8 de dezembro de 2011

Filosofia e argumentos de autoridade

Foto: Aires Almeida

Não é raro vermos estudantes de filosofia ou candidatos a filósofos usarem expressões do tipo «como mostrou Nietzsche», «como sabemos desde Kant» ou «Hume ensinou-nos que». Expressões como estas revelam, contudo, uma forma falaciosa de raciocínio, pelo que devem ser evitadas quando se discutem questões filosóficas. 

O raciocínio subjacente a expressões como estas tem a forma do argumento de autoridade: fulano diz que P, logo PNeste caso, a autoridade a que se apela é algum reputado filósofo. Mas, como é sabido, nem sempre os apelos à autoridade são bons argumentos. Por vezes, como é aqui o caso, trata-se de apelos falaciosos à autoridade. Porquê?

Não porque a autoridade invocada não seja especialista na área nem porque não seja reconhecido como tal pelos seus pares. E também não é porque o especialista em causa tenha fortes interesses pessoais no que está a ser afirmado. Nada disso acontece aqui. 

Mas há ainda outra condição que tem de ser satisfeita para um argumento de autoridade ser bom: que os especialistas na matéria não discordem significativamente entre si. Ora, se há coisa que sabemos é que não há matérias filosóficas substanciais sobre as quais os filósofos não discordem significativamente entre si. 

Assim, quando usamos argumentos desse tipo em filosofia, estamos a apelar falaciosamente à autoridade. Até pode ser verdade que Kant disse que não se pode provar a existência de Deus. Mas daí não se segue que Kant mostrou que a existência de Deus não pode ser provada. Mesmo que ela não possa, efectivamente, ser provada.  

Podemos, contudo, interpretar caridosamente expressões como as referidas atrás. Numa interpretação caridosa, o que a pessoa que afirma «Como Nietzsche mostrou, não há factos, apenas interpretações» quer dizer é simplesmente que concorda com a ideia de Nietzsche de que não há factos, mas apenas interpretações. Só que esta é uma maneira muito enganadora de exprimir a sua concordância.

7 comentários:

  1. Não digo que a filosofia que aprendemos na escola foi a causa disto, mas faço a afirmação mais modesta de que andar na escola pouco ou nada fez para contrariar (em alguns casos acentuou) esta tendência, talvez natural, de as pessoas se agruparem em partidos e, em vez de discutirem directamente se A é B, discutem a veemência da sua adesão a Nietzsche ou a Platão ou a Quine ou a seja lá o que for, o orgulho com que vestem uma t-shirt estampada com a glória do seu clube, ou como o seu santo preferido é mais "fixe" do que os santos dos outros.

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  2. A condição adicional para que um argumento de autoridade seja bom, a saber, que os especialistas na matéria não discordem significativamente entre si, é forte demais: se há um relativo consenso entre os especialistas, nenhuma autoridade em particular precisa ser invocada; ao invés de fixar um bom argumento, a condição adicional dissolve qualquer possibilidade de haver bons argumentos de autoridade. Contudo, não tenho nenhuma proposta alternativa.

    Invocar esse ou aquele filósofo pode fazer sentido: argumentos de autoridade na filosofia podem ser entendidos como apresentando nossa filiação. A simpatia por essa ou aquela concepção filosófica eu a entendo como legítima. As proposições filosóficas não podem ser analisadas isoladamente (na verdade, nem mesmo as proposições científicas), e isso significa que, em geral, o que está em jogo não é a proposição isolada, mas o sistema de proposições do qual ela faz parte.

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  3. Quando há um amplo consenso os argumentos de autoridade estão longe de ser irrelevantes; o que ocorre é que tais argumentos são despersonalizados. Mas eu não tenho maneira de saber que a água é H2O ou qual é a origem do nosso sistema solar excepto por meio de argumentos de autoridade. Claro que, precisamente porque as autoridades concordam entre si, é irrelevante se li isso em Carl Sagan ou Simon Singh.

    O que isto contraria é precisamente o culto da personalidade, que infelizmente é demasiado comum em muitas das humanidades e da filosofia, o que mostra quão longo é ainda o caminho a percorrer, nestas áreas, em direcção à virtude epistémica. É pura e simplesmente epistemicamente vicioso defender uma ideia com base na posição ou perspectiva de um dado autor, quando outros afirmam o contrário disso. E enquanto tantas pessoas nas humanidades forem incapazes de discutir explicitamente ideias, sem o culto da personalidade, a virtude epistémica estará longe de alcançar nestas áreas.

