10 de dezembro de 2011

Como não justificar a filosofia

Este é o título do meu artigo de opinião, que acabo de publicar aqui. E o que pensa o leitor?

18 comentários:

  1. Caro Desi

    Percebo claramente a necessidade de tal artigo num contexto de "introdução à Filosofia"!
    No entanto sinto-me triste por ter de aceitar a necessidade de tais esclarecimentos, porque há apenas 50 ou 60 anos atrás, não havia necessidade de fazer tal justificação. Todas as pessoas cultas sabiam da importância e contributo efectivo da Filosofia para o dia-a-dia das nações.
    Claro que se poderá argumentar que há 60 anos atrás, havia muito menos pessoas cultas do que actualmente! Até porque os sistemas de ensino não eram universais.
    No entanto de que espécie de pessoas cultas estamos a falar hoje em dia? Pessoas que são formadas nas universidades, sabem fazer motores e arranha-céus, estão desempregados e defendem que a Filosofia não tem qualquer relevância no mundo actual, ou que o seu ensino não deve ser obrigatório?
    É curioso constatar como nas democracias ocidentais mais bem sucedidas, do chamado Norte da Europa, essa questão não e levanta. Quer porque existe financiamento público suficiente para uma educação completa, quer porque do ensino da filosofia resulta que as pessoas efectivamente aprendem algo valioso para a s suas vidas, mesmo que nunca se venha a dedicar À nobre actividade de "Filosofar!"
    Penso ser muito mais condenável e profundamente mais hipócrita, o lançamento de impostos extraordinários num país já pobre, para financiar os erros de uma pequena minoria, cujo despesismo beneficiou apenas alguns poucos privilegiados de sempre.

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  2. Desidério, uma das coisas mais incompreensíveis em tantos professores de filosofia é precisamente o seu desprezo pela filosofia. Desprezo que muitas vezes se ostenta sem qualquer pudor. Não seria a primeira vez que colegas de filosofia me vêem com algum livro na mão e perguntam o que ando a ler. E quando descobrem que se trata de algum livro de filosofia não deixam de manifestar o seu espanto, quando não mesmo censura. E isto com alguns dos que ainda lêem livros, porque há muitos que nem sequer isso fazem. Já deves ter encontrado professores de filosofia que te perguntaram onde se compra o livro de que estavas a falar. E uma pergunta destas diz tudo, não é?

    Não é de estranhar que haja tantos professores de filosofia que a trocam empenhadamente pela literatura, pela poesia, pelo teatro, pelo cinema, pela psicologia e até pela gestão escolar. Enfim, qualquer coisa serve, desde que seja para se livrarem da filosofia.

    Num país com tantos professores e amantes de filosofia, seria de esperar, por exemplo, que estas caixas de comentários fossem bastante mais animadas.

    Mas não quero deixar aqui uma nota demasiado pessimista, pois acho sinceramente que as coisas estão, apesar disso, a melhorar aos poucos. Felizmente também tenho encontrado ultimamente cada vez mais professores de filosofia que se interessam realmente pelo que fazem. Talvez ainda não sejam a maioria, mas já é bastante animador.

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  3. Mesmo que não seja o objetivo principal que você tenha dado ao texto, acabou que você tocou na justificação do ensino da filosofia de modo universal (i.e., como constituinte necessário do currículo escolar). E cito essa parte em específico:

    "Desse modo, cada escola ofereceria aos alunos currículos diferentes, e os pais escolheriam o que considerassem melhor, e financiariam as suas escolhas apenas."

    Seria o melhor modo mesmo? Parece-me que os pais não têm o direito (digo em termos morais, e não meramente legais) de decidir o que o filho deverá estudar como básico. Acredito que o importante de um currículo base para a educação é propiciar ao estudante uma visão geral de todos os temas, para que ele escolha o que deseja estudar após se formar.

