9 de outubro de 2011

Williamson sobre a ciência



Gostaria de regressar ao artigo de Williamson no NYT sobre o naturalismo, que tem sido aqui objecto de uma interessante troca de argumentos. Não venho retomar essa discussão, mas simplesmente expor a minha surpresa com uma passagem do texto de Williamson sobre as teorias científicas. 

Diz ele, no segundo parágrafo, que as melhores teorias científicas actuais serão provavelmente substituídas por desenvolvimentos científicos futuros. Na verdade, esta é uma ideia muito comum, que só surpreende pelo facto de ser partilhada também por Williamson. 

Note-se que Williamson não diz que mesmo as melhores teorias científicas poderão vir a ser substituídas por outras no futuro. Isso é uma banalidade, que não há como contrariar. Não se trata, pois, de reconhecer a mera possibilidade de as teorias científicas actuais virem a ser descartadas no futuro; trata-se de afirmar que é provável isso acontecer com as melhores teorias actuais - ou seja, por maioria de razão, com todas as teorias. 

Mas o que justificaria tal afirmação? Que todas as teorias científicas do passado acabaram por ser posteriormente substituídas ou abandonadas? Se isso fosse verdade, talvez se justificasse afirmar que todas as teorias actuais virão provavelmente a ser descartadas. Mas a premissa é falsa, sendo facílimo encontrar casos de teorias do passado que estão longe de ser descartadas. E mesmo algumas teorias do passado que por vezes se diz estarem ultrapassadas - a física newtoniana, por exemplo - não o foram realmente, tendo antes sido melhoradas, completadas ou corrigidas em alguns aspectos. O que se passa é que os casos de teorias bem sucedidas são frequentemente ofuscados pelo alarido dos insucessos científicos. E nem sequer vale a pena contabilizar insucessos estrondosos, como a cosmologia geocêntrica ou a teoria do flogisto, como o faz notoriamente Thomas Kuhn. Isto porque o geocentrismo não passa, em bom rigor, de uma teoria pré-científica, e a teoria do flogisto surge numa área científica de investigação ainda pouco madura. À medida que a investigação numa dada área científica vai amadurecendo, também as suas teorias se tornam mais robustas. Ora, isto deveria refrear a tendência para pensarmos que as teorias do passado são como as do presente e as do presente como as do futuro.  

Mas talvez Williamson não parta daquela premissa falsa. Talvez parta de uma outra, esta sim, verdadeira: a de que algumas teorias do passado acabaram mais tarde por ser abandonadas ou substituídas por outras. Só que, neste caso, a premissa não chega para concluir que todas as teorias virão provavelmente a ser abandonadas ou substituídas por outras. Concluir tal coisa é fazer uma generalização precipitada.

Não pretendo mostrar que Williamson está errado nas suas críticas a certo tipo de naturalismo cientificista muito em voga, pois o seu argumento central não depende disto. Mas se é importante denunciar certos preconceitos cientificistas, como justamente faz Williamson no seu artigo, também me parece importante não resvalar para o erro simétrico, que consiste na relativização em bloco dos sucessos científicos. Talvez todos estes sucessos sejam efémeros - e temos de ter isso em conta - mas não deixa de ser injustificado darmos isso como quase certo. A não ser que disponhamos de alguma razão misteriosa para pensar que a verdade é irremediavelmente inacessível.

É possível que esteja a ser injusto com um texto que se destina ao grande público e onde compreensivelmente não há espaço para grandes subtilezas. Seja como for, não deixa de ser surpreendente. Ou talvez não?

18 comentários:

  1. Acho que há uma sutileza aqui: dizer que uma teoria X virá a ser substituida por uma teoria Y não é dizer que rejeitaremos todos os aspectos de X, e nem dizer que Y é totalmente diferente de X.

    Nossa teoria X pode muito bem ser o caso da física newtoniana, que foi substituida pela nossa teoria Y, no sentido de ter sido melhorada, completada e corrigida em alguns aspectos.

    O aspecto central dessa passagem, é que as teorias X e Y apresentem uma descrição algo diferentes de mundo, mas uma pode ser muito bem um desenvolvimento da outra. Isso é suficiente para o argumento do parágrafo em questão do texto do Williamson.

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  2. Esta passagem de Williamson me confunde um pouco. Ele coloca alguns condicionais que me deixam incerto sobre ele estar expressando algo que realmente pensa ou algo que supõe que os naturalistas pensariam, ou algo que concederia aos naturalistas como a posição que seria mais segura.

