5 de dezembro de 2011

Cidadãos iluminados

Neo-realismo serôdio by AiresAlmeida
Neo-realismo serôdio, a photo by AiresAlmeida on Flickr.

Não são poucos aqueles que reclamam uma educação para a cidadania e para os valores nas nossas escolas. Ao que parece, trata-se de uma educação que seja capaz de formar cidadãos responsáveis, críticos e solidários. 

O que me deixa curioso é saber como essas pessoas que querem agora uma educação para a cidadania e para os valores conseguiram tornar-se eles próprios cidadãos responsáveis, a ponto de se baterem por uma educação para a cidadania. 

Será que estão a falar, afinal, de uma educação como aquela que tiveram nas suas escolas? Ou será que eles se tornaram cidadãos críticos e responsáveis apesar da escola que frequentaram?

8 comentários:

  1. O argumento de tais pessoas talvez seja apenas que a tal educação para a cidadania e para os valores contribui com grande probabilidade para formar cidadãos responsáveis, críticos e solidários, mas não é uma condição necessária.

    Logo, é possível que eles próprios sejam cidadãos responsáveis, críticos e solidários sem terem tido tal educação para a cidadania e para os valores.

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  2. Além do argumento proposto pelo Ricardo, poderiam eles afirmar que enfrentaram diversas dificuldades, que a primeira vista são inúteis e nada contribuem para suas formações, até chegar ao estado de serem cidadãos responsáveis.

    O que eles querem é, basicamente, uma educação melhor que a deles para que os próximos não sofram aquilo que eles tiveram de sofrer para chegar até onde chegaram... (que tipo de sofrimento é esse que eles falam? Aí eu não faço ideia).

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  3. Acredito que para se tornarem cidadãos responsáveis, críticos e solidários terão sido influenciados tanto pela educação escolar como familiar. É difícil pôr um peso nas duas quanto mais tornar uma escolha binária.

    Na minha experiência, foi o sucedido. A matriz de valores foi obtida por estas duas influências. Às vezes até em conflito, obrigando a uma reflexão crítica das duas.

    De qualquer das formas, penso que seja justificada a exigência de uma educação para a cidadania e para os valores nas nossas escolas, quando, parece-me, tudo indica uma redução no tempo que as crianças passam no seio familiar ao longo das últimas décadas, logo poderá haver uma deficiência na propagação de valores que deverá ser colmatada pela escola, por quem mais poderá ser?

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  4. A educação para a cidadania que geralmente se tem em mente é apenas doutrinamento: consiste em forçar os jovens a pensar como os velhos. O que pressupõe que os velhos pensam melhor do que os jovens. Acontece que isto é em geral falso: o mundo dos adultos é bastante mais frívolo do que o das crianças. Basta passar por uma banca de jornais e contar as publicações dedicadas a devassar as vidas íntimas das chamadas celebridades, e comparar com os livros infantis que encontramos numa livraria. De modo que educar para a cidadania não é uma ideia muito sábia. Se queremos ter uma sociedade melhor do que a que agora temos, precisamos de instruir os jovens para a liberdade de pensar por si mesmos, criticamente e com autonomia, e não instrui-los para repetir os valores hipócritas do absurdo mundo dos adultos.

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  5. Desidério, mas acho que o pressuposto de fundo quando alguém critica a falta de educação cidadã é exatamente entender a educação cidadã como aquilo que fornece ferramentas para que os jovens sejam autônomos intelectualmente. A primeira vista eu entendi esse tipo de educação pela cidadania. Todavia, se o que alguém afirma por educação pela cidadania é a "passagem de doutrinas cristãs" e coisas do gênero, aí eu acredito que todos aqui serão contrários...

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  6. Pelo contrário, o que me parece evidente no discurso da educação para a cidadania é um novo obscurantismo. O ideal iluminista da ilustração parte da ideia de que instruir simplesmente as pessoas é libertador; e instruir as pessoas é ensinar-lhes física, matemática, artes, filosofia, ofícios. É isso que vemos na Encyclopédie. Ora, o discurso contemporâneo sobre educação para a cidadania parte precisamente da ideia de que não basta ensinar estas coisas; é preciso ensinar outras. Que outras, nunca se diz claramente — e isto é um sinal de que 1) ou as pessoas não sabem bem o que querem dizer ou 2) sabem que se o disserem claramente se torna evidente que é mera doutrinação, que na verdade é o oposto do que pretendiam os iluministas com a instrução para todos.

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  7. Desidério daquilo que tem sido escrito sobre Educação para a Cidadania,avança-se com a ideia que educar para a cidadania assenta em duas ideias:

    - ensinar a ser cidadão pelo lado mais técnico, saber as leis do país...até saber preencher um impresso para renovar o Cartão de Cidadão.

    - educar para os valores, desde a clarificação dos grandes valores civilizacionais...até à educação sexual

    e esta perspetiva vai no sentido da doutrinação, como dizes. A questão para mim é saber se faz falta na escola esta formação.

    Ismael Carvalho

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