    Aponto para isso principalmente por me lembrar de diversos amigos que foram forçados pelos pais a seguirem uma carreira. Rapazes que fizeram educação básica (com um currículo padrão) e, mesmo assim, foram forçados pelos pais a serem médicos ou advogados, ainda que eles quisessem ser historiadores ou jornalistas. Acredito que em uma situação na qual os pais decidam o que o filho estudará (tirando da educação deste menino uma disciplina ou outra que consideram irrelevante) criará algum tipo de determinação do que o menino irá seguir.

    Por exemplo, pensemos que J.S.Mill fosse educado apenas com ensino de física, e jamais seus pais e tutores ensinassem a ele os prazeres de estudar filosofia. Poderia ser o caso de termos um grande filósofo a menos.

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  4. Não sendo eu da área da filosofia mas, sem falsa modéstia, apenas um "curioso" que vai lendo o que calha e pensando muito, já me tenho interrogado sobre a dificuldade de a filosofia se financiar, uma vez que, como produto, não parece que venda. Tem sido possível (e criticável, aliás) a mercantilização do ensino e da cultura, como se tudo na vida das pessoas mais não seja do que consumir sem limites. Até as religiões, em grande parte, seguiram essa "mentalidade". É muito difícil de sustentar (justificar) a importância ou a necessidade, ou a utilidade, de algo, alguma coisa, que alguém não esteja disposto a pagar. As ciências e as técnicas e as tecnologias, nesse aspecto, levam a palma, muito disputada pela indústria do espectáculo, desde a música, ao cinema, passando pelo desporto e pelos circos, sobretudo políticos. A filosofia, neste contexto, tem dificuldades, perfeitamente compreensíveis, em se fazer ouvir. Mas o filósofo é quem pode salvar, agora como no passado, o homem das trangalhadanças de uma vida decapitada. Sem o filósofo, a máquina produz e o bicho engorda, mas não pensa e, sem pensamento, onde vamos?, por exemplo, a liberdade e a democracia e o direito não passam de palavras. Não tenho grandes hesitações em considerar que o filósofo é o advogado estrénuo, senão o guardião, de valores como, por exemplo, a liberdade, a justiça, a verdade e o espírito científico perante o tribunal da própria ciência.

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  5. Kherian, J. S. Mill nunca foi à escola; foi educado em casa. É verdade que sendo os pais a poder escolher livremente a formação do filho, algo como o que dizes pode ocorrer. Mas quando o ensino é centralizado é pior ainda, porque se algo não é de todo em todo oferecido, nem o aluno nem o pai pode escolher tal coisa. Eu nunca tive formação musical, por exemplo, porque no Ministério da Educação português alguém decidiu que isso é coisa de ricos, e portanto os filhos dos pobres, que frequentam apenas o ensino público e não podem pagar uma escola privada de música para os seus filhos, lixam-se.

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  6. Estava a ler o teu texto e lembrei-me de uma notícia já com algum tempo em cima: o financiamento (pela Universidade da Florida) de 4,4 milhões de dólares para investigar o livre arbítrio. Resultou no texto Livre arbítrio caro ;-)

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  7. Desidério,

    a minha crítica ao teu texto é a mesma do Kherian.
    Se os pais pudessem escolher os currículos das escolas dos seus filhos a consequência disso seria uma uniformização do ensino (imagino que para para as áreas das engenharias, gestão e ciências)maior que aquela que hoje temos.

    Mais à frente no teu texto dizes que essas escolas seriam aquelas que "pais, crianças e jovens valorizassem." Ora, não é verdade que as crianças e os jovens iriam frequentar as escolas que valorizassem, mas sim as escolas que os seus pais valorizassem (e que eventualmente poderiam acabar por valorizar, não pelos motivos certos, mas por desconhecimento de alternativas).

    Agora que tenho um filho para educar às vezes penso se, caso tivesse essa oportunidade, deveria escolher um modelo de ensino que eu considerasse exemplar, numa escola onde conheço e aceito todos os regulamentos, programas, objectivos, onde o meu filho estuda as disciplinas que considero terem "valor" para ele,etc. Julgo que isso é um pouco como "jogar a Deus", i.e., acreditar que sou infalível.

