23 de Dezembro de 2011

O Desafio de Singer

Os argumentos de Singer:
  1. A capacidade de sofrer (experimentar prazer e dor) é a base para o tratamento igual em uma comunidade moral.
  2. É garantido tratamento igual a alguém somente no caso do seu bem-estar contar igualmente para os outros independentemente de “como são ou que capacidades têm”, embora a forma assumida pelo nosso tratamento possa “variar de acordo com as características de quem é afetado”.
  3. Animais não-humanos têm a capacidade de sofrer.
  4. Logo, o bem-estar dos animais não-humanos deve contar igualmente para o bem-estar dos humanos.
  5. Logo, devemos fazer tanto esforço para evitar causar dor e sofrimento em animais não-humanos, como fazemos para evitar dor e sofrimento em humanos, levando em consideração os diferentes modos como podem sofrer os seres sencientes.
  6. Logo, “devemos fazer mudanças radicais em nosso tratamento dos animais que envolveria nossa dieta, os métodos de pecuária que usamos, procedimentos experimentais em várias áreas da ciência, nossa abordagem à vida selvagem e caça, armadilhas e a vestimenta de peles, e áreas de entretenimento como circos, rodeios e zoológicos.”
O Desafio de Singer: Você é capaz de encontrar alguma característica que todos os humanos têm e nenhum não-humano tem de forma a garantir a colocação dos humanos no interior da comunidade moral e os não-humanos fora dela, ou que nos permita considerar o sofrimento humano moralmente mais importante do que o sofrimento não humano?

Fonte: Haslanger, Sally. 24.02 Moral Problems and the Good Life, Fall 2008. (Massachusetts Institute of Technology: MIT OpenCourseWare), http://ocw.mit.edu (Accessed 23 Dec, 2011).

38 comentários:

  1. Muitas pessoas argumentariam algo como isto: só os seres humanos têm uma inteligência muitíssimo sofisticada -- capaz de produzir, por exemplo, linguagem sintacticamente articulada; logo, é razoável que só eles sejam moralmente relevantes.

    Mas este argumento não é promissor, pois visa tratar cada ser humano não em virtude das características que ele mesmo tem, mas antes em virtude das características que têm outros membros da sua espécie. Uma vez que muitos seres humanos são incapazes de linguagem articulada -- bebés com seis meses ou pessoas com deficiências mentais ou vítimas de doenças graves -- se esse for o critério para dar importância moral a um ser, nenhum desses seres humanos teria qualquer relevância moral. Dado que certamente não se visa, com argumento acima, aceitar que um bebé humano de seis meses não é moralmente relevante, seria preciso invocar a ideia de que o que conta são as características normais de um membro adulto plenamente desenvolvido e saudável da espécie em causa.

    Isto deixa por explicar duas coisas. Em primeiro lugar, o que justifica que um dado ser tenha relevância moral não em função das características que realmente tem, mas das que não tem mas outros membros da sua espécie têm. Em segundo, precisa explicar por que razão é a espécie assim tão importante, em vez de ser a raça ou o género ou qualquer outra classificação, seja ela biológica ou não.

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  2. A meu ver os desafios de Singer apresentados têm duas respostas diferentes. Quanto à primeira pergunta, não penso que os animais estejam fora da comunidade moral mas reservo aos humanos uma posição primacial na consideração moral. Por causa de dois conceitos: a) pessoa e b) espécie. Explico-me: a) todo o ser humano é pessoa; nenhum animal não-humano é pessoa. É uma visão axiomática, mas que assenta os seus alicerces na filosofia kantiana antroponímica que confere a todas as pessoas humanas um valor intrínseco absoluto; b) ao estabelecermos a fronteira bioética de espécie, encontramos aquela que é, provavelmente, a única distinção filosoficamente plausível e biologicamente objectiva entre animal humano e não humano: só o primeiro pertence à espécie Homo sapiens. Os outros animais como o cão, o macaco ou a formiga, merecem da nossa parte uma consideração moral diferente porque a cabal compreensão do que é ser-se cão, macaco ou formiga nos está vedada pelos simples facto de pertencermos a espécies diferentes. Em relação à pergunta do sofrimento, não penso que haja diferença moralmente relevante entre o sofrimento de uma pessoa e de um animal. Mas também penso que, no que à consideração moral diz respeito, há mais vida para além do sofrimento, à luz do que aqui disse.

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  3. Manuel, é falso que todo o ser humano é pessoa, se por pessoa tem em mente o conceito de Locke, ou algo semelhante, que consiste em seleccionar características que são típicas de um ser humano adulto saudável, mas que estão ausentes dos bebés, idosos senis, pessoas em coma, etc.: autoconsciência, projecção no futuro, linguagem articulada sofisticada e grande complexidade emocional e mental. Chamar à sua visão “axiomática” também não ajuda, porque um axioma é algo que é plausível aceitar sem argumentos directos a seu favor, ao passo que nenhuma falsidade aparente, como o que afirma, é susceptível de ser aceitável sem argumentos directos a seu favor.

    Quanto à distinção biológica entre a espécie Homo sapiens e as outras, concordo que é razoavelmente clara (ainda que não tão clara quanto se possa pensar). Contudo, o problema é que isso não basta para que tal distinção tenha relevância moral. A menos que se argumente a favor da sua relevância moral, trata-se de uma distinção moralmente arbitrária, pois do simples facto de uma distinção ser biologicamente clara não se segue que é moralmente relevante. As pessoas negras são biologicamente diferentes das pessoas caucasianas, mas daí não se segue que tal diferença seja moralmente relevante. As mulheres também são biologicamente claramente diferentes dos homens, mas nem por isso são menos ou mais dignas de consideração moral do que os homens.

    Mas talvez eu esteja a ver mal.

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  4. Arriscaria, primeiro, a questionar a formulação feita: «alguma característica que todos os humanos têm e nenhum não-humano tem»; ou seja, qual é essa característica?
    Em segundo lugar, a comunidade moral, ou a moral da comunidade, depende dela?
    Ou colocaria as coisas por outra ordem: a comunidade moral depende de alguma característica que todos os humanos têm e nenhum não-humano tem?

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  5. A razão porque a espécie é moralmente relevante reside na fronteira clara que ela estabelece (e a meu ver mais clara do que se possa pensar). A raça, sabemo-lo hoje - embora não o soubessemos há 100 anos atrás - não estabelece fronteira nenhuma; apenas aparenta fazê-lo: eu, como português, sou filogeneticamente mais próximo de um africano do que de um norte-europeu, apesar de ser caucasiano como o norte-europeu e não negro como o africano. Em relação à espécie, não há arbitrariedade alguma: eu sou humano e só posso reconhecer uma pessoa noutro ser humano porque a compreensão cabal do que é ser-se não-humano me está vedada. Por mais que eu estude a biologia e a ecologia dos chimpanzés eu nunca saberei o que é ser-se um chimpanzé. Aqui reconheço que, como cientista, me baseio num determinismo biológico que me permite, porventura, compensar a falta de um argumento filosófico forte.