    Mas, é plausível supor que ele está afirmando algo que pensa de fato. Neste caso, discordo do que o Iago alegou: Williamson diz que, dada esta incerteza sobre o futuro das teorias científicas, o naturalista defenderia que o que existe é aquilo que o método científico eventualmente descobrisse. Ou seja, Williamson presume que poderia haver uma mudança teórica tão drástica que o mais seguro seria defender apenas a permanência do método científico. Assim, quando ele diz que as melhores teorias provavelmente serão suplantadas (o significado de "superseded" é um ponto central) ele está dizendo algo mais forte do que "provavelmente serão melhoradas".

    Agora, se Williamson pensa mesmo tal coisa, ele parece estar flertando com um anti-realismo científico que eu não esperaria dele. Por isso ainda não estou certo de que esta passagem permita alguma consideração conclusiva sobre a posição de Williamson no assunto.

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  3. Se é verdade que há muitas leis científicas que são melhoradas e não substituidas, não é esse o caso da teoria de Newton. Nós ainda a usamos porque é uma boa aproximação para baixas velocidades e acelerações, mas a teoria da relatividade não é compatível com a teoria newtoniana.

    João Pedro Neto

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  4. Poxa, não vejo essa exigência de uma mudança drástica na ciência.

    O argumento do Williamson é: não podemos definir "mundo natural" como "aquilo que a ciência diz, hoje", pois se amanhã a ciência disser qualquer coisa diferente, então essa definição ficará ultrapassada.

    Esse argumento não exige uma drástica revolução científica... Exige apenas alguma leve mudança...

    Estou deixando passar algo?

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  5. Iago,

    Creio que Williamson apresenta uma definição tão mínima por pensar que é possível que a ciência sofra mudanças drásticas. Repare que ele poderia ter dito que uma definição de mundo natural plausível seria "aquilo que a melhor teoria física eventualmente descobrir". Isto não comprometeria ele com a tese de que podem ocorrer mudanças drásticas, mas ele oferece uma definição muito mais econômica, e não teria porque fazê-lo se não achasse possíveis tais mudanças.

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  6. Gregory,

    ainda acho que não.

    É verdade que se a definição de "mundo natural" fosse "aquilo que nossa ciência acabada diz", então não haveria comprometimento com a ideia de que a ciência provavelmente sofreria mudanças constantes indefinidamente. Ao contrário, essa ideia seria inconsistente com a definição, pois a definição pressuporia uma ideia de uma ciência acabada, que não sofreria mais mudanças.

    Mas existe um motivo pelo qual essa definição é ruim: a ideia de uma ciência acabada é muito implausível. Não tanto pelo fato de não existir uma teoria completa e verdadeira, mas pelo fato de sermos seres falíveis: mesmo que chegássemos a uma teoria completa e verdadeira, ela provavelmente ainda sofreria mudanças, pois em algum momento pensaríamos (erroneamente) que há algo de errado com ela.

    Penso que Williamson não atribui essa definição de "mundo natural" ao naturalista por essa implausibilidade da definição.

    Por outro lado, definir "mundo natural" como "o que quer que o método científico descubra" não tem essa consequência implausível. E mesmo essa definição continua compatível com a ideia de que a ciência não sofre mudanças drásticas. Mas claro, pressupõe a ideia de que ela sofre algumas mudanças, indefinidamente.

    Que acha?

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  7. Aires, seus comentários me lembraram do oportuno texto de I. Asimov, 'A relatividade do errado', que vale lembrar:

    Original (em inglês):
    http://home.earthlink.net/~dayvdanls/relativity.htm

    Uma tradução:
    http://scienceblogs.com.br/100nexos/2010/06/einstein_e_newton_na_relativid/

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  8. Aires,

    talvez isto seja mais próximo ao seu ponto: sua questão inicial era "o que justifica pensarmos que todas as teorias científicas serão suplantadas por teorias radicalmente diferentes?". Penso que nada justifique isso.

    Mas a afirmação mais modesta seria "qualquer teoria científica provavelmente sofrerá leves mudanças indefinidamente", e sua questão ainda se aplica aqui: por que pensar isso? Temos alguma razão misteriosa para pensar que a verdade é irremediavelmente inacessível?

    A isso eu diria: não temos razão para pensar que a verdade é irremediavelmente inacessível, mas temos razão para pensar que nosso acesso à verdade é irremediavelmente falível. E isso parece suficiente para justificar essa afirmação mais modesta.