    Talvez seja preferível lançá-lo num sistema em tudo semelhante ao mundo em que ele vai viver daqui para a frente (industrializado, standartizado, incerto, inseguro, etc.) e ir tentando dar-lhe algumas ferramentas para se ir safando por si cada vez mais autonomamente.
    Julgo que esta atitude um pouco mais desprendida é, paradoxalmente, mais segura que a daquele que quer dominar todas as variáveis quanto possível e escolher aquilo que deve e não deve ter valor o seu filho estudar. O modelo que sugeres (em que os pais escolhem e controlam quase totalmente a educação dos seus filhos) parece-me análoga àqueles pais que não levam o filho ao parque de diversões pois pode cair, magoar-se e apanhar germes de outros miúdos. Que raio de miúdo vai ser esse que nunca pode aprender com aquele pré-adolescente de 60 quilos que já não devia estar no parque infantil e se diverte a tentar esmagar-lhe a cabeça contra o chão?

    Além disso, no modelo liberal que defendes, aquilo que eu escolheria para o meu filho estaria dependente de um consenso impossível com uma série de outros pais que vivessem na minha zona. Na realidade seria bem provável que, no modelo que propões, se quisesse pôr o meu filho a estudar numa escola do meu agrado teria de me deslocar umas centenas de km´s para o fazer.

    Resumindo,
    o teu "modelo ideal" parte de um pressuposto que não aceito, que é o de que os pais são quem sabe melhor sobre a educação dos seus filhos e, como tal, devem ter a última palavra sobre aquilo que os seus filhos devem aprender. Quanto mais conheço pais (e eu sou um deles) menos aceito esse pressuposto.

    ab

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  8. Apesar de num primeiro momento concordar com uma abordagem mais liberal do ensino, de forma que o currículo pudesse ser mais fluido e montado de acordo com a vontade dos pais, penso que existem alguns exemplos práticos de que isso não seria uma boa ideia. O primeiro deles é o a discussão a respeito do ensino da evolução. Creio que a ênfase recebida por certas disciplinas e seu conteúdo sobre diretamente influência dos valores dos responsáveis por montar tal currículo. Dessa forma, além de se poder montar, neste modelo liberal que descreve, as disciplinas, e quanto ao conteúdo? Será mesmo que um pai deveria ter a liberdade de privar seu filho de conhecer o evolucionismo e ter apenas o criacionismo como resposta? Não creio que haja uma diferença substancial para também se selecionar a abordagem que receberá o conteúdo de cada disciplina, se o ponto de partida for inteiramente a independencia para se escolher o currículo.
    Trecho que me pareceu bastante problemático :

    "Desse modo, cada escola ofereceria aos alunos currículos diferentes, e os pais escolheriam o que considerassem melhor, e financiariam as suas escolhas apenas. O ensino seria diversificado e a qualidade melhoraria quase inevitavelmente porque haveria competição entre escolas e professores para fazerem algo que os pais e as crianças e jovens valorizassem."

    Como se poderia garantir que as escolas ofereceriam currículos diferentes? Será mesmo que se houvesse uma tal "lei da oferta e da procura" escolar isso promoveria a variedade de currículos? Será que essa " competição" não acabaria promovendo pelo contrário, que escolas privilegiassem as disciplinas que fossem mais valorizadas socialmente e, ao contrário, houvesse uma homogenização? Se as escolas passassem a priorizar atividades que agradassem pais e filhos isso poderia ser um verdadeiro tiro no pé da variedade e riqueza intelectual.

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  9. Parece-me que parte do problema da justificação da filosofia em sala de aula remete para uma deficiência quase generalizada que se observa nos currículos dos cursos de filosofia das universidades brasileiras. Embora na teoria algumas instituições sejam adeptas de uma abordagem temática do estudo dos problemas filosóficos, na prática muitas delas ainda são efetivadas em moldes "históricos". Refiro-me, por exemplo, aos cursos de ética em que muitas vezes se fala de Aristóteles e de Kant, mas não se menciona as discussões contemporâneas acerca da temática; em outras palavras, muitos estudantes se formam sem ao menos conhecer nomes como Peter Singer e James Rachels, e, salvo algumas exceções, sem ter uma formação básica sobre questionamentos atuais, como é o caso das discussões levantadas pelos filósofos da biologia sobre as implicações éticas do darwinismo, por exemplo.