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  6. Manuel, é irrelevante que a espécie seja uma fronteira clara; também é uma fronteira clara que você é geneticamente diferente de mim (presumindo que não somos gémeos), mas daí não se segue que você é digno de consideração moral, mas eu não. Também a fronteira biológica entre homens e mulheres é clara, mas daí não se segue que só os homens têm direito a votar, por exemplo (como as pessoas pensavam há pouco mais de um século).

    Não basta que entre A e B exista uma diferença biológica clara para que exista entre A e B uma diferença moral.

    O que está em causa também não é saber se os seres humanos, enquanto espécie, têm ou não características que são moralmente relevantes, e que outros animais não têm; certamente que as têm. O problema é que essas características moralmente relevantes não estão presentes em todos os seres humanos; estão apenas presentes em alguns seres humanos (quando são adultos, não estão doentes, não têm deficiências, etc.). Ora, é pelo menos inicialmente estranho argumentar que o ser A é digno da consideração moral que resulta não de A ter certas características, mas antes de B e C e D, que pertencem à espécie de A, terem essas características, apesar de A não as ter. Isto é um pouco como argumentar que eu tenho direito ao ordenado do primeiro-ministro português porque pertenço à mesma espécie biológica dele.

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  7. Não penso que seja necessário encontrar essa tal característica unificadora de todo o género humano, capaz de incluir A, B, C e D na mesma consideração moral ou capaz de incluir A, B, C e D no mesmo conceito de pessoa. A meu ver, basta ser-se humano (Singer diria que eu sou especista). Mas isso não implica necessariamente que todos tenhamos os mesmo direitos: o princípio da igualdade aristotélica não me permite reinvindicar o salário do primeiro-ministro.

    Também não penso que o argumento da fronteira biológica seja elástico. É claro que homens e mulheres são diferentes; é claro que todos os seres humanos são diferentes entre si; mas partilham "algo" que deriva da sua humanidade, que suplanta essa diferença e que nos permite fazer parte da mesma comunidade moral. Existem vários argumentos para justificar esta pertença à mesma comunidade moral (ocorre-me a ética discursiva de Habermas, p.e.). Quanto aos animais eles poderão fazer parte da nossa comunidade moral (em especial os animais de estimação) mas nunca ao mesmo nível que os humanos porque a fronteira da espécie (com diferentes linguagens, comportamentos e cognições) dificulta-me a apreensão "do outro" num animal. E por isso o argumento filosófico deriva directamente do argumento biológico.

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  8. Não concordo. O Manuel ainda não me deu qualquer justificação da razão pela qual devo tratar um dado ser não em função das características moralmente relevantes que ele tem, mas antes em função das características moralmente relevantes que ele não tem, mas que outros seres da sua espécie biológica têm. Isto parece-me arbitrário.

    Vejamos: eu decido tratar o Jacinto, que tem 90 anos, está em coma e foi deficiente mental toda a vida, segundo as propriedades moralmente relevantes que outros membros da sua espécie biológica têm, mas que ele não tem, nunca teve, e nunca terá. Não vejo como se possa justificar adequadamente tal coisa.

    E desconfio que uma parte importante da conversa é mero antropocentrismo: a ideia algo vaga de que precisamos atribuir uma importância especial aos seres humanos, enquanto espécie, para não ficarmos humilhados. Mas isto parece-me falso e ridículo; nenhum chimpanzé e nenhum cavalo alguma vez escreverá uma sinfonia como Mozart ou um livro como Mill, e nem Mozart nem Mill precisam de argumentos sofísticos para mostrar que têm propriedades muitíssimo diferentes dos animais não humanos, em termos de sofisticação e complexidade. Talvez muitos de nós tenhamos a vontade de nos atribuir a nós mesmos, que temos uma vida pouco mais do que boçal e nada de interessante fazemos com as nossas capacidades cognitivas, algo das qualidades que valorizamos em Mozart e Mill, mas que não cultivamos em nós por preguiça. Parece-me evidente que isto é uma tolice.

    Também não vejo por que razão o Jacinto, que não tem sequer as propriedades moralmente relevantes que têm os chimpanzés ou os cavalos, precisa que finjamos que as tem para ser tratado com consideração moral, atendendo cuidadosamente aos interesses que realmente te, e não aos interesses que teria se fosse Mozart ou Mill.

    Mas talvez eu esteja a ver mal.

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  9. O Desidério não estará certamente a ver mal. Parece-me apenas que o nosso entendimento do assunto é diferente. O Jacinto de que fala merece igual consideração moral que todos nós (que temos a ventura de não sermos deficientes mentais, de não estarmos em coma ou de já termos 90 anos) apenas e só porque se trata de um ser humano. Eu não dei nenhuma justificação da razão de p.e. o Jacinto ser pessoa porque não estou certo que ela exista (daí o axioma). Mas para tratar o Jacinto é mais fácil dar justificações: pelo exercício de virtudes (como a caridade), ou por razões deontológicas (p.e. o princípio categórico). E estou certo que os milhares de pessoas que dedicam a sua vida a pessoas - sim, pessoas - como o Jacinto pensarão como eu. Pelo que percebi, o Desidério não trataria o Jacinto. Então deixe-me perguntar-lhe: onde reside a fronteira dos humanos que merecem ser tratados dos que nada contam?

    Agora os animais. É apenas natural que todos nós sejamos antropocêntricos na nossa relação com os animais. Aliás, um filósofo ambiental, cujo nome não me recordo, disse que todas as teorias zoocêntricas - como o utilitarismo de preferências do Singer - são eminentemente antropocêntricas porque apenas procuram nos animais características que são aproximadas às do ser humano - no caso de Singer, a capacidade em sentir prazer ou sofrimento. Mas eu só sou antropocêntrico na medida em que sou um ser humano a procurar interpretar o meu lugar no mundo a partir da minha visão humana do mundo. É-me irrelevante que o cavalo seja intelectualmente mais capaz do que o Jacinto, pois eu não sou equino como o cavalo. Sou humano como o Jacinto. E isto não me parece ser arbitrariedade ou tolice.

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  10. Manuel, não acho que o simples fato de pertencer à mesma espécie seja algo autoevidente que dispensa a necessidade de outras justificativas. O que a espécie Homo sapiens tem de tão especial pra que os interesses dos indivíduos dessa espécie estejam em um patamar moral intocável? Dizer "porque somos da mesma espécie" é algo muito vago.