    Aqui a coisa encaixa bem com as ideias do Williamson, afinal ele certamente não é um anti-realista, mas ele certamente é um falibilista radical (efetivamente, ele defente que não há crença alguma infalível, que podemos estar enganados até sobre crenças acerca de nossos estados mentais e todo o resto).

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  9. Caro Aires

    Penso que tens razão em chamar a atenção para este pormenor; e penso que se Williamson pensa que as teorias científicas do presente estão provavelmente erradas porque as do passado também o estavam, está não apenas a partir de uma premissa falsa, como a concluir algo que dela não se conclui validamente, ainda que fosse verdadeira.

    Só que o termo que ele usa é “supersede”, que quer dizer “suplantar” ou algo do género. Ora, as teorias científicas do presente suplantaram realmente as do passado, se pensarmos nas teorias mais fundamentais; mas suplantar é compatível com integrar vários resultados das teorias anteriores, corrigir alguns deles apenas e excluir outros. E isto é só o que ele precisa, no contexto em causa, para mostrar que mesmo aceitando que só existe o que a ciência determina que existe, não sabemos bem, na verdade, o que existe, pois ao passo que no séc. XIX a ciência diria que não há quarks ou campos de forças, no séc. XX diz que há as duas coisas.

    Portanto, penso que tens razão e que ele poderia ter sido mais inequívoco no texto dele. Na verdade, talvez não se tenha dado conta de como demasiado facilmente se afirma, erradamente, que todos os resultados das teorias do passado são falsos. Na verdade, mesmo que ele não tenha explicitamente pensado nisso, parece-me, do que conheço dele, que estará disposto a aceitar a tua ideia — pense-se na importância que ele dá às tentativas dos pré-socráticos para desenvolver uma teoria atomista, por exemplo.

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  10. O texto do Asimov é uma pérola, muito obrigado, Lennine!

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  11. Iago,

    A definição hipotética que apresentei ("aquilo que a melhor teoria física eventualmente descobrir")não precisa resultar na tese de que haverá uma ciência acabada, o "melhor" pode ser provisório. Se uma teoria for substituída ou reformulada, quem defende tal definição pode dizer "Ainda não era nossa melhor teoria".

    A principal diferença entre esta definição e a definição de Williamson é que esta deixa espaço para a concepção de que as teorias físicas se aproximam assintoticamente de uma descrição verdadeira e completa da realidade. Como Williamson concede que qualquer teoria poderia ser completamente suplantada, não parece que a posição dele deixa espaço para a mesma concepção.

    Portanto, creio que Williamson não sugere a definição hipotética que apresentei porque ele pensa (ou parece pensar) que as mudanças drásticas são possíveis, não por a definição ser ruim.

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  12. “What, for a start, is the natural world? If we say it is the world of matter, or the world of atoms, we are left behind by modern physics, which characterizes the world in far more abstract terms. Anyway, the best current scientific theories will probably be superseded by future scientific developments. We might therefore define the natural world as whatever the scientific method eventually discovers. Thus naturalism becomes the belief that there is only whatever the scientific method eventually discovers, and (not surprisingly) the best way to find out about it is by the scientific method. That is no tautology. Why can’t there be things only discoverable by non-scientific means, or not discoverable at all?”

    Este é o parágrafo em causa. O que está em causa é que o naturalista parece pensar que saber o que é o mundo natural é simples e óbvio. E a ideia é que o mundo natural é o que a ciência diz que é. Objecção 1: ao longo do tempo a ciência tem dito diferentes coisas sobre o que é o mundo natural. Qual delas é a correcta? Objecção 2: como raio se argumenta a favor da ideia de que só existe o que a ciência diz que existe? Por que não pode haver coisas que não são susceptíveis de serem descobertas apenas por meios não científicos?

    Resposta à objecção 1: o que conta é o que a nossa melhor ciência diz; é irrelevante o que já disse. É ao responder a isto que Williamson defende que a probabilidade de no futuro a ciência dizer que existe o que hoje a ciência não diz que existe é elevada, precisamente porque o progresso da ciência tem consistido em descobrir coisas que antes não se suspeitava que existiam. Isto está muito longe do alarme lançado pelo Aires (ainda que eu pense que os seus esclarecimentos são importantes e nunca devemos perdê-los de vista, assim como é crucial ler o texto de Asimov). Tudo o que Williamson defende é que o que a ciência diz que existe irá provavelmente mudar no futuro. O que parece razoável: há apenas 30 anos ninguém falava da teoria das cordas, por exemplo, ou dos múltiplos universos.