    Citando outro exemplo, é importante que um professor de filosofia tenha conhecimento da filosofia cartesiana para expor o problema mente-corpo, mas, na medida em que este conhecimento seja restrito apenas a uma abordagem histórica, o professor dificilmente saberá lidar com o velho questionamento do “e de que isso servirá em minha vida?”. Neste sentido, acho importante que os graduandos (e futuros professores) tenham sido preparados em um ambiente em que os problemas recorrentes na história da filosofia sejam contextualizados dentro das discussões contemporâneas. Assim, um professor que ensina Descartes poderá chamar a atenção de seus alunos para a importância do estudo do problema mente-corpo, apontando para a gama de disciplinas inter-relacionadas que permeiam as discussões na filosofia da mente. Ao meu ver, é de crucial importância que seja demonstrada a importância da filosofia relacionada às outras áreas do conhecimento como a ciência da computação, a biologia, a física, etc.

    Minha fala não tem a pretensão de ser um discurso chauvinista em relação à clássica divisão feita entre “continentais” e “analíticos”, mas antes, acredito que a formação dos estudantes de filosofia deveria ser efetivada de modo mais inserido nas discussões contemporâneas. Deste modo, seria possível, à parte do aproveitamento intelectual propiciado, desenvolvermos uma abordagem que possa apresentar como conseqüência a mudança da imagem que o público geral possui da filosofia. Mas, conforme mencionei no início do texto, e digo isto na condição de aluno de graduação em filosofia, a grade curricular dos cursos de filosofia do Brasil pecam muito nesse aspecto, alguns colegas conhecem pouco ou quase nada sobre os principais desenvolvimentos da filosofia a partir da segunda metade do século XX. Em resumo, o desenvolvimento do conhecimento relativo às discussões atuais recorrentes na filosofia estão à deriva do esforço e da determinação individual do aluno.

    Por fim, acredito que o melhor meio que temos para alcançar um discurso coerente em relação à importância da filosofia seja em um trabalho de aproximação da tradição filosófica aos problemas levantados pelas ciências do século XXI e apontando para a importante contribuição fornecida pela filosofia na discussão destes problemas. E neste ponto, conforme argumentei acima, é preciso que seja efetivada uma mudança significativa no modo em que a filosofia é abordada nas salas de aula das universidades brasileiras, para que, deste modo, seja possível que os professores de filosofia do ensino médio sejam qualificados para demonstrar aos seus alunos a importância que a filosofia exerce nas principais discussões intelectuais de nossos dias.

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  10. Obrigado pelos vossos comentários.

    Acho curioso que quem tem medo da prepotência dos pais no que respeita à educação dos filhos não tenha ao mesmo tempo medo da prepotência do estado face à educação dos filhos dos outros. Penso que o pressuposto curioso aqui é o da infalibilidade do estado. Mas isto é implausível: as decisões educativas impostas pelo estado são decididas não por deuses infalíveis, nem sequer por profissionais peculiarmente competentes, mas por pessoas pouquíssimo profissionais que raramente conhecem a bibliografia da própria área sobre a qual com tanta segurança decidem a educação dos filhos dos outros.

    Reconheço haver casos difíceis, como o de pais que querem impedir os filhos de conhecer a ciência, por exemplo. Mas eu precisaria de ver até que ponto isto é um problema real, ou antes imaginário, pois parece-me que no mundo de hoje dificilmente seria possível aos pais manter essa barreira entre a ciência e os seus filhos. Mas o mais curioso é que a escola pública promove precisamente essa barreira, ao apresentar a ciência de um modo tão caricatural que qualquer jovem que se interesse pela ciência é porque esse interesse é exterior à escola, e não porque tenha sido promovido pela escola.