    Não podemos saber exatamente sequer como outros humanos sentem, visto que a consciência não é algo que pode ser observado diretamente e só pode ser experienciado em primeira pessoa. No entanto, podemos inferir que humanos possuem sensações semelhantes entre si devido ao fato de termos um aparato cognitivo em comum. No entanto, esse aparato cognitivo não é tão diferente assim de outras espécies de animais a ponto de considerarmos que animais não-humanos simplesmente não são capazes de possuir estados mentais como sofrimento, prazer, ansiedade etc. Na tentativa de verificar uma consciência complexa a ponto de gerar esses estados emocionais, existe todo um corpo de estudos sobre cognição animal que correlaciona evidências neuroanatômicas e neurofisiológicas com evidências comportamentais pra poder inferir (a propósito, qualquer conclusão a respeito da consciência alheia só pode ser dada por inferência, visto que, como foi dito, ela não pode ser diretamente observada e só pode ser experimentada em primeira pessoa) a complexidade cognitiva de X animal. Achar que uma separação taxonômica faz com que haja uma diferença gritante de capacidade cognitiva entre humanos e outros animais filogeneticamente próximos é um erro. Se toda a linhagem evolutiva que deu origem à espécie humana estivesse viva atualmente, qual seria o ponto em que poderíamos com certeza traçar uma linha que determinaria o que é Homo sapiens e o que não é? E se essa distinção fosse possível de alguma forma, poderíamos afirmar que a diferença cognitiva entre os primeiros indivíduos da espécie Homo sapiens e seus ancestrais seria tão grande a ponto de não haver uma altíssima possibilidade de haver interesses básicos semelhantes entre esses indivíduos só pela existência de uma separação taxonômica? Essa pergunta pode se estender a outros animais enquanto houver semelhanças cognitivas entre eles. Isso não necessariamente significa que estejamos tomando a consciência humana como parâmetro absoluto, mas simplesmente que temos a compreensão da existência de certos interesses básicos pelo fato de nós mesmos possuirmos esses interesses, e que tudo indica que nós não somos os únicos no reino animal com essa capacidade.

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  11. Eu aceito que talvez tenhamos o dever de tratar o Jacinto como você defende; mas pedi uma justificação. Você diz que temos o dever de o tratar assim porque é um ser humano. Mas isto é circular, dado que o que eu lhe pedi desde o início foi uma razão para que seja moralmente obrigatório tratar todo e qualquer ser humano de modo diferente. Se a justificação para isso é que alguns seres humanos têm certas características moralmente relevantes, então não é adequada porque nem todos as têm, como é o caso do Jacinto. Então por que razão é moralmente imperativo tratar o Jacinto melhor do que outros seres, como os chimpanzés, que têm atributos moralmente relevantes que ele não tem?

    Há uma enorme diferença entre o que as coisas são e o que as coisas devem ser. Podemos admitir que os seres humanos sentem mais empatia por outros seres humanos — o que, bem vistas as coisas, é falso: o europeu médio gasta mais dinheiro em animais de estimação do que a combater a fome de seres humanos de países distantes, e gasta mais dinheiro no seu próprio entretenimento do que na ajuda aos mais pobres da sua cidade — mas isso é irrelevante, porque a ética não é uma questão de saber que empatias sentimos, mas antes o que é moralmente obrigatório ou permissível fazer. Se a ética fosse uma questão apenas das empatias que sentimos, nada de errado os alemães fizeram com os judeus, dado que em vez de empatia, sentiam profunda antipatia por eles. Pensar eticamente nada tem a ver com a empatia que sentimos por isto ou por aquilo. Pensar eticamente é uma questão de saber o que é correcto fazer, e isso muitas vezes implica pensar nos interesses dos outros seres, tenhamos nós ou não empatia por eles. Compare-se: “é-me irrelevante que o meu escravo judeu seja intelectualmente mais capaz do que o meu filho de dois meses, pois eu não sou judeu como ele, mas antes ariano como o meu filho”.

    É falso que uma ética seja antropocêntrica só por declarar que o sofrimento, por exemplo, é moralmente relevante. Seria antropocêntrica se a justificação para a relevância moral do sofrimento fosse apenas “porque isso nos interessa a nós, seres humanos”. Mas a justificação não é essa. A justificação é que o sofrimento é uma coisa má para quem sofre, seja ou não esse ser capaz de o exprimir por palavras. E é irrelevante se o sofrimento desse ser é ou não parecido com o nosso e se sentimos ou não empatia, e se ele pertence ou não à nossa espécie. O que conta é ser sofrimento.

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  12. Caro Hélio, se reler o que escrevi verá que eu justifico a pertença à mesma espécie. Mas reformulo: eu defendo a primazia da consideração moral à espécie humana não por ela ser de alguma forma superior às outras mas porque é a nossa. É a única que temos. E por isso partilhamos características que nos permitem viver em comunidade moral a um nível que não podemos alcançar com outras espécies com quem não partilharmos a mesma linguagem, comportamentos ou características cognitivas (até o Jacinto tem estas características a nível potencial, e isto poderia ser uma justificação para o considerar pessoa). Ao contrário do que diz, eu não acho que "haja uma diferença gritante de capacidade cognitiva entre humanos e outros animais filogeneticamente próximos". Para mim o argumento está na diferença, não está no grau de diferença e a diferença existe sempre, por mais pequena que seja. Isso não impede que eu confira diferentes considerações morais a chimpanzé e formiga, não pelo chimpanzé ser mais próximo de nós mas porque a) a sua maior complexidade cognitiva exige de nós maiores atenções e b) por ser uma espécie em vias de extinção. Quanto ao raciocínio dos hominídeos, ele é falacioso e não vou responder aqui.

    Caro Desidério, voltando ao ponto do sofrimento: o exemplo que dei é ilustrativo de que o argumento do sofrimento não é incontestado no mundo filosófico. E se “o que conta é ser sofrimento”, temos primeiro que definir sofrimento. E sofrimento é um conceito em permanente mutação e portanto epistemologicamente fraco quando aplicado em animais. E dou um exemplo: há 10 anos atrás não havia evidências científicas sobre se os peixes seriam sencientes. Hoje sabemos que os peixes têm receptores de dor e sentem essa dor (e por isso são capazes de sofrer). Isto significa que passámos a incluí-los no círculo da consideração moral. E estou convencido que não ficaremos por aqui e continuaremos a expandir esse círculo. Se o que conta é o sofrimento, como justificar que tenhamos ignorado o sofrimento dos peixes (cerca de 30 mil espécies; a maior parte de todos os vertebrados é peixe; a esmagadora maioria dos animais usados para consumo humano é peixe)
    durante décadas quando já tínhamos a capacidade de o saber antes? Porque, por preconceito antropocêntrico ignorámos os peixes em detrimento de outras espécies “mais próximas de nós”. Dizer que o que conta é o sofrimento não chega e é por isso é que, apesar de considerar os argumentos de Singer muito apelativos, eles não me convencem.

    Feliz Ano Novo a todos!

