um meio. Afinal de contas, não somos obrigados a desviar o bonde, o operário não iria morrer se não fosse por nossa decisão de desviar o bonde, sabemos o que irá acontecer se desviarmos o bonde. Portanto, o operário é utilizado sim apenas como um meio em nossa decisão: a menos que o operário seja um suicida ele não irá quer perder a sua vida e estamos violando arbitrariamente a sua autonomia e seus interesses para atingir outro fim, que é salvar a vida de cinco pessoas.

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  24. Fê,

    “Não há assassinato neste caso, porque tanto o único operário, quanto os outros cinco, são inocentes e neste caso o motorneiro não é menos vítima da circunstância do que quando deixa os cinco morrerem”.

    Tem um buraco nesse argumento: os cinco operários morrerão dadas as circunstâncias devido a um acidente que não foi causado pelo motorneiro, mas o operário sacrificado apenas morrerá nessas circunstâncias devido à escolha do motorneiro de desviar o bonde. Se não desviamos o bonde, a morte dos cinco é resultado de falha mecânica ou de negligência – a segunda opção é um homicídio culposo da parte do negligente. Mas se desviamos somos nós os responsáveis pelo homicídio do operário sacrificado, que será homicídio doloso, crime que ocorre quando o agente assumiu diretamente o resultado ilícito ou assumiu o risco de produzi-lo.

    Não consegui pensar ainda em uma objeção para o fato de que não sabermos quem são as pessoas envolvidas no dilema, pois eu concordo que isso deveria influenciar nossas considerações morais. Vou pensar em alguma coisa acerca dessa espécie de véu de ignorância.

    Quanto ao seu diagnóstico da intuição da maioria das pessoas no segundo caso: isso me faz lembrar um argumento do Hume em “Uma Investigação sobre os Princípios da Moral”: tendemos a atribuir maior consideração moral e ter mais empatia por pessoas que estão próximas do que a pessoas que estão distantes. Cabe à razão, argumentava o Hume, corrigir essa tendência.

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  25. Matheus,
    Não sei se vou conseguir responder à sua objeção. Suponhamos que seja assassinato. A questão então é que, mesmo sendo assassinato, uma vez tendo a responsabilidade nas mãos de decidir pela vida das pessoas, seria mais imoral deixar as cinco morrerem, tendo a oportunidade de salvá-las do que matar o único operário. As cinco morreriam de qualquer modo, mas sem a presença do único operário, elas não poderiam ser salvas. Agora elas podem ser salvas e a omissão de salvá-las parece-me mais grave que não salvá-las para evitar um assassinato. Optando por uma decisão ou outra, teremos custos graves, mas como não sabemos quem são as pessoas na iminência de morrer e tendo a oportunidade de salvar algumas delas, o menos grave parece-me matar o único operário e apostar que temos mais pessoas capazes de, estando vivas, trazerem mais benefícios para a sociedade.

    Não estou aqui para defender um utilitarismo de atos, mas não defendo o sacrifício de inocentes como regra geral. De fato, isto traria medo e insegurança de tal modo que as pessoas se tornariam paranóicas. Estou pensando nos exemplos oferecidos como casos isolados, mas talvez isto seja incoerente com a idéia de não defender o utilitarismo de atos, não sei.

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  26. Matheus,

    Acho que uma resposta à objeção de que se o sacrifício de inocentes se tornasse regra geral geraríamos medo e insegurança na sociedade, é que aceitamos o sacrifício de inocentes como regra apenas em casos excepcionais. Então assim os membros da sociedade se sentiriam mais seguros e não entrariam em paranóia, já que não estariam sujeitos a todo instante ao sacrifício.

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  27. A qualidade de muitos dos comentários deixa-me a difícil tarefa de escolher os três melhores. Consegui chegar a uma lista dos quatro melhores comentários, mas tenho de excluir um deles. Dou por isso o prémio ao Leandro, à Fernanda e à Paula. Parabéns! Isto não significa que os outros comentários não sejam igualmente bons; e algumas discussões foram particularmente boas. Mas só tenho 3 livros para oferecer. Os contemplados com o prémio devem enviar-me o vosso endereço por email, para eu passar ao editor. E podemos continuar a discussão!

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  28. Fê,

    essa nova objeção é muito boa, mas eu posso respondê-la da seguinte maneira: se aceitarmos que essa regra do sacrifício de inocentes é justificada só se for aplicada em circunstâncias extremas, ainda assim teremos medo e paranóia de sermos o inocente em questão em circunstâncias extremas. Eu, você ou qualquer outra pessoa escolhida aleatoriamente será jogada de uma ponte ou acusada de assassinato se isso poupar vidas em determinadas circunstâncias, mas isso é errado.

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  29. Bom dia.