    Quanto à preponderância de cursos de X ou de Y, em vez de outra coisa, isso seria saudável, pois responderia ao que as pessoas realmente querem. A escola poderia ser viva, interessante e estimulante, em vez de ser o morto-vivo que é hoje, salvo raríssimas excepções: os próprios professores de filosofia não valorizam a sua disciplina, tal como os de português ou de história, e é por isso mesmo que precisam sempre da cantiga da "aproximação à realidade actual": porque consideram que não tem valor algum passar um ano a estudar, por exemplo, a ética de Aristóteles.

    Num mundo livre, quem acredita no que faz, divulga e ensina livremente; e terá certamente pessoas e alunos interessados. E se não os tiver, é indefensável que o estado obrigue os filhos dos outros a comer com o seu ensino, por melhor que este seja. Dá-me vontade de fazer uma lei que obrigue a assistir a 4 horas de aulas por semana de metafísica da modalidade a quem está tão disposto a obrigar os filhos dos outros a comer com as matérias que eles consideram interessantes. Eu também considero interessante a metafísica da modalidade, mas seria de uma cegueira brutal esquecer que a maior parte das pessoas -- com todo o direito -- não têm qualquer interesse nisso, e seria uma violência obrigá-las a comer com isso.

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  11. Desidério,

    da amostra que tenho de professores de Filosofia (seguramente uma amostra enviesada, mas é a que tenho), não me parece que sejam "raríssimos os professores que valorizem a sua disciplina". Aí sou um pouco menos pessimista que tu, mas apesar de tudo não são assim tantos quanto seria de esperar numa disciplina como a Filosofia onde os interesses "utilitários" para a estudar comparativamente a outras disciplinas são mínimos e seria de esperar que as pessoas se dedicassem a ela por paixão.

    No entanto esse é um problema geral a todas as áreas profissionais. Pouca gente valoriza aquilo que faz e arrasta-se ao longo do ano à espera de fins-de-semana, feriados e subsídios que os façam esquecer a merda de vida que levam. Nesse cenário de desilusão universal, vejo os professores em geral e os de filosofia em particular como uma classe privilegiada e encontro mais "vocações preenchidas" nas escolas que, por exemplo, em companhias de seguros.

    Mas essa é a realidade que temos e não me parece que vá mudar nem estou a ver como o teu modelo liberal de ensino poderia mudar isso.

    Quanto à tua crítica à "cantiga da realidade actual", não vejo mal nenhum em procurar que a reflexão filosófica parta dessa "realidade actual". Julgo que o próprio Aristóteles (que usas como exemplo) tinha uma preocupação muito grande com essa "realidade actual" e a forma como ele procurava um conhecimento mais geral era, precisamente, partindo da contemplação da realidade particular à sua volta (política, biológica, moral, etc.).
    Partir da "realidade actual" para uma reflexão filosófica (tendencialmente universal e atemporal) é a melhor forma de fazer com que os alunos se liguem aos problemas filosóficos que subjazem a essa "realidade actual", que se interessem por eles e, depois disso, os tentem resolver por si mesmos (eventualmente com a ajuda de filósofos como Aristóteles, Kant).

    Ensinar Aristóteles e Kant de uma forma totalmente desprendida da "realidade actual", sem qualquer ligação óbvia à vida dos alunos é mais um pretexto para o estudo desprendido e desvitalizado dos filósofos e das suas teorias.

    Ab

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  12. Obrigado pelo teu comentário, Tomás. A afirmação empírica que faço resulta de muitas dezenas de professores de filosofia do ensino secundário que assistiram aos meus cursos de formação de professores, ao contacto com vários colegas e ao que se publica. Mas posso estar errado e talvez tenhamos bastante mais profissionais em filosofia genuinamente interessados em filosofia do que me parece. Concordo contigo que este desinteresse que muitas pessoas têm pelas suas próprias profissões ocorre noutras profissões também; na verdade, chamo às sociedades onde impera essa mentalidade "sociedades da privacidade".

