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Assim falou Searle

Vale a pena ouvir este podcast em que John Searle, no seu habitual modo -- muito directo e terra-a-terra -- fala dos seus interesses em filosofia.

Comentários

  1. O discurso de Searle é sempre de uma limpeza que dá gosto ouvir. É característico de quem pensa nos problemas com grande profundidade e de forma estimulante. Ao contrário do que muitos pensam, a opacidade do discurso não é sinal de pensamento profundo. Searle está, provavelmente, entre os 3 ou 4 melhores filósofos das últimas décadas.

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  2. A clareza do Searle é exemplar, ótimo podcast. Gostaria de saber a opinião do pessoal daqui sobre a crítica que ele fez aos excessos lógicos de alguns autores.

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  3. Darei meu pitaco (já que ninguém se pronunciou).

    Penso que o problema apontado pelo Searle é que certa empolgação lógica tem afastado os filósofos da investigação das questões realmente importantes. O problema aí é o critério que separa as questões importantes das nem tão importantes assim. Qual será o critério que Searle tem mente?

    Aliás, como defender um critério destes? Parece que ao fazê-lo não há como ser imparcial, mas aí podemos nos perguntar se esta impossibilidade deve nos impedir de sustentar algum critério.

    Creio que o dilema pode até ser colocado da seguinte forma: oscilamos entre o extremo de ter um critério que separa problemas e pseudo-problemas (algo que o positivismo nos mostrou que é arriscado) e não ter critério algum. Tendo a preferir o segundo extremo, até porque me interesso por questões metafísicas e a metafísica geralmente é prejudicada por tais critérios de problemas, mas será que ainda assim não vale a pena buscar algo que nos permita dizer que, por exemplo, a questão metafísica A é relevante e B não é? (e que pudesse ser adaptado para questões epistêmicas, éticas, etc.)

    Um outro problema interessante que surge é se haveria um critério que separaria as questões filosóficas importantes das nem tão importantes ou se seriam diversos critérios: um que separasse as questões metafísicas importantes das nem tão importantes, outro que separasse as questões epistêmicas importantes das nem tão importantes, e assim por diante.

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  4. Greg,

    sua postagem é exatamente um exemplo da excessiva "empolgação lógica" que Searle acusa - que era exatamente o problema que te apontei em nosso último debate: burocracia filosófica.

    Se você ler "A Redescoberta da Mente", terá uma boa ideia do que Searle quer dizer: enquanto as discussões entre behaviorismos, teorias de identidade ou funcionalismos se perdem em pormenores técnicos, dando um ar de extrema complexidade e especialidade à filosofia da mente, a questão importante continua tão simples como sempre foi: como lidar com o caráter ontologica e irredutivelmente subjetivo da consciência?

    Considerando que as principais (e extremamente técnicas) teorias da mente basicamente negam o problema real (e exatamente por isso é que são tão técnicas: precisam quadrar o círculo!), estamos obviamente perdendo tempo com elas.

    Searle percebe que a "empolgação lógica" é exatamente o que permite aos filósofos sofisticados evitarem o problema real e se enredarem em confusões cada vez mais elaboradas (parece, de fato, teologia).

    Qual critério determina quais questões são importantes e quais são desimportantes? Essa pergunta geral é um erro. Cada caso é um caso. E, no caso da mente, sua subjetividade é e sempre foi o grande problema. Isto é basicamente um dado - e debater isto é certamente mais importante do que debater qual a melhor forma de fingir que o problema não existe (behaviorismo? identidade? funcionalismo?).

    Claro, virá o contra-argumento de que é praticamente impossível que tantos filósofos da mente estejam debatendo ilusões... O que, claro, não é argumento nenhum. Mas já tivemos esse papo, rs.

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  5. Lauro Edison,

    Não vejo excesso lógico algum no que coloquei. Sequer é preciso saber o que é um modus ponens para se entender o que eu disse.

    Criticar certas teorias porque elas não estão lidando com "o problema importante" exige que se mostre porque tal problema é o problema importante. Apenas insistir que tal problema é o mais importante não serve para nada. De qualquer maneira, tua comparação é incorreta. No caso da semântica dos contrafatuais Searle não diz que concorda ou discorda dos resultados encontrados (e diz até que sabe que é algo feito com seriedade e cuidado), mas no caso do problema da consciência Searle discorda das teorias concorrentes. Agora, discordar de uma teoria não é o que faz dela irrelevante (para Searle) ou então ele estará empregando dois critérios. Assim, ou tua comparação é descabida ou Searle não pensa que as outras teorias da consciência sejam irrelevantes (e provavelmente é o segundo caso: ele só pensa que estão erradas, se pensasse que são irrelevantes não teria passado décadas tentando refutá-las). Portanto, ou tua comparação é descabida ou tua alegação de que Searle consideraria as demais teorias irrelevantes é falsa.

    E curioso que você diz que "cada caso é um caso" ao mesmo tempo em que elege o "grande problema".

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