    Concordo com o Matheus quanto a hipótese de o gordinho ser meio para um fim e o operário solitário não. Citar que poderia não haver desvio (e assim seria iminente a morte dos cinco operários) não me parece válido, é modificar a situação. No caso, tendo uma vida sobre o segundo trilho, ela é automaticamente "um meio". Se estivesse vazio o trilho, simplesmente não haveria dilema. Agora imaginem que em vez de uma pessoa no segundo trilho, fossem cinco, igual número aos que estão na reta do trem. Haveria dilema ou apenas atropelaríamos aqueles que estão na reta? Estamos fazendo um simples cálculo?

    Quanto ao gordinho, não levamos em consideração a autonomia deste, como já foi dito. Se ele estivesse disposto ao ato, não teria ele pulado? Veja que Sandel supõe que você na situação tenha pensado em pular no trilho, mas percebera que era magro demais para surtir algum efeito. A solução seria então empurrar o gordinho que tem plenas condições de evitar a tragédia, certo? Mesmo que ele tenha tido a mesma percepção que você, mas tenha decidido não se sacrificar em prol dos desconhecidos. Sim, pois aqui há o detalhe de que o gordinho é também parte racional do processo, ele tem em suas mãos poder de decisão, enquanto os indivíduos nos trilhos são apenas vítimas da ocasião (não estou dizendo que são "voluntários", evidentemente).

    E se o gordinho quando você vai empurrá-lo, do alto de seus duzentos quilos simplesmente pega você pelo braço e atira para a morte lá no trilho. Que beleza hein? Legítima defesa?

    Trago isso para a discussão apenas para sustentar que existem aspectos morais (não sei ao certo se é correto dizer "Moral") em jogo, e não creio que possamos excluir isso.

    Como não temos meios para valorar a situação que Sandel nos dá, qualquer solução me parece arbitrária.

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  34. Oi Matheus,

    Eu não sei mais por onde argumentar, estamos peto da rocha dura, você continua insistindo circularmente que o operário no desvio é o meio apenas porque ele morre na situação. No Meu comentário anterior eu coloquei um princípio aparentemente defendido pela Paula para identificar qual o único meio para fazer uma determinada coisa e mostrei que a conclusão da Paula se deriva do princípio, que é muito intuitivo e parece correto. Ainda não vejo uma razão para modificar o princípio.

    Mas você deu um outro argumento que, se funcionasse, seria problemático. Alegou que a Paula modificou o exemplo. Eu posso provar que isso não é o caso. A única coisa que a Paula sustentou é que o operário do desvio não é um meio porque um princípio muito Plausível acerca de qual é o único meio para fazer algo diz que ele não é. Nada aí implica modificações no exemplo.

    Mas é claro, ela realmente pediu a você que imaginasse que há um operário no desvio do trilho, mas não fosse possível desviá-lo. Mas com isso a Paula quis apenas dar um contra-argumento a você. A idéia dela me pareceu ser a seguinte. Quando há uma pessoa no desvio e não há como desviar, a pessoa não é o meio. Mas quando há o desvio e não há uma pessoa, o desvio é o meio. E quando há a pessoa e o desvio??? (exatamente como no exemplo). Nesse caso a pessoa passa (magicamente???) a ser o meio. As modificações do exemplo foram só para fazer uma comparação, servem como argumento e nada mais. O tratamento da Paula continua se aplicando ao exemplo verdadeiro.

    Mais alguns pontos.
    1) Eu gostaria de ver você finalmente responder por que o princípio mencionado por mim no comentário anterior está errado. Esse sim seria o meio de refutar a Paula.

    2) Você continua confundindo as conseqüências de uma ação com os meios para realizá-la. Uma analogia, sua tese é mais ou menos assim. Se eu uso um martelo para quebrar a parede, então o martelo é o meio que tenho para fazer isso. Contudo, se quebrar a parede causa uma perfuração de um cano de água, então a perfuração do cano é o meio (e não a conseqüência) para fazer isso (quebrar a parede). Parece estranho não é? Quando se tira as situações que envolvem apelo à emoção, a confusão entre conseqüências e meios se torna mais evidente.

    3) Havia sustentado que seus argumentos pressupõem mais coisas controversas que o da Paula. Continuo pensando isso, já que não vi no último comentário algo que pudesse ser encarado como uma resposta a isso.

    4) Matheus, eu e a Paula estamos respondendo objeções como se o ônus da prova fosse dela. Mas em meu último comentário eu sustentei que era justamente o contrário, já que é você quem confunde os meios e as conseqüências, e aceita princípios estranhos. Também defendi que você pressupõe mais aspectos controversos que ela. Note, ficar pressupondo a própria tese e jogar o ônus para o lado do outro mesmo depois de todas as respostas não ajuda muito. A Paula também poderia fazer isso. Mas se eu te interpretei errado, então me corrija e diga qual é, de fato, seu ponto; sem circularidades, etc.

