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A ética envolvida na crise do crédito


"The Chicago Sessions" é um documentário sobre o debate acerca das implicações éticas da crise do crédito envolvendo membros dos departamentos de direito e filosofia da Universidade de Chicago. O problema: saber quais são os princípios éticos que devem nortear a nossa sociedade após a crise hipotecária envolvendo empréstimos de alto risco que afetaram a economia mundial. Entre os participantes estão dois filósofos conhecidos: Martha Nussbaum e Brian Leiter. Vale a pena conferir.

Comentários

  1. Caros Todos

    Fantástico vídeo e esclarecedor, quer sob o ponto de vista do blogue numa perspectiva ético-filosófica, quer mesmo sob o ponto de vista técnico-económico.
    No entanto discordo da acusação da Martha Nussbaum aos “Chicago Boys” ou seguidores das teses monetaristas de Milton Friedman, ou melhor dito (talvez) dos implementadores (“decison-makers”) dessas teses nas decisões práticas do dia-a-dia de qualquer corporação ou mesmo governo. E desde já afirmo também que não sou um defensor da abordagem monetarista, nem tão pouco acho que ela é responsável pelo descomunal crescimento da importância dos sectores financeiros, sobre os outros sectores mais tradicionais da actividade económica.
    Claro que a discussão filosófica sobre a ausência de componentes éticas na génese desta crise de 2008 no EUA é de sobre-importância, para se entender completamente o fenómeno e contribuir para a construção de modelos, e eventualmente regulação que evite a repetição destes fenómenos.
    Aliás o minuto 45 do vídeo é uma boa pista para a minha posição. A indústria bancária é o 2º sector mais regulado da economia dos EUA e ainda assim foi possível a acumulação de erros monumentais que originaram a crise de 2008.
    Penso que para este fenómeno contribuiu muito mais o abandono em 1999 das limitações impostas pela lei Glass-Steagall de 1933, do que propriamente as implementação das teses monetaristas que já vinham sendo a referência nas decisões políticas desde o início dos anos 80 com bastante sucesso relativo. Resumidamente, esta lei impedia que bancos retalhistas fossem proprietários de empresas (ou bancos) financeiros ou de investimento, protegendo dessa forma os depositantes de más decisões de empréstimos ou de especulação nos mercados financeiros.
    Por outro lado, parece que tanto os EUA como a Europa, na viragem para o Séc. XXI perdeu a capacidade de estimular os cidadãos a empreender, resultando daí uma incapacidade das diversas economias criarem emprego, que no fundo é o que está a prolongar a crise ampliando o seu perímetro do sector financeiro para a economia real que afecta a vida das famílias. O que realmente está a alastrar e a arrastar a economia americana para a depressão são as falências das famílias, provocadas pela incapacidade de suportar qualquer pagamento de hipoteca, porque perderam os seus empregos. Se a crise só tivesse origem no “Sub-prime” os bancos, mesmo os estrangeiros como o Deutsche Bank, poderiam sempre proceder à reestruturação dos empréstimos hipotecários. O que não é possível quando a família fica sem emprego…
    A propósito deste tema e para uma mais completa visão, essencialmente sob o ponto de vista ético (ou da sua ausência) sugiro que se vejam os seguintes filmes:
    - Inside Job (Documentário);
    - Too Big to Fail;
    - Margin Call.
    Outra nota que gostaria de aqui partilhar, refere-se à crise europeia, que apesar de despoletada pela crise financeira Americana de 2008, nada tem que ver com a prossecução prática das teses monetaristas, ainda que os media, os políticos e alguns comentadores, não se cansem de falar dos malvados dos mercados e das sinistras agências de rating e dos monetaristas.

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