    A ideia geral da segunda objecção de Williamson, a mais importante, é que é desavisado considerar que o que é insusceptível de ser descoberto pelos meios científicos não existe. Isto porque esta tese põe as coisas de pernas para o ar: inventamos metodologias, incluindo as científicas, para, entre outras coisas, descobrir e compreender o que existe; são as metodologias que se regulam pela realidade independente de nós, das nossas teorias e das nossas metodologias, não são estas que determinam o que existe ou não existe. E este é o insight crucial. As versões mais habituais de naturalismo põem as coisas de pés para o ar, e em vez de considerarem que temos as metodologias científicas que temos porque queremos saber o que realmente há, passam a considerar que há apenas o que podemos descobrir que há usando as nossas metodologias científicas.

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  13. Oxe, agora já não estou mais entendendo...

    Sua definição hipotética de "mundo natural" era "aquilo que a melhor teoria física eventualmente descobrir", e afirmas que Williamson não avança essa definição.

    Mas dizes agora que nunca chegaremos em uma teoria pronta e acabada. Antes, as teorias físicas aproximam-se assintoticamente (i.e. aproximam-se, mas nunca chegam lá (oxe, deu trabalho achar essa palavra no dicionário, rsrs)) de uma descrição verdadeira e completa da realidade.

    Então, no final, sua definição hipotética de mundo natural é: o que quer que a ciência diga, i.e. o que quer que o método científico resulte, e isso sempre vai mudar levemente, pois estaremos sempre nos aproximando, mas nunca chegando lá.

    Ora, mas é bem essa a definição que Williamson oferece ao final...

    Não?

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  14. Bom, fiquei agradavelmente surpreendido ao encontrar aqui tantos e tão bons comentários ao que eu disse. Concordo com o Geobardy e com o Desidério de que a plausibilidade do que afirma depende em boa parte do significado exacto de "superseded". Também o Iago chama indirectamente a atenção para isso no seu primeiro comentário. Mas é precisamente esta necessidade de esclarecimento que deixa a porta aberta para o anti-realismo apontado pelo Geobardy. E mesmo que Williamson esteja apenas a dizer que as melhores teorias actuais irão ser aperfeiçoadas, não me parece que "superseded" seja a melhor maneira de o exprimir. Será que é correcto dizer que o heliocentrismo foi suplantado ou ultrapassado? Acho que Williamson poderia ter evitado este equívoco, que só contribui para alimentar a mais dogmática vulgata relativista.

    Já agora, a motivação geral do artigo de Williamson parece-me justificada, mas ainda assim acho que há outras passagens infelizes além da que aqui apontei. Há uma outra passagem onde parece opor o raciocínio puro, usado na matemática, ao método hipotético-dedutivo, usados nas restantes ciências. Então o raciocínio puro não pode ser hipotético-dedutivo? E na matemática não se usa também o raciocínio hipotético-dedutivo? Um dos comentários ao artigo no NYT chama a atenção para isso. E, quanto a mim, muito bem.

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  15. Obrigado, Lennine. Trata-se, de facto, de um belíssimo e esclarecedor texto.

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  16. Aires, tens de entender "superseded" apenas no que respeita ao que as teorias dizem que existe. E é verdade que há 100 anos nenhuma teoria dizia que existia quarks, e há 80 anos nenhuma teoria dizia que havia múltiplos universos, etc. É isso que está em causa porque está em causa a ideia naturalista de que existe apenas o que a ciência diz que existe.

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  17. Iago,

    A sutileza é que na minha definição hipotética posso recusar que a teoria física atual poderá ser completamente substituída, ainda que concedendo que ela possa não ser a melhor teoria que teremos. Isto é algo que não seria permitido pela definição de Williamson.

    Mas, meu ponto é, como colocado pelo Desidério e pelo Aires, que o "suplantar" é infeliz por permitir (e até induzir) esta interpretação mais drástica e não uma interpretação como a da minha definição hipotética (que Williamson poderia ter adotado sem prejudicar sua argumentação).

    De qualquer maneira, não sei bem sobre o que estamos discutindo, pois se a questão é que a definição de Williamson necessariamente resulta no anti-realismo, então concordo contigo que não seja o caso. O que estou dizendo é que a interpretação anti-realista é cabível (dada a vagueza de "suplantar"), até mais cabível que a interpretação oposta ("suplantar" me parece estar mais perto de "substituir" do que de "melhorar", mas também não cabe ficar discutindo impressões sobre semelhanças de família).

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