    Abraço,
    Sagid.

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  36. Oi Müller,

    Vamos às respostas. Em primeiro lugar, se minha interpretação da Paula está correta então o argumento dela é aquele que eu coloquei no meu penúltimo comentário contra o Matheus. De uma olhada lá. Quanto à objeção da modificação do exemplo, eu respondi isso logo acima, na última resposta ao Matheus. Aplico a mesma resposta à você. Aliás, as modificações que a Paula fez tiveram os mesmos objetivos que as que você fez, explicar melhor algum ponto.


    Uma confusão. Você parece fazer a mesma confusão que o Matheus entre o meio pelo qual realizo uma ação e as conseqüências dessa ação. A Paula tem a vantagem de separar isso muito bem, com seu princípio para algo ser o único meio de fazer algo. Novamente, isso está no meu penúltimo comentário contra o Matheus. Dê uma olhada lá e se não entender ou concordar com algo, eu tento responder. Eu penso que a estratégia para refutar a Paula é refutar o princípio dela. Ou mostrar que as derivações feitas a partir dele não são corretas. Mas até agora isso ainda não foi feito.

    Um Abraço
    Sagid.

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  37. Pessoal,
    eu apaguei o post anterior desse mesmo comentário porque troquei “gordinho” por “operário no desvio” em alguns momentos. E isso muda todo o sentido do argumento.

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  38. Olá Sagid.

    Penso que compreendo então o ponto.

    Mas como seria então a interpretação se em vez de um gordinho na ponte, tivéssemos uma pedra enorme. Empurrando essa pedra, temos o resultado de ela cair na cabina do trem e (hipoteticamente) mudar a direção para o trilho adjacente (e suponhamos que não há operário neste), porém nesse processo resulta a morte do motorneiro.

    Então, o meio seria empurrar a pedra, correto? Suponhamos que a única maneira de fazer o trem tomar a direção seria empurrando a pedra, pois os comandos do painel estão danificados. Tal ação seria similar a atropelar o operário solitário da outra versão? Mas quando empurramos a pedra não sabemos que necessariamente o motorneiro irá morrer?

    Veja que em cada versão temos uma mudança de prisma, em cada uma o ator está em um posicionamento diferente; mas o resultado (cru) necessariamente é o mesmo sempre (cinco mortes ou uma morte). Então é relevante para a discussão o "meio", ou é apenas mais um aspecto "moral" que deveria ser superado (porque utilizar o gordinho para parar o trem é mais errado do que empurrar e pedra no motorneiro)?

    Os exemplos por si só de Sandel já nos é dado de maneira que eliminemos o máximo possível de afeições (digo, nada sabemos propriamente sobre os envolvidos, apenas suas funções na história).

    Afinal existe alguma coisa certa a fazer? Se nada sabemos sobre aqueles que estão nos trilhos, será que existe algum juízo correto a fazer ou qualquer um por mais elaborado que seja não escapará de ser arbitrário e dependente de "sorte" (uma aposta)?

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  39. Oi Müller,

    Bem, deixa ver se eu entendi seu ponto. Eu interpretei assim. Você aceitou a diferença entre meios e conseqüências de uma ação. Mas assim como no caso da pedra o fato de a pedra ser o meio não é um aspecto moralmente fundamental, no caso do gordinho isso não deveria ser. Só o que importa (ou o que mais importa) é que em ambos os casos temos mortes como conseqüências. Grosso modo, se interpretei corretamente, sua objeção seria que a distinção da Paula não tem lá muita relevância moral. Ela não responderia à perguntas como “Afinal, existe uma coisa certa a fazer?”

    A resposta seria a seguinte. De certo modo, parece ser justamente isso. O que a Paula fez foi uma análise (mais metafísica do que moral) dos casos, e encontrou uma diferença entre ambos. Mas essa diferença, por si só, não implica logicamente nenhuma resposta particular para os casos.

