31 de Maio de 2011

IV Encontro Nacional da UFOP

Estão abertas as inscrições para o IV Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP, que decorrerá em Outubro.

30 de Maio de 2011

A filosofia como um esporte sangrento

Neste texto Norman Swartz fala do problema que é a atitude agressiva que impera no mundo acadêmico da filosofia - tópico que também é discutido brevemente em "A filosofia não é "adversarial"" de Richard Creel. Nos congressos, aulas e pareceres de submissão criou-se o hábito de objetar como se o objetivo fosse destruir o interlocutor. Esse clima doentio de agressão não só cria um abismo entre a cooperação acadêmica que idealmente deveria caracterizar a filosofia como profissão e a realidade desagradável de competição bruta, como também afasta das discussões as pessoas que são mais sensíveis à hostilidade. Felizmente, a competição e o rigor acadêmico podem ter lugar de uma maneira civilizada, como atestam várias exceções.

22 de Maio de 2011

Pensar com os ouvidos

A linguagem que utilizamos quando comunicamos, exprimimos e discutimos ideias costuma ser um bom indicador do grau de desenvolvimento cultural e científico de uma comunidade. A falta de rigor e de precisão, as confusões conceptuais, a opacidade semântica, a terminologia vazia, pomposa e pseudo-científica são indícios claros de atrofiamento cultural, científico e académico. Infelizmente, no nosso país isso verifica-se mesmo onde não seria de esperar: nas escolas e universidades, na comunicação social, em documentos oficiais, etc. 

Vem isto a propósito de uma ficha de avaliação dos professores oriunda do ministério da educação e na qual se pede para avaliar «a planificação do processo de ensino-aprendizagem do professor». Eu bem sei que, a julgar pelo que ouço e vejo escrito quase todos os dias nas escolas, os professores não ensinam; antes participam num processo de ensino-aprendizagem. E, como é isso que se ouve dizer diariamente por pessoas com autoridade na matéria, acabamos quase todos por repetir o mesmo. 

Enfim, num lugar em que se espera que as pessoas pensem com a cabeça, uma boa parte acaba por pensar só com os ouvidos. E assim se repete o infeliz jargão pseudo-científico de que os professores preparam o seu processo de ensino-aprendizagem. 

Mas, se reflectirmos um pouco mais, verificamos que isso não faz qualquer sentido; facilmente percebemos que ao professor cabe ensinar, preparando bem o que e como ensina, ao passo que ao aluno cabe simplesmente aprender. Claro que há aqui uma relação entre quem ensina e quem aprende - e que um lado não existe sem o outro - mas o professor ocupa apenas um dos lados da relação enquanto o aluno ocupa o outro, pois nem a função do professor é aprender nem a do aluno é ensinar. Assim, o que compete ao professor é preparar bem o que ensina, de modo que seja eficaz no que faz. Dizer que o professor deve preparar o seu processo de ensino-aprendizagem faz tanto sentido como afirmar que um vendedor de automóveis deve preparar o seu processo de venda-compra. E cabe na cabeça de alguém dizer que, quando uma pessoa fala com outra, não está bem a falar mas antes num processo de fala-escuta?

Confundir o que é conceptualmente distinto só para dar um ar de falsa erudição é um triste sinal de que a encenação e a pose ocupam o lugar do pensamento. E insistir em tal jargão só porque é o que se costuma ouvir é o mesmo que pensar com os ouvidos.

21 de Maio de 2011

Timothy Williamson

A percepção não esgota o nosso contacto com a realidade; também podemos pensar. Não nos deram qualquer razão para aceitar o preconceito empirista de que o que não pode ser imaginado perceptivamente é por isso mesmo suspeito.

Filosofia para o ensino médio

Acabo de publicar aqui a recensão de Marcelo Fishborn do livro Filosofia para o Ensino Médio, de Maria Luiza Silveira Teles.

