11 de dezembro de 2011

Reabilitar a metafísica

Foto: Aires Almeida

É bem conhecida a intenção de Kant em reabilitar a metafísica que, em seu entender, estava enredada em disputas e discórdias intermináveis. Mas se a intenção de Kant era curar a metafísica das maleitas que tinha contraído, a cura não foi melhor. Deu-lhe um tal tratamento, que acabou por a deixar de quarentena durante tempo mais do que suficiente, entregando os seus pertences à razão prática. E foi assim que quase acabou por matá-la de solidão. Como é compreensível, a solidão doentia é propícia ao delírio. Deste modo, Kant entregou a metafísica que queria reabilitar no regaço dos delírios idealistas que ele mesmo despertou.

Com poucas excepções, a metafísica pós-kantiana acabou por se render à epistemologia ou aos devaneios idealistas ou a ambos. E chegou tão maltratada ao séc. XX que se tornou quase irreconhecível (basta ver o que os positivistas lógicos pensavam ser a metafísica). Foi assim que muitos concluíram que os problemas do livre-arbítrio, da existência de Deus, do sentido da vida, mas também da identidade através do tempo, dos universais, da causalidade ou da modalidade nem sequer mereciam ser discutidos. Pensavam que nem sequer cabia à filosofia discuti-los.

Felizmente, as coisas são agora muito diferentes e a metafísica acabou por ser filosoficamente reabilitada por filósofos como Saul Kripke, David Lewis, David Armstrong e Alvin Plantinga, entre muitos outros. Sem esquecer o resistente Bertrand Russell. Agora sim, podemos dizer que a metafísica recuperou uma tradição que, desde Platão e Aristóteles (sobretudo este), passando pelos medievais, tinha sido interrompida e cedido o seu lugar à epistemologia, em grande parte graças a Kant.

Como alguém de que não me recordo disse: ainda que nos esqueçamos da metafísica, a metafísica não se esquece de nós. A metafísica vem sempre ao de cima.

19 comentários:

  1. Aires e não te parece que é difícil sair hoje da área da epistemologia, embora se queira reabilitar a metafísica?

    Ismael Carvalho

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  2. Não, Ismael. A prova é que a metafísica é nas últimas décadas uma disciplina filosófica com enorme vitalidade. Arrisco-me mesmo a dizer que com mais vitalidade do que a epistemologia.

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  3. Olá, Aires

    também acho que a metafísica não se esquece de nós, enquanto nos interessarmos por filosofia. Mas a tua postagem me intriga: que argumento a filosofia atual nos dá que pode nos persuadir assim tão fortemente da reabilitação da metafísica? Vou ser sincero em dizer que esse para mim é o grande problema... Você indica uma série de problemas que são ditos metafísicos. Mas o que me convence que a filosofia atual pode tratar adequadamente desses problemas?

    Um grande abraço, Bruno

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  4. Não se deve ignorar a metafísica simplesmente pelo fato de que tal posição, quer queira, quer não, é impor um limite à filosofia.

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  5. Bruno, que a metafísica voltou a ser uma das disciplinas mais estudadas e os problemas metafísicos voltaram para o centro da discussão filosófica actual é um facto, não uma especulação minha que necessite de quaisquer argumentos a sustentá-la. Até em disciplinas como a filosofia da ciência, a ética e a estética verificamos que uma boa parte da discussão é sobre questões metafísicas. Por exemplo, a discussão sobre a causalidade em ciência é uma discussão metafísica, como a discussão sobre o realismo moral em ética ou do realismo estético em estética.

    Claro que os problemas que indico são problemas metafísicos. Penso que quanto a isso não há qualquer disputa, apesar dos contributos de outras disciplinas (por exemplo, as neurociências no caso do problema do livre-arbítrio).

    Que a filosofia não resolva de uma vez tais problemas apenas prova que se trata mesmo de problemas filosóficos e que cabe à filosofia tratar deles. É assim com todos os outros problemas filosóficos.

    Abraço

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  6. "Que a filosofia não resolva de uma vez tais problemas apenas prova que se trata mesmo de problemas filosóficos e que cabe à filosofia tratar deles. É assim com todos os outros problemas filosóficos."



    A filosofia não resolver de uma vez algum problema não é suficiente para afirmares que trata-se de um problema filosófico e nem que, portanto, caiba à filosofia tratar do mesmo. Pode-se ter mesmo o contrário: que não se trata de um problema filosófico e que a filosofia não resolve simplesmente por não caber à ela a resolução de tal problema. Isso ocorre mesmo com problemas que outrora foram vistos como filosóficos (por envolverem uma nuvem de mistério) que hoje em dia algumas ciências respondem. Para usar uma linguagem popperiana, a ciência dissolveu muitos problemas considerados filosóficos através da falseação de teorias.