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  13. Manuel, sua justificativa continua sendo muito vaga. Eu entendo que o fato de nós sermos da mesma espécie faz com que sejamos capazes de reconhecer que outros indivíduos da nossa espécie possuem estados mentais tanto quanto nós mesmos. No entanto, como foi dito anteriormente, esses estados mentais não estão restritos unicamente à espécie Homo sapiens, e já existem sólidas evidências neurológicas e comportamentais pra corroborar isso. Não importa que haja uma diferença, porque não podemos nunca saber certamente nem a qualidade nem a quantidade da diferença (e o mesmo vale até mesmo quando se fala de outros seres humanos). Podemos inferir uma subjetividade devido à complexidade cognitiva de X animal e isso necessariamente significa a existência de estados mentais (dor, sofrimento, prazer, ansiedade etc) e interesses, e isso basta para que possamos levar em consideração outros indivíduos, além de humanos, que poderão ter seus interesses contrariados dependendo das consequências geradas por nossas condutas.

    Gostaria de saber por que minha linha de raciocínio sobre a linhagem evolutiva da espécie humana é falaciosa.

    No mais, feliz ano novo!

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  14. Uma das tarefas da filosofia moral é explicar que atributos de um ser são relevantes para ele ser digno de consideração moral e porquê. Quando alguns filósofos defendem que sentir dor é um desses atributos, ainda que não o único, não estão a dizer quais são os seres sentem dor. Estabelecer quais são os seres que sentem efectivamente dor não é uma tarefa da filosofia moral, mas antes de uma ciência empírica: a biologia. Assim, a descoberta de que os peixes sentem dor em nada contraria ou põe em causa a tese filosófica de que a dor é um atributo moralmente relevante, entre outros.

    Uma vez mais, talvez seja por antropocentrismo que algumas pessoas são mais empáticas com outros seres humanos do que com outros animais, e serão tanto menos empáticas quanto mais diferentes dos seres humanos esses seres forem. Mas esta tese empírica precisaria de provas empíricas. E o problema é que parece haver refutações empíricas, e não provas. Como já afirmei, muitas pessoas sentem mais empatia, e gastam mais dinheiro, com cães e gatos do que com outros seres humanos carenciados que vivem ou na sua cidade ou em países distantes.

    E, repetindo-me, mesmo que fosse verdade que as pessoas orientam as suas escolhas morais em função de empatias antropocêntricas, isso seria irrelevante porque a filosofia moral não é sobre as escolhas morais que as pessoas realmente fazem, mas sobre as escolhas morais adequadamente justificáveis. Daí que eu tenha pedido uma justificação para o princípio moral de que devemos tratar melhor quem é mais parecido connosco, ou quem pertence à nossa raça ou sexo ou espécie ou país ou partido político.

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  15. O desafio: [encontrar] uma característica que todos os humanos têm e nenhum não-humano tem de forma a garantir a colocação dos humanos no interior da comunidade moral e os não-humanos fora dela.

    A resposta: A capacidade de, em condições normais, ter atitudes proposicionais.
    São as atitudes proposicionais que permitem ao homem posicionar-se face a uma proposição moral e é isso que os coloca dentro da comunidade moral.

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  16. Obrigado pela sugestão, Tomás, mas ficas com o mesmo problema: apesar de alguns seres humanos terem atitudes proposicionais, muitos outros não as têm: fetos com 2 semanas ou pessoas em coma com 90 anos, bebés que nascem com anencefalia (sem cérebro). Penso que o que custa a compreender é o especismo que faz as pessoas aceitar que um ser que pertence a uma dada espécie herda automaticamente o estatuto moral dos membros dessa espécie que têm atributos moralmente relevantes, como ter atitudes proposicionais. Mas o problema é que é difícil de sustentar que um ser tenha um dado estatuto moral não em virtude dos atributos moralmente relevantes que realmente tem, mas dos atributos morais relevantes que outros membros da sua espécie têm. Se isso é assim, por que não argumentar ao contrário e que eu não tenho qualquer estatuto moral precisamente porque há outros membros da minha espécie que não têm atributos moralmente relevantes?

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  17. Manuel disse:
    "até o Jacinto tem estas características a nível potencial, e isto poderia ser uma justificação para o considerar pessoa"

    Tomás disse:
    "A capacidade de, em condições normais, ter atitudes proposicionais. São as atitudes proposicionais que permitem ao homem posicionar-se face a uma proposição moral e é isso que os coloca dentro da comunidade moral".

    Esses argumentos são uma variação do argumento da potencialidade e não funcionam. Eu sou potencialmente o presidente da república, mas não tenho os direitos de um presidente da república. Eu sou potencialmente um idoso, mas não tenho direitos que são prerrogativas de idosos, como um atendimento mais rápido no banco. Do mesmo modo, um ser humano pode ter potencialmente atitudes proposicionais, mas isso não basta para lhe dar os mesmos direitos de um ser humano que tem atitudes proposicionais, se é que ter atitudes proposicionais é o critério moralmente relevante para inclusão na comunidade moral. Na verdade esse critério é especista. Defender que a capacidade de, em condições normais, ter atitudes proposicionais é o critério de inclusão na comunidade moral é o mesmo que dizer que o fato de ser um membro da espécie homo sapiens sapiens é o critério de inclusão na comunidade moral: é raciocinar em círculo.

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  18. Desidério, Matheus, têm razão e reconhecia essa falha no meu critério de inclusão. Mas lancei-o mesmo assim para revelar algo que considero que inquina a discussão desde o seu início: o próprio desafio de Singer.

    A meu ver a inclusão dos homens e a exclusão gradativa dos animais do golfinho à anémona da esfera moral não passa por encontrar essa característica misteriosa (uma condição suficiente e exclusiva dos humanos). O próprio desafio esconde algo de errado no argumento do Singer:

    Ao aceitarmos a primeira premissa (o critério da capacidade de sofrimento) como uma condição suficiente para a inclusão de um ser vivo na esfera moral temos de lidar com as consequências da conclusão (6) que para muitos de nós são inaceitáveis: a ideia de que virar o volante e salvar uma vara de porcos de um acidente de carro e sacrificar um grupo de meninos na passadeira é um acto especista.

    Julgo que a única alternativa a 6) é "morder a bala" e aceitar que a moralidade é especísta, ou até que não ser especísta é imoral.

    Temos então de ir ver o que está mal com o argumento de Singer que a meu ver é a premissa 1)
    Proponho o seguinte fundamento da moral:
    - A capacidade de sentir empatia por um ser vivo é a base para a inclusão na esfera moral. Quanto mais empatia sinto por um ser vivo mais perto do meu núcleo moral sagrado o coloco (a minha família está no centro desse núcleo).
    Quem tenha estas hierarquias trocadas (quem ponha o peixinho dourado acima do filho, ou a vara de porcos acima dos meninos é simplesmente um "psicopata moral".
    Assim, se para o Singer quem come porcos é um especista, para esta minha hipótese quem não é especista é um "psicopata moral" - agora venha o Diabo e escolha.

