28 de dezembro de 2011

As edições de 2011


Qualquer escolha dos livros mais significativos do ano começa por ser algo subjectiva. Digo “algo” e não “totalmente” pois há livros que são de importância decisiva para qualquer boa escolha. Assim, se escolher o livro de Ben Dupré na minha lista pode depender mais das minhas opções particulares no que respeita à divulgação e estudo da filosofia, o mesmo julgo não acontecer com edições como as de Anthony Kenny, essenciais a qualquer bom estudo que se pretenda fazer de filosofia com livros traduzidos ou escritos directamente em língua portuguesa. Em termos de quantidade as coisas são sempre reduzidas já que o nosso diminuto mercado não coloca grandes dilemas sobre o que escolher. Como tenho feito ao longo dos últimos anos, de seguida apresento os livros de filosofia que, no ano 2011, foram publicados em Portugal e que melhor contribuíram para o meu estudo contínuo deste maravilhoso e infindável saber.

 Anthony Kenny, Nova História da Filosofia Ocidental, 4 Volumes (Gradiva), Tradutores: Pedro Galvão, Fátima Carmo (Vol i), António Infante (Vol ii), Célia Teixeira (Vol iii) e Cristina Carvalho (Vol iv). Revisão de Aires Almeida




A Nova História da Filosofia Ocidental começou a ser publicada em língua portuguesa ainda no ano de 2010, sendo que somente os 2 últimos volumes foram publicados em 2011. Mas temos de novo uma história da filosofia actualizada. Mas esta história da filosofia é muito mais que uma história dos filósofos e das suas ideias. Trata-se de uma verdadeira obra de filosofia, uma vez que os problemas são discutidos como num bom livro de filosofia. Uma obra fundamental para quem se interessa pela filosofia e a sua história.



 Roger Scruton, As Vantagens do Pessimismo, Quetzal, Tradução de João A. F. e Silva

É um livro arrojado, mas provavelmente um dos que em 2011 mais me influenciou. A tese central é que nos tempos que correm vale a pena regressar a algum pessimismo coincidente com algumas ideias da direita tradicional. Scruton dá-nos razões para pensar que o optimismo desenfreado pode não constituir a saída mais adequada para os problemas políticos que assistimos hoje em dia. Dá que pensar.





 William Rowe, Introdução à filosofia da religião, Verbo, Tradução de Vitor Guerreiro

Numa boa tradução esta edição é muito significativa já que, até à data, não dispúnhamos de qualquer boa edição contemporânea de introdução à filosofia da religião. O livro é de leitura acessível, sem perder pitada de rigor, o que significa que é acessível mesmo a quem não tem formação em filosofia. E trata de problemas que interessa a qualquer ser humano expondo os argumentos principais e respectivas objecções. Isto para além de ser uma leitura que permanentemente questiona o leitor e coloca as suas crenças à prova.







 Desidério Murcho, Filosofia em Directo, FMFS

O ano de 2011 arrancou em Janeiro logo com uma edição de filosofia escrita em português do nosso colega e amigo Desidério Murcho. Pela primeira vez entramos numa cadeia de super mercados (do grupo da Fundação que publicou este ensaio e que também fez a distribuição do livro a par com as livrarias tradicionais) e deparamo-nos com um livro com o nome Filosofia em Directo. E de facto é nisso que consiste a proposta de Desidério neste pequeno grande livro, um contacto directo com as questões filosóficas contemporâneas.






 Desidério Murcho, 7 ideias filosóficas, Bizâncio

Um pouco na continuação de Filosofia em Directo, 7 Ideias filosóficas pega em algumas máximas famosas da filosofia e lança o mote para o desafio de pensar filosoficamente pela própria cabeça. De salientar a escrita do autor que está cada vez mais clara, cada vez mais apurada. Um bom livro de filosofia que pode servir de referência em qualquer contexto onde se faça filosofia. E um livro de um dos autores mais produtivos na filosofia em língua portuguesa.




 Susan Wolf, O sentido da vida, Bizâncio, Trad. Desidério Murcho

A ideia que passa na maioria dos cursos de filosofia em Portugal sobre a filosofia da existência, muitas das vezes reduz-se a escritos de Heidegger e Sartre. Mas há mais, muito mais para estudar nessa área da filosofia. E este livro é uma boa porta de entrada à discussão contemporânea desses problemas, indo mais além do que os lugares comuns da Universidade Portuguesa.