19 de Maio de 2011

Um clássico de metaética

A Linguagem da Moral, de Richard Hare, é um clássico contemporâneo do não-cognitivismo em metaética. A metaética é a sub-área da ética que investiga os fundamentos e a natureza da própria ética. Uma teoria não-cognitivista em metaética propõe que os juízos morais não são verdadeiros ou falsos e que um agente moral não expressa crenças cognitivas, mas apenas atitudes não-cognitivas como aprovação ou reprovação. Curiosamente, ao contrário do que o próprio Hare assume no prefácio, este livro não é uma introdução à ética em geral ou à metaética, mas sim uma introdução à sua posição não-cognitivista. Como foi influenciado pela filosofia da linguagem comum, Hare tem uma concepção do objeto de estudo da metaética bastante sui generis, entendido como a natureza e estrutura da linguagem moral. Sua tese: a linguagem moral é uma forma de linguagem prescritiva universalizável. Isso é um modo chique de dizer que qualquer pessoa que afirma que matar é errado em uma circunstância X está comprometido a aceitar que matar também é errado em uma circunstância Y que é similar a X. Deste modo, mesmo que os juízos morais sejam prescrições não-cognitivas, eles ainda estão sujeitos a restrições de consistência e racionalidade. É um livro claro, mas de leitura difícil. Certamente não é recomendável para quem foge de discussões mais técnicas de filosofia como o capeta foge da cruz.

18 de Maio de 2011

Porque a condicional material não está na família do mentiroso


A tese da equivalência afirma que as frases condicionais indicativas possuem as mesmas condições de verdade da condicional material. Em "A Liar Paradox of Material Implication" Tristan Haze objeta que se a tese da equivalência fosse verdadeira deveríamos admitir a existência de um paradoxo do mentiroso envolvendo uma condicional auto-referente, mas como essa condicional intuitivamente não envolve qualquer paradoxo, devemos abandonar a tese da equivalência. Irei argumentar que Haze não consegue estabelecer o que pretende, pois ignora um mecanismo importante da condicional material.


Um mentiroso e a condicional material

Tristan Haze parte da seguinte condicional auto-referente, que denominamos de (1):

(1) Se (1) é verdadeira, (1) é falsa.

Podemos denominar a antecedente de (1) 'A', e sua consequente 'C'. Haze defende em seguida que a seguinte frase é intuitivamente verdadeira e se baseia em um raciocínio intuitivamente não problemático:

(S) Sob a suposição de que (1) não é nem verdadeira nem falsa, A e C são falsas.

O raciocínio que é intuitivamente não problemático é o seguinte: vamos supor que (1) não é nem verdadeira nem falsa. Dada essa suposição, A é falsa, já que ela diz que (1) é verdadeira, e C é falsa, já que ela diz que (1) é falsa.

O problema agora é que se a tese da equivalência é correta, este raciocínio é improcedente. Se a tese da equivalência é correta e A e C são falsas, então (1) deve ser verdadeira. Mas se (1) é verdadeira, A deve ser verdadeira, pois ela diz que (1) é verdadeira, e C deve ser falsa, pois ela diz que (1) é falsa. Mas como estamos supondo que a tese da equivalência é correta, (1) deve ser falsa, pois ela possui uma antecedente verdadeira e uma consequente falsa. Mas se (1) é falsa, A deve ser falsa, pois que ela diz que (1) é verdadeira, mas nesse caso (1) terá uma antecedente falsa e uma consequente verdadeira e por isso deve ser verdadeira de acordo com a tese da equivalência. Mas se (1) é verdadeira...

O que ocorre é que se aceitarmos o raciocínio intuitivo a favor de (S) juntamente com a tese da equivalência, devemos concluir que (1) está na família do Mentiroso. Mas a suposição (S) e o raciocínio que a sustenta parecem obviamente corretos e não nos comprometem com o Mentiroso. Logo, devemos rejeitar a tese da equivalência.