    Mas então por que a resposta dela é relevante? Pelas seguintes razões.
    1) Muitas respostas, talvez a do Matheus, pressupõem que os dois casos são do mesmo tipo. Se a Paula está correta, então essas respostas podem ter problemas.
    2) A própria formulação do problema perde muito de seu apelo intuitivo quando temos em mente que são dois casos diferentes, e que essa diferença pode ser fundamental.
    3) Embora a distinção da Paula em si mesma não implique uma resposta, ela pode ser um meio para diferentes teorias morais resolverem os casos; conforme a própria Paula explicou em seu primeiro comentário. Exemplo, a solução utilitarista do Leandro parece partir justamente da suposição de que os dois casos são diferentes.
    Este último ponto responde à sua objeção sobre as conseqüências serem o mais relevante. Um utilitarista que concorde com a Paula dirá exatamente isso. Ele dirá: “Sim! O gordinho é usado como meio, mas isso só é um mal porque as conseqüências de permitirmos isso a longo prazo serão ruins.”. Assim, um utilitarista poderia aceitar, ao mesmo tempo, a análise da Paula e a tese de que só as conseqüências são relevantes moralmente. Um deontologista que concordasse com a distinção da Paula entre os casos diria outra coisa qualquer. E alguém poderia até mesmo sugerir que essa distinção não é importante para nossa decisão. Eu não acho essa última saída plausível, mas essa é outra história.

    Mas note, distinguir os dois casos não implica uma resposta, mas nos fornece meios para tal. Principalmente, ela nos fornece um meio de justificar a nossa intuição de que no primeiro caso devemos desviar e no segundo não devemos empurrar o gordinho. No fim das contas nós poderíamos descobrir que, embora os casos sejam diferentes, essa diferença não é moralmente relevante. Mas qualquer teoria que tente resolver os dois casos, dado que eles são diferentes em tipo, terá de dizer algo sobre a relevância moral dessa diferença. Este é, penso, o fundamental da resposta dela.

    Abraço,
    Sagid.

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  40. Olá Sagid.

    Entendo sim, é que eu de início não percebi que o objetivo de Paula (pelo que me parece) não era dar a resposta, e sim uma ferramenta, foi lapso meu que não detive maior atenção no texto.

    Estava procurando o fundamento plausível para justificar essa diferenciação do meio do fim para dar a resposta ao dilema, foi um conflito com o que suponho (que antes do que isso, o mais importante sejam as informações acerca dos envolvidos e/ou desfecho dos resultados etc).

    Não me pareceu relevante por causa da convicção de que nossas escolhas não são tão racionais quanto parecem.

    Veja que mesmo o fato de você ter que empurrar com suas próprias mãos o gordinho e este ser dilacerado pelo bonde pode influir no seu raciocínio. Sandel dá mesmo a opção de derrubar o gordinho por um alçapão ativando uma manivela, e torno o resultado ainda menos drástico, o gordinho não é esmagado pelo trem, e sim ao cair bate em um painel (porém mesmo assim morre) que modifica a direção dos trilhos.

    Mesmo sendo ele meio nas duas ocasiões, o nosso julgamento sobre o caso (mesmo tão semelhante em resultado) pode variar.

    Foi essa creio minha discordância, eu não tinha entendido o sentido empregado por você e pela Paula.

    Abraço.

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  41. É possível, de fato, escrever muitas linhas sobre isso. Mas penso que o essencial é o seguinte.

    Deve-se desviar o vagão evitando o impacto com os 5 operários, porque:

    1- No 'escuro' ainda é melhor salvar 5 vidas do que 1;

    2- Do ponto de vista do que é moral e estritamente correto, o ato do desvio tem como fim último realizar o bem de preservar a vida humana; e o sacrifício do operário solitário, embora constitua um efeito lamentável, não elimina a correção desse ato.

    2.1- Ao contrário do que disseram acima, a lógica meio-fim não transparece quando se desvia o vagão para o operário solitário, como se seu sacrifício se tornasse um artifício para presevar outras vidas. Essa lógica se impõe justamente quando não se devia o vagão em função dos efeitos que seriam causados por essa ação. Pois uma ação moral que se queira realmente correta não o pode deixar de ser em função dos efeitos que acarreta. É paradoxal pensar numa ação moral boa que não tenha de ser boa em si mesma, quer dizer, que não tenha em vista um fim último. Sem esse pressuposto, não seria de fato possível julgar moralmente coisa alguma, a não ser no dia do juízo final, pois toda ação, quando julgada em função de seus efeitos, só poderá ser realmente avaliada ao final de todo o processo que desencadeou, o que é totalmente incontrolável. Em suma, a ação humana pode ser julgada moralmente certa somente quanto às causas (baseadas em fim últimos), jamais quanto a seus efeitos. Diz respeito a ela desviar o vagão para salvar as vidas que se encontram nos trilhos. Isso é moral. A morte certa do outro operário não diz respeito a ela. E há na pretensão de controlar isso algo imoral.

    3- O problema moral se tornaria mais difícil se o caso fosse desviar o vagão de um trilho com um único operário acarretando como efeito a provável a morte de 5. Pois então seria armado o conflito entre a realização da ação moral correta baseada em fins últimos e a preservação da vida humana, que seria em maior número destroçada.

    4- Apenas de um ponto de vista inevitavelmente metafísico o que é moralmente correto coincide com o que é o melhor a fazer.

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