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  7. Camila, estava simplesmente a tentar dizer que as questões filosóficas são, por natureza, questões em aberto. Claro que também as há noutras áreas.

    O facto de haver problemas antes considerados filosóficos e que acabaram por ser resolvidos pelas ciências só mostra que a resolução de tais problemas era uma questão científica e não filosófica. Isto não impede que a filosofia possa contribuir para uma melhor compreensão do problema. Às vezes há problemas que parecem filosóficos e são, afinal científicos.

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  8. Mas aí é que está o problema: nada impede que muitas questões que hoje consideramos filosóficas possam futuramente ser resolvidas sim pela ciência e vir a contestar seu estatuto filosófico.

    As questões filosóficas possuírem natureza de questões que nunca terão uma resposta decisiva não contribui para a defesa de que o fato de um problema ainda não ter sido resolvido pela filosofia dar status de filosófico a ele. Muitas questões que consideras metafísicas podem na verdade ou ser mero ruído ou mesmo representar a ausência de maiores conhecimentos científicos para sua solução simplesmente.


    Eu não concordo totalmente com isso, mas sou simpática a ideia do primeiro Wittgentein de que problemas filosóficos genuínos não existem, mas trata-se de era tudo uma questão de confusões linguísticas, quebra-cabeças sem qualquer substância. Discordo que não haja qualquer problema filosófico genuíno, mas que muitos dos que são considerados filosóficos são apenas confusões de linguagem ou mesmo problemas que serão resolvidos pelas ciências.


    Veja o caso que você próprio mencionou envolvendo a neurociência influenciarem as disputas filosóficas, agora em relação à filosofia da mente. Muito da filosofia da mente que está sendo feita hoje em dia exige maiores conhecimentos futuros que porventura podem dissipar totalmente as teorias vigentes. Até onde sei, principalmente sobre Inteligência Artificial e sua repercussão em relação a problemas epistemológicos, metafísicos, não há muito o que se fazer na filosofia atualmente, visto que são necessários maiores avanços na área. Em certo sentido, a ciência contribui para a sofisticação e aproximação da filosofia à verdade, mas, por outro lado, em muitíssimos casos, acaba por expulsá-la de vez de muitos pontos do conhecimento humano.

    Mas, enfim, não há como saber de antemão, já que não temos máquina do tempo, ficam apenas meras cutucadas um tanto quanto sem subsídios maiores.

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  9. Claro que podemos vir uma dia a concluir que alguns dos problemas que actualmente pensamos serem filosóficos não o são. Em filosofia é sempre disparatado excluir a possibilidade de estarmos enganados. Mas isso é muito diferente de concluir que nenhum problema que agora tomamos como filosófico o é realmente.

    A velha ideia de Wittgenstein de que não há genuínos problemas filosóficos, tratando-se apenas de confusões linguísticas, parece ter sido largamente rejeitada pelos filósofos e creio que bem. Esta história de perguntar "o que queremos dizer quando falamos de vagueza?" pode ser muito interessante, mas não é o mesmo que perguntar "a vagueza existe independente de qualquer agente cognitivo?" Esta é uma pergunta muito simples e não é uma reflexão sobre a linguagem.

    Concordo que o modo como encaramos o problema do livre-arbítrio pode vir a depender de avanços na neurociência.

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  10. Aires,

    não duvido que a muito da filosofia atual está concentrada na reflexão sobre questões metafísicas. Mas você diz mais do que isso: você sustenta que a filosofia contemporânea foi capaz de reabilitar a metafísica. Isso quer dizer não apenas que nos interessamos por problemas metafísicos, mas que somos capazes de tratar *adequadamente* desses problemas.

    Da minha parte não me sinto convencido dessa reabilitação, mas gostaria de acompanhar argumentos a favor. Veja bem, minha questão é quanto a metodologia. Você aponta entre os problemas metafísicos que a filosofia atual reabilitou o problema da existência de Deus. Minha pergunta é, como somos capazes de tratar disso? Como driblamos as dificuldades impostas por Kant para o desenvolvimento dessa questão, por exemplo (se é que as consideramos importantes)?

    Cordialmente, Bruno.