Qual é o problema na demonstração de Haze

A condicional material é um operador verofuncional cujo valor de verdade é uma função dos valores de verdade de suas partes: se a antecedente é verdadeira e a consequente é falsa, a condicional é falsa, nos demais casos ela é verdadeira. Essas atribuições dadas na sua tabela de verdade implicam que quando a antecedente e a consequente possuem valores de verdade, a condicional terá valores de verdade. Essas atribuições não descartam que uma condicional material possa ser nem verdadeira nem falsa, mas não explicam como esse fenômeno seria possível. Supondo que ele seja possível, eu penso que a melhor explicação é a suposição de que tanto sua antecedente quanto sua consequente não possuem valores de verdade. Se a antecedente e a consequente possuíssem valores de verdade, a condicional teria valores de verdade. A condicional não tem valores de verdade. Logo a antecedente e a consequente não possuem valores de verdade.

Podemos demonstrar agora o problema do argumento de Haze. Sob a suposição de que a tese da equivalência é correta, (1) terá as mesmas condições de verdade de uma condicional material. Se também supomos que (1) não é nem verdadeira nem falsa, não podemos atribuir valores de verdade à A e C. Isto porque se (1) tem as mesmas condições de verdade de uma condicional material, seus valores de verdade serão determinados pelos valores de verdade de A e C, e se (1) não é nem verdadeira nem falsa, A e C também não serão nem verdadeiras nem falsas, e vice-versa. Mas nesse caso não podemos demonstrar que a condicional (1) juntamente com a tese da equivalência e a suposição (S) nos leva diretamente a um paradoxo do mentiroso, pois A e C não possuem valores de verdade. Logo o argumento de Haze não funciona.

Haze responde que a minha objeção apenas ignora o ponto do argumento: dada a suposição de que (1) não é verdadeira nem falsa, é plausível pensar que A e C são falsas. Mas isso é justamente o que não pode acontecer sob a suposição de que a tese da equivalência é correta, pois nesse caso A e C não são nem verdadeiras nem falsas. Logo, devemos descartar a tese da equivalência.

O problema dessa resposta é sua circularidade: ela pressupõe que é mais plausível pensar que a falsidade de A e C se segue da suposição S do que pensar que A e C não possuem valores de verdade e a tese da equivalência seja correta. O teórico da equivalência naturalmente irá objetar que não há nada de intuitivo em uma condicional auto-referente dessa natureza e que a verdade da própria suposição S depende da falsidade da tese da equivalência. Por isso o argumento seria inútil, na melhor das hipóteses, pois apenas funcionaria contra a tese da equivalência se esta é pressuposta como incorreta desde o início.

Haze acaba por aceitar que o seu argumento não funciona diante dessa objeção, mas pensa que seu argumento ainda funciona contra as defesas da tese da equivalência que pressupõem que as condicionais materiais sempre possuem valores de verdade. Me parece, contudo, que essa objeção tira pouco sangue da tese da equivalência, pois nenhum defensor da equivalência será tão ingênuo assim. Algum leitor discorda?

17 de Maio de 2011

O melhor de John Searle

Consciência e linguagem” é uma coletânea de artigos que resume a variada obra de John Searle. Os artigos foram todos previamente publicados nas duas últimas décadas, com exceção do último artigo sobre a solução cética de Kripke acerca do ceticismo do significado. Os primeiros cinco artigos abordam a questão de saber como situar a consciência e o fenômeno intencional em geral dentro da concepção científica de mundo: como podemos reconciliar a concepção de senso comum de nós mesmos como agentes conscientes, livres e racionais em um mundo feito apenas de partículas físicas em campos de força? O que é a intencionalidade, a consciência ou um ato de fala? Quais são os problemas do materialismo reducionista ou da Inteligência Artificial Forte? Searle fornece uma teoria unificadora que responde a essas e outras questões. Nos capítulos seguintes Searle explora as implicações da sua teoria para as ciências sociais, alguns desenvolvimentos da sua teoria dos atos de fala e críticas à tese da indeterminação da tradução de Quine e da solução cética de Kripke para o ceticismo do significado. Searle é claro e o livro é de um modo geral acessível para os não iniciados em filosofia, mas alguns capítulos trarão dificuldades para quem não estiver familiarizado com noções técnicas e alguns argumentos da filosofia da linguagem.