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  19. Tomás, pareces pressupor que quem aceita que o sofrimento é um atributo moralmente relevante está condenado a aceitar as seguintes duas ideias:

    1) Esse é o único atributo moralmente relevante;
    2) Não há diferença entre matar um porco e matar um ser humano.

    Tanto 1 como 2 são ideias que uma pessoa pode rejeitar ainda que aceite que o sofrimento é moralmente relevante. E é isso que faz Singer. Em lugar algum Singer declara considerar que é tão grave moralmente matar um porco como matar um ser humano. Em lugar algum afirma ele que o sofrimento é o único atributo moralmente relevante.

    O teu critério tem a consequência seguinte: nenhum idoso em coma com 90 anos é moralmente relevante, e qualquer cão que manifesta afectos pelo seu dono é moralmente mais relevante do que qualquer pessoa fria e solitária que não sente apego seja por quem for, para já não falar do idoso em coma.

    A confusão que Singer provoca é típico de alguém que põe em causa preconceitos. As pessoas começam a pensar de modos algo estranhos. Vejamos: toda a gente concorda que é um mal eu torturar todos os dias o meu gato dando-lhe choques eléctricos e cortando-lhe ora o rabo ora uma pata, até ele morrer miseravelmente. Porquê? Porque toda a gente concorda que o sofrimento é moralmente relevante. Então por que razão Singer faz tanta comichão? Porque se limita a retirar consequências surpreendentes de premissas que todos aceitamos. E as duas mais surpreendentes são estas:

    1) Se podemos ter uma dieta equilibrada sem provocar sofrimento aos animais, temos o dever de o fazer, precisamente porque o sofrimento dos animais é relevante;
    2) Se um ser não tem qualquer atributo moralmente relevante, o mais básico dos quais, mas não o único, é a capacidade para sentir dor, então esse ser não é moralmente relevante, ainda que pertença a uma espécie que conta com vários membros que têm atributos moralmente relevantes.

    As pessoas querem rejeitar 1 porque querem manter a sua auto-estima, declarando-se morais e virtuosas, ao mesmo tempo que não querem deixar o bife. E querem rejeitar 2 porque temem considerar a sua relevância moral em função do que realmente fazem, em vez de ser em função do que os melhores membros da sua espécie fazem.

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  20. Talvez seja importante distinguir entre o atributo moral que é relevante para inclusão na comunidade moral e os demais atributos morais que são relevantes para considerações morais em geral. Aceitar que animais são dignos de consideração moral não nos compromete com alguma resposta específica a dilemas morais inter-espécie.

    O seu critério de inclusão moral pode ser interpretado de duas formas:
    1) Apenas os seres vivos que podem sentir empatia devem ser incluídos na esfera moral.
    2) Apenas os seres vivos pelos quais eu tenho empatia devem ser incluídos na esfera moral.
    Acho que a sua intenção foi defender (2), o que nos leva a uma espécie de subjetivismo moral radical: se João tem empatia por gatos e cachorros, mas detesta seres humanos, apenas gatos e cachorros são dignos de consideração moral; mas se o Carlos tem empatia por pessoas, mais do que isso, se o Carlos tem empatia apenas por seus entes queridos, apenas a sua família será digna de consideração moral. Isso me parece arbitrário, pois nem gatos e cachorros nem a família do Carlos possuem algum atributo moral especial que os coloque acima dos outros animais. No restante, concordo com o Desidério.

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  21. Singer considera que é menos grave moralmente matar um porco do que matar um ser humano?

    Se sim, porquê?

    Pedro Martins

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  22. Desidério,

    não sei se o Singer defende em algum lado que é tão grave matar um porco como um ser humano, mas o argumento apresentado em cima parece apontar para isso mesmo. Aí defende que animais e pessoas têm o mesmo "peso moral":
    "o bem-estar dos animais não-humanos deve contar igualmente (sublinho, igualmente) para o bem-estar dos humanos."

    Quanto ao meu critério, realmente tem essa falha que apontas. Mas talvez a atribuição de relevância moral não passe por um critério blindado, uma condição suficiente para a relevância moral, mas apenas por uma consideração subjectiva dessa relevância.

    Quanto à segunda consequência que o Singer tira das tais premissas que todos aceitamos:
    "Se um ser não tem qualquer atributo moralmente relevante, o mais básico dos quais, mas não o único, é a capacidade para sentir dor, então esse ser não é moralmente relevante, ainda que pertença a uma espécie que conta com vários membros que têm atributos moralmente relevantes."

    Bem, uma vez que é dito que a capacidade para sentir dor não é o único atributo moralmente relevante e que, além disso, a condição para a exclusão da relevância moral é não ter nenhum atributo moralmente relevante (e não só o de sentir dor) então dificilmente existirá um ser humano que não possua nenhum desses outros atributos e continue a ser um ser humano.
    Consegues dar algum exemplo de um ser humano sem nenhum dos atributos relevantes para a inclusão na esfera moral?

    Não percebi a tua última consideração quando dizes que as pessoas rejeitam 2) porque "temem considerar a sua relevância moral em função do que realmente fazem, em vez de ser em função do que os melhores membros da sua espécie fazem"
    Podes explicar-me o que queres dizer com isto?

    ab

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  23. Matheus,
    sim, de facto queria defender 2), a ideia que "os seres vivos pelos quais eu tenho empatia devem ser incluídos na esfera moral." E sim, admito que isso pode levar a um "subjectivismo radical", como diz no sentido em que o que leva alguém a incluir outro na sua esfera moral é uma preferência pessoal. Mas não vejo porque isso seja mau. Atrás defendi a ideia que quem tenha as preferência trocadas (o João, por exemplo) é um psicopata moral. Claro que aqui parece que pedimos um critério objectivo para a saber onde se traça a linha entre o psicopata moral e o agente moral, mas a meu ver esse critério tem as fronteiras esbatidas e nunca o conseguiremos definir com exactidão.

    O problema na sua posição está em que, por não encontrar esse critério objectivo que traça claramente a fronteira entre um agente moral e um agente não-moral (ou menos moral) acaba por deitar o bebé fora com a água do banho defendendo algo tão inaceitável quanto "nem gatos e cachorros nem a família do Carlos possuem algum atributo moral especial que os coloque acima dos outros animais."
    Se o Matheus realmente acredita nisso, no caso de ter de salvar de um apartamento em chamas os cachorros e os gatos do João (1º direito) ou os pais e os irmãos do Carlos (1º esquerdo) seria arbitrário escolher um ou outro (provavelmente atiraria a moeda ao ar).
    Mas como acredito que não o faria, como acredito que o Matheus arrombaria a porta do 1º esquerdo, tenho de concluir que acredita que os seres humanos (mesmo familiares do Carlos, esse infame) têm um atributo moral especial, mesmo que o desconheça.
    Que me diz?