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  11. Bruno, nada mais estou a dizer do que os filósofos voltaram a interessar-se e a discutir fortemente as questões metafísicas que, durante muito tempo, foram praticamente esquecidas. Só isso. Quanto à questão de saber se são ou não tratadas adequadamente, não sei o que isso significa. Quer dizer com isso que os filósofos não conseguem pôr-se de acordo sobre as respostas encontradas? Bom, se for isso que tem em mente, então tem de perguntar o mesmo sobre qualquer outro problema filosófico, seja matefísico, epistemológico, ético, etc.

    Ou então não consigo mesmo entender as suas dúvidas.

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  12. Devo ter sido levado a confusão pelo modo como desenvolveu tua postagem. Te referiu a Kant, e Kant tem uma preocupação com a possibilidade de se desenvolver mesmo que parcialmente a metafísica. Sua conclusão nesse quesito é negativa: não é possível desenvolver a metafísica. Não porque não podemos nos por de acordo sobre as respostas possíveis as questões metafísicas, mas porque, do ponto de vista teórico, não há respostas possíveis a essas questões. A mim pareceu que te referia a uma resposta positiva da filosofia contemporânea ao kantismo. Se não é isso, desculpe-me, engano meu.

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  13. A mim parece-me uma conversa pouco promissora, em 2011, pôr em causa a possibilidade da metafísica sem ter lido uma linha da metafísica contemporânea. E o mais irónico é que uma pequeníssima parte de algumas leituras informativas estão disponíveis na própria Crítica, nomeadamente artigos sobre a possibilidade da metafísica, que discutem e rejeitam a posição de Kant. De modo que isto me parece uma conversa de pessoas algo preguiçosas, que rejeitam estudar metafísica ao mesmo tempo que exigem a quem conhece a bibliografia que defenda a metafísica -- com que finalidade? Se essas pessoas tivessem realmente curiosidade intelectual pela metafísica, já teriam lido pelo menos alguma da metafísica contemporânea.

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  14. Belo texto Aires, parabéns.

    Aí vai uma especulação ousada: me parece que os espaços em que a metafísica encontra maior resistência são aqueles em que impera alguma forma de ceticismo ou de relativismo. Ceticismo e relativismo em excesso nunca resultam em coisa boa, assim, é um bom sinal que a metafísica esteja garantindo seu devido espaço.

    Não que também não possam ocorrer excessos metafísicos, mas não é este meu ponto. Meu ponto é apenas que esta reabilitação da metafísica sinaliza que as ideias razoáveis estão bem distribuídas, pelo menos no melhor da produção filosófica.

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  15. Obrigado, Gregory.
    A tua especulação não é descabida, não. O cepticismo e o relativismo são muitas vezes o resultado da 'epistemologização' (passe o termo) da metafísica.

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  16. A este propósito, os leitores poderão gostar de ler o artigo de E. J. Lowe (2008), "New Directions in Metaphysics and Ontology". Tem umas observações apropriadas ao típico "cepticismo" pós-kantiano acerca da metafísica - o qual na maioria das vezes não é genuíno cepticismo (que é uma vontade de por em causa para descobrir), mas apenas um modo de rejeitar questões que não se deseja tratar, por serem difíceis ou parecerem aborrecidas ("para que precisamos de uma definição de arte?" etc.), paralisando a discussão e a investigação.

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  17. CAros(as) amigos(as)
    Não pude ler todos os comentários, mas vejo com muita simpatia o texto de Aires de Almeida. Por que, após críticas à metafísica consideradas cabais como as de Kant e Wittgenstein, a metafísica teima em retornar? Falo disso no último capítulo do meu livro "A Mente Pós-Evolutiva" que saiu em 2010. Tentar acabar com a metafísica tornou-se uma tarefa que só se assemelha à de podar roseiras. Quanto mais se as poda, com mais vigor elas florescem em seguida.
    João Teixeira

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  18. O curioso é que ninguém "tenta" realmente acabar com a metafísica. Ou se limita a declarar que a metafísica "foi superada", signifique isso o que significar, ou ventila-se um "cepticismo" paralisante, estagnante mas que ao mesmo tempo, nada diz acerca de coisa alguma, e no qual temos tanta razão para crer como noutra coisa qualquer. E um dos sintomas mais inquietantes de que é assim mesmo foi apontado já: tipicamente, tais pessoas estão-se apenas nas tintas para os problemas filosóficos, não lêem duas linhas de qualquer discussão actual, mas têm a compulsão de mandar bocas gerais, que tresandam a erudição e a duvidosa inteligência.

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  19. A razão disso, caro João, é que não podemos evitar usar pressupostos metafísicos; tudo o que podemos (e é boa ideia fazer) é explicitá-los e analisá-los cuidadosamente.

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