    Mas continuo a discordar da ideia de que uma condição necessária do ensino de excelência da filosofia seja ligar a filosofia à vida do aluno. Penso que tanto se pode ensinar mal filosofia fazendo isso, como se pode ensinar bem fazendo-o; e idem não o fazendo. O que faz de um ensino da filosofia um bom ensino é outra coisa: a compreensão correcta dos problemas que estão em causa, assim como das ideias e argumentos dos filósofos, e a preparação progressiva do estudante para activar competências próprias da filosofia: análise, argumentação, teorização.

    Mas posso estar a ver mal. Em qualquer caso, a minha perspectiva da filosofia, que determina a minha concepção do ensino da filosofia, é apenas uma entre muitas alternativas, e está longe de ser a mais popular. Se a maioria tiver sempre razão, então certamente as minhas ideias estão erradas.

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  13. Desidério,

    acho que estás a ser muito humilde na apreciação que fazes da aceitação da tua "concepção do ensino da filosofia." Graças ao esforço que tens feito nos últimos anos em favor da divulgação e ensino da filosofia em Portugal essa "tua concepção" felizmente alargou-se a uma grande quantidade de professores e estudantes de filosofia (eu incluído, se bem que com nuances).

    A nuance que coloco é simplesmente esta: às competências filosóficas que indicas (análise, argumentação e teorização) devemos incluir aquela que dá a "alma vital" a esta disciplina, a Problematização. Esta é, muito grosseiramente, aquela capacidade do aluno em identificar e levantar problemas onde a maioria das pessoas vê o óbvio. Sem esta "conquista do problema" ou da capacidade de criar problemas por parte dos alunos não há filosofia. Da mesma forma que sem vontade de subir montanhas não subimos montanhas, ficamos cá em baixo a ver os outros subir montanhas e admira-mo-los por isso.

    Ou seja, sem vontade e ânsia de enfrentar e tentar resolver problemas que são problemas para nós (e não problemas que o Manual de Filosofia diz que são problemas) ficamos a ler as tentativas dos outros em resolver esses problemas. Para isso basta-nos, efectivamente, a análise, a argumentação e a teorização.

    Trabalhar a problematização implica, a meu ver, ligar a filosofia à vida do aluno. Concordo contigo que não será uma condição necessária para o bom ensino da filosofia, mas poderá ser uma condição ideal para o fazer. Além do mais, se não for a filosofia a fazer essa "ligação à vida" outras áreas o farão (a astrologia, a filosofia new age ou, pior, a psicologia ;).
    Daí não perceber por que motivo a filosofia evita essa "ligação à vida". Não será isso refugiar-se numa torre de marfim? Não é essa a explicação da irrelevância da filosofia no quotidiano da maioria das pessoas?

    Ab

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  14. Bem, já que recorremos às nossas experiências, também vou recorrer à minha. Eu não faço essa distinção, entre filosofia e a sua ligação á vida dos estudantes e isto por duas razões principais:
    1) Porque a filosofia, com os seus problemas, está inevitavelmente ligada à vida dos seres humanos e do mundo.
    2) Porque muitas das vezes tudo o que me interessa é colocar os alunos em confronto com os problemas e base das teorias e eles começam a pensar. Ora, o que estão a fazer está ligado á vida, que é pensar, se me faço entender.
    Essa conversa de ligar a filosofia á vida tem outro contexto. É uma ideia que advém de teorias da psicologia da educação e que parte do seguinte argumento: se ligarmos os saberes à vida e experiencia dos estudantes, eles vão-se interessar pela literatura, ciência e filosofia e deixar de lado o futebol e as consolas de jogos. E daí decorreram as maiores idiotices que eu já vi, chegando ao cumulo de um dia ter visto num manual de filosofia uns comentários de uma apresentadora de um talk show de TV para serem analisados filosoficamente, sendo que os comentários em causa nada tinham de filosóficos. Isto, no meu entender, é fazer uma concessão balofa àquilo que erradamente se pensa ser os únicos interesses dos jovens. A ideia é: já que temos de partir da vida dos jovens e já que a vida deles é ver o Big Brother, toca a analisar comentários que se relacionem com o Big Brother. O perigo disto é que os jovens aprendem que Eça de Queiroz é uma coisa triste sem qualquer ligação á vida e quando ouvem alguém a falar de Eça acham estranho.
    Depois há aqui outra ideia que me parece errada. Este desejo de ligar os saberes às experiencias dos estudantes esquece a ideia de que estudar exige esforço e trabalho e pretende mostrar a ilusão de que estudar é divertido e proporciona prazer imediato. Isso não é verdade. Eu nunca fiz desporto na vida. Sempre ouvi dizer que praticar desporto dá prazer. Por razões de saúde de problemas que se acumularam por falta de desporto, há ano e meio que faço desporto continuamente. Uma vez, estava todo transpirado e a esforçar-me, disse à monitora que o desporto não me dava prazer algum e só implicava esforço e trabalho, ao que ela me responde que dizer que praticar desporto dá prazer não passa de uma mentira. O prazer está em que quem faz desporto acaba por tirar mais proveito da vida em quase todos os aspectos, consegue ter maior vitalidade e que isso é visto pelos seres humanos como uma coisa boa. Eu diria, com valor intrínseco.
    Finalmente: se o Desidério me parece estar a defender esta abordagem, o Tomás parece estará defender algo diferente. O que o Tomás defende é que se pode partir dos problemas da filosofia, para compreender a filosofia e que os problemas podem ser colocados numa primeira fase sem sequer ser apresentada a filosofia dos filósofos. Claro que sim, mas isso é exactamente o que faz o Desidério no trabalho dele.