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  24. Porque um ser humano, na plena posse das suas faculdades, tem mais atributos moralmente relevantes do que um porco. Isso é explicado no livro Ética Prática.

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  25. Viva, Tomás, tudo bem? Há muitos seres humanos que não têm atributos moralmente relevantes: bebés que nascem com anencefalia (sem cérebro), pessoas em coma sem possibilidade de recuperação, fetos com 3 semanas. O que faz as pessoas não aceitar Singer é que querem sempre tratar uma ser particular não em virtude dos atributos que ele realmente tem, mas dos atributos que outros membros da sua espécie teriam.

    Quanto ao meu ponto 2, é uma especulação. Parece-me que um erro tão óbvio, depois de denunciado, deveria ser prontamente aceite. Insistir em tratar alguém que não tem atributos moralmente relevantes como se os tivesse porque outros membros da sua espécie os têm é tão estranho, que a minha hipótese explicativa é que as pessoas temem ser avaliadas moralmente exactamente pelo que são -- e a maior parte das pessoas tem vidas que pouco se distingue dos símios. Mas estou a especular.

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  26. Desidério,

    se um bebé com anencefalia e um idoso em coma sem possibilidades de recuperação não têm atributos moralmente relevantes (entre eles o de sentir dor) o que é que nos impede de os usar para experiências médicas que causariam dor em seres sensientes?

    Se um feto com 3 semanas é moralmente irrelevante o que nos impede de criar fetos por clonagem para produção de acendalhas para o lume ou nutritiva comida para porcos?
    Acredito que entre impedir um aborto de um feto de 3 semanas ou impedir um leitão vivo de ir parar à minha sandes impedirias o aborto. Estou certo? Se sim, então é porque consideras que o feto tem características moralmente mais relevantes que as do leitão ainda vivo.
    Se não, então acho que estás a ser profundamente imoral.

    Se a "posse de características morais relevantes" é o critério para pertencer à esfera moral por que motivo é que enterramos os nossos mortos e os tratamos com dignidade se eles, na acepção "singeriana" que defendes, são o paradigma de seres sem relevância moral?

    O que quero dizer é que pelo facto de não conseguirmos encontrar características objectivas no feto, no bebé ancéfalo, no comatoso ou no defunto que os insiram na comunidade moral não prova que eles lá não estejam. Pensar o contrário, como julgo que fazes, é cometer a falácia da ignorância (porque ignoramos que algo existe damos por certo que não existe).

    Ora esse critério esquivo da moralidade poderá estar numa "esfera sagrada" (refira-se que é um ateu a escrever estas linhas) em que o pensamento racional não consegue penetrar totalmente mas apenas guiar-nos com alguma segurança até certo ponto de uma zona cinzenta onde não há respostas seguras e cálculos de moralidade como o argumento do Singer parece defender.

    Talvez tenhamos acesso a essa "esfera sagrada" através de uma voz moral interior, uma intuição incutida em nós culturalmente e que através sentimentos forjados por tradições ancestrais nos dizem o que é moral e o que não é.
    E talvez seja avisado, nessas situações, suspender o juízo e ouvir essa "voz moral interior".

    Este argumento da "voz moral interior" (uma espécie de moral intuicionista, creio) não é de todo descabido se atentarmos às consequências do argumento de Singer. Se ouvirmos seguirmos a razão partindo das premissas utilitaristas de Singer é-nos permitido (racionalmente, lá está) acender fogueiras com fetos, desenvolver experiências com bebés ancéfalos e imoralidades quejandas. Por outro lado, ao ouvirmos a tal "voz interior" parece que nos sintonizamos com uma linha moral qualquer que (normalmente) nos impede de as cometer.

    A "voz interior" não é um guia infalível e pode ser auxiliado pela razão, mas se a razão prescindir dessa "voz interior" acabamos a comer sandes de leitão só com alface na mealhada, que é de todos os ângulos imagináveis uma experiência de vida terrífica e profundamente indesejável.

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  27. Onde é que leste que eu defendo a perspectiva de Singer? Tudo o que tenho feito é esclarecer as suas ideias. Eu penso que Singer não tem razão em muitas coisas.

    Não vejo onde tenhas neste comentário qualquer argumento relevante. Apenas manifestas a tua indignação moral. Faz-me lembrar a indignação moral com que Mill foi recebido no séc. XIX quando defendeu que as mulheres deviam ter os mesmíssimos direitos políticos e sociais dos homens. Ora, com indignações morais não se discute. Cada qual tem direito a ter as suas.

    Não se segue das posições de Singer que seja moralmente aceitável fazer experiências científicas com fetos de 5 semanas. Mas segue-se que se acaso não o é, não pode ser apenas por tal feto pertencer à espécie humana.

    Não é uma posição particularmente recomendável confiar na aritmética quando as contas nos dizem que o Chico nos deve dinheiro, mas desconsiderá-la quando as contas nos dizem que somos nós que devemos dinheiro ao Chico. Analogamente, não é particularmente recomendável confiar na racionalidade, seja lá isso o que for, quando esta nos diz indutivamente que é capaz de não ser uma boa ideia beber ácido sulfúrico, mas desconsiderá-la quando esta mostra que os nossos preconceitos morais mais queridos são difíceis de sustentar.

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  28. Olá a Todos,
    Sobre este assunto deixo uma sugestão de leitura, uma série de entrevistas e artigos de edição recente (com nomes como Peter Singer e Roger Scruton): http://www.antennae.org.uk/ANTENNAE%20ISSUE%2019.docx.pdf

    Té,

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  29. Tomás disse:

    "Atrás defendi a ideia que quem tenha as preferências trocadas (o João, por exemplo) é um psicopata moral".
    E quem tem as preferências trocadas pode dizer o mesmo de você. É por isso que o subjetivismo não é uma boa teoria, pois alguém não é um psicopata moral apenas porque não partilha de preferências morais injustificadas. As suas preferências acerca de quem deve ou não ser digno de consideração moral são arbitrárias se você não é capaz de justificá-las.

    Quando disse que gatos e cachorros ou a família do Carlos não possuem algum atributo moral especial que os coloque acima dos outros animais sencientes tinha em mente o seguinte: se alguém pensa que um ser vivo X é digno de consideração moral deve justificar essa tese com argumentos. Simplesmente dizer que “os gatos e cachorros são os únicos seres moralmente relevantes, pois eu me dou bem com gatos e cachorros e mal com pessoas” é tão injustificado quando alguém [o Carlos] dizer “a minha família é a única digna de consideração moral, pois são as únicas pessoas que me interessam”. Isso é arbitrário, pois o fato de X só se importar ou ter boas relações com Y não é suficiente para incluir Y na comunidade moral e excluir todo o resto.