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  4. Claro que é legítima a simpatia por este ou aquele filósofo. Mas não é isso que está em causa. O que está em causa é se um argumento em que se apela ao que diz um dado especialista ou autoridade permite concluir algo, caso haja outros especialistas ou autoridades que afirmam o oposto. Se houver divergências significativas entre especialistas, então um argumento de autoridade que apele a um desses especialistas será imediatamente bloqueado por outro argumento de autoridade que apele a outro especialista.

    Os argumentos de autoridade em filosofia só servem para parar uma discussão que devia continuar.

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  5. Contudo, não é o caso que na ciência mesmo haja acordo entre todos os especialistas de uma determinada área. Mesmo assim ainda apelamos a autoridade de um cientista que afirma algo aceito pela grande maioria. É o caso do Big Bang, que é aceito por uma imensa maioria, mas há cientistas que não concordam com essa teoria. Quando eu digo: como mostram os cientistas, o universo começou com uma explosão. Esse tipo de argumento de autoridade apela para a maioria, e não vejo maiores problemas com isso.

    O exemplo anterior é uma afirmação adotada pela maioria de cientistas comprometidos, que teorizam amplamente sobre essa afirmação. Eles têm páginas e páginas de cálculos que tentam provar essa afirmação, e parece que nós (que trabalhamos na filosofia) não somos comprometidos de saber cada vírgula desse trabalho para podermos afirmar a conclusão de que o universo começou com uma explosão. Nós apenas confiamos no trabalho científico, mesmo que seja aceito pela maioria apenas.

    Contudo, o que eu pergunto é: o quanto compõe a maioria? Pensando no paradoxo de sorites, 90% das pessoas especializadas no assunto é suficiente para utilizarmos um bom argumento pela autoridade? Se sim, e 89%? E assim se segue.

    Se adotarmos que 51% de pessoas especializadas que aceitem algo é suficiente para utilizarmos de um bom argumento pela autoridade, pensemos no seguinte caso:

    51% dos filósofos são continentais e aceitam que Nietzsche matou Deus. Se eu faço um apelo pela autoridade nesta situação, afirmando que Deus morreu pelas mãos de Nietzsche, eu estou justificado?

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  6. Uma condição necessária para que um argumento de autoridade seja bom é não haver discordâncias, a não ser residuais, entre os especialistas na área. O caso do Big Bang é um caso em que tudo o que é legítimo afirmar é que é a teoria hoje mais consensual; mas não que ocorreu realmente. Isto difere da afirmação de que a água é H2O. Não devemos confundir os resultados amplamente consensuais da ciência, com as fronteiras da ciência, onde há problemas em aberto e teorias em disputa.

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  7. Se o consenso dos especialistas da área fosse condição "sine qua non" para um argumento de autoridade ser bom, dois problemas surgiriam:

    a) O conhecimento não evoluiria por "crises científicas" colocando em causa os paradigmas vigentes, para usar a terminologia de Kuhn - e, portanto, Galileu ou Copérnico nunca se teriam tornado autoridades;

    b)Implicaria que conhecêssemos TODOS os especialistas de uma área, para saber se há consenso, o que é manifestamente impossível, daí que muitos livros que reconstituem o "state of art" sobre determinada questão baseiam-se em consensos ou dissensões parciais, aqueles que a sua cultura e posição social lhe permite.

    Em suma, o argumento de autoridade é quase sempre mais uma falácia do que um bom argumento, sobretudo, numa sociedade em que se confunde "autoridade" com a obtenção de títulos pagos (ou seja, atribuídos de forma interessada, a troco de dinheiro) - não era afinal isto que os filósofos criticavam aos sofistas? Venderem como filosofia o que não era senão "doxa" aliada ao interesse económico?

    Este simulacro de meritocracia, em que só se destacam aqueles que têm acesso a certos circuitos exclusivos de informação e de poder (como Bourdieu bem analisou) - independentemente dos seus talentos naturais - faz com que a "autoridade" reconhecida assente tantas vezes apenas numa certificação burocrática (diploma legal) e nalguma promoção mediática do que na efectiva competência prática do seu detentor.

    Estamos entregues às "relvas" da falsa autoridade.

    É que um "relvado", como sabem, é algo artificial, fabricado, um simulacro de Natureza mais parecido com uma alcatifa industrial verde. O que na Natureza há são ervas desalinhadas, que não formam "consensos" à mesma altura.

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