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  15. Olá Rolando,

    sim, tens razão. Eu também estava a achar importante esclarecer essa ideia de "ligação à vida". Claro que não defendo nada do género de uma facilitação ou "big brotherização" do ensino da Filosofia. Essas experiências também me parecem muito imbecis.

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  16. Antes de mais, Tomás, muito obrigado pelas tuas simpáticas palavras. Do meu ponto de vista, as competências filosóficas cruciais, que devem ser cultivadas pelo ensino de excelência da disciplina, incluem competências relativas aos problemas filosóficos. E concordo que quem não compreende os problemas filosóficos como coisas reais, mas antes apenas como artificialismos escolares ou académicos, não poderá fazer filosofia de modo competente. As competências relativas a problemas, contudo, são outra vez as mesmas: análise, argumentação e teorização intensas.

    Os problemas da filosofia, como todos os problemas, têm a peculiaridade de não trazer uma etiqueta que diga "Problema genuíno da filosofia"; assim, uma das primeiras competências para fazer filosofia é saber explicar por que razão um hipotético problema é 1) um problema genuíno e não uma mera confusão e 2) um problema da filosofia (e não da psicologia, ou da história ou da sociologia, por exemplo). Para fazer isto bem é necessário cultivar o rigor e clareza da argumentação (qual é o argumento a favor de tal ser realmente um problema filosófico?), a análise intensa (o que se quer realmente dizer com "conhecimento"?, que propriedades distinguem este conceito de conceitos próximos, como a crença ou opinião?) e a teorização intensa (se o problema se caracteriza do modo apresentado, que alternativas teóricas temos à nossa disposição para lhe responder? Se não é um problema genuíno, como podemos explicar que pareça um problema?).

    Mas continuo a pensar que há uma ambiguidade se dissermos que precisamos de aproximar a filosofia dos alunos. Se com isso queremos apenas dizer que os alunos precisam de compreender que os problemas da filosofia são problemas reais e não meros artificialismos, concordo. Se queremos dizer que são problemas dele no sentido de serem problemas imediatos que ele é capaz de reconhecer como problemas sem qualquer esforço nem interesse nem estudo, discordo. Mas não me parece que seja isto que tens em mente. Além disso, também me parece que muitas pessoas e muitos alunos nunca vão ter qualquer interesse pelos problemas da filosofia; penso que isso deve ser respeitado.

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  17. Rolando Almeida,

    Quais são as teorias da psicologia da educação que partem do argumento que refere (se ligarmos os saberes à vida e experiencia dos estudantes, eles vão-se interessar pela literatura, ciência e filosofia e deixar de lado o futebol e as consolas de jogos)?

    Pedro S. Martins

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