    “Se o Matheus realmente acredita nisso, no caso de ter de salvar de um apartamento em chamas os cachorros e os gatos do João (1º direito) ou os pais e os irmãos do Carlos (1º esquerdo) seria arbitrário escolher um ou outro (provavelmente atiraria a moeda ao ar)”.
    Aqui você está repetindo um argumento que já foi respondido antes, por mim e pelo Desidério. A sensiência é o atributo para identificar quem deve ou não ser incluído na comunidade moral, mas não é o único atributo moralmente relevante. É muito chato ter que ficar repetindo objeções a argumentos já refutados.

    “O que quero dizer é que pelo facto de não conseguirmos encontrar características objectivas no feto, no bebé ancéfalo, no comatoso ou no defunto que os insiram na comunidade moral não prova que eles lá não estejam”.
    Sim, não prova que eles não existam do mesmo modo que não encontrar senciência em uma árvore ou cadeira não prova que uma árvore ou uma cadeira não têm senciência. Mas quão razoável é acreditar que árvores e cadeiras têm senciência ou que um bebê ancéfalo seja moralmente relevante mesmo que não tenhamos indícios a favor dessas crenças?

    “Talvez tenhamos acesso a essa "esfera sagrada" através de uma voz moral interior, uma intuição incutida em nós culturalmente e que através sentimentos forjados por tradições ancestrais nos dizem o que é moral e o que não é.”
    O fato de termos uma intuição moral a favor de X incutida culturamente não justifica a correção moral de X. Uma boa parte da população mundial acreditou por muito que a escravidão era correta devido a intuições morais incutidas pelo meio e estavam completamente equivocadas. Em algumas tribos foi costume considerar que o sacrifício de bebês é moralmente correto, segue-se disso que o sacrifício de bebês é moralmente correto? É claro que não. Aqui você não está mais defendendo subjetivismo, mas sim relativismo cultural.

    O problema de defender que a voz moral interior é o guia de moralidade é que isso gera uma tendência de acusar de cegueira moral quem discorda de suas crenças e torna a discussão moral impossível. Repare que você também precisa justificar quais são as características dessa voz interior, justificar como você sabe que de fato está seguindo a sua voz interior e não uma ilusão da sua consciência, justificar como podemos relacionar essa voz interior com as situações concretas, justificar que a voz interior é a base da moralidade, enfim você tem que justificar muita coisa. A sua posição é uma redução ao absurdo de alguém que não pode aceitar que animais sencientes devem ser incluídos na comunidade moral.

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  30. Por outro lado…, a minha visão desta inclusão dos outros animais tem tremido um bocado. E treme desde que olhei para a moral como uma ferramenta de sobrevivência. Assim sendo, incluir os não humanos na nossa esfera moral poderia ser tão despropositado como um elefante considerar os pressupostos éticos de uma avestruz nas decisões éticas do seu grupo – em princípio não o ajudaria na sobrevivência da sua espécie… (ou talvez sim). Aqui, estou a considerar que cada espécie tem a sua ética, o que é muito discutível. Esta ideia adquiri-a de alguns artigos que li que admitiam/demonstravam que diversas espécies que não a nossa assentavam o seu comportamento em pressupostos éticos, e exemplificavam situações de solidariedade, exclusão, reinserção, tratamento de indivíduos no grupo, etc, para alcateias de lobo, suricatas, etc. Ora, se admitíssemos que cada espécie teria a sua ética, poderia fazer sentido que a nossa ética não incluísse a dos outros. E aqui remeto para o familismo, que promete uma esfera moral muito mais vincada para os nossos familiares, indo-se esbatendo à medida que os laços vão desvanecendo. Singer rebateria esta ideia dizendo que não estará mal preocuparmo-nos mais com os nossos familiares do que com os outros humanos, simplesmente estaríamos a cair num julgamento fora dos contornos éticos, passando para o campo emocional, e subjectivo. Ora, eu adoro este argumento que Singer eventualmente usaria, mas também me parece pouco prático que usemos uma ética que se mantenha lá, no domínio da ética, não a podendo trazer depois para a vida real, que é emocional e subjectiva. Assim, tenho vindo a dar mais crédito a teorias familistas, assim como a compreender que a moral de um ser humano possa fechar-se na sua espécie, ou grupo, permitindo que se expresse mais como uma ferramenta útil à sua sobrevivência (mesmo que para isso tenha que proteger os animais, as plantas, o ambiente).
    Tendo disto isto, continuo a achar que o animal não humano deve ser considerado no juízo moral e que, apesar de não o compreendermos tão bem, devemos fazer os maiores esforços para o fazer.
    Tendo dito isto, continuo a defender os interesses de todos os animais que os têm, e a defender que eles devem ser considerados na balança ética, numa perspectiva muito de Singer. Simplesmente, tenho visto outras perspectivas que me têm confundido, felizmente.

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  31. Relativamente a não incluir os animais não humanos na nossa esfera moral por não nos conseguirmos colocar na sua pele, é plausível. É uma limitação grande, e é justo admitir. O mesmo se passa com a nossa esfera científica, médica (e médico-veterinária), literária, social. Enfim, não é por não sermos biologicamente semelhantes a um cão que vamos deixar de escrever um poema sobre ele, estudar a sua psicologia, compreender a sua fisiologia, a sua Patologia, tentar tratá-la, preveni-la, encontrar soluções para a sua vivência e bem-estar… não é por não o compreendermos tanto que vamos ignorá-lo na nossa esfera …geral (?). Quando tentamos combater uma epidemia, que esteja a dizimar populações, não podemos dar-nos ao luxo de dizer: “eu nunca conseguirei sentir o que a bactéria sente, nunca me colocarei na sua pele, portanto vou ignorá-la; não vale a pena estudá-la, não vou conseguir compreendê-la.” Normalmente, este não o compreendermos bem impele-nos para o procurarmos mais. Porque é que com a esfera especificamente moral, o facto de não compreendermos, de não nos conseguirmos pôr no seu lugar nos repelaria das outras espécies?

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  32. Resposta ao Hélio:

    Reconheço que outros animais possuem estados mentais moralmente relevantes; penso, porém, que só esse critério não chega. Mas se isso basta em termos morais, passemos da teoria à prática: quais são em concreto, os outros indivíduos não humanos (vulgo espécies) que poderão ter os seus interesses contrariados? E como pode ter a certeza que nesse exercício não exclui nenhum que assim o mereça?

    É claro que Homem e anteriores hominídeos partilhariam muitos interesses básicos. Mas se o homo erectus deu origem ao homo sapiens, só é possível conceber o segundo após a extinção (por evolução) do primeiro. A principal razão porque o seu argumento - de questionar onde reside a linha que separa o homem dos anteriores hominídeos - é falacioso é ignorar que a especiação é um processo que ocorre à escala temporal geológica (milhões e milhares de anos), a qual não é a nossa (de anos, dias, horas e minutos). Procurar o momento exacto em que passamos a ser humanos é, além de inconcebível, biologicamente ingénuo.

