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Que programa de filosofia?

Faustino Vaz não responde à pergunta do título, neste artigo, mas defende uma dada direcção.

Comentários

  1. Caro Faustino,

    congratulo-o pelo esforço de iniciar uma reflexão sobre alterações necessárias ao programa de filosofia. Compartilho consigo as suas (parece-me) preocupações essenciais: cultivar os problemas filosóficos e ensinar os alunos a resolvê-los filosoficamente.

    "Não sendo conduzida por problemas, nem sujeita a avaliação crítica, as opiniões dos filósofos pouco ou nada têm de filosófico."

    Aqui coloca-se, porém, um problema de Didáctica da Filosofia: como conseguir que os alunos façam seus aqueles problemas que consideramos que devem entrar num programa de filosofia. Ou seja, que estratégias deve o professor utilizar para que os problemas não seja apresentados aos alunos como problemas "que foram problemas filosóficos para outros antes de vocês" mas sim, que os alunos sintam esses problemas "que foram problemas para outros" como "problemas para si próprios"? Por outras palavras, como motivar os alunos a se interessarem por problemas filosófico e a tentarem resolvê-los por eles mesmos?

    Isso torna-se ainda mais difícil quando todo o nosso ensino da filosofia (secundário e universitário) está vocacionado para a transmissão de conteúdos filosóficos e a subsequente avaliação desses conteúdos.

    Ou seja, faz sentido pedir aos alunos que resolvam por eles mesmos os problemas filosóficos se o que vai ser avaliada é a sua capacidade de dizer como outros o tentaram fazer?
    Se pensarmos em três dos momentos-chave da actividade filosófica

    (1º Problematizar,
    2º Resolver problemas através de argumentos,
    3º Interpretação de argumentos alheios)

    vemos que os nossos alunos são quase totalmente avaliados quanto ao 3º, avaliados moderadamente mas insuficientemente preparados para o 2º e o 1º momento-chave (o da problematização) não é sequer abordado por quase nenhum professor, a não ser na perspectiva da transmissão dos problemas filosóficos tradicionais presentes nos manuais - o que, como disse em cima, de forma alguma é suficiente para que o aluno faça desse problema um problema seu, um problema filosófico de pleno direito.

    Concretizando,
    que estratégia sugere para levar a cabo o seu programa, ainda em esboço.

    Um abraço,
    Tomás

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