Mais ética e política

Está com dificuldades para encontrar uma introdução à ética ou à filosofia política que não te faça cair no sono? Leia “Filosofia – Moral e Política”, de Paul Smith. Acessível e rigoroso, o livro é dividido em doze capítulos que podem ser lidos de modo independente e abordam questões polêmicas, conceitos centrais e teorias influentes como liberação das drogas, teorias da punição, desobediência civil, ajuda aos pobres, liberdade, princípios limitadores da liberdade, direitos, igualdade e justiça social, relativismo moral, utilitarismo, a ética de Kant e a teoria da justiça de John Rawls. É um livro útil para filósofos, aspirantes a filósofos e qualquer pessoa que tenha interesse em saber o que ocorre na ética e na filosofia política. Fica um puxão de orelha na editora Madras pela ausência de revisão científica dessa edição brasileira e suas consequências: em algumas passagens simplesmente faltaram algumas palavras. Apesar disso, a edição brasileira vale a pena.

15 de Maio de 2011

Timothy Williamson

É claro que é objectável postular sem razão que há entidades de um certo tipo. Também é objectável postular sem razão que não há entidades de um certo tipo; é objectável postular seja o que for sem razão.

14 de Maio de 2011

A epistemologia e metafísica de Hume

Acabo de publicar aqui a resensão de Sérgio R. N. Miranda do livro Hume's Epistemology and Metaphysics, de Georges Dicker.

Quatro ortografias, ou duas apenas?

A nova ortografia levanta um problema curioso a publicações como a Crítica, cujo arquivo completo está permanentemente disponível: caso a nova ortografia não seja adoptada nesta publicação, permanecerão, como até aqui, as duas ortografias oficiais, de Portugal e do Brasil; caso a nova ortografia seja adoptada, ficaremos com quatro em vez de duas, pois na nova ortografia continua a haver muitas variações entre os dois países (como "econômico" e "económico", ou "aspecto" e "aspeto"). Ficaremos com quatro ortografias porque ficaremos com artigos escritos na nova ortografia portuguesa, e outros escritos na nova ortografia brasileira, que é diferente; e continuaremos com os artigos antigos escritos na velha ortografia portuguesa, e na velha brasileira. A conversão de todos os artigos para a nova ortografia seria uma tarefa inglória e desgastante. Gostaria de saber a opinião dos leitores sobre este caso: será uma boa ideia passarmos a ter quatro ortografias em vez de duas, na Crítica? Ou pensam que é provável que a nova moda ortográfica passe depressa, sobretudo em Portugal, como muitas pessoas pensam?

10 de Maio de 2011

Evocação de M. S. Lourenço

Realiza-se de 9 a 21 de Maio, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a exposição Os Livros de M. S.  Lourenço. No dia 17 de Maio, às 17:30, na sala 5.2 daquela instituição realiza-se uma evocação de M. S. Lourenço com a participação de Ana Maria Bénard da Costa, Elisabete de Sousa e João Dionísio.

7 de Maio de 2011

Música e filosofia

Acabo de publicar aqui o prefácio de Theodore Gracyk e Andrew Kania ao volume The Routledge Companion to Philosophy and Music, traduzido por Vítor Guerreiro.

1 de Maio de 2011

As Vantagens do Pessimismo

Este é o título do mais recente livro do filósofo britânico, Roger Scruton, acabado de traduzir para português pela editora Quetzal (por estranho que pareça, nem na página da editora se consegue saber quem traduziu o livro).

Neste livro, Scruton argumenta que os problemas por que estamos a passar actualmente na Europa são, em grande parte, o resultado do optimismo irresponsável que há muito nos comanda. Este optimismo é, na opinião de Scruton, irresponsável porque fecha acriticamente os olhos ao facto de os seres humanos não serem perfeitos. Assim, a única maneira de inverter o caminho para o desastre é substituir as utopias e idealismos, de direita e de esquerda, por um pessimismo responsável.

Scruton tem uma vasta obra filosófica, sobretudo nas áreas da estética e filosofia da arte, da filosofia política, da história da filosofia e da filosofia da cultura. Escreveu também romances e é compositor (é autor de duas óperas). É uma das vozes conservadoras mais destacadas na discussão pública inglesa. As suas posições filosóficas são claramente influenciadas por Kant.