    O seu argumento parece ainda – e posso estar enganado - considerar a evolução como um processo teleológico e nada poderia estar mais longe da verdade. Comparar o Homo erectus com o ser que resultou a seguir (homo sapiens), equivaleria a dizer que o primeiro existiu em função do segundo, como se ser-se homo erectus fosse meramente uma etapa primitiva antes de se ser humano (o que faria de nós humanos uma mera etapa anterior ao pós-humanismo...).

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  33. Matheus, vou ater-me a uma parte da sua resposta que considero o verdadeiro "pomo da discórdia" aqui:

    Eu:“Se o Matheus realmente acredita nisso, no caso de ter de salvar de um apartamento em chamas os cachorros e os gatos do João (1º direito) ou os pais e os irmãos do Carlos (1º esquerdo) seria arbitrário escolher um ou outro (provavelmente atiraria a moeda ao ar)”.

    Matheus - "Aqui você está repetindo um argumento que já foi respondido antes, por mim e pelo Desidério. A sensiência é o atributo para identificar quem deve ou não ser incluído na comunidade moral, mas não é o único atributo moralmente relevante. É muito chato ter que ficar repetindo objeções a argumentos já refutados."

    Sinto muito que se sinta aborrecido por ter de repetir objecções a argumentos que considera refutados, mas é o que acontece quando discutimos efectivamente com pessoas reais que respondem e levantam dúvidas e têm determinadas limitações (ao contrário de quando discutimos imaginariamente com os autores de livros que não respondem e por isso não levantam dúvidas e escondem as suas limitações).
    A minha limitação, em concreto, é não ver que o meu argumento tenha sido refutado (mas talvez isso advenha de outra limitação anterior, mais fundamental. Mas, nesse caso, peço-lhe paciência, a minha objecção mantém-se pois não considero que nem o Matheus nem o Desidério me refutaram (pelo menos no sentido de eu ter de aceitar os vossos contra-argumentos.

    Então vejamos, se o problema não está em "meter" dentro da comunidade moral os animais uma vez que cumprem o critério da sensiência (não tenho problema nenhum nisso), mas existem outros critérios relevantes para distinguir a importância relativa de membros dessa mesma comunidade moral (que é o que eu tenho vindo a dizer e, parece-me, o seu comentário subscreve, o problema simplesmente se desloca para o(s) critério(s) de distinção relevante(s) dentro dessa tal comunidade moral (essa amálgama alegre de animais, homens e vegetarianos). Como escolhemos quando temos de decidir sacrificar dois membros dessa mesmas comunidade moral? Ok, exclua-se o vegetariano para facilitar as coisas. O mais certo é voltarmos a ter de reavivar o debate novamente em torno de quais os critérios morais relevantes, mas agora para distinguirmos relevância moral dentro do grupo daqueles que têm um critério moral relevante, a sensiência.

    nota final:
    Repare que é um privilégio (para mim e para si) estarmos aqui a discutir ideias. Eu perco tempo com as suas ideias e você com as minhas. É sinal que nos consideramos aos dois na mesma comunidade intelectual. O facto de considerar "muito chato" repetir objecções a argumentos que já foram refutados, e dizê-lo a mim que os apresentei, não revela nada acerca de efectiva refutação ou não desses argumentos (acho que acabei de mostrar que essa refutação não é certa, ou pelo menos adequada) mas revela algo acerca da sua disponibilidade para discutir ideias que acredita (sublinho, acredita) que já foram refutadas.

    abraço

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  34. correcção:
    Onde se lê "Como escolhemos quando temos de decidir sacrificar dois membros dessa mesmas comunidade moral?"
    leia-se "Como escolhemos quando temos de decidir sacrificar um dos membros dessa mesmas comunidade moral em detrimento de outro?"

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  35. Este comentário foi removido pelo autor.

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  36. > Mas se isso basta em termos morais, passemos da teoria à prática: quais são em concreto, os outros indivíduos não humanos (vulgo espécies) que poderão ter os seus interesses contrariados? <

    Já há uma ampla documentação dentro da etologia cognitiva que faz com que seja possível afirmar com segurança que vertebrados em geral - e cefalópodes, entre invertebrados - são capazes de possuir estados subjetivos (eles possuem até mesmo uma central responsável pelo processamento de informação emocional, que é o sistema límbico).

    Se não temos evidências suficientes pra poder determinar com alguma certeza se X animal é consciente ou não, o que pode ser feito é analisar qual a probabilidade de existir alguma consciência naquele animal e decidir entre dar o benefício da dúvida ou não. Existem pequenos peixes que possuem um sistema nervoso mais rústico que o de mamíferos, por exemplo, mas ainda assim há uma probabilidade de eles serem conscientes que não pode simplesmente ser ignorada. Já no caso de insetos, por exemplo, não há nenhuma forte evidência para fazer com que seja razoável imaginar a possibilidade de eles serem conscientes.

    ***

    Eu não ignorei que a especiação ocorre em uma escala de tempo geológica. O exemplo que eu dei sobre a linhagem evolutiva que deu origem à espécie Homo sapiens é apenas um exercício de pensamento para que seja possível entender melhor meu raciocínio. O fato de o surgimento de novas espécies demorar uma enorme quantidade de tempo não anula o fato de que existem semelhanças entre as espécies hoje vivas e seus ancestrais.

    E, sim, você está enganado. Eu estou plenamente ciente de que a evolução não é algo linear que possui um objetivo final, e inclusive rejeito qualquer ideia que sugira que o processo evolutivo seja sinônimo de progresso que aponta para alguma direção. Comparar os ancestrais imediatos do Homo sapiens, no contexto do meu argumento, só tinha a intenção de mostrar que a evolução não dá saltos gigantescos, mas sim mudanças de efeito cumulativo que ocorrem gradativamente com o passar do tempo, sendo impossível delimitar com certeza uma linha que separa novas espécies e seus ancestrais imediatos. Minha intenção era que o foco se desse nesse acúmulo gradativo, apenas para que fosse possível entender melhor que as lacunas que separam espécies filogeneticamente próximas não são tão grandes a ponto de não haver semelhanças cognitivas significativas entre nossa espécie e outras espécies de animais. Não há uma boa razão pra achar que atributos cognitivos, que também são caracteres biológicos, não tenham evoluído de maneira gradativa. Sendo assim, não há razão pra acharmos que existe um abismo entre nosso aparato cognitivo e o aparato cognitivo de outros animais.

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  38. sim: o ser humano cria um ordenamento jurídico que o coloca, positivamente, nesta posição distinta.

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