 Colin McGinn, O carácter da mente, Gradiva, Tradutor Fernanda O`Brian

Um dos principais textos introdutórios a esta área da filosofia, a filosofia da mente, agora disponível numa boa tradução. McGinn é um filósofo já com dois ou três livros traduzidos e um dos filósofos vivos mais apetecíveis do nosso tempo.






 Peter Singer, A vida que podemos salvar, Gradiva, Tradutor Vitor Guerreiro


Creio que Peter Singer dispensa apresentações. É na minha opinião – e de muitos – um filósofo notável, com uma invulgar mas desejável capacidade de nos deixar a filosofar sem que nos demos conta de que estamos a fazê-lo. Neste livro Singer dá-nos algumas razões para pensar que temos a obrigação moral de ajudar os povos mais pobres. Este livro deu, em Portugal, origem a uma página no Facebook, com centenas de amigos, com o nome do Livro.





 Bem Dupré, 50 ideias de filosofia que precisa mesmo de saber, D. Quixote, Tradutor. Jorge Pereirinha Pires

Este foi talvez o melhor livro que conheci de divulgação de  filosofia traduzido em 2011 que dá uma ideia correcta do que se faz nas mais diversas áreas da filosofia. Pertence a uma colecção que está a ser publicada pela D. Quixote e trata-se de uma pequena obra que se recomenda como mini enciclopédia de filosofia. Nota-se um ou outro atropelo na tradução que enganará o leitor desprevenido.






 Michael Sandel, Justiça, fazemos o que devemos?, Presença, Tradutor: Ana Cristina Pais

Este livro poderia aparecer logo no topo. É simplesmente o livro que mais gostei de ler de filosofia em 2011. Justiça é a compilação das aulas de Sandel em Harvard, onde lecciona. É extraordinário como se pode escrever filosofia deste modo. Aconselho vivamente a ler o capítulo sobre Kant e descobrir como é que se pode explicar Kant, um autor complexo, de um modo impecável, sem qualquer tropeção. É um livro de filosofia claramente acima da média.




A. C. Grayling, O livro dos livros, uma Biblia humanista, Lua de Papel. Tradutores: Ana Filipa Vieira, Carlos Leone, Joana Custódia Jacinto, Rosa Maria Fina e Rosalinda Rodrigues da Silva. 

Não é bem um livro de filosofia, mas uma Bíblia alternativa à Bíblia da revelação. Trata-se de uma Bíblia dirigida ao raciocínio e não à revelação ou à fé. O texto é disposto tal como na Bíblia, em duas colunas. Mas é um livro dirigido ao grande público e a pessoas que gostam de pensar activamente. 

6 comentários:

  1. PROVAVELMENTE, numa lista de livros de filosofia, faria mais sentido incluir, em vez de "O livro dos livros", outros como "Uma viagem com Platão".

    Digo eu...

    (Um ótimo 2012, para o Rolando e para toda a equipa do ótimo blogue e do sítio da Crítica)

    ResponderEliminar
  2. Também não vi filosofia alguma neste livro do Grayling, mas só li algumas partes.

    ResponderEliminar
  3. E não é um livro de filosofia. Grayling parece querer mostrar que o que de bom se encontra na Bíblia se pode encontrar, para melhor ainda, noutros livros, sem termos de pagar o elevadíssimo preço da fé.

    ResponderEliminar
  4. Obrigado pelos vossos comentários. Não tenho resposta a dar pois creio que já a dei na abreviatura que escrevi ao livro.
    Gomes, não li o livro que falas. Mas tens razão, provavelmente ficava ali melhor que o de Grayling. Há uma razão oculta para eu ter seleccionado o Grayling. É que é uma forma de divulgar um filósofo que, na minha opinião, é provavelmente dos filósofos actuais que melhor comunica a filosofia. Os poucos livros que li dele são notáveis e ele é muito versátil. A exemplo, a Biografia que ele fez do Descartes (Europa America) é um belíssimo livro e está publicada em português.

    ResponderEliminar
  5. Tenho uma questão, mas não sei bem em que contexto a endereçar, mas pronto, fica aqui... Sempre que vejo na Crítica posts relativos aos últimos livros publicados, ou a dar conhecer alguns filósofos, ou colóquios, etc., etc., parece-me que é ignorado todo o trabalho filosófico realizado em Coimbra. É verdade? Se sim, há algum motivo para isso